Cap 5 - Jackpot
Chegando no andar de cima, ele deu de cara com um corredor extenso. A estética era quase a mesma, a diferença era que aqui não havia uma ou duas portas…
O corredor se estendia até onde seu olhar alcançava…
O teto era muito alto, chegava a quase 7 metros de altura.
Era como se não tivesse sido criado para meras pessoas andarem.
Miguel ficou momentaneamente assustado. Mesmo se esforçando para tentar contar as portas, ele só conseguiu chegar a um resultado…
Havia pelo menos 200 portas em cada parede, 200 na esquerda e 200 na direita.
A pior parte era que não havia só portas de tamanhos normais, algumas eram minúsculas e outras se estendiam até o teto.
“Maldito lunático, por que eu aceitei ir para a casa de um estranho?”
Ele não tinha muitas escolhas… Eu era isso ou ficar no hospital. Seus lábios se contraíram.
“Ele falou direita, não é?”
Com uma carranca em seu rosto, cruzou os dedos, torcendo para que o banheiro estivesse na primeira porta…
Nada o assustava mais do que a ideia de precisar abrir inúmeras portas por um simples banho… Ainda mais com o aviso de Antônio.
Abrindo a primeira porta enquanto soltava um suspiro em sincronia com o ranger da madeira, seus olhos brilharam.
Parecia que a sorte estava ao seu lado, ele encontrou o banheiro.
“Bendito seja.”
O banheiro não era nada especial. Na verdade, Miguel estava esperando pelo menos alguma coisa diferente, vindo de um lugar tão bizarro quanto aquele.
O banheiro era básico. Aqui suas paredes não eram de madeira, ao invés disso era tudo revestido com azulejos brancos, se tornando quase amarelados com a luz de uma lâmpada flutuante…
Havia um espelho, um vaso, o box e uma lixeira vazia.
“Por que tem uma lixeira vazia?”
Não era muito anormal as lixeiras ficarem vazias, porém Miguel não achava que Antônio era dos mais higiênicos.
Aproximando-se para averiguar, seus olhos se arregalaram. O que ele viu dentro da lixeira o fez estremecer.
Aquilo não estava descrito nem mesmo nos livros mais pagãos da Idade Média.
Não havia fundo.
Era infinito. Ao encarar o vazio por alguns segundos, a tontura repentina quase o fez tropeçar.
Havia coisas que simplesmente não foram feitas para a mente humana observar.
“Pelo menos o maldito é um lunático com muitos truques.”
Soltando um riso forçado, falhando em esconder sua surpresa, ele se olhou no espelho à sua frente.
Lá estava um jovem de pele clara.
Seu cabelo cor de ébano era liso, jogado levemente para a direita…
Fazia um pouco mais de uma semana que ele tinha cortado o cabelo, era um mid fade.
Seus olhos castanhos haviam sido herdados de seu pai.
A sobrancelha direita do jovem tinha algo que se assemelhava a uma cicatriz. Ele a tinha conseguido quando ainda era criança, no sítio da sua avó.
Enquanto corria com uma pipa olhando para trás, ele deu de cara com um arame farpado.
Na época, sua mãe tinha virado uma fera, mesmo que fosse só um cortezinho.
Com um nariz tão fino quanto seus traços, se alguém o visse de longe talvez até pudesse confundi-lo com uma garota.
Seus lábios eram grossos em contraste com o resto do rosto. Miguel não se achava o maior galã, porém já havia recebido uma declaração de uma garota na escola.
Mexendo no cabelo e soltando um suspiro exausto, ele se virou para o box.
“Será que era assim que o Gasparzinho se sentia quando ia tomar banho?”
Olhando para cima com uma expressão confusa…
“Será que ele tomava banho?”
O pensamento fez Miguel rir baixinho e então…
Tinha chegado o momento tão esperado, a hora da verdade.
O banho.
Abrindo o box, lançando um olhar surpreso para o teto, lá estava…
Um chuveiro, não um chuveiro comum no entanto. Não tinha nenhum encanamento ligado nele, nenhum fio.
E ele estava flutuando… Aquilo fez Miguel ter um pensamento.
Desde que ele havia chegado à casa-árvore, não tinha visto nenhum aparelho elétrico.
Franzindo a testa quando o pensamento surgiu.
“Será que não existe energia aqui?”
O pensamento logo se foi quando Miguel percebeu uma coisa, uma coisa muito importante.
“Não tem botão pra ligar, nem mesmo um registro.”
Uma carranca apareceu em seu rosto. Ele esperou tanto para, no final, não ter um botão de ligar.
Já estressado, perdeu a paciência. Estava cansado, afinal… ele só queria um banho.
Cerrando os dentes, ele gritou, dispersando todo o ódio acumulado — Maldito chuveiro mágico, ligue, praga.
Por incrível que pareça, aquilo não foi em vão.
Uma gota caiu, deslizando pelo rosto de Miguel, porém foi só uma gota.
Seus olhos se arregalaram.
“O-que?”
Lembrando do que Antônio tinha dito sobre ele precisar aprender sozinho, uma luz surgiu em sua mente.
Seus lábios se curvaram.
— Jackpot.
Fechando os olhos, imaginou o chuveiro funcionando. Imaginou a água dentro dele esquentando, imaginou gota por gota caindo.
Imaginou a sensação de um banho quente.
Estava tão concentrado que, por um momento, não pensava em nada além de imaginar.
“Funciona.”
“Funciona.”
Até que Miguel sentiu.
O chuveiro estava funcionando.
Enquanto abria os olhos, um sorriso apareceu em seu rosto. Quase gritou de alegria…
Porém se conteve, não era nenhum maluco afinal.
— Isso, eu consegui.
Pela primeira vez desde que acordou, a sensação de estar na estaca zero tinha desaparecido, nem que fosse por alguns segundos.
O banho não foi rápido. Ele demorou como se fosse o último de sua vida.
A água era quente e reconfortante.
Estava relaxado pela primeira vez ali.
Quando acabou o banho, saiu do chuveiro e se secou com uma toalha branca que estava ao lado.
A toalha estava quente.
Miguel não sabia explicar o porquê de ela estar quente.
Parecia magia.
Miguel vestiu as mesmas roupas, uma camisa de manga comprida preta.
A gola alta se realçava com seus cabelos negros…
Usando uma bermuda leve preta e um chinelo com o escudo do Corinthians, afinal Miguel era corintiano desde criança.
Seu pai não nasceu no Sul igual ao resto da família. Nascido na zona norte de São Paulo, ensinou Miguel a torcer junto com ele.
Ele tinha levado isso tão a sério que a primeira palavra que Miguel disse quando bebê não foi mamãe nem papai… Foi um ‘Vai Corinthians!’
Enquanto descia as escadas com a mão no corrimão esquisito da escada caracol, o aroma de comida recém-cozida no fogão atingiu suas narinas.
Miguel sorriu instintivamente e, quando chegou ao lado de Antônio, lançou-lhe uma pergunta com entusiasmo.
— O que você preparou aí?
Antônio não respondeu. No entanto, encarou-o com curiosidade e então perguntou com um tom de ironia.
— Vejo que conseguiu ligar o chuveiro, garoto — um sorriso torto apareceu em seus lábios — Esqueci de te ensinar como ligar, que bom que aprendeu.
Apontando para as panelas no fogão, disse com empolgação.
— Se sirva, Não é todo dia que você vai comer uma comida dessa qualidade.
Nem foi preciso falar duas vezes, ele estava faminto. Seus olhos brilhavam enquanto pegava um prato e uma colher que Antônio havia lhe oferecido.
Miguel fez seu prato.
No fogão tinha uma panela de arroz, uma de frango, uma de mandioca, uma de macarrão e uma feijoada requentada.
Para Miguel, aquilo era um banquete. Ele pegou um pouco de cada coisa e foi para a mesa.
“Espera, de onde essa mesa veio?”
Franzindo a testa, Miguel sentou-se.
Era certeza que aquela mesa não estava ali quando foi para o banho. Como era possível ela ter aparecido ali do nada?
Era engraçado até, a mesa aparecer ali foi a coisa mais normal até agora.
Rindo baixinho, levantando seu olhar.
No momento seguinte ele ficou cara a cara com Antônio. Sentindo calafrios, desviou o olhar novamente.
“Esse lunático não tira os óculos nem para comer.”
Não se importando com o velho de óculos, ele devorou a comida.
Antônio o encarava com um sorriso enigmático. Largando a colher, disse com desânimo — Eu estive pensando… Há coisas que preciso te explicar.
Miguel o encarou enquanto mastigava um pedaço de frango. Engolindo seco, perguntou.
— O que foi?
Antônio olhou para o lado com um olhar distante, como se pudesse ver através das paredes.
Nesse momento, Miguel não duvidava de mais nada.
Soltando um suspiro cansado, ele disse.
— O que você fez para ligar o chuveiro lá em cima foi usar sua vontade.
Miguel o encarou sem entender.
Sem se importar com o olhar de Miguel, ele continuou.
— A vontade move tudo aqui. Por exemplo, se alguém tiver uma vontade muito grande por um sorvete, pode materializar um — um suspiro pesado saiu de seus lábios.
— Bem, é isso. Se você tinha alguma dúvida de como os espíritos comem, vestem, lutam… É assim.
Então, antes que Miguel pudesse responder…
Antônio esticou sua mão na direção dele e, abrindo-a, uma rosa branca nasceu bem no meio da palma…
E como se fosse um ciclo completo…
Ela nasceu.
Floresceu.
E então…
Murchou.
Secou.
E morreu.
Encarando aquilo, Miguel ficou perplexo, curioso e assustado ao mesmo tempo.
“Tá, isso foi do caralho.”
Sentindo um nó na garganta, não pôde evitar gritar em excitação.
— O que foi isso, velho? Caralho, que foda! — disse enquanto ria com um sentimento de nervosismo e curiosidade
Sorrindo forçadamente, Antônio disse como se fosse apenas outra segunda-feira.
— Ah, a segunda coisinha é que…
Enquanto terminava a frase, seu olhar mergulhou em escuridão e o clima da casa gelou.
Não que Miguel conseguisse ver através dos óculos, é claro.
— Você não deve sair à noite.

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