No horizonte, o Sol se erguia majestosamente, expurgando a escuridão que encobria o mundo. Seus raios de luz transpassam pelas folhas das árvores, umedecidas pela chuva de outrora, as gotas d’água caíam vagarosamente pelo orvalho.

    Não muito longe das pradarias encharcadas, um pequeno vilarejo se estendia ao longo do curso de um pequeno rio, nesse vilarejo, uma imponente catedral de pedra ficava logo ao lado do poço local, a catedral soltava uma fina coluna de água vaporizada devido ao calor do sol.

    Em um cubículo escuro no segundo andar dessa catedral, uma figura se remexia de um lado para o outro em sua cama, roncando feito um animal, seus grandes cabelos negros estavam emaranhados e entrelaçados uns nos outros, como um emaranhado de serpentes. A cama era feita de palha, revestida por um cobertor branco tão fino quanto uma agulha.

    A luz do sol passou por uma fresta na janela de madeira e penetrou no quarto escuro, iluminando o olho esquerdo do garoto, que grunhiu levemente e parecia estar ganhando aos poucos seus sentidos que foram retirados pelo sono.

    — Nhum~… — gemeu baixinho e se sentou na cama com as pernas cruzadas

    O garoto piscava seus olhos brilhantes vermelhos vagarosamente, parecendo até mesmo um lagarto. De repente ele teve um espasmo, arregalou os olhos e realizou algo em sua cabeça.

    — É hoje! 

    Ele se levantou e correu animadamente até um pequeno guarda-roupas e abriu suas portas, nele, era possível distinguir pouca variedade de tecidos, o garoto rapidamente pegou uma camisa branca de manga longa tão fina que aparentava ser semi-transparente com dois botões em sua gola, consideravelmente maior que ele, e uma calça preta de um material que se assemelhava a couro negro.

    Sem pensar muito ele as vestiu, colocando uma parte da camisa dentro da calça para esconder seu real tamanho, porém, devido a sua pressa, a parte direita da camisa ficou para fora, o garoto bufou, mas ele não tinha tempo, então deixou daquele jeito mesmo. Logo em seguida, ele correu em direção à porta.

    — É hoje, é hoje, é hoje.

    Ao girar a maçaneta, a humilde estrutura interna da catedral se mostrou diante a ele. O andar em que estava era um grande corredor em formato de U que se estendia ao longo do contorno de toda a catedral, com diversas portas ao longo de toda a sua extensão, ali, era onde permaneciam os dormitórios

    A direita do garoto havia uma grande escada que seguia até o andar de baixo, sem pensar duas vezes, ele começou a descer os degraus rapidamente, dando pequenos pulinhos de um para outro.

    — Irmã Dália! É hoje não é?! — Disse ele ao finalmente chegar no sopé da escada.

    Em sua visão, o humilde salão principal da catedral se mostrou diante a ele, com diversos bancos de madeira posicionados um ao lado do outro com um caminho levemente estreito entre eles.

    Sentada em um desses bancos estava uma mulher de cabelos loiros, suas mãos estavam juntas em formato de prece. Morpheus hesitou quando a viu, ele sabia que o momento de reza era imperturbável para Dália.

    Ele olhou para as portas da catedral, fechadas como sempre, mas não por muito tempo, logo ele finalmente veria o mundo fora daquela prisão de pedra, e isso o animava mais do que todas as tortas de morango que Dália fazia para ele.

    Não demorou muito para que Dália mudasse de postura e se levantasse, virando-se na direção de Morpheus.

    — Fico feliz que tenha esperado meu pequeno, você está aprendendo boas maneiras — Dália andou levemente na direção de Morpheus e o pegou no colo — sei que está ansioso para sairmos, porém, antes disso temos que cuidar de toda essa cabeleira — Ela riu levemente se sentando em um banco e retirando um pequeno pente de um de seus bolsos. Ela já esperava que ele acordasse com os cabelos embaraçados.

    Calmamente, ela começou a pentear os cabelos de Morpheus enquanto cantava, sua voz era melódica e suave.

    — Quando os deuses desceram do céu, trouxeram com eles a vida bela, não mais terror, não mais sofrimento, apenas beleza e bondade.

    Morpheus balançava seus pés no ritmo da música, esse era o momento favorito dele em todos esses seis anos que estava sob os cuidados de Dália, nem ele mesmo sabia explicar, porém, sentia uma paz interna indescritível quando ela começava a cantarolar versos do livro sagrado.

    Seis anos… Nesses seis anos ele havia aprendido tantas coisas, dentre elas a mais importante era que Cinquedea podia ser linda e maravilhosa, entretanto, escondia perigos incompreensíveis para a mente humana.

    Aquilo assustava ele, Morpheus tinha medo de um dia perder Dália, de um dia ter que se virar sozinho, afinal, o que seria do filho sem a mãe?

    Dália percebeu que Morpheus estava tremendo e colocou sua mão direita no ombro do garoto.

    — Do que você tem medo minha criança?

    — Eu não tenho medo de nada, hum! — ele deu de ombros.

    Dália riu levemente com a afirmação de Morpheus, ela sabia que ele não iria contar seus motivos, ainda assim, ela escondia uma preocupação em sua mente, essa seria a primeira vez que Morpheus sairia da catedral e veria o mundo lá fora, Trevor havia esclarecido que aquela época do ano era segura na capital por conta que o festival estava se aproximando, porém, aquele pressentimento ruim não saía de sua cabeça.

    Ela afastou rapidamente esses pensamentos e acariciou as bochechas de Morpheus.

    — Logo logo Trevor chegará para nos buscar, está animado para conhecer a capital? — Dália disse e logo em seguida voltou a pentear os cabelos do garoto.

    Morpheus não demonstrou, porém ele estava mais animado do que nunca, sem que percebesse, um leve sorriso zombeteiro escapou em seus lábios.

    Dália continuou a cantarolar por um tempo, até que de repente, a porta dupla da catedral se abriu, e dela uma silhueta de uma grande armadura podia ser observada. Ela reluzia uma luz prateada conforme a luz do sol batia em suas costas, aparentava ser feita de aço.

    A silhueta levou suas mãos até seu capacete e o retirou, revelando suas feições. Era um homem de aparentemente 32 anos, suas olheiras revelavam incontáveis noites mal dormidas, seu cabelo era ruivo e curto, com alguns fios brancos aqui e ali, seus olhos, duas orbes verdes como esmeraldas brilhantes. Por algum motivo, mesmo com o evidente cansaço que seu rosto emanava, seus olhos possuíam um brilho reluzente que aquecia o coração de Morpheus.

    Mesmo assim, o que mais chamava a atenção de quem quer que olhasse para ele, era a grande cicatriz de corte que começava na ponta esquerda de seu lábio e seguia até a base de sua orelha.

    Ao notar o homem, Morpheus conteve sua vontade de correr e abraçar ele para fazer incontáveis perguntas sobre suas caçadas.

    — Trevor, você chegou antes do esperado. — Dália disse, um pouco surpresa pela chegada adiantada de Trevor.

    — Eu sei, eu sei. Tive que me adiantar devido a uma tarefa que apareceu de repente, não é nada demais, porém nossa ida à capital deverá ser um pouco mais cedo. — O homem se recostou na parede, sua voz soava tranquila e despreocupada.

    Morpheus o encarava com veemência, Trevor olhou para ele de volta, notando a característica mais marcante dele, os olhos vermelhos e a pupila elíptica. Aqueles olhos deixavam Trevor tenso, mesmo na primeira vez que viu Morpheus, ele segurou muito sua vontade de sacar a espada e acabar com aquela ameaça ali mesmo.

    Olhos vermelhos são sinal de mau presságio, sempre foram, porque com aquela criança seria diferente? Mas Dália protege a vida dela com tanto afinco, Trevor não poderia simplesmente matá-la, não, sua promessa à aquela mulher exigia total confiança em suas decisões.

    Afastando esses pensamentos, o homem respirou fundo e esperou Dália terminar de ajeitar o cabelo de Morpheus.

    Não muito tempo depois, ela soltou o garoto, que, no mesmo instante, correu até Trevor.

    — Trevor! — Morpheus deu um salto em sua direção e o abraçou, o aço da armadura estava gélido, porém, ele não se importou com isso.

    Trevor levantou o garoto e o colocou em frente ao seu rosto e notou o jeito como suas roupas estavam colocadas de mal jeito.

    — Você não aprende mesmo, não é? — Ele disse enquanto descia Morpheus de volta ao solo e ajeitou a bainha de sua camisa.

    — Eu aprendo sim tá?… — O garoto bufou e cruzou os braços em um gesto de indignação.

    Trevor deu um leve sorriso e logo em seguida bagunçou o cabelo do menino em sua frente.

    — Ei! Eu demorei para arrumar o cabelo dele e você faz isso? — Dália disse enquanto caminhava em direção à eles.

    — Desculpe Milady, quer dizer, irmã

    — Hum… Homens… — Ela passou por eles e se aproximou da porta — Vejo que a carruagem já está ali, tudo pronto Orpheu?

    — Sim! — Morpheus começou a correr em direção à porta.

    Dália o segurou pela gola de sua camisa.

    — Não está esquecendo de nada jovenzinho?

    No mesmo instante, Morpheus se lembrou do que Dália havia lhe explicado, o fato de que seus olhos poderiam ser estranhos para as outras pessoas.

    — Você irá comigo nesta ida à capital, porém, teremos de ter certeza de uma coisa antes — Ela se agachou para ficar na altura dele e colocou ambas as mãos em seu rosto se concentrando no ponto entre os olhos dele, em um instante, os olhos que antes eram vermelhos e elípticos, se tornaram azuis e com as pupilas redondas — Lembre-se, eu só consigo sustentar essa magia por duzentos metros, então não vá muito longe, e evite áreas muito escuras.

    Trevor olhou para aquela demonstração, um pouco surpreso, e pensou: “Então era isso que ela andou praticando nesses últimos seis anos, lux ein.” Ele se lembrou das vezes em que vinha até a catedral e encontrava Dália com olheiras tão notórias quanto as dele, ela realmente se importava com aquela criança.

    — Eu prometo que não sairei de perto da irmã Dália.

    — Jura? De dedinho? — Dália estendeu seu dedo mindinho até ele

    Morpheus sorriu e imitou o gesto dela.

    — De dedinho.

    Dália abraçou ele, “tomara que tudo dê certo, oh deuses, protejam-me e a essa criança”

    Trevor se aproximou e colocou a mão no ombro de ambos.

    — Vamos lá? — Ele começou a andar até a carruagem, não antes de dar um último tapinha nas costas de Morpheus.

    Morpheus e Dália seguiram seus passos e, logo em seguida, os três partiram em direção à capital.

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