Capítulo 8 - Contraste
Trevor abriu os olhos.
Ergueu seu corpo, a luz da manhã vinda da janela iluminou seu torso nu.
Ele sentia suas costas queimando, como se alguém o observasse intensamente, com fúria.
Ao olhar para trás, ninguém estava lá, apenas a cabeceira de sua cama.
“Sentindo fantasmas de novo…” ele pensou.
A memória do rosto desesperado de Morpheus o atingiu como uma avalanche, seus gritos, os cidadãos o chutando. Todas aquelas memórias eram como pregos selando seu caixão.
De repente, ele sentiu um suave toque em seu braço, quebrando as suas recordações e seus pensamentos mórbidos.
— Já acordou? — Uma voz feminina veio debaixo dos lençóis.
Trevor voltou seu olhar para a mulher. Cabelos cacheados ruivos, franzina, pele levemente bronzeada, seus olhos brancos o observaram com intensidade.
— Você está tenso, posso sentir isso. — A mulher disse enquanto massageava levemente seu braço. — O que foi querido?
O toque dela era como um abrigo em meio a uma tempestade, ele sobrepôs sua mão na mão dela, entrelaçando seus dedos.
— Selena… — Trevor levou a mão da mulher até seus lábios, pressionando nas costas de sua mão, um leve beijo.
— Você está mais carente que o normal… diga-me, o que te aflige tanto?
Por um instante, o semblante distante de Trevor fraquejou, a verdade é que ele estava exausto, seus ombros estavam pesados, suas pálpebras mal conseguiam se sustentar sozinhas.
Culpa.
Isso o consumia por dentro.
Ele abriu a boca, iria dizer algo, porém, não conseguia, as palavras morriam em sua garganta.
Selena sentiu os músculos de Trevor se tensionarem, sabia que ele carregava uma dor profunda. Ainda assim, sentia que ele não conseguia colocá-la em palavras.
Na verdade, Selena sabia muito bem como era esse sentimento.
Ela apenas permaneceu ali, como uma âncora para ele.
Quando a respiração de Trevor finalmente se acalmou um pouco, o mesmo se levantou da cama.
— Preciso ir… os novatos não se treinam sozinhos.
Ele vestiu seu traje de comandante, não era nenhuma roupa extravagante, era simples, porém elegante, pronta para o uso matinal, mas suficientemente preparada para qualquer emergência.
— Precisa de ajuda para se vestir? — Trevor disse e logo em seguida virou o rosto para Selena.
— Querido… posso ser cega mas sei me virar, não precisa se preocupar comigo.
— Se você diz…
Ele deu um último beijo na testa de Selena antes de sair.
Ao andar pelas ruas movimentadas da capital, Trevor constantemente recebia acenos e sinais de respeito dos habitantes, ele retribuía todos, é claro. Entretanto, a cada aceno, a cada sorriso voltado para ele, uma dor no peito inexplicável o atingia.
Depois de alguns bons minutos andando, ele finalmente chegou no castelo. Olhando para ele, Trevor não conseguiu deixar de pensar em Morpheus, “Será que ele está bem?” “Será que ele está se alimentando direito?”
Todas essas perguntas eram inúteis, já que ele nunca saberia da resposta delas.
Ele andou por mais um tempo, até chegar no campo de treinamento real. Uma vasta área planificada com inúmeros equipamentos diversos espalhados em pontos específicos.
Um grande número de pessoas se encontravam presentes no local, todas enfileiradas perto da entrada.
Quando Trevor parou diante dos portões, todas aquelas pessoas se prostraram e gritaram em uníssono.
— Honramos o senhor comandante! Esperamos ter um dia produtivo diante do senhor! Que a graça de Pantaleon nos guie!
Trevor respirou fundo, ele já tinha presenciado aquilo incontáveis vezes, mas hoje, aquelas palavras pareciam ter um peso diferente.
— Que a graça vos guie!
Após essas palavras, as pessoas começaram a se dispersar pelo campo de treinamento.
Trevor começou a andar pelo local, observando principalmente os novatos, embora estivesse exausto, ainda encontrava forças para oferecer dicas e corrigir os erros deles.
Ele se lembrou de quando havia ensinado Morpheus a pegar em uma espada pela primeira vez, o rosto preocupado de Dália, os olhos brilhantes do garoto. Um sorriso breve brotou em seus lábios.
“Morpheus… espero que o que eu tenha te ensinado sirva de alguma coisa…” ele olhou em direção ao céu limpo da manhã, deixando a brisa suave levar um pouco do peso em seus ombros. Ao menos por enquanto.
Não muito longe dali, onde a luz do Sol não conseguia chegar, duas pessoas estavam conversando.
— Se lembre Morpheus, o principal fundamento em uma batalha não é quem balança mais sua arma, mas sim, o posicionamento, saber aproveitar o terreno é um dos principais fatores que separa um aprendiz de um mestre.
Morpheus estava sentado com as mãos nas grades, escutando atentamente Lucius, até que um ronco ecoou pelas paredes, era o estômago do garoto.
— Ei, Lucius, quando a comida chega?
— Comida? — Ele riu levemente — Você vai ter sorte se não morrer por inanição.
Morpheus engoliu seco.
— Na realidade, eles nos oferecem uma refeição por dia, mas… como você estava desacordado, eu comi a sua — Um sorriso zombeteiro escapou de seus lábios.
— Seu… — O garoto disse, completamente incrédulo — Como você pode ser tão sem coração? E como diabos você conseguiu alcançar essa cela?
— Sem coração não, apenas… estava com fome. Sobre sua segunda pergunta, bem… eu tenho meus métodos.
— Tch! — Ele fez biquinho e virou o rosto.
— Ainda não terminei de falar Morpheus.
— Não quero mais ouvir ensinamentos de alguém que rouba comida de crianças indefesas.
— Tá bom, tá bom, amanhã eu te dou a minha que tal?
Morpheus ponderou se deveria ou não aceitar a proposta de Lucius. A ideia de ter duas comidas no entanto era encantadora.
— Tudo bem, eu te perdoo… mas só dessa vez.
O garoto deitou no chão, a pedra fria já não era tão desconfortável.
Ele imaginou o que Trevor poderia estar fazendo. Por mais que, quando ele pensava nele, um ódio absoluto surgisse, Morpheus ainda carregava um afeto amargo pelo mesmo, afinal, sem ele, ele provavelmente seria só uma criança frágil agora.
Trevor, por outro lado, estava sentado em um banco de madeira no campo de treinamento.
Ele estava completamente exausto, mas sua postura continuava impecável.
“Ajudar esses novatos é tão complicado… bom, pelo menos acab-” seus pensamentos foram subitamente cortados por passos em sua direção.
Ele ergueu seu olhar na direção deles.
Era Diomedes.
— Dia puxado, ein Trevor? — Sentou-se ao lado de Trevor e deu leves tapinhas nas costas dele.
Trevor permaneceu em silêncio, seus sentimentos perante aquele homem eram complicados. Por um lado, ele nunca conseguirá perdoá-lo pelo que aconteceu com Dália, por outro, ele sabia que Diomedes estava apenas obedecendo ordens, e que, se estivesse no lugar dele, também não teria escolha.
— Porquê cê tá com essa cara de morto, cara? Os novatos te sugaram tanto assim? — Diomedes deu uma risada enquanto colocou a mão em suas costas, prestes a puxar alguma coisa — Já sei o que pode te animar.
Ao erguer sua mão, Trevor avistou algo que ele reconhecia muito bem, era o seu violão.
Diomedes o entregou nas mãos dele.
— Vamos lá, não se faça de difícil, só uma musiquinha, que tal? — Ele disse, tentando encorajar seu amigo.
As pessoas que estavam próximas logo começaram a se aproximar.
— Sir Trevor vai tocar? Eu sempre quis ver isso de perto! — Um novato comentou.
Respirando fundo, Trevor pegou seu violão e o posicionou sobre suas pernas.
“Que tipo de música eu deveria tocar?”
Por mais que ele pensasse minuciosamente no que ele deveria cantar para aquelas pessoas, seus dedos inconscientemente começaram a se mover pelas cordas.
Uma melodia suave e melancólica.
Ele não cantou, apenas continuou a deslizar seus dedos com maestria.
Conforme tocava, o ritmo aumentava, como se a melodia começasse baixa e impotente, mas de acordo com o prosseguimento, se tornasse uma súplica desesperada.
O coração de Trevor batia forte contra o peito, ele nunca havia tocado com sua emoção mais pura antes, ao menos, não na frente de tantas pessoas.
De repente, uma mão parou o movimento de seu braço.
— Ei… cara, cê tá suando — Diomedes o encarava preocupadamente.
A respiração de Trevor estava pesada. Ele olhou para os seus dedos, estavam brancos e doloridos.
— Não se preocupe comigo, eu estou bem — Trevor disse, pegando seu violão e levantando-se.
Começou a caminhar pela multidão, ignorando os sussurros e algumas tentativas de pará-lo.
Ele só conseguia pensar em uma coisa “inútil, inútil, inútil!”
Ele correu em direção a um canto onde não houvesse pessoas, o nojo de si mesmo era insuportável.
Sentiu algo subir pelo seu estômago, quando percebeu, havia expelido o que havia comido ali mesmo.
Diomedes que havia o seguido, observou aquela visão deplorável do homem que ele mais respeitava dentre os cavaleiros reais.
— Trevor! — Ele correu na direção dele.
— Não me toque! Só… me deixe um pouco sozinho. Por favor, eu imploro.
— Mas voc-
— Eu já disse para me deixar em paz!
Diomedes respirou fundo.
— Tudo bem… vou respeitar sua decisão, mas se precisar de alguma coisa pode contar comigo.
Trevor não respondeu, nem se deu ao trabalho de olhar na direção dele, voltou a andar, sem olhar para trás.

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