Em uma noite como qualquer outra, em uma pacata vila no reino de Anor, um nevoeiro cobria a visão dos camponeses que olhavam pela janela de suas casas, e os corajosos que ousavam sair de seu conforto e desafiar a noite impiedosa, não conseguiam sequer enxergar um único palmo à sua frente. 

    E no meio dessa névoa densa e quase palpável, uma figura corpulenta encapuzada caminhava sobre as ruas lamacentas. A figura segurava algo em suas mãos, porém, para todos os olhares curiosos, era impossível distinguir o que era. Ela parecia perambular sem rumo ou objetivo, apenas segurando aquele objeto e murmurando palavras incompreensíveis, até que, parecendo um instinto, virou-se bruscamente para a sua esquerda. A princípio, nada poderia ser visto no meio da névoa que encobria completamente sua visão.

    Conforme a figura andava em direção ao completo desconhecido, uma estrutura se emoldurava em sua visão, pequenas partes poderiam ser vistas a cada passo que era dado. O ambiente, completamente silencioso, era indubitavelmente preenchido pelos passos lamacentos e cada vez mais pesados, era notório que caminhava com dificuldade.

    Até que a estrutura que estava sendo formada se completou em sua visão, se assemelhava a uma igreja feita de pedra, imponente por conta da névoa que impossibilitava a contemplação de toda a sua arquitetura.

    A figura bateu três vezes na porta.

    O silêncio perdurou pelo local, a figura parecia tremer e bater repetidamente um de seus pés no chão, como se estivesse ansiosa, querendo acabar com o quer que seja que ela estava prestes a fazer de maneira rápida.

    Conforme sua ansiedade aumentava o ambiente ficava cada vez mais silencioso, até que finalmente, passos podiam ser escutados dentro do local, eles estavam se aproximando da porta, a figura parecia se acalmar e apenas aguardava o momento em que a porta fosse aberta.

    Os mecanismos da maçaneta giraram e uma voz suave e melódica ecoou juntamente com o ranger da porta à medida que era aberta.

    — Com licença, no que eu posso ajudar? — Uma mulher jovem, com cabelos loiros e olhos da cor do céu, abriu a porta, a iluminação calorosa que vinha de dentro da igreja dava realce para a silhueta da senhorita, usava uma roupa de um freira, porém com vestes completamente brancas, e não estava utilizando sua corneta. Seus cabelos loiros ondulados voaram levemente com o vento gélido da noite, dançando como as ondas do oceano, seu brilho trazia um contraste com o ambiente completamente escuro fora da Igreja.

    — Você… Qual o nome você?— A figura encapuzada mostrava dificuldade na fala, mal conseguia se expressar corretamente, porém não foi isso que a mulher notou primeiro, a voz dela era estranhamente anormal, não parecia com a de um homem nem de uma mulher, pra falar a verdade era como se essa figura nem soubesse a fala humana direito, analfabetos eram comuns nessa época e nesta região, só que… A mulher sentia um desconforto, que nem mesmo ela conseguia explicar.

    — Você quer saber o meu nome? — Perguntou enquanto manteve-se a uma certa distância.

    A figura assentiu com a cabeça.

    — Pode me chamar de irmã Dália. 

    — Irmã… Dália? Nome estranho — A figura dava uma leve risada — Bem… Irmã Dália, achas que tu tens a vontade para aceitares um pedido meu? — A linguagem que antes parecia estar sendo proferida por um analfabeto qualquer, de repente, se tornou uma linguagem rebuscada do alfabeto tradicional, isso traz ainda mais incertezas na cabeça da garota.

    — Bem, dependendo de qual pedido for eu posso ver se consigo ajudar. — A jovem aspirante a freira respondeu cautelosamente, as incertezas em sua cabeça logo se tornaram desconfiança por parte dela.

    — Ó minha criança, não precisas se assustar com a minha presença, só preciso que respondas com sim ou não, eu já andei por todo este continente buscando alguém que pudesse realizar o pedido deste pobre senhor, vou perguntar novamente para ti, achas que tens a vontade para realizá-lo ou não? — O senhor explicou para Dália.

    Dália recuou um pouco seu olhar, a desconfiança era inegável por sua parte, porém, ela sabia de seus deveres como aprendiz, não poderia simplesmente abandonar o senhor na porta sem uma resposta apropriada.

    — Como um membro do Clero e vendo a situação que o senhor se encontra, seria um pecado da minha parte recusar o seu pedido. — Dália disse, as incertezas eram visíveis na sua fala e feições, mas ainda assim, ela pensava que não faria mal algum ajudar quem precisa.

    — Que boa vontade vinda de você, eu serei eternamente grato, mesmo na minha lápide não teria expressado toda a minha gratidão por você, tu eres abençoada pelos céus. Eu peço encarecidamente que tu, irmã, cuide de minha criança, — O senhor pegou o objeto que havia deixado de lado antes, agora, era possível discernir um cesto, ele o erguia lentamente — Eu não tenho mais tanto tempo nesse mundo… Por favor, faça isso por este pobre senhor.

    Dália se surpreendeu com a visão quando olhou em direção ao cesto, uma criança, não aparentava ser um bebê, pela sua experiência em seu antigo trabalho com crianças, a garota concluiu que aquela parecia estar entre a faixa de 2 a 3 anos de idade, seus cabelos eram escuros como a noite. Dália olhava fixamente para a criança, que lentamente abria os olhos.

    — Este pobrezinho não tem nome ou coisa parecida, se quiser dar um para ele fique à vontade.

    — Claro que posso cuidar dele, porém, posso te perguntar uma coisa? — Sem nem dar tempo do senhor dizer sim ou não ela continuava — O que é o senhor?

    O senhor dava uma leve risada

    — Só o tempo dirá minha cara… Só o tempo…

    Dália pegou o cesto em suas mãos, mas mesmo assim a nuvem da dúvida ainda pairava sobre sua cabeça, ela pensava “Será que estou fazendo a escolha certa?”, porém, os seus arrependimentos não importam agora, ela fez a sua escolha, e as engrenagens do destino já entraram em movimento. 

    A figura se virou para sair, até que de repente, um forte vento atingiu o senhor, o mesmo se manteve imóvel, porém, seu capuz não teve a mesma sorte, Dália teve um vislumbre de seu rosto, ou melhor, a falta dele, era como se a névoa se comportasse para esconder sua cabeça, um calafrio percorreu a espinha de Dália, porém, antes que pudesse reagir, pequenas ondulações ocorreram na névoa no rosto do senhor e ele voltou a falar.

    —  Que azar para mim. Bom… Adeus Dália, que Deus esteja convosco — Ele deu uma última risada enquanto tornava a andar de volta para o caminho de onde veio, Dália o seguia com o olhar até que ele se tornou um com a névoa e desapareceu no meio da noite.

    Ela coçou a cabeça em confusão e temor, “porque aquele homem falava de um jeito tão estranho?” “Por que ele me pediu pra ficar com essa criança?”, porém, não adiantaria ficar se remoendo em pensamentos agora.

    — Somos só nós dois agora… — Ela olhou na direção do cesto e se espantou repentinamente — Olhos… Vermelhos? No que eu fui me meter? Se a Irmã Leonice descobrir eu posso até mesmo ser expulsa do convento, mas bem, não é culpa sua criança.

    Dália adentrou na Igreja e se aproximou lentamente da lareira que estava apagada, ela colocou a criança em uma das poltronas e acendeu a lareira com pequenos troncos de lenha que estavam ao lado..

    — Você deve estar com frio, quem não estaria? Eu não acredito que aquele senhor te levou pelo continente inteiro só pra achar alguém que cuidasse de você, hum… O que importa é que você está aqui agora.

    Ela retirou o cesto da poltrona, sentando-se nela e logo em seguida colocou o cesto em seu colo, a poltrona estava um pouco longe da lareira, Dália respirou fundo preguiçosamente, ao invés de se levantar, ela colocou suas mãos nos braços da poltrona e se impulsionou com os pés, dando vários pulinhos para se aproximar da lareira, repetiu esse processo algumas vezes, com veemência de que era melhor do que se levantar.

    — Eu tô com muito sono, você não tá também criança? — Ela olhava na direção do menino — Suspiro Isso não vai funcionar, criança não é um nome adequado, hum… Cabelos escuros como a noite… Noite… Morpheus… Como os Obrerons dos antigos contos, eu gosto desse, o que você acha? — O silêncio tomou conta da sala — … Eu deveria esperar essa reação… E tem os olhos também, olhos vermelhos, como o pôr do sol dos desertos de Kalamar, ou as escamas de um dragão de fogo, Salamandra? Não, Quase lá… Salazar… Eu gostei desse, Morpheus Salazar… O que acha? — Ela já esperava que não teria uma resposta já que a criança em seu colo possuía apenas 2 anos, normalmente, crianças camponesas só aprendem a falar com 4 anos — Eu não sei o porque eu tô perguntando, você não fala aind-

    — Mopheu Sala… Morrrpheu Salazaaa… Morpheus Salazar… Morpheus Salazar!!! — Conforme a criança falava, ela cada vez mais puxava as palavras, tentando fazer o som de “r” com a língua mas falhando miseravelmente, até que finalmente, ele conseguiu acertar — Daía… Dlía… D á l i a… Dália!!! — Ele tentava pronunciar o nome de Dália enquanto apontava para a mesma e dava risadas animadas.

    — Haha… Hahaha — Ela deu risadas vazias e, ao mesmo tempo, estava surpresa — No que eu me meti…

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