Capítulo 5 - Dor e perfídia
Morpheus estava paralisado, sua respiração sendo um sinal fugaz de que ele ainda estava vivo
O sangue escorria pelo chão, pintando as ruas da capital de vermelho vibrante.
Subitamente, os aplausos e gritos eufóricos da multidão começaram, cortando o silêncio mórbido da cena
Trevor, que estava assistindo de longe, mordeu o lábio inferior e virou o rosto, batendo o pé esquerdo repetidas vezes no chão, Ele sabia que deveria fazer algo, mas ele não conseguia, simplesmente não conseguia, seus pés estavam presos no chão.
Morpheus, ainda um pouco atônito, começou a recobrar seus sentidos, era como se o mundo tivesse deixado de fazer sentido e no instante seguinte desse um soco em seu estômago.
Ele sentiu o baque da sua consciência voltando
No mesmo instante, sua respiração que antes era quase inexistente, começou a acelerar, Morpheus buscava o ar para preencher seus pulmões desesperadamente.
A euforia da multidão era um zumbido distante perante a visão da cabeça decepada de sua mãe. Seus olhos, antes azuis cristalinos, jaziam agora completamente opacos e sem vida, ainda assim, seu olhar estava fixo nele.
O garoto, completamente vulnerável diante da carruagem do rei, hiperventilava cada vez mais; de repente, ele não conseguiu mais conter suas emoções, um grito desesperado escapou de seus lábios.
Ele correu em direção à cabeça de Dália e abraçou-a, o sangue quente manchando sua roupa. As lágrimas do garoto caíam incontrolavelmente sobre o rosto de sua mãe.
Rapidamente, Morpheus foi em direção ao corpo sem vida, enquanto chorava, ele começou a tentar encaixar a cabeça de Dália de volta ao seu corpo.
— Dá-Dália… não me deixa… pû favo — Sua voz mal saia de sua boca, ela estava misturada com soluços e gritos abafados.
Trevor não conseguia assistir àquilo, seu estômago se contorcia e ele segurava a vontade de vomitar.
— Bravo! Um espetáculo digno de vossa majestade — um homem que estava dentre as pessoas disse.
Seguindo o seu exemplo, o povo começou a gritar e comemorar.
Porém, todo o barulho cessou de repente.
O cavaleiro que estava com a espada ensanguentada estremeceu com o que acabara de presenciar.
Os olhos daquele garoto que antes eram azuis, se tornaram vermelho carmesin, a pupila elíptica denunciava o que aquele homem mais temia.
— O-Olhos vermelhos! — Gritou o homem enquanto apontava sua espada para o garoto completamente aterrorizado.
A população sabia muito bem o significado daquelas palavras.
Morpheus, ainda segurando a cabeça de Dália, deu um pequeno pulo para trás quando o cavaleiro apontou a espada para ele.
Ele tentou falar, protestar contra ele, entretanto, ele só conseguia balbuciar palavras incompreensíveis no meio de seus soluços.
De repente, a situação havia se invertido. Morpheus, ainda desesperado, olhou freneticamente para os lados, como se estivesse procurando algo. Até que seus olhos pousaram sobre Trevor.
— Trevor! M-Me ajuda — Gritou ele e logo em seguida começou a correr na direção da única pessoa que ele pensava ser capaz de ajudá-lo.
Os olhares aterrados se voltaram para Trevor então, as pessoas estavam confusas sobre qual seria a ligação entre aquela criança com os olhos profanos e o cavaleiro.
Enquanto corria, Morpheus sentiu os largos passos do homem atrás dele, porém, ele não se importou. Ao chegar na multidão, as pessoas começaram a chutá-lo e gritar para ele se afastar, porém, ele não se importou. Ao chegar perto de Trevor, ele sentiu um pesado toque gélido de aço em sua nuca, porém, ele não se importou.
— T-Trevor…
O homem não reagiu, continuou com o rosto virado.
— Sir Trevor… Você tem algum envolvimento com esse ser? — O cavaleiro que segurava Morpheus contra o chão perguntou em um tom inquisitivo.
Trevor finalmente virou o rosto, seu olhar era impassível, desdenhoso, um ódio não dito pairava sobre suas pupilas.
— Trevor? Diz pra ele Trevor, fala que a gente é amigo, nós… somos amigos, não somos? — Morpheus implorava, ainda assim, diante daquele olhar, ele não sabia se o homem em sua frente era realmente aquele que havia o acolhido. — Por favor Trevor…
Trevor encarava Morpheus de cima para baixo, sem dizer uma única palavra. Quando Morpheus olhou para ele de volta e Trevor viu aqueles olhos, aqueles malditos olhos, ele não conseguiu dar a resposta que Morpheus estava esperando.
— Quem você acha que eu sou? Sir Diomedes, você me rebaixa a tal nível? — Sem tremer, sem ao menos pestanejar, Trevor disse. — Não, eu não conheço essa escória.
Trevor deu as costas e começou a caminhar para sair do local.
O mundo parou para Morpheus, a dor dos chutes das pessoas, a pressão em sua nuca, a cabeça de Dália em seus braços, tudo isso simplesmente desapareceu ante as costas de Trevor.
A dor em seu peito, que já era grande, se tornou ainda mais avassaladora.
Ele começou a se contorcer, aquilo doía, e como doía, Morpheus estava desesperado, o ar escapando de seus pulmões.
— Um verdadeiro demônio! — Uma mulher que estava próxima disse e chutou a cabeça do garoto.
Dessa vez, Morpheus se importou, as lágrimas se misturavam com a saliva de sua boca, ele tentou de alguma forma sair do aperto, todas as suas tentativas igualmente falhas.
— Muito bem… — Diomedes começou a se erguer, levantando o garoto pelo pescoço. — De acordo com a tradição da Ordem Solar, este demônio será confinado nas profundezas do calabouço. Não precisam se preocupar, ele não representa uma ameaça.
— Porquê Sir Diomedes não mata ele?
Diomedes parou por um milésimo de segundo, olhando para quem havia dito aquilo, era um homem velho e corcunda.
— Vejo que a idade afetou seu raciocínio. Como dito nas escrituras da Ordem Solar, olhos vermelhos merecem destinos piores que a morte, ou você discorda da palavra dos deuses?
O velho logo se retraiu e abaixou a cabeça.
Ignorando esse fato, as pessoas começaram a comemorar, gritos de triunfo e alívio se espalharam pela população.
A pressão no pescoço de Morpheus se tornou insuportável, Diomedes não se importava com isso.
Enquanto era carregado, Morpheus não conseguiu aguentar mais e teve que soltar a cabeça de Dália, conduzindo suas mãos para a nuca, tentando ao máximo aliviar o aperto para conseguir respirar.
— Ugh! — Enojado, Diomedes chutou a cabeça de Dália que havia caído em seus pés, para longe.
Depois dessa visão, da cabeça de sua mãe rolando pelo chão, o último resquício de sanidade em Morpheus desapareceu, para uma criança de sua idade, ele conseguiu resistir muito bem, mas depois do que ele viu, as inúmeras dores em seu corpo, mesmo um adulto não conseguiria ficar são.
Com uma última arfada de ar, o garoto não aguentou mais e desmaiou.
Não muito longe dali, Trevor que caminhava pelas ruas sem rumo já estava longe da concentração central de pessoas. Ao chegar em um pequeno beco, ele não conseguiu aguentar mais, vomitou ali mesmo.
“O que eu fiz… pelos deuses… o que eu fiz?” Pensou ele enquanto encarava suas mãos, ele se sentia sujo, perverso.
Ele mordeu o lábio inferior com ainda mais força, fazendo o sangue escorrer pela sua boca.
“Me perdoe Morpheus… me perdoe Dália… eu imploro… me perdoem.” Neste momento, ele desabou, lágrimas começaram escorrer de seus olhos, a cicatriz em seu rosto parecia arder em culpa. “Eu sou um fracasso… Morpheus, você não é a escória, eu sou”
Embora Trevor quisesse gritar, quisesse amaldiçoar o mundo, as palavras simplesmente morriam em sua boca, agora que Dália havia morrido, não havia mais ninguém para salvá-lo.

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