Morpheus e Dália andaram por bastante tempo até chegarem no local onde a cerimônia iria acontecer. Após tanto caminharem, um grande pátio se abriu diante deles.

    Era um local relativamente aberto em frente ao castelo, que exalava ainda mais imponência visto de perto, seu tamanho era estupidamente colossal. No meio desse pátio, havia uma fonte aquífera com um leão feito de mármore esculpido, água escorria continuamente pela sua boca.

    Uma multidão de pessoas se encontrava lá, todas de pé e conversando entre si. Neste momento Morpheus sentiu algo estranho, aquela era a primeira vez que ele via tantas pessoas reunidas; “Será que eles vão perceber os meus olhos? Sei que a irmã Dália fez uma magia para evitar isso, mas e se der errado?”

    Morpheus segurou firme em seu peito, apertando sua camisa, a verdade é que mesmo sabendo que Dália estava protegendo-o, o medo da mínima chance de alguém naquela multidão de pessoas notar seus olhos tomou conta de seu coração.

    Dália olhou para Morpheus e não pôde deixar de dar um suspiro, não de pena, mas o suspiro de uma mãe ao ver seu filho aflito com algo. Ela se agachou para ficar na altura dele.

    — Meu caro Orpheu… — Ela estendeu a mão esquerda para acariciar seu rosto. — você não tem nada do que possa temer, eu estou aqui com você não estou?

    — E-Eu sei mas…

    — Morpheus… olhe para mim

    Morpheus ergueu seu olhar timidamente.

    — Eu sei como é, é sua primeira vez vendo tantos estranhos que não sejam os habitantes do vilarejo. Mas não há o que temer, eu estou aqui, ao seu lado, sempre vou estar. É uma promessa okay?

    As palavras de Dália fluíram como um bálsamo para ele. Ao mesmo tempo, ele se acalmou, controlando sua respiração.

    — Uma promessa, né?

    — Uma promessa — Ela disse, sorrindo docemente para Morpheus — agora vamos lá, a cerimônia deve começar daqui a pouco.

    Morpheus segurou a mão de Dália, e juntos eles seguiram para a multidão de pessoas. Os murmúrios se tornaram ainda mais agudos agora que eles estavam perto, entretanto, Morpheus não temia mais as pessoas desconhecidas, não ao lado de Dália.

    Ambos caminharam serpenteando pelas pessoas e conseguiram ter uma visão privilegiada, se situando na primeira fileira.

    Agora que eles podiam ver melhor, não havia somente aquela multidão semicircular de pessoas, além dela, havia duas fileiras que seguiam até o portão oeste do reino.

    Era nítido que todos aqueles indivíduos estavam ansiosos pela chegada da expedição. Morpheus ainda não tinha notado até o momento, entretanto, ele viu inúmeros panfletos espalhados pelo chão, eles eram basicamente papéis falando sobre a chegada das forças reais, que estava marcada para hoje, assim que o Sol alcançasse seu ponto mais alto.

    Depois de algum tempo de espera, Morpheus olhou para o céu, analisando se o Sol estava no seu ponto mais alto. Deduzindo que faltavam poucos minutos para seu ápice.

    Neste momento, os murmúrios da multidão cessaram, Morpheus, intrigado pelo súbito silêncio viu que um homem caminhava em direção à fonte. Ele utilizava um monóculo e vestia vestes formais, uma roupa que se assemelhava a de um mordomo de alta classe, todo o seu traje tinha uma cor verde bem escuro que de longe podia ser confundido com preto, possuindo adornos prateados.

    Morpheus teve uma leve realização em sua cabeça, as pessoas da capital aparentavam se vestir muito melhor do que as pessoas do vilarejo onde ele morava. Ele não sabia se isso poderia ser atribuído à cerimônia ou não.

    O homem ao se prostrar respeitosamente para a multidão, puxou um pergaminho de dentro de seu traje.

    Ele pigarreou antes de começar a falar.

    — A chegada da sua majestade real será realizada daqui a poucos segundos, antes disso, uma breve citação de um dos provérbios antigos da ordem solar. — Ele parou por alguns instantes para abrir o pergaminho

    — “A derrota não deve ser confundida com um fracasso, o fracasso ocorre quando nossas cabeças rolam no chão úmido da guerra, enquanto isso não acontecer, não desanimem, pois Deus estará sempre convosco.” — enrolou novamente o pergaminho.

    Neste momento, os portões oeste do reino abriram, uma grande euforia começou em todas as pessoas que estavam ali presentes.

    Morpheus também estava incluído, essa seria a primeira vez que ele veria um rei de perto. Sem dúvidas ele estava animado.

    Porém, todos os gritos de bem vindos de volta cessaram no momento em que o primeiro soldado pisou para dentro do reino.

    O povo já sabia que eles haviam perdido a batalha, entretanto, o olhar daqueles homens não era um olhar esperançoso perante o futuro, afinal, haveria mais oportunidades para a conquista, não, aqueles eram homens completamente abatidos pela guerra.

    Conforme a procissão seguia, cada vez mais o povo tinha uma certeza: o futuro era incerto.

    Morpheus percebeu o clima mudando, ele se encolheu em Dália, com um pouco de medo do silêncio repentino.

    Dália, por sua vez, segurou firmemente na mão do garoto.

    — Estou aqui, Orpheu.

    Quando a carruagem do rei adentrou os portões, o silêncio pareceu um peso físico que esmagava as pessoas. Não era uma carruagem real, com adornos e elegância, parecia que tinha sido feita às pressas, a madeira estava gasta e danificada, até a carruagem em que Morpheus havia vindo para a capital era mais digna do que aquilo.

    Quando a carruagem do rei passou diante de Morpheus, as pessoas já tinham começado a voltar para as suas casas. Ainda curioso para ver o semblante do rei, ele inclinou seu corpo, ficando na ponta dos pés. Ele tentava ver o homem que se escondia por detrás da cortina.

    De repente, Morpheus sentiu uma pressão em suas costas, como se estivesse sendo empurrado com força por alguém.

    Dália que estava absorta em pensamentos, tentou segurar Morpheus, porém, sua força não foi o suficiente.

    O garoto rolou no chão, ficando a poucos metros da carruagem.

    — Ei! Cuidado por onde anda — Ele praguejou.

    Quando olhou para frente, notou uma espada embainhada em sua direção.

    Logo, murmúrios começaram a se espalhar pela multidão, quem ousou se intrometer na procissão real?

    O cavaleiro que apontava sua espada para Morpheus virou a cabeça na direção da janela da carruagem.

    — Milorde, é apenas uma criança…

    Neste momento, Dália correu na direção de Morpheus e o protegeu, ficando de costas para a espada

    — Por favor… nos perdoem, ele não fez por mal… por favor… — A voz de Dália era pesada, como se até mesmo respirar fosse um pecado na frente daquelas pessoas.

    Morpheus não entendia o que ele tinha feito de errado. O porquê de Dália estar tão tensa, até que ele escutou os gritos das pessoas.

    — Isso é uma blasfêmia!

    — Quem ousaria ter tamanha audácia?!

    Todos gritavam em uníssono, indignados, ou talvez, apenas buscavam um espetáculo para se distraírem do gosto da derrota. Humanos eram assim, afinal, buscavam conforto no sofrimento alheio, sob o pretexto de entretenimento, afinal, sua vida pode até estar ruim, mas ao saber que outras pessoas têm a vida pior que a sua, você automaticamente se alivia.

    Uma respiração pesada ecoou da janela.

    — Mate a garota… — Uma voz imperativa e pesada cortou os gritos das pessoas.

    — Mas Milorde…

    — É a vontade do povo.

    Morpheus sentiu o momento em que seu mundo inteiro deixou de existir, o líquido quente e metálico escorrendo em seu rosto, uma leve fincada em seu próprio abdômen.

    — Ah… — Um suspiro ofegante saiu de seus lábios.

    Dália ergueu seu rosto, para poder olhar para Morpheus, sangue escorria de sua boca.

    — Orpheu… Meu caro Orpheu…

    Morpheus olhava para ela, completamente atônito e paralisado

    Antes de conseguir dizer mais nada, o cavaleiro brandiu novamente a sua espada. 

    Um último olhar, de mãe para filho, ela não fechou os olhos, não poderia permitir que a última visão de seu filho fosse o de uma mulher que havia aceitado seu destino. 

    Morpheus viu tudo, desde o momento em que a espada cortou precisamente a linha do pescoço de Dália até o momento em que sua cabeça rolou pelo chão. 

    Talvez uma obra do destino, mas mesmo com a cabeça decepada, o olhar de Dália ainda estava preso em Morpheus, como se nem a morte pudesse diminuir seu amor por ele.

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