A carruagem já havia partido do vilarejo, Dália julgava que, no momento em que partiram, não deveria ser mais do que seis horas da manhã devido à posição do Sol, agora, estava próximo das seis e meia.

    Morpheus havia pegado no sono e estava dormindo em seu colo.

    Dália se virou para a pequena janela que permitia a visão para a parte de condução da carruagem, lá, ela viu Trevor com as rédeas na mão, ele conduzia com relativa destreza, evitando buracos e pedras maiores facilmente. Dália iria falar algo, entretanto, Trevor foi mais rápido.

    — O garoto dormiu? — Ele perguntou sem tirar os olhos da estrada. — Não escuto a voz dele faz bastante tempo, e pensa num menino falante.

    — Sim… ele dormiu. — Ela respondeu e fez um pequeno cafuné nos cabelos do garoto.

    — Milady, se não se importa, posso lhe perguntar uma coisa?

    — Claro, por que não? — Dália não pôde deixar de ficar intrigada pela pergunta repentina de Trevor.

    — Desde quando você pratica lux? Duzentos metros de raio não são pouca coisa, e tudo isso por esta criança.

    — Bom, eu andei praticando desde o momento em que conheci Orpheu. Desde aquela época eu nunca descansei. E sim, tudo por esta criança.

    — Posso lhe perguntar o motivo de protegê-la com tanto afinco mesmo indo contra sua religião?

    Dália ficou alguns segundos sem responder, não porquê não sabia a resposta, mas sim pensando se Trevor era merecedor de ouvi-la.

    — Não é o dever de uma mãe proteger seu filho?

    — Bem… sim ma-

    — Sem mas, foque na estrada — Ela cortou Trevor e voltou seu olhar para a janela da lateral da carruagem, focando-se no horizonte belo que estava sob sua visão, as pradarias estavam levemente molhadas, e os raios de Sol que batiam no orvalho deixavam uma vista de tirar o fôlego. Era um dia belo.

    Não para Trevor, que ficou com uma carranca com a descortesia de Dália. Ele sabia que aquela pergunta poderia ser difícil para ela responder, só não esperava que ela o tratasse desse jeito.

    Mas ainda assim, aquilo não entrava na cabeça de Trevor, porquê ela como uma freira se arriscava tanto? Porquê proteger aquela criança? Era por orgulho de pensar que ele poderia ser diferente mesmo com tantos exemplos pelo mundo? Olhos vermelhos sempre trazem desgraça. 

    Entretanto, ele admirava aquela mulher, ela havia o salvado, com seus esforços ela poderia facilmente ter seguido o caminho da magia, ele se perguntava o que havia acontecido para Dália seguir o caminho da Igreja do Sol. Bom, ele não poderia julgar, também teve várias oportunidades de seguir outros caminhos, mas, no final das contas, seguiu com seu sonho de se tornar um cavaleiro.

    Afastando esses pensamentos, Trevor pensou: “Tudo o que eu queria era o meu violão agora…” e começou a cantar.

    — No fundo do deserto de Kalamar, espreitam perigos iminentes, que cortam o ar, e a mente — Ao contrário do que se esperava vindo de Trevor, sua voz ao cantar era um espetáculo, é o que normalmente se espera de um guerreiro trovador.

    — Então agora você vai cantar esses poemas caipiras para mim? Morpheus definitivamente estaria feliz se estivesse acordado. — Dália deu um leve sorriso.

    — Caipira? Milady não entende de cultura — Trevor acompanhou o sorriso dela, sua carranca desapareceu e o clima ficou mais leve.

    — Agora é minha vez de fazer uma pergunta.

    — Vá em frente.

    — Que tarefa é essa que surgiu de repente?

    Trevor respirou profundamente.

    — Como você já deve saber, perdemos a batalha contra os elfos no bosque cinzento, desde então nossas tropas estão retornando para a capital, sua chegada está prevista para hoje, por isso, eu tenho que recebê-las primeiro para que possamos voltar à catedral. — Trevor explicou ainda sem desviar os olhos da estrada.

    — Entendo. — E o silêncio reinou mais uma vez.

    Cerca de três horas se passaram desde essa conversa, Dália e Trevor trocaram poucas palavras neste meio tempo.

    Dália estava acostumada com essas viagens longas, muito dificilmente ela pegaria no sono como Morpheus.

    O mesmo neste momento estava deitado sobre o colo de Dália. Dando sinais de que estava prestes a acordar.

    Ela, percebendo isso, voltou sua atenção ao garoto. Esperou mais alguns minutos para ter certeza de que ele estava acordando, após ter as suas certezas confirmadas, ela sorriu levemente.

    — Que bom que acordou Orpheu, vamos dar uma revisada nos conceitos básicos? Daqui a pouco a capital se mostrará adiante. — Ela nem deu tempo de Morpheus processar onde estava.

    “O garoto acordou e já tem que responder um questionário, bom, azar o dele” Trevor riu internamente, se sentindo bem por não estar no lugar de Morpheus.

    — Tudo… bem… — Morpheus coçou as pálpebras e se sentou, olhando para Dália logo em seguida.

    — Vamos começar, quais são as afinidades mágicas primordiais?

    — Lux e tenebrae — Ele respondeu sem muitas dificuldades enquanto ainda recobrava os sentidos.

    — Muito bem, e é dessas afinidades primordiais, de onde obtemos todas as outras, pode me citar um exemplo de uma magia derivada de lux e uma magia derivada de tenebrae?

    — Em lux podemos citar remedium, e em tenebrae podemos citar infusio.

    — Exato, seres humanos normalmente possuem duas afinidades, a primordial e a secundária, quais são as suas e as minhas? — Dália não parava de bombardear Morpheus com perguntas.

    — Eu possuo afinidade com tenebrae e infusio, e você possui afinidades com lux e remedium. — E Morpheus respondia todas elas

    — Isso, normalmente humanos só manifestam suas afinidades entre os quinze e dezoito anos, são raros os que despertam antes, principalmente em tão tenra idade como você, porém, deve-se lembrar que essas não são as únicas afinidades que existem, notei que você respondeu as mesmas coisas duas vezes seguidas, vamos ter um pouco mais de criatividade nas próximas revisões, ok? Por hoje é só.

    — A gente já tá chegando? — O garoto disse e logo em seguida olhou pela janela, seus olhos se arregalaram ao ver um enorme muro de pedra lisa. — A gente chegou. — Morpheus rapidamente saltou na pequena janela e vislumbrou os portões da capital.

    Toda a muralha de pedra tinha por volta 30 metros de altura e Morpheus estimava pela curvatura presente no horizonte que ela delimita uma área de 3 quilômetros quadrados.

    Era imponente, e até mesmo causava um certo receio nele, tantas pessoas moravam ali, tantos sonhos e pesadelos, tantas vidas.

    Não demorou muito para a carruagem ser parada por um dos inúmeros guardas que estavam em frente ao portão.

    — Alto! Quem vem aí? — O guarda vestia um uniforme formal vermelho com um símbolo de um sol presente no peito esquerdo e utilizava o mesmo capacete que a armadura de Trevor. Em sua cintura havia um alfanje embainhado, a arma característica dos cavaleiros de Anor.

    — Sou eu, não está me reconhecendo Acacius? Olha, sei que a minha cara está meio acabada, mas não precisa ser tão cauteloso. Sabe, se precaver demais tira o elemento surpresa da vida. — Trevor disse enquanto descia da carruagem.

    — Já sei quem é só pelo fato de tagarelar, pode passar Trevor — o guarda liberou o caminho.

    Trevor agora conduzia a carruagem a pé.

    Morpheus se encontrava maravilhado observando as casas que se erguiam em sua visão, tudo era muito mais moderno do que o vilarejo onde a catedral ficava, não que ele já tivesse saído antes, porém via as casas pela janela, eram feitas de madeira, enquanto as casas da capital eram feitas de pedra com telhados de ardósia, era um luxo que Morpheus nunca poderia ter.

    Logo após passarem pelo portão, Trevor fez um sinal para eles descerem, Dália o fez, dando sua para Morpheus.

    Ao sentir a lama sobre seus calçados e a brisa leve da manhã fluindo pelo seu rosto, Morpheus teve uma realização em sua cabeça: “finalmente… finalmente eu posso andar por aí, finalmente eu posso sentir o ar livre, a partir desse momento vou experienciar tantas coisas diferentes.”

    Ele percorreu o olhar pela entrada da cidade, nada que fugisse muito do convencional descrito nos livros, ruas largas para suportar grande número de carruagens que passavam por ali, três poderiam ser colocadas uma do lado da outra que ainda sobraria um pouco de espaço.

    Porém, tudo isso fora simplesmente deixado de lado pelo garoto quando ele notou o imenso castelo que se mostrou diante a ele. O castelo ficava não mais do que 1 quilômetro dos portões e se encontrava bem no centro da capital, seu tamanho era maior do que qualquer coisa que Morpheus conseguia imaginar, o que levou ele a pensar se aquilo realmente foi construído por mãos humanas, embora ele soubesse que muitas vezes os humanos realizam coisas fora de suas delimitações naturais, talvez por orgulho de não aceitar a realidade como ela é, quem sabe.

    Dália se despediu de Trevor, Morpheus imitou seu gesto.

    — Bom, caro Orpheu, não viemos aqui para passear, você se lembra do que viemos fazer aqui? — Os dois começaram a andar pelas ruas.

    — Claro que sim, a irmã Dália veio aqui para agendar a entrega de suprimentos para o convento.

    — Perfeitamente.

    Dália caminhava calmamente enquanto Morpheus se encontrava cada vez mais boquiaberto, apontando para quase tudo e perguntando seus significados para ela. Ele havia aprendido a ler e a escrever com Dália, porém, ainda não compreendia algumas palavras.

    Não muito longe de onde estavam, Dália parou ao ver uma pequena casa que se encontrava em uma esquina, nela havia uma placa acima de uma porta dupla, os caracteres escritos simbolizavam “Lugar para vendas”.

    Ao notar que a porta estava trancada, Dália se perguntou o que poderia estar acontecendo, aquela loja sempre esteve aberta nas mais inusitadas épocas do ano, até que ela percebeu um pequeno folheto preso na porta de madeira.

    “Fechados para o recebimento da corte real, favor voltar quando todas as etapas do mandato real estiverem cumpridas.”

    Ela bufou e olhou para Morpheus.

    — É… parece que temos que esperar, acho que a única coisa que nos resta é assistir a cerimônia

    O garoto se animou com a notícia, ele finalmente poderia ver um rei em carne e osso, um rei assim como Salazar foi, o herói solari dos livros que ele lia quando estava entediado na catedral, o que acontecia com relativa frequência.

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