Morpheus acordou em um susto, quase como se tivesse morrido e voltado à vida.

    Um frio terrível atingiu sua pele.

    Ele olhou para os lados.

    Não via nada além de escuridão.

    A mais pura escuridão.

    E essa escuridão o encarava de volta.

    Podia sentir um toque gélido em suas duas pernas, ao movê-las, ouviu os barulhos de grilhões de ferro sendo puxados.

    — Onde… onde eu tô?… — Ele tateou o ambiente à sua volta, não conseguiu discernir muita coisa além do fato do chão estar levemente úmido. O medo começou a percorrer sua espinha. — D-Dália? Você tá aí? 

    Ao citar o nome de Dália, Morpheus não pôde deixar de sentir uma pontada em seu peito, ele não sabia explicar exatamente o porquê, mas sentia que algo estava errado.

    — Não tem ninguém chamado Dália aqui garoto. — Uma voz ríspida ecoou do outro lado da escuridão, era como se as palavras estivessem sendo lixadas.

    Morpheus imediatamente olhou na direção da voz, conforme seus olhos se acostumaram gradualmente com a falta de luz, o corpo inteiro dele estremeceu ao notar, com dificuldade, a origem da voz.

    Ele não viu muita coisa, ainda assim, conseguiu avistar uma singela característica, uma característica que ele também levava consigo, olhos vermelhos vibrantes.

    — Que foi? Ahh… Já sei, você consegue enxergar eles né?

    Os olhos se mexeram na escuridão, ficando a alguns metros de Morpheus até que um baque metálico soou.

    — Odeio essas coisas… me diga, garoto dos olhos vermelhos, como você veio parar aqui? Por acaso se perdeu da sua grei?

    Morpheus ficou alguns segundos em silêncio, receoso do significado das palavras daquele homem.

    — O que é uma grei?

    — Então você é um singular, hein… bem, uma grei é basicamente como chamamos o conjunto de nossos semelhantes. — A voz explicou calmamente. — Mas bem… você não respondeu minha pergunta.

    O garoto tomou mais alguns segundos de silêncio, dessa vez ele não estava receoso, simplesmente não conseguia se lembrar.

    — Eu… eu não consigo… desculpa, eu não sei… eu nem sei onde estamos, você sabe onde está a irmã Dália moço? Ela é… ela é a minha mãe. — perguntou inocentemente.

    O homem suspirou pesadamente, o fato dele estar conversando com uma criança perdida fez ele mudar um pouco sua postura.

    — Bem, garoto… não conheço nenhuma Dália por essas bandas, você consegue descrevê-la para mim?

    Morpheus mentalizou a imagem de Dália.

    — Ela é alta, bonita, sabe pentear meus cabelos, e… e… ah, já sei, já sei, ela tem a voz mais bonita do mundo! Você conhece ela?

    Enquanto descrevia Dália, Morpheus listava tudo o que dizia em seus dedos.

    O homem soltou uma leve gargalhada com a inocência do garoto.

    — Não garoto… não conheço ninguém assim, enfim… qual é o seu nome?

    — É Morpheus, mas a minha mãe me chama de Orphe-

    Morpheus interrompeu sua própria frase.

    Seu corpo inteiro enrijeceu.

    “Orpheu… meu caro Orpheu” a voz de Dália ecoou pela sua cabeça, e logo as memórias começaram a fluir em sua mente como uma torrente.

    Uma dor aguda dilacerava seu cérebro. Ele se jogou contra o chão e começou a se contorcer, levando suas duas mãos para a cabeça enquanto gritava agonizando.

    Tudo, absolutamente tudo, o atingiu de uma só vez, o último olhar de Dália, sua cabeça sendo arrancada, a visão das costas de Trevor. Era como se uma chave tivesse destrancado o inferno em sua mente.

    Seu corpo inteiro parecia estar queimando, no meio de seus gritos, ele cerrava os dentes e bufava.

    — Não! Não, não, não! Dália!

    — Garoto! Ei, garoto! Que droga… — O homem disse desesperado.

    Não vendo outra opção, ele apontou um de seus braços para Morpheus, um leve brilho esbranquiçado se formou no centro de sua palma, rapidamente, um feixe de luz branco iluminou brevemente a escuridão e atingiu a cabeça de Morpheus, o mesmo desmaiou no mesmo segundo.

    Após a utilização do feixe de luz, o homem sentiu uma fraqueza se instaurar no seu corpo, olhou para os grilhões que o prendiam em seguida.

    — Ugh!

    Ele se recostou na parede e virou seu olhar para o teto.

    — Morpheus, certo? Isso vai ser difícil…

    O homem ficou um tempo refletindo sobre o que poderia ter acontecido com o garoto, claro, ele não perguntaria, afinal, Morpheus já aparentava ter sofrido muitas coisas para um garoto de sua idade.

    Ele permaneceu encarando o garoto, analisando ele, embora o ambiente estivesse escuro, poder ver além do breu era uma das características de seus olhos. 

    Notou que a fisionomia de Morpheus era estranha, não parecia ter o corpo de um mago, nem de um guerreiro, aparentava ter sido criado por quem quer que fosse Dália, normalmente, o que já tirava completamente a alternativa dele estar mentindo sobre não pertencer a uma grei.

    Ainda assim, seu corpo continuava fora dos padrões para alguém comum, naturalmente, as pessoas nascem com pré-definições corporais para a magia ou para atributos físicos, entretanto, Morpheus não se encaixava em nenhum dos dois.

    Utilizando sua magia, ele podia visualizar o interior de Morpheus, suas veias de mana eram estranhamente finas para um mago, porém, seus músculos eram atrofiados demais para um guerreiro.

    Após passar um tempo analisando essas características anormais, ele se pegou pensando “o que diabos é esse moleque?”

    Horas passaram. Morpheus começou a lentamente recobrar a consciência, dessa vez, ele se lembrava.

    Diferentemente de antes, ele não gritou e começou a se contorcer, simplesmente se sentou escorado na parede e chorou silenciosamente.

    — D-Desculpa moço… e-eu não queria… é só que…

    — Porquê você está se desculpando, garoto? Você não tem culpa de nada.

    — Eu não sei, eu não sei, eu não sei — Morpheus disse repetidas vezes com a voz tremendo enquanto suas lágrimas escorriam. — Porquê? Por que eu tive que nascer assim? Por que eu não podia ter nascido normal? Por que eles nos odeiam só por causa dos nossos olhos?

    O homem permaneceu em silêncio, uma dor lascinante atravessando seu coração, ele também já havia pensado assim, isso era o que mais doía.

    — Me responde!

    Uma respiração pesada ecoou pela cela.

    — Garoto… — O homem começou, tentando encontrar as palavras em seu próprio sofrimento — você já se perguntou o motivo de uma borboleta ser amada e uma mariposa ser enojada?

    Morpheus pensou no significado daquelas palavras por alguns instantes.

    — Por causa da aparência?

    — De certa forma sim, mas mais do que isso… Porque elas foram ensinadas a venerar o que é belo e temer o que é desconhecido.

    — Você fala muito difícil moço.

    O homem riu levemente com o comentário de Morpheus.

    — Voltemos ao exemplo, ambas se parecem, mas fundamentalmente possuem funções e comportamentos diferentes. Não se iluda pensando que só existe um tipo de preconceito, garoto, tudo depende de como você enxerga o mundo. A propósito, meu nome é Lucius.

    — Lucius… — Morpheus repetiu, enxugando as lágrimas e tentando se acalmar — mas porquê as pessoas odeiam umas às outras?

    — É como eu disse garoto, elas não se odeiam naturalmente, são ensinadas, sei que é um pouco difícil de entender, mas veja bem… todo povo possui uma crença, naturalmente, essa crença deriva de uma crença geral.

    Lucius se calou por um tempo.

    Morpheus observava o chão úmido da cela, ele ainda soluçava, mas já havia conseguido se acalmar, ao menos um pouco.

    Depois de alguns minutos deixando Morpheus ter o seu momento, Lucius continuou.

    — Você já deve ter escutado ou lido sobre a oligarquia divina, certo?

    — Eu já li em um livro… mas era chato, então parei na parte que contava sobre Pantaleon, o sétimo.

    — Você parou logo antes da parte mais importante… mas bem, não vou me aprofundar em detalhes pois sei que você não entenderia muito bem… O oitavo Deus, Ariel, foi aprisionado no deserto de Kalamar após se rebelar contra a oligarquia, as escrituras dizem ter sido um conflito sanguinário entre as deidades, o exército de Ariel, os octavianos, eram implacáveis e impiedosos. Não se sabe o motivo dessa rebelião, porém, apenas se sabe que os sete deuses saíram vitoriosos perante Ariel.

    — Você só tá falando um monte de coisa religiosa agora.

    Lucius pigarreou antes de continuar.

    — O fato é que, após ter sido selado no deserto de Kalamar, seus descendentes, nós, os octavianos, se tornaram uma ameaça para a regência da oligarquia. Basicamente, nos atribuíram um estigma antes mesmo de termos nascido, tudo por causa da nossa característica principal, os olhos. As pessoas têm medo de que um dia Ariel possa voltar junto de seu exército e travar outra guerra.

    Morpheus começou a absorver as falas de Lucius, por mais que fosse bastante coisa para o seu cérebro ainda um pouco fragmentado, ele conseguiu entender o que Lucius queria dizer.

    Um silêncio um pouco constrangedor pairou sobre o ambiente.

    Lucius apenas explicou de onde o preconceito surgiu, os sentimentos de deslocamento e indignação permaneciam no garoto.

    — Onde a gente tá? — Morpheus foi o primeiro a quebrar o silêncio.

    — Estamos no andar mais baixo do calabouço real. Sinceramente, pensei que eu seria o único aqui pelo resto da minha vida, afinal, não é muito comum ver singulares pela capital.

    — O que é isso? — perguntou o garoto.

    — Isso o que?

    — Ser singular, o que é isso?

    — Bem, todo octaviano pertence a uma grei, aqueles que não pertencem são chamados de singulares. Geralmente nós nascemos e crescemos em uma grei.

    — Você também é um?

    Lucius ficou calado, parecendo se lembrar de seu passado.

    — Sim… Claro que eu sou, não faria sentido eu estar aqui se eu não fosse.

    Algo soava estranho para Morpheus no tom de voz que Lucius utilizou, porém, ele só ignorou isso, pensando ser coisa de sua cabeça.

    O silêncio voltou entre eles.

    Morpheus, que ainda soluçava, começou a se lembrar de Dália.

    Da sua voz.

    De seus olhos.

    De sua promessa.

    Ele deitou no chão em posição fetal, tremendo. Tentou dormir, porém a memória de Dália rasgava seu peito, ele não conseguia pegar no sono.

    Ele desejou que, caso conseguisse dormir, não queria acordar nunca mais, não para viver nesse pesadelo, não para conviver com essa dor.

    Ele abraçou o ar, imaginando estar nos braços quentes de Dália. Entretanto, só conseguia imaginar o toque gélido e sem vida de sua cabeça decepada, de forma mórbida, aquilo conseguiu acalmar ele, até que ele finalmente adormeceu.

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