Morpheus abriu os olhos lentamente.

    Sentia um calor familiar sobre seu corpo, era como estar de volta aos arredores da catedral.

    O farfalhar das folhas caindo e a leve brisa, causavam uma sensação de nostalgia inexplicável no garoto.

    Conforme recobrava seus sentidos, notou que estava deitado apoiado no colo de alguém.

    Era Dália, a mesma estava escorada em uma árvore enquanto suavemente penteava os cabelos de Morpheus com as mãos.

    Morpheus instantaneamente tentou falar, gritar de alegria, entretanto, seu corpo se recusava, a sensação era terrível, ele tentava movimentar alguma parte do corpo e não conseguia, tentava gritar e não conseguia.

    Seu cérebro parecia estar o traindo, como se se recusasse a obedecê-lo.

    Por mais que ele não conseguisse se mexer, ainda podia sentir, sentia as mãos delicadas de Dália penteando seus cabelos, sentia o vento leve sobre sua pele.

    “O que tá acontecendo?!” Pensou ele tentando em seguida mover suas pernas, novamente sem sucesso.

    — Morpheus, você se lembra de quando você caiu da escada enquanto tentava fugir para não tomar banho? — Dália falou, dando uma leve risadinha, interrompendo os pensamentos de Morpheus.

    “Diga alguma coisa, corpo inútil.” Pensou ele, embora ele se esforçasse para realizar qualquer ação, nada acontecia.

    — É claro que eu lembro, hum… — Sua voz finalmente saiu, porém, aquilo não era nada do que ele queria dizer. Seu corpo deu de ombros, era uma sensação estranha, estar observando tudo do seu ponto de vista, mas não conseguindo realizar ações.

    — Você rolou escada a fora, hehe… você tinha que ver a sua cara chamando por mim e chorando feito um bebê.

    — Tá bom, tá bom, já entendi. — Ele fez biquinho e virou o rosto.

    — Mas eu posso te confessar uma coisa Orpheu? — Dália parou alguns instantes antes de prosseguir — aquilo me assustou muito, sabe… não tem nada nesse mundo que me assuste mais do que te perder.

    O corpo de Morpheus se movimentou sozinho novamente, virando seu olhar para Dália.

    Alguma coisa pareceu se encaixar nos pensamentos de Morpheus quando ouviu Dália dizer “Orpheu”, uma memória longínqua.

    Ele se lembrou, lembrou dessa mesma conversa de tempos atrás.

    — Você nunca vai me perder Dália! Eu sou forte e esperto. E eu também nunca vou perder você! Vou te proteger pra sempre! Sempre, sempre e sempre.

    Aquelas palavras… ele se lembrava de dizer aquelas palavras, elas o atingiam agora com um outro significado.

    Seu peito ardia, ainda assim, ele não conseguia fazer nada, era meramente um espectador de suas memórias.

    — Me promete uma coisa? Quando você for mais velho vai entender melhor… mas nunca perca o que te faz ser você, por favor Morpheus, escute sua mãe, só dessa vez.

    O corpo de Morpheus apenas ficou em silêncio.

    Morpheus conseguia entender melhor o que Dália queria dizer do que naquela época, mas ainda assim, sentia que tinha um sentido além do que ele estava imaginando.

    Sentindo sua consciência se esvair, Morpheus desejou que aquilo durasse mais um segundo, para poder ver Dália um pouco mais.

    Tentou alcançar o rosto de Dália.

    Pela primeira vez seus dedos se mexeram.

    Mas antes que pudesse tocá-la, o mundo se despedaçou.

    Com uma súbita onda de consciência, ele se viu deitado sobre a pedra fria e úmida. Olhou brevemente para o outro lado da cela, viu que Lucius parecia estar acordado.

    Analisando melhor o homem, notou com mais detalhes seu perfil, cabelo longo e grisalho, olhos vermelhos vibrantes e elípticos, assim como Morpheus, não possuía o braço esquerdo. Em seu torso, haviam inúmeras cicatrizes, Morpheus deduziu que elas fossem marcas de guerra ou coisa do tipo.

    — Que foi garoto? Vai ficar me encarando agora?

    Morpheus não desviou o olhar, ao invés disso, continuou encarando ele com ainda mais intensidade.

    — Você é estranho… — disse ele, sem hesitar.

    Os olhos de Lucius se arregalaram brevemente, por um segundo ele havia esquecido que estava lidando com uma criança.

    — O que você quer dizer com estranho? Sou muito normal se comparado com a maioria das pessoas.

    — Então cadê seu braço? Todas as pessoas que eu conheço têm os dois braços, isso é suspeito…

    Lucius respirou profundamente, ele não iria discutir com uma criança de 8 anos.

    — Tá bom… você venceu, eu sou estranho. Mas não vai pensando que você é normal garoto, que tipo de pessoa nasce com o corpo completamente confuso igual o seu?

    Morpheus olhou para baixo, para o seu próprio corpo.

    — O que tem de errado comigo? Eu sou muito normal para a sua informação.

    — Não me venha com essa, todo mundo nasce com aptidão para alguma coisa, seja mágica ou física, é o destino, mas você… você simplesmente não tem nenhuma das duas, isso que é estranho.

    — Eu não sei o que isso quer dizer. — Na verdade, Morpheus tinha sim ciência do conceito ao qual Lucius se referia, Dália já havia explicado para ele que as pessoas nascem com maior facilidade para praticar magia ou para praticar atividades que exigem mais do corpo, tal conceito era chamado pelos humanos de ‘Dualidade Divina’. Ou você tinha um corpo fortalecido, ou veias de mana fortificadas.

    — Será que os deuses te odeiam tanto assim? — Lucius riu levemente.

    — Hum… e quem liga pra isso? É só eu ficar bom nas duas coisas.

    Lucius gargalhou alto com o comentário de Morpheus, uma risada estridente ecoou pelos corredores inóspitos do calabouço.

    — Você é presunçoso garoto.

    O silêncio reinou sobre os dois novamente, entretanto Lucius não ficou parado. Morpheus viu algo que ele nunca havia visto antes, os olhos de Lucius se arregalaram, e o espaço ao redor de suas pálpebras começou a ondular.

    Depois de alguns segundos, Lucius voltou ao seu olhar normal.

    — Bem… teoricamente não seria impossível.

    — O que diabos você fez? — Morpheus, confuso, perguntou ao homem.

    — Eu apenas analisei melhor o seu interior, como eu disse, você não possui a Dualidade Divina, suas veias de mana são muito frágeis e seus músculos são muito atrofiados. Em outras palavras, garoto, você vai sofrer o dobro para aprender metade.

    Morpheus ficou um pouco cabisbaixo com a revelação de Lucius.

    — Não precisa ficar assim, eu ainda não terminei de explicar. Sim, você vai ter dificuldades, porém, embora o conceito da dualidade pareça algo extraordinário, ele também tem suas desvantagens, alguém que nasceu com aptidão mágica por exemplo, terá dificuldade para se tornar um guerreiro, isso porque o seu corpo não foi moldado para tal, já você, Morpheus, tem um corpo péssimo nas duas coisas.

    — Isso não era pra ser ruim?

    — Bem, tecnicamente sim, mas pense só, se você tiver dedicação e resiliência o suficiente, poderá desenvolver ambas as aptidões em um ritmo de igualdade. Consegue entender um pouco melhor agora?

    Morpheus absorveu a informação que Lucius o passou de forma focada e objetiva, analisando os possíveis caminhos que ele poderia seguir.

    Minutos se passaram, ele odiava não ter nada pra dizer, cada vez que o silêncio reinava, ele sentia seu peito definhando com suas memórias.

    — Lucius! — Gritou o garoto, quebrando o silêncio. — Eu quero que você me conte sobre você. — Morpheus se aproximou das grades e apontou seu dedo para ele.

    Lucius ficou um pouco surpreso com o pedido repentino de Morpheus.

    — Você está curioso sobre o meu passado?

    O garoto assentiu.

    — Não tem nada nele que uma criança gostaria de ouvir…

    — Por favor, pode ser qualquer coisa — Ele implorou.

    — Eu já disse que não! — Lucius gritou com Morpheus.

    O mesmo se encolheu sob o peso da voz dele.

    Uma onda de culpa atingiu o homem, ele sabia que não deveria ter se exaltado daquela forma com Morpheus.

    — Eu só… não gosto de falar sobre ele, tá bom? Desculpa garoto.

    Um pesado silêncio se instaurou no ambiente.

    — Na verdade, Morpheus… — Lucius começou a falar — Eu tenho que te alertar sobre uma coisa. A cada solstício, o rei costuma organizar um grande festival no coliseu, para os nobres é um espetáculo e tanto, porém, para nós, os prisioneiros, é uma grande carnificina.

    O corpo de Morpheus estremeceu ao ouvir aquilo.

    — Não precisa ter tanto medo, o festival possui um tempo limite de meia hora, se você sobreviver a essa meia hora como parte dos últimos prisioneiros vivos, ganhará o direito à liberdade.

    — E o que você está fazendo aqui? Pelas suas roupas, você já está aqui fazem anos.

    — Você acha mesmo que eles deixariam livre alguém como nós, alguém com os nossos olhos? Você é muito ingênuo, sabia?

    — Então porque se dar ao trabalho? Se não conseguiremos a liberdade, então porque?

    — Para sobreviver Morpheus… enquanto você sobreviver, enquanto você estiver vivo, você poderá dizer ao mundo o quanto você odeia ele. Se você não pode se livrar do seu ódio, use-o como um combustível para te deixar mais forte, mas nunca, nunca deixe ele te dominar, essa é a minha primeira lição para você.

    — Lição?

    — Se você quer sobreviver, terá que me escutar, a não ser que você queira deixar que suas memórias sejam em vão, pior do que ter que conviver com o sacrifício de alguém, é esquecer o motivo por detrás dele, nunca se esqueça das pessoas que já se sacrificaram por você Morpheus, essa é a minha segunda lição.

    O garoto ponderou sobre o verdadeiro significado das palavras de Lucius. Uma coisa era fato, se ele quisesse provar ao mundo que ele estava errado, primeiro ele tinha que sobreviver.

    — Tudo bem… por onde começamos?

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