Trevor caminhou sem rumo pelos corredores do castelo.

    Por mais que ele conhecesse cada canto com a palma da mão, dessa vez, ele não sabia para onde estava indo.

    Na realidade, ele não se importava.

    O gosto amargo ainda permanecia em sua boca.

    O castelo estava anormalmente silencioso hoje.

    Trevor gostava disso.

    O silêncio não fazia perguntas.

    Não o julgava.

    Não o chamava de herói.

    E, acima de tudo, não o lembrava de Morpheus.

    Ao menos era isso o que ele tentava acreditar.

    Na verdade, o peso do silêncio era insuportável. Não ter ninguém para julgá-lo era ótimo, é claro, porém, nesse momento, sem ninguém o julgando, foi o momento onde seus pensamentos finalmente recaíram sobre ele.

    “Você é um inútil Trevor!” “Que foi? Não vai me dizer que está se sentindo bem depois de tudo o que fez.” “Você é deplorável, e ainda se chama de comandante, qual é, não mente pra si mesmo, você sabe muito bem que não é digno de ser chamado assim.”

    Trevor se apoiou na parede enquanto esses pensamentos o consumiam por dentro, suava frio, seu coração estava acelerado e sua respiração falha.

    Por mais que ele puxasse o ar para os seus pulmões, o mesmo parecia desaparecer durante o caminho.

    Colocando uma mão sobre seu peito, ele pôde sentir a forma como o seu coração pulsava descontroladamente.

    Ele tentou se acalmar, a imagem de Selena veio em sua mente, antes que ele pudesse ter qualquer reação, a visão dela se distorceu, seus olhos sangravam, e sua boca abriu em proporções inumanas.

    “Você falhou comigo Trevor, e pensar que você deixaria uma criança sofrer dessa forma, eu tenho vergonha de você”

    “Me perdoe… eu não queria”

    De repente, quebrando seus pensamentos mórbidos, ele sentiu alguém cutucando a sua perna.

    — Sir Trevor, você está bem?

    Trevor olhou na direção da voz, seus olhos se estreitaram.

    Era Kassandra, a filha do rei. Ela parecia ter por volta da idade de Morpheus, Trevor deduziu que ela era um pouco mais baixa que o mesmo.

    Ao ver a carranca de Trevor, a garota se escondeu atrás da porta de onde aparentava ter saído, deixando apenas seus olhos verdes para fora, suas sardas emolduravam eles.

    — Sir Trevor está me assustando…

    Ele respirou fundo, logo em seguida pareceu se situar, se encontrava no último andar do castelo, infelizmente, ele havia dado o azar de ter um colapso na frente do quarto da princesa.

    “Como diabos eu andei tanto assim sem perceber?” Ele pensou.

    Suavizando sua expressão, ele se aproximou de Kassandra.

    — Me desculpe Milady, eu estava apenas um pouco tenso por conta do treinamento, não era a minha intenção assustar você.

    — Huh! — Ela bufou, mas não conseguiu ficar brava com ele por muito tempo — O que você está fazendo aqui?

    — Eu, hum… acabei ficando um pouco exausto e fui dar uma volta pelos corredores, acho que estava tão exausto que acabei não olhando para onde eu estava indo, peço desculpas pela intromissão milady.

    Kassandra saiu da parte oculta da porta.

    — Você sabe que cavaleiros não podem passar por aqui né? Se o papai descobrir você vai estar encrencado. — Ela cruzou os braços, esperando a resposta dele.

    — Eu sei, eu sei.

    A garota andou para fora do quarto e olhou para os dois lados, confirmando que não parecia ter ninguém por perto, ela se virou para Trevor.

    — Bom, Sir Trevor, para a sua sorte eu tenho uma tentativa infalível para escapar — seus olhos verdes brilhavam conforme ela se aproximava da janela do quarto — você poderá ver, desde que não conte para ninguém, okay?

    — Tudo bem, eu acho…

    Ao se aproximar de onde Kassandra estava, ele viu inúmeros lençóis entrelaçados.

    — Essa é a minha corda para a liberdade. Basta você jogá-la pela janela que A-ha, você estará livre. Legal não é?

    — Eu não sei se isso é uma boa ideia — Trevor olhou para baixo, a parte do castelo onde estavam era incompreesivelmente alta.

    — Como não?! Com ventus e se aproveitando das rochas sobressalentes e fissuras presentes no decorrer dessa torre, é sim possível. Observe — Com um leve gesto de mão, as janelas se abriram. — Posso utilizar isso para amortecer a queda caso seja necessário.

    — Desde quando você aprendeu a fazer isso? — Trevor perguntou com genuína curiosidade.

    — Isso não é da sua conta.

    Assim como Kassandra afirmava, não seria impossível, porém, a altura continuava sendo o motivo dele não confiar tanto no plano dela.

    — Eu passo — Ele se distanciou da janela e saiu do quarto — vou apenas voltar pelo caminho de onde eu vim. E… tente nunca fazer isso, pelo seu próprio bem.

    — Covarde! Como ousa me trair, você seria a minha cobaia perfeita.

    — Eu vou apenas fingir que não vi isso.

    Kassandra bufou, estava decepcionada com a atitude de Trevor.

    — Faça como quiser.

    Conforme ele voltava a andar pelos corredores, o silêncio reinou novamente.

    Seus pensamentos dessa vez se ocuparam com Kassandra, ela era uma criança difícil de lidar, rebelde, pavio curto e explosiva, o completo oposto de Morpheus.

    Contra a sua vontade, sua mente voltou para o garoto. Ele se perguntou se, em outras condições, se as pessoas não enxergassem Morpheus daquela forma, eles poderiam ser amigos.

    Quando ele finalmente chegou nos portões do castelo, viu o pôr do Sol no horizonte, sob as muralhas do reino.

    “Dia cheio…”

    Logo abaixo de seus pés, ou melhor, nas profundezas do castelo. Morpheus e Lucius estavam em silêncio.

    Morpheus encarava o teto, absorto em devaneios.

    Lucius por outro lado, aparentava ter pegado no sono.

    “O que separa um sobrevivente de um adepto às artes da espada, é a mente” essa frase de Trevor martelava em sua cabeça.

    Lucius estava ensinando a Morpheus como sobreviver, mas Trevor havia ensinado para ele como ser um “verdadeiro espadachim”, mas, existia mesmo uma diferença entre os dois?

    No fundo, ambos não lutam para proteger a própria vida?

    Na realidade, Morpheus nem sabia se ele queria ser um espadachim, nem se queria lutar, a simples ideia de matar alguém causava arrepios em sua espinha.

    Ao mesmo tempo, ele sentia ódio o suficiente para cometer tal ato.

    Mas será que o ódio justifica finalizar outra vida?

    Morpheus se lembrou de uma frase havia lido em um livro: “Há pessoas que mereciam viver e estão mortas. E pessoas que mereciam morrer e continuam vivas.”

    Ele não se sentia no direito de julgar se alguém deveria morrer ou viver. Porém, não era isso que o mundo fez com ele? Não era isso que o rei tinha feito com Dália?

    Porque, então, se dar ao trabalho de pensar moralmente?

    Neste instante, ele se lembrou de algo.

    “Nunca perca o que te faz ser você”

    Mas quem era Morpheus? Tudo o que ele havia aprendido fora contestado e tirado dele pelo mundo. Ele não queria ser um guerreiro que lutava por vingança, não queria ser um monstro que ditava as regras do mundo, simplesmente… queria Dália de volta.

    Uma pequena lágrima escapou de seu olho.

    No meio dessa dualidade interna, uma palavra veio a cabeça dele, “grei”.

    Uma grei era o local onde viviam outros octavianos como ele, outras pessoas que também recebiam um estigma pelo mundo.

    Talvez ele encontrasse algo diferente lá, algo que não fosse simplesmente aceitação ou rejeição, mas… outras pessoas que, assim como ele, também haviam sido injustiçadas pelo mundo.

    — Ei, Lucius.

    Nenhuma resposta.

    — Sei que você não está dormindo, consigo escutar sua respiração de velho daqui.

    — Seu patife, então você criou coragem, ein?!

    Morpheus deu uma leve risada antes de prosseguir.

    — Você pode me contar mais sobre uma grei?

    — Bem… por onde eu começo — Ele alisou a barba — como você sabe, nós, os octavianos, somos rejeitados por todos os lugares onde a oligarquia divina é a principal religião. Naturalmente, nosso povo se tornou uma população nômade, espalhados por todo o continente, sobrevivendo por um triz, os grupos nômades são o que denominamos de grei.

    Lucius fez uma pequena pausa.

    — Continue, por favor.

    — Entretanto, existe um lugar onde esse preconceito não ocorre, o império de Eldrinmor, ele é neutro perante a nossa existência, por isso, se torna possível viver uma vida normal nele.

    — E porque as greis nômades simplesmente não vão morar lá?

    — Garoto, você é tão ingênuo assim? Acha mesmo que os elfos simplesmente deixariam humanos viverem sob seu teto tão levianamente? Principalmente com as tensões recentes entre o império de Anor e Eldrinmor, acima do preconceito e benevolência, existe o dinheiro, meu jovem. Nunca se esqueça disso.

    Morpheus ficou pensativo, ele não havia cogitado dinheiro na equação, de fato, abrigar milhares de humanos por benevolência simplesmente porque o seu lugar de origem não os aceitava, era uma ideia um pouco utópica demais.

    — Mas, existe um lugar, onde é passado de geração em geração como sendo o paraíso para nós.

    — E onde seria isso?

    — O deserto de Kalamar.

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