CAPÍTULO 6: A Espada no Vazio
Kendrick, mesmo após ser baleado diversas vezes não morreu imediatamente. Sua consciência conseguiu se manter por um pequeno tempo, e nesse pequeno tempo coisas que ele nunca havia notado antes passaram a ser visíveis para ele.
Coisas como o som da chuva que continuava caindo do lado de fora da loja, o impacto das gotas contra o asfalto e o som do vento contra as vidraças, tudo deveria soar reconfortante.
Mas parecia apenas cômico e cruelmente irônico.
Uma brisa gelada entrou pelas portas abertas, às mesmas portas pelas quais Victor e Stella tinham acabado de fugir, mas após perder tanto sangue Kendrick mal podia sentir a friagem.
O sangue já tinha se tornado uma enorme poça sob suas costas e ainda se misturava às bebidas derramadas, e aos cacos de vidro das garrafas quebradas.
Um cheiro metálico insuportável impregnava o ar.
A pior parte era continuar consciente; sentindo toda aquela dor, pensando sobre tudo que acontecera durante a vida, e a tristeza de ter um fim tão patético.
O som da moto de Victor e Stella já tinha desaparecido sob a tempestade, mas Kendrick continuava desejando, com tudo o que ainda restava dentro de si, ter força suficiente para se levantar mais uma vez.
E impedir que tudo terminasse daquele jeito. Morrer ali, jogado no chão de uma loja de conveniência por causa dos dois, era inaceitável.
Victor já o tinha humilhado uma vez. Stella já o tinha abandonado também. E agora os dois tinham decidido que também ficariam com sua vida.
Ele se recusava a deixar que seu último momento de existência fosse apenas outra vitória para as pessoas que já tinham pisado em seus sentimentos.
A realidade, porém, não se importava com sua recusa.
A dor no peito virou um peso profundo e esmagador, tornando cada tentativa de respirar mais fraca que a anterior… As luzes fluorescentes do teto pareciam distantes… As prateleiras se deformavam diante de seus olhos. E os produtos espalhados pelo chão perdiam contorno, tornando-se manchas coloridas em um mundo cada vez menos reconhecível.
Suas mãos e seus pés formigavam. Os sons chegavam altos e distorcidos. Mesmo assim, ainda conseguia ouvir os gemidos do caixa, baleado no ombro.
O homem se arrastou para fora de trás do balcão e caiu de joelhos ao lado dele.
— Ei… ei, cara! Aguenta firme aí! — disse, pressionando o próprio ferimento com uma mão enquanto tentava segurar o celular com a outra. — A ajuda vai chegar logo! Você precisa resistir, tenta não dormir!
Kendrick tentou virar seus olhos na direção do homem, mas já não possuía controle sobre o próprio corpo.
Quis dizer ao homem para que se preocupasse em cuidar do próprio ombro antes de se preocupar com alguém que já tinha três balas cravadas no peito.
Porém nenhum som saiu de sua boca.
Sua garganta estava totalmente seca, seus pulmões queimavam. E até abrir a boca parecia exigir uma força que já não possuía.
Do lado de fora, algumas pessoas começaram a se aproximar. Primeiro, apenas sombras sob guarda-chuvas. Depois, rostos assustados tentando enxergar através das vidraças molhadas.
Um homem caminhou até a entrada, confuso, talvez imaginando que tudo aquilo não passasse de uma briga comum.
Então, viu o sangue.
Viu o caixa segurando o ombro ferido.
Viu Kendrick estendido no chão.
Seu rosto perdeu a cor.
— Puta merda, santo deus…
Dando um passo para trás, levou as mãos à cabeça.
— Alguém ligue para a polícia! — gritou, virando-se para as pessoas no estacionamento. — Tem duas pessoas baleadas aqui dentro! Chamem uma ambulância!
O tumulto cresceu rapidamente. Vozes assustadas invadiram a cabeça de Kendrick: alguém perguntava quem tinha atirado; outro queria saber se o agressor ainda estava ali. Celulares saíam dos bolsos, passos corriam pelo piso molhado e gritos se misturavam à chuva.
Tudo se transformava em ruídos intensos que penetravam seus ouvidos como agulhas.
Kendrick tentou fechar os olhos, não conseguiu saber se realmente os tinha fechado ou se sua visão apenas estava se apagando sozinha.
Sua mão direita já não respondia… A esquerda também começava a perder força.
Sua mente voltou para a sacola de pães caída perto da entrada, para o bolo torto, para as velas e para o pedido idiota que tinha feito havia tão pouco tempo.
“Só um pouco de paz”
A vontade de rir surgiu em algum canto de sua mente, mas até aquilo doía.
Então, em meio ao caos, ouviu a porta da loja abrir novamente.
Passos apressados se aproximavam, eles não eram estranhos por algum motivo.
O posto não ficava longe do restaurante; talvez tivessem ouvido os gritos ou alguém tivesse corrido até eles. Ou talvez o destino só fosse cruel o bastante para fazê-los chegar a tempo de vê-lo daquele jeito.
Uma voz chamou seu nome, contida e dura, tentando desesperadamente permanecer firme.
— Kendrick!
O coração dele se apertou em um amargor intenso… Aquela voz pertencia ao velho senhor Marcos.
Entre os borrões de sua visão, Kendrick conseguiu distinguir uma silhueta correndo em sua direção e caindo de joelhos ao seu lado.
Marcos o examinou de cima a baixo. Por um único instante, ficou completamente paralisado. Seu rosto endureceu, seus olhos se arregalaram e algo dentro dele pareceu quebrar.
— Não… — murmurou.
Num movimento brusco, virou-se para o caixa e para o homem que tinha chamado ajuda.
— A ambulância foi chamada? Eles vão demorar?
— Já ligaram! — respondeu o homem, visivelmente abalado. — Disseram que estão vindo! A polícia também!
Ao voltar o olhar para Kendrick, toda a firmeza da voz de Marcos parecia sustentada por um fio fino.
— Kendrick… você está me ouvindo?
Ele abriu a boca, mas nenhum som saiu. Queria responder que ainda estava ali, mas nenhum som se manifestou pela sua garganta.
Então, outra voz conhecida ecoou pela loja.
— Nem ferrando, cara…
Era Matheus.
Entrou correndo, quase escorregando no piso molhado. Ainda usava parte do uniforme do restaurante, e seus cabelos estavam encharcados pela chuva.
Quando viu Kendrick caído sobre o próprio sangue, seu rosto perdeu completamente a cor.
— Não…
Deu mais um passo.
— Não, não, não…
Matheus correu até ele e caiu de joelhos ao lado do pai. Suas mãos tremiam. Tentou tocar Kendrick, tentou segurá-lo pelos ombros ou fazer qualquer coisa que parecesse ação, que parecesse ajudar, que parecesse menos inútil do que ficar ali assistindo.
Marcos o segurou imediatamente.
— Pai, me deixa ajudar o Kendrick! — Matheus gritou, tentando se soltar. — Ele vai morrer assim! A gente tem que fazer alguma coisa! O carro está lá fora! Vamos levar ele para o hospital!
— Matheus, não! — Marcos respondeu, contendo o filho com força. — Se você mexer nele agora, pode piorar tudo! A ambulância já está vindo! Isso é serviço para os paramédicos!
— Merda, pai! — A voz de Matheus se quebrou. — Olha para ele! Olha para o Kendrick!
O pai não respondeu, não precisava, já estava olhando desde que tinha chegado… E talvez esse fosse o problema.
— Quem fez isso com ele? — Matheus continuou, agora chorando sem conseguir impedir. — Ele era um cara tranquilo! Ele nunca arrumava problema com ninguém! Então por quê? Por que fizeram isso com ele?
Os olhos de Marcos permaneceram presos em Kendrick, molhados e impotentes.
— Eu não sei, filho… — disse, por fim, com a voz baixa. — Eu não sei.
Matheus apertou os dentes. Puxando o filho para perto, Marcos tentou contê-lo, impedir que aquele desespero o fizesse agir sem pensar.
— Eu sei o que você está sentindo — continuou. — Eu também estou desesperado. Eu também quero fazer alguma coisa. Mas, se errarmos agora, podemos tirar dele a única chance que ainda resta.
Matheus tentou respirar, mas não conseguiu.
Virou-se novamente para Kendrick e agarrou sua mão.
— Ei, Kendrick! — gritou. — Aguenta, cara! Você precisa sair dessa! Está me ouvindo? Você precisa sair dessa, irmão!
Irmão.
A palavra alcançou Kendrick como um eco distante.
Porém ainda assim, o alcançou.
Ele queria apertar a mão de Matheus… Queria fazer alguma piada idiota sobre a cara de choro dele, queria dizer que aquilo não era nada, que no dia seguinte, estaria novamente no restaurante, atrasado, cansado, ouvindo Marcos reclamar enquanto Matheus inventava alguma desculpa ridícula para defendê-lo.
Queria muito dizer isso…
Mas nada em seu corpo respondia.
Foi então que ouviu as sirenes, mais próximas, fortes, reais.
A polícia… A ambulância, talvez as duas. Ele já não sabia dizer.
Seu coração batia lentamente dentro do peito. Cada pulsação parecia mais fraca que a anterior.
Tum.
Tum.
Tum.
Havia algo profundamente humilhante em sentir o próprio corpo desistindo.
Nesse instante, algo estranho chamou a atenção de Kendrick.
Acima das luzes fluorescentes da loja, uma espécie de fuligem negra começava a se espalhar pelo teto. No início, pensou que fosse apenas sua visão falhando, uma sombra criada pelo sangue perdido ou uma ilusão causada pela morte se aproximando.
Mas não era.
Aquela coisa se movia.
Deslizava lentamente sobre o teto, alongando-se em formas finas, semelhantes a dedos ou tentáculos silenciosos. A fuligem cobriu uma lâmpada. Depois, outra. Começou a ocupar as paredes, os cantos, as prateleiras.
Ela estava vindo em sua direção.
Uma onda de frio atravessou o corpo de Kendrick.
Droga…
Então era mesmo o fim?
A morte não estava mais apenas escondida na fraqueza de seu coração. Não estava apenas no sangue espalhado pelo chão. Ela estava ali: visível, observando-o, descendo lentamente sobre ele.
O senhor Marcos segurou uma das mãos de Kendrick, procurando seu pulso e tentando aquecê-la entre os próprios dedos.
— Ei! Kendrick! — gritou. — Fica comigo! Está me ouvindo? Fica comigo!
Os gritos de Matheus se misturavam às sirenes. A ambulância finalmente parou em frente à loja. Matheus soltou a mão de Kendrick e correu em direção à entrada.
— Aqui! Rápido! Por favor! Ele está aqui dentro!
Marcos permaneceu ajoelhado ao lado dele. Por um momento, pareceu muito mais velho, como se aqueles poucos minutos tivessem arrancado anos de seu rosto.
Então, com a voz baixa e destruída, murmurou:
— Me perdoa…
Kendrick ouviu, mesmo em meio a todos os ruídos, mesmo com a própria vida escorrendo de dentro dele.
— Eu não consegui manter nem uma mísera promessa…
As palavras de Marcos, sempre firmes, sempre seguras, carregavam algo que Kendrick nunca quis ouvir naquela voz.
Culpa, fracasso e dor.
Ele queria dizer que estava tudo bem. Que Marcos não precisava pedir perdão. Que havia feito mais por ele do que qualquer outra pessoa.
Queria dizer que o restaurante, as broncas, o prato de comida, as conversas bobas e aquele pequeno aniversário improvisado tinham sido importantes.
Tinham sido preciosos e que haviam salvado uma parte dele… Mesmo que, no fim, não tivessem conseguido salvar sua vida.
Mas Kendrick já havia passado do ponto de retorno.
A polícia e os paramédicos entraram pela porta. Com passos apressados. Deram ordens gritadas. Uma maca entrou correndo sendo empurrada entre as pessoas.
Mãos tentando afastar Marcos.
Tudo rápido demais, porém tarde demais.
Com o último lampejo de força que ainda possuía, Kendrick ergueu lentamente uma das mãos em direção ao rosto do senhor Marcos.
Seus dedos tocaram a pele dele, sentiram a barba áspera, o calor e as lágrimas silenciosas escorrendo por seu rosto.
Kendrick sorriu.
Um sorriso fraco, pequeno, quase inexistente.
Mas verdadeiro.
Marcos arregalou os olhos e segurou sua mão com ainda mais força.
— Não… — Sua voz desmoronou. — Não faz isso comigo, garoto… Não se despede de mim desse jeito…
Os paramédicos se ajoelharam ao redor de Kendrick. Um deles dizia alguma coisa sobre o pulso. Outro tentava afastar Marcos. Alguém rasgou parte da camisa de Kendrick. Alguém pressionou seu peito.
Mas as vozes já não significavam nada.
A fuligem negra tinha crescido o bastante para cobrir praticamente toda a loja. Envolveu as luzes, engoliu os sons, cobriu as pessoas, Marcos, Matheus, os paramédicos, a chuva, o sangue e o cheiro de poeira molhada.
Tudo desapareceu dentro daquela sombra.
Tudo parecia uma ópera encenada lentamente diante de seus olhos: triste, bela e terrivelmente injusta.
Então, a fuligem o tocou.
Era um abraço gelado, desconfortável, mas estranhamente acolhedor. A visão de Kendrick se fechou em uma escuridão profunda, e o mundo ficou em silêncio.
Não havia dor, nem havia chuva, não havia balas perfurando seu peito, nem havia o chão frio da loja, não havia sequer um corpo.
Kendrick se encontrou em um lugar escuro.
Sem chão, sem céu, e sem direção alguma.
Não era apenas escuridão, mas ausência: um espaço em que o tempo, a matéria e a distância não pareciam existir, vazio a ponto de sua própria presença parecer esquecida.
Por um momento, não soube se ainda conseguia pensar. Não sabia se estava morto, se aquilo era morrer ou se havia algo dele restando ali.
Então, uma sensação familiar o atingiu.
Alguma coisa estava naquele vazio e o chamava sem palavras ou som algum. Era uma atração profunda, uma presença que algo escondido dentro dele reconheceu antes mesmo que sua mente a compreendesse.
Kendrick tentou resistir, mas não sabia a quê e nem sabia por quê.
A força que o puxava não se importou com sua vontade. Era absoluta, indiferente a qualquer tentativa de fuga.
Então, ele teve um vislumbre.
No meio daquela ausência, uma luz branca, suave e familiar envolvia uma espada. A mesma espada de seu sonho. A lâmina longa e impecável. A empunhadura branca, semelhante ao marfim, ornamentada por delicados detalhes dourados. A mesma presença divina. A mesma atração impossível de ignorar.
Algo dentro dele estremeceu: medo, reconhecimento, saudade. Uma emoção sem nome.
A espada pairava no interior de uma penumbra circular, semelhante a um domo criado no meio do nada. Tudo ao redor era vazio.
Ali, porém, havia existência.
Quanto mais Kendrick tentava resistir, mais aquela espada o puxava, até que simplesmente não conseguia mais lutar.
Sua consciência foi arrastada em direção ao domo. Ao se aproximar, uma força brutal o atingiu.
A mesma força que o tinha repelido no sonho.
Alguma coisa naquele vazio não queria que ele alcançasse a espada. Mas, dessa vez, outra força resistia: intensa, desesperada, vinda da própria lâmina e, de alguma maneira impossível, de dentro dele.
A barreira tremeu.
Kendrick sentiu que estava sendo esmagado entre duas vontades enormes demais para compreender: uma tentando afastá-lo, outra implorando por ele.
Então, a resistência cedeu.
Sua mão envolveu a empunhadura branca.
No mesmo instante, um reflexo brilhou sobre a lâmina, e a luz explodiu.
Branca, dourada e azul… Tudo e nada ao mesmo tempo.
A claridade atravessou o que restava de Kendrick. Não apenas seu corpo, nem apenas sua consciência.
Sua essência.
Cada fragmento de seu ser foi preenchido por aquela presença, arrancado de sua forma anterior e rearranjado por alguma coisa que não obedecia às leis de seu mundo.
Era como se a espada procurasse algo dentro dele: algo enterrado, adormecido, uma coisa que sempre estivera esperando por aquele instante.
Então, encontrou.
Kendrick tentou gritar, mas já não possuía voz. Tentou soltar a espada, mas já não sabia onde terminava sua mão e onde começava aquela luz.
Não era dor nem prazer.
Alguma coisa dentro dele foi aberta. Alguma coisa em seu interior respondeu. E, antes que pudesse compreender, tudo aquilo que Kendrick era tinha sido alterado de uma maneira que palavras humanas jamais conseguiriam explicar.
A espada não havia apenas tocado sua essência, ela tinha deixado algo nela.
Algo vivo, impossível de separar.
No instante antes de sua consciência desaparecer outra vez, Kendrick compreendeu apenas uma coisa:
Aquela espada finalmente o havia alcançado.
E ele jamais voltaria a ser o mesmo.

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