Os sacerdotes começaram a se retirar em pequenos grupos, murmurando orações em voz baixa.

    Os guardas permaneceram imóveis, segurando suas lanças.

    Servos surgiram pelas laterais do salão para recolher os objetos usados durante o ritual, reorganizando tudo com naturalidade.

    Como se uma mulher não tivesse acabado de ser marcada à força diante deles.

    Respirando fundo, Stella ergueu o olhar.

    O imperador ainda estava inclinado no trono inferior. Não se ajoelhou quando Aurelius proclamou a glória de Lúmenus, nem demonstrou fé ou emoção pela chegada da heroína. Desde o início, apenas observou tudo com cautela e controle, medindo cada reação, cada medo e cada fraqueza.

    Seu olhar já não carregava qualquer solenidade religiosa. Era o olhar de alguém avaliando o valor de uma arma recém-adquirida.

    — Grande heroína — começou, em um tom calmo. — Para o Sacro Império de Lúmenus, é uma honra incalculável contar com sua força.

    Stella não respondeu de início… Ainda tentava organizar tudo o que tinha lhe acontecido.

    Era informação e peso demais para uma única noite.

    O imperador se levantou do trono e abriu os braços.

    — Naturalmente, compreendo que esteja confusa. Foi arrancada de seu mundo e colocada diante de uma missão grandiosa sem qualquer preparação. Portanto, Lúmenus lhe dará tudo aquilo de que precisar.

    Descendo um dos degraus do altar, continuou:

    — Moradia digna da realeza. Alimentação da mais alta qualidade. Servos. Recursos. Armas. Equipamentos. Vestimentas adequadas à sua nova posição.

    Então, desceu mais um degrau.

    — Além disso, colocaremos à sua disposição os maiores mestres de todo o continente. Você será treinada em esgrima, magia sagrada, controle de âmago e combate real. Terá acesso aos instrutores da Academia Real Astradominos, a instituição mais prestigiada de toda Thelya.

    Os dedos de Stella percorreram a marca em seu pescoço.

    A queimação havia diminuído bastante desde o início.

    Ao alcançar o piso principal do salão, o imperador deixou sua voz perder parte da formalidade. Adotou um tom mais suave, quase paternal.

    — Não lhe peço que aceite tudo isso por mim. Nem mesmo pelo papa Aurelius. Peço apenas que pense nas incontáveis vidas que dependem de sua existência. Sem você, a grande heroína, este continente estará condenado.

    Era um belo discurso humano, quase comovente, mas justamente por isso perigoso.

    Stella conhecia bem aquele tipo de voz. Era a voz de quem estendia uma mão apenas para prender uma corrente com a outra.

    Reunindo forças, ela se levantou. Suas pernas ainda tremiam, mas não daria a ele o prazer de continuar olhando para baixo.

    — Majestade… — começou, mantendo a voz controlada. — Como espera que eu me torne uma heroína assim?

    O homem arqueou levemente uma sobrancelha.

    — Não compreendo sua dúvida.

    — Eu acabei de chegar a este mundo. Não conheço suas nações. Nem sua magia. Tampouco conheço seu Deus. Muito menos essa Serafina.

    Levando a mão à própria garganta, Stella sentiu a marca pulsar sob seus dedos.

    — Mesmo que alguma força tenha sido colocada dentro de mim… ainda sou fraca. Como esperam que eu enfrente uma criatura que o continente inteiro parece temer?

    O imperador sorriu com serenidade, como se esperasse por aquela pergunta.

    — Não precisa se preocupar com isso agora. A força de uma heroína pode ser rapidamente forjada. O potencial dentro de você é muito maior do que imagina.

    Lentamente, começou a caminhar ao redor dela.

    — Com os recursos de Lúmenus, você crescerá. Aprenderá. Evoluirá. Até estar pronta para enfrentar aquela criatura.

    Parou diante dela.

    — Serafina.

    O nome voltou a pesar o clima no salão.

    Stella ficou em silêncio.

    Dando-lhe as costas, o imperador começou a caminhar pelo tapete vermelho.

    — A tirania daquela déspota não pode mais ser tolerada. Serafina destrói reinos por capricho ou os escraviza, exigindo tributos absurdos apenas para permitir que continuem existindo.

    Sua voz ecoou entre as colunas.

    — Há sessenta e sete anos, ela entrou em conflito com outra Dungeon Lord na Península Élfica. Para criaturas como eles, as nações humanas são apenas brinquedos que lhes convêm. Cidades foram apagadas do mapa. Florestas ancestrais queimaram por dias. Os sobreviventes enfrentaram fome, doenças e invasões de outras nações mais fortes.

    Então, virou-se para Stella.

    — Milhões morreram naquele evento.

    Um vazio se abriu no estômago dela.

    Milhões.

    Uma criatura capaz de destruir uma região inteira. Uma criatura que, supostamente, ela deveria derrotar.

    Por um instante, o medo rompeu suas defesas. Ela quis negar, quis bradar que não pedira para morrer nem para despertar em outro mundo carregando a esperança de desconhecidos.

    Então, imagens de sua antiga vida surgiram em sua mente… A moto… A polícia… Victor… O sangue… Kendrick caído no chão. Tudo misturado à pobreza e ao medo constante de ser descartada.

    A vida inteira, ela lutou por migalhas.

    Voltar para quê? Para um mundo em que morreria sendo ninguém? Para uma existência em que precisava se humilhar diante de pessoas que nasceram com tudo o que ela nunca teve? Para Victor?

    Para o olhar de Kendrick?

    Seu peito apertou com a última lembrança dele vindo em sua cabeça, mas, antes que pudesse afundar nela, Stella desviou o pensamento.

    Não…

    Jamais.

    Aquela vida já tinha terminado. E, mesmo que alguém lhe oferecesse a chance de retomá-la, ela não aceitaria.

    Tinha morrido no asfalto como uma criminosa em fuga. Agora, homens poderosos a chamavam de escolhida, tinham reconstruído seu corpo, colocado poder dentro dela e prometido riqueza, armas, treinamento e importância.

    Talvez aquilo fosse uma armadilha… Talvez todos ali só quisessem usá-la.

    Mas Stella sobrevivera tempo demais sendo usada para esquecer uma regra simples: uma peça só é descartável enquanto não conhece o próprio valor.

    Ela ergueu o olhar.

    — Majestade… reconheço minha fraqueza. Também reconheço que, neste momento, não possuo conhecimento suficiente para questionar a ameaça representada por Serafina.

    Um sorriso discreto surgiu no rosto do imperador. Era exatamente o tom que ele esperava ouvir.

    Stella continuou:

    — Mas, se este mundo realmente precisa de mim… então aceitarei fazer algo por ele.

    O sorriso dele se ampliou.

    — Sábia decisão, heroína. Posso garantir que não se arrependerá de…

    — No entanto — ela o interrompeu.

    O sorriso do imperador desapareceu. Aquele salão enorme pareceu prender a respiração com ele.

    O coração de Stella acelerou. Ela estava assustada e perdida, com a morte recente ainda grudada à carne reconstruída, mas medo e fraqueza nunca lhe deram nada.

    Aceitar tudo em silêncio seria apenas permitir que aqueles homens colocassem uma nova coleira em seu pescoço. Uma coleira mais bonita do que todas as anteriores, mas ainda assim uma coleira.

    — Eu aceitarei ser a heroína deste mundo — disse ela. — Mas não farei isso em troca de uma cama confortável, boa comida ou algumas moedas.

    Os olhos do imperador se estreitaram.

    — Meça suas palavras, jovem.

    Stella ignorou o aviso.

    — Toda promessa tem um preço, Majestade. E o senhor, como imperador, deve saber melhor do que qualquer pessoa que o preço por salvar milhões de vidas não pode ser pequeno.

    O ar do salão se tornou mais pesado. Alguns guardas apertaram as mãos sobre as lanças.

    Ainda imóvel, o imperador respondeu:

    — Diga o que deseja.

    Stella respirou fundo… Ali estava sua chance.

    Talvez a única chance verdadeira que teria naquele mundo.

    — Caso eu derrote Serafina, quero fundar meu próprio reino.

    O choque atravessou o salão. Nobres começaram a murmurar entre si. Um dos guardas chegou a avançar meio passo, mas recuou ao receber um gesto discreto do imperador.

    Ela continuou:

    — Quero ser uma entre os poderosos, quero ser uma rainha. Quando Serafina for derrotada, quero que o Sacro Império de Lúmenus reconheça meu direito sobre parte das terras atualmente dominadas por ela.

    O imperador permaneceu em silêncio, mas seu rosto endureceu.

    — Você acabou de chegar a este mundo — disse ele, num tom perigosamente baixo. — Não conhece nossas fronteiras… Não conhece nossas leis nem conhece sequer a extensão da própria força.

    Avançou um passo.

    — E ousa exigir um reino?

    O medo pulsou no estômago de Stella. Ainda assim, ela sorriu.

    — Considerando como fui recebida, a importância política de Lúmenus deve ser grande. Talvez central neste continente, já que vocês mesmos se denominam um Império.

    Erguendo levemente o queixo, prosseguiu:

    — Se vocês realmente possuem autoridade para me transformar na esperança deste continente, acredito que reconhecer uma nova rainha após a derrota da maior inimiga de vocês não seja impossível.

    A mão do imperador se fechou. Pela primeira vez desde o início da conversa, ele demonstrou desconforto.

    Tinha percebido algo durante todo aquele alvoroço.

    Stella não era uma jovem inocente que cairia de joelhos em gratidão por receber roupas, comida e uma missão sagrada. Ela era uma serpente venenosa e sabia exatamente como os poderosos negociavam.

    Sabia encontrar a fraqueza de alguém e pressionar essa fraqueza até sangrar.

    O silêncio durou alguns segundos.

    Então, o imperador explodiu de raiva.

    — TOLICE! — gritou. — VOCÊ TEM IDEIA DO QUE ESTÁ PEDINDO?!

    Sua voz ecoou por todo o salão.

    — AS TERRAS DOMINADAS POR SERAFINA PERTENCEM POR DIREITO À IGREJA ORTODOXA DE LÚMENUS! FORAM REIVINDICADAS MUITO ANTES DE SUA CHEGADA!

    — NÃO HÁ POSSIBILIDADE ALGUMA DE SUA EXCELÊNCIA AURELIUS ACEITAR UMA EXIGÊNCIA TÃO ABSURDA!

    Os nobres presentes começaram a murmurar entre si.

    Apontando para Stella, o imperador prosseguiu um pouco mais calmo, porém ainda furioso:

    — Você deveria estar agradecida por respirar novamente! Agradecida por receber poder! Agradecida por ter sido retirada de uma morte miserável e colocada diante de um propósito divino!

    Stella ouviu cada palavra, e algo familiar nasceu dentro dela… Isso era raiva.

    A velha raiva de ser tratada como alguém que deveria aceitar qualquer coisa apenas porque recebera o mínimo necessário para continuar existindo.

    — Explique-se! — exigiu o imperador. — Dê-me um único motivo plausível para que uma desconhecida receba o direito de fundar uma nação!

    Ela sustentou o olhar dele.

    — Quer saber o motivo?

    Um sorriso surgiu em seus lábios. Não havia gentileza no sorriso de Stella.

    — Porque eu morri.

    O imperador ficou em silêncio.

    — Eu morri sem ter nada — continuou Stella. — Sem poder, sem importância, sem alguém que realmente fosse me salvar quando tudo acabasse. Passei minha vida inteira vendo pessoas que nasceram acima de mim decidirem quanto eu valia e quanto merecia ter.

    Deu um passo à frente.

    — E agora seu Deus decidiu me escolher.

    Sua mão tocou a runa gravada no pescoço.

    — Não uma princesa… Não uma santa… Não uma nobre criada para sorrir, agradecer e obedecer a ordens.

    Seus olhos se tornaram mais frios.

    — Ele escolheu a mim.

    O salão inteiro a observava.

    — Então, se sou obrigada a lutar por um mundo que não conheço, contra uma criatura capaz de destruir nações, farei isso recebendo algo à altura do risco. Não pretendo morrer uma segunda vez apenas para fortalecer o império de homens que já possuem tudo.

    O olhar do imperador escureceu.

    — SUA INSOLENTE…

    — Isso não é irônico, Majestade? — Stella continuou, sem permitir que ele a interrompesse. — Seu Deus escolheu alguém bem diferente daqueles heróis valorosos e obedientes aos quais vocês devem estar acostumados.

    Inclinando levemente a cabeça, concluiu:

    — Portanto, lembre-se muito bem de uma coisa: sou eu quem realmente tem a escolha aqui.

    O rosto do imperador se deformou em fúria.

    — BLASFÊMIA! — rugiu. — SUA MERETRIZ DISPLICENTE! ACHA MESMO QUE, APÓS CUSPIR SOBRE NOSSO DEUS E NOSSA GENEROSIDADE, ACEITAREI QUALQUER EXIGÊNCIA VINDA DE VOCÊ?

    O sangue de Stella gelou. Sentiu que talvez tivesse ido longe demais. Pensou que talvez pudessem arrancar dela o corpo que haviam acabado de lhe dar antes mesmo que sua segunda vida começasse.

    Mesmo assim, não abaixou a cabeça.

    — Vossa Majestade pode se enfurecer o quanto quiser — disse, controlando a própria voz. — Mas, sem mim, vocês não derrotarão Serafina. Foi isso que o seu papa acabou de declarar diante de todos, não foi?

    Os murmúrios em todo o salão cessaram completamente.

    — Se a escolhida de Deus não vale sequer um trono depois de salvar a todos vocês, talvez não valha tanto assim a pena ser a heroína de vocês.

    Seu sorriso se tornou venenoso.

    — Talvez Lúmenus possa esperar que Deus convoque outro herói mais obediente.

    O imperador bateu o punho contra um dos pilares de pedra. O impacto fez o salão todo estremecer, e o som ecoou como um trovão.

    Durante alguns segundos, sua respiração pesada foi o único som no ambiente.

    Então, ele olhou ao redor. Viu os nobres e sacerdotes restantes, observando-o como serpentes. Viu os guardas em posição de ataque contra Stella.

    As testemunhas de tudo aquilo estavam bem ali.

    A raiva em seu rosto começou a desaparecer, não porque tinha sido controlada, mas porque fora substituída por algo pior…

    Cálculo.

    — Ah, sim… — murmurou. — Devido à sua boca venenosa, acabei me exaltando.

    Lentamente, voltou em direção ao trono.

    — Mas acabo de me lembrar de algo importante.

    Um arrepio percorreu a espinha de Stella.

    O imperador tornou a se sentar, e seu sorriso retornou. Dessa vez, não havia cordialidade alguma nele.

    — Aceitarei suas condições, sua pequena cobra.

    Stella estreitou os olhos.

    — Aceitará?

    — Sim. — Ele apoiou um braço no trono. — Caso derrote Serafina, você receberá terras suficientes para fundar sua nação. Receberá riqueza, reconhecimento e direito ao título de rainha.

    Por um instante, Stella quase acreditou que tinha vencido.

    Então, ele completou:

    — Desde que aceite firmar um contrato de âmago.

    A palavra pesou no salão… Mesmo sem saber exatamente o que significava, Stella compreendeu que aquilo não seria simples.

    — O que é isso?

    O sorriso do imperador se aprofundou.

    — Um pacto absoluto. Firmado perante o mesmo Deus cuja vontade possibilitou sua existência neste mundo.

    Ergueu uma das mãos.

    — O lado que quebrar o contrato perderá o âmago.

    — Âmago…?

    — Sua alma, caso prefira uma palavra simples. Sua identidade. Sua consciência. Seu poder. Tudo aquilo que faz de você quem é.

    A voz dele se tornou ainda mais fria.

    — Se uma das partes violar o acordo, não haverá prisão. Não haverá julgamento. Não haverá fuga. O infrator será destruído em sua essência… E, no seu caso, seu âmago, que contém a essência de uma heroína, será passado a um herdeiro em algum lugar deste mundo.

    Um arrepio atravessou o corpo de Stella. Morrer já tinha sido horrível o bastante; a ideia de ser completamente apagada era diferente.

    Percebendo sua hesitação, o imperador sorriu ainda mais.

    — Se derrotar Serafina, receberá parte das terras sob o domínio dela e os recursos necessários para estabelecer sua própria nação. Lúmenus reconhecerá sua soberania e seu título de rainha.

    Ele ergueu um dedo.

    — Desde que seu futuro reino respeite as exigências da Igreja Ortodoxa de Lúmenus e mantenha uma postura política favorável ao Sacro Império de Lúmenus.

    Stella compreendeu imediatamente.

    Não seria liberdade completa. Eles queriam transformar sua futura nação numa aliada dependente, talvez até numa extensão do próprio império.

    Ela teria uma coroa, mas ainda assim tentariam manter correntes presas a ela.

    Aquilo era mais do que já possuíra em toda a sua antiga vida. Era uma brecha. Um começo.

    E Stella sabia como transformar começos em oportunidades.

    Inclinando-se para a frente, o imperador continuou:

    — Em troca, deverá cumprir a função para a qual foi convocada: crescer sob os recursos de Lúmenus e enfrentar Serafina quando estiver preparada.

    Stella permaneceu em silêncio. O salão inteiro aguardava sua resposta.

    Um contrato em que sua própria alma estava em jogo. Uma missão contra uma criatura que destruía nações por capricho. Um império que claramente pretendia usá-la.

    A escolha sensata talvez fosse recuar, aceitar conforto, aprender mais e esperar por uma oportunidade melhor.

    Mas ela nunca havia conquistado nada esperando que o mundo se tornasse justo.

    Uma risada baixa escapou de seus lábios.

    — Acha graça? — perguntou o imperador.

    — Um contrato apostando a própria alma… — murmurou Stella. — É praticamente uma roleta-russa.

    Ela ergueu o olhar.

    — Mas não tenho mais nada a perder desde que morri naquele asfalto, caro senhor.

    Seu sorriso voltou.

    — Aceito suas condições.

    O imperador a observou em silêncio. Por um instante, algo semelhante à admiração atravessou seu rosto.

    Ou talvez fosse apenas desprezo por encontrar alguém tão ambicioso quanto ele.

    — Muito bem.

    Ele estendeu uma das mãos. Uma luz dourada e púrpura surgiu entre os dois, formando círculos complexos acima do tapete vermelho. A runa no pescoço de Stella ardeu novamente. A dor voltou, forte e cruel, mas, dessa vez, ela permaneceu de pé.

    O brilho se aproximou de seu rosto, e uma dor aguda atravessou seus olhos. Stella cerrou os dentes, recusando-se a gritar diante do imperador.

    Quando a luz desapareceu, uma runa brilhante surgiu nas íris dos dois. Uma marca fina, quase invisível, mas permanente.

    Era um símbolo rúnico. O contrato estava selado.

    Ambos compreendiam a verdade: Stella precisava de Lúmenus para conquistar força; Lúmenus precisava dela para alcançar Serafina.

    Nenhum confiava no outro… E nenhum pretendia continuar submisso após a vitória.

    A caçada à Dungeon Lord tinha começado. Mas Serafina não era a única ameaça naquele salão.

    Assim começou a jornada de Stella como heroína: sem esperança, glória ou pureza, apenas com a fome de alguém que tinha morrido sem possuir nada e recebido a chance de tomar tudo.

    Pouco depois, algumas criadas se aproximaram para conduzi-la até os aposentos preparados para ela.

    Sem protestar, Stella deixou que a guiassem pelos corredores monumentais do palácio.

    Tapeçarias e armaduras douradas decoravam as paredes. Pelas janelas altas, uma cidade grandiosa brilhava sob um céu azulado e desconhecido. Bem longe, além do horizonte, uma árvore colossal, cujo caule sozinho ultrapassava as nuvens, se mostrava atrás de uma cadeia de montanhas.

    Era outro mundo… Uma nova vida…

    Stella sentiu que deveria sentir um pouco de alívio naquele momento.

    Mas, sem aviso algum, uma imagem atravessou sua mente…

    Era um rosto conhecido.

    Um homem caído no chão, sangue se espalhando sob seu corpo, os olhos dele estavam cheios de desprezo voltados para ela.

    O peito de Stella apertou. Seus passos diminuíram por um instante.

    Uma das criadas olhou para trás, preocupada.

    — Está tudo bem, santa heroína?

    Stella piscou.

    O rosto em sua mente já começava a se desfazer. As linhas ficaram turvas, o olhar perdeu a nitidez.

    Ela sabia que aquele homem tinha sido importante, sabia que algo tinha acontecido… Algo bem terrível.

    Mas, de repente, lembrar seu nome parecia mais difícil do que deveria.

    — Estou bem — respondeu, voltando a andar. — Foi apenas uma lembrança estranha.

    A criada abaixou a cabeça e continuou conduzindo-a.

    A mão de Stella subiu até o próprio peito. Havia um vazio estranho ali, pequeno, quase imperceptível, mas real.

    Como se alguma coisa estivesse sendo retirada de dentro dela sem que pudesse impedir.

    Por um momento, tentou novamente alcançar aquele nome.

    A lembrança escapou entre seus dedos.

    E, em algum lugar de sua antiga vida, o rosto de Kendrick começou a desaparecer de sua memória.

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