Heroína?

    Depois de tudo o que tinha acabado de fazer, aquelas palavras só podiam ser uma piada de mau gosto.

    No centro do salão, ela encarava o velho sentado acima de todos os outros. Em sua cabeça, ainda tentava encontrar alguma lógica naquilo.

    Ela tinha morrido, tinha certeza sobre isso.

    E agora estava ali, viva e inteira, mesmo após ter sido atingida por um caminhão em alta velocidade, diante de um homem que acabava de chamá-la de heroína escolhida por Deus.

    — É natural que esteja confusa — continuou o velho, com uma calmaria fria. — Este lugar, esta situação, este novo corpo… tudo deve parecer incompreensível para alguém que acabou de atravessar os portões da morte.

    O sangue de Stella gelou ao ouvir aquelas palavras.

    Ela não estava delirando nem presa aos últimos segundos de agonia antes da morte. Aquele homem sabia que ela tinha morrido.

    — Não se assuste — disse ele, erguendo levemente o cetro dourado. — Sua morte não foi o fim da sua vida; ela foi apenas o começo da sua verdadeira história, minha cara heroína. Sua vinda até nós não foi obra do acaso. Há muito tempo, uma profecia anunciou a chegada de uma nova escolhida, capaz de conduzir este continente à salvação que nosso amado e tão bondoso senhor Lúmenus nos deixou.

    Os olhares ao redor ficaram ainda mais pesados. Todos naquele salão esperavam alguma coisa dela: uma reação, uma reverência ou talvez até lágrimas de gratidão pela oportunidade de ser uma heroína para o Deus ao qual serviam.

    Mas tudo o que Stella conseguia sentir era medo e desconfiança.

    — Onde… — Sua garganta estava seca diante daquela situação tão distante da realidade em que se encontrava. — Onde eu estou?

    O velho sorriu, contendo-se. Não havia gentileza alguma naquele sorriso, apenas a satisfação que um predador revelaria ao encurralar uma presa.

    — No Sacro Império de Lúmenus — respondeu. — O maior bastião da fé verdadeira no continente de Thelya.

    Thelya… Sacro Império de Lúmenus.

    As palavras não tinham sentido nenhum para Stella, mas justamente por isso a atingiram com tanta força. Não era o nome de alguma cidade vizinha nem nada do tipo. Até mesmo a estrutura arquitetônica daquele salão fazia com que ela descartasse a possibilidade de estar em algum lugar na Terra.

    Somente uma ideia parecia fazer sentido naquele momento: aquele lugar não pertencia à Terra.

    Atordoada, Stella voltou a observar o salão… Havia estátuas de guerreiros entre as colunas, vitrais que retratavam figuras envoltas por auréolas douradas, pisando em monstros deformados.

    Os sacerdotes se vestiam com mantos longos, e os guardas permaneciam imóveis, vestidos com armaduras brilhantes.

    O chão frio sob seus pés descalços, a brisa tocando sua pele…

    Tudo aquilo era real.

    De algum modo inacreditável, ela realmente não estava mais em seu mundo.

    Seus dedos tocaram o próprio rosto, depois o pescoço e, por fim, o peito. Não havia sangue, ferimentos ou qualquer vestígio do acidente. Seu corpo ainda era o mesmo, o rosto era exatamente o mesmo, as mesmas mãos, a mesma pele.

    Mas, mesmo sendo a mesma pessoa, algo havia mudado.

    Ela conseguia sentir… Seus músculos estavam mais firmes, seus ossos pareciam mais densos e sólidos. O ar entrava em seus pulmões com uma facilidade extrema, como se o ar daquele mundo fosse mais limpo e carregado de vitalidade.

    Era como se tivesse sido refeita do zero.

    Despedaçada e reconstruída. Cada fibra, cada átomo, tudo da mesma maneira.

    O pensamento causou um calafrio em Stella.

    De cima do altar, o velho acompanhava cada reação dela com atenção. Seus olhos percorriam o corpo de Stella sem vergonha alguma, como se avaliasse a qualidade de uma arma recém-forjada.

    — Preocupa-se com sua segurança? — perguntou ele. — Não precisa. Neste mundo, você foi refeita pela vontade divina. Já não é uma humana comum, mas sim um ser imbuído de luz e poder divino.

    Ergueu o queixo antes de declarar:

    — Você é uma heroína agora… Você é a nossa heroína.

    A palavra voltou a ecoar na cabeça dela.

    Heroína.

    Stella quase soltou um sorriso após ouvir a afirmação do velho homem.

    Quase perguntou se aquele velho tinha alguma ideia do tipo de pessoa que tinha acabado de trazer para aquele salão. Por um instante, quase contou sobre Kendrick, sobre o disparo e sobre o homem que deixara sangrando no chão, a poucos minutos da morte.

    Mas as palavras ficaram presas em sua garganta. Uma parte dela queria que ninguém ali soubesse. Essa parte ainda queria fingir que aquilo não tinha acontecido.

    — Heroína…? — murmurou, sorrindo com ironia. — Deve haver algum engano. Eu sou apenas uma mulher comum. Eu nem sequer…

    Sua voz morreu antes que pudesse terminar.

    Eu nem sequer sou uma pessoa boa, sabe? Fiz algumas escolhas bem terríveis para sobreviver.

    Por um breve instante, o rosto de Kendrick surgiu em sua mente. Caído no chão, com os olhos voltados para ela.

    Seus dedos se apertaram.

    O pontífice inclinou levemente a cabeça. Por um segundo, pareceu menos um sacerdote e mais uma serpente prestes a dar o bote.

    Então, bateu o cetro contra o chão.

    O som explodiu pelo salão como um trovão.

    Uma pressão esmagadora caiu sobre Stella, e seu corpo inteiro ficou rígido. Tentou recuar, mas suas pernas não responderam. Tentou mover os braços… Mas nada aconteceu.

    Era como se alguma força invisível tivesse tomado posse de cada músculo de seu corpo.

    — Deus não erra, jovem tola — declarou o velho.

    Sua voz já não carregava qualquer falsa cordialidade. Carregava apenas a autoridade de alguém que não poderia se importar menos com as dores pessoais de Stella.

    — Sua ignorância sobre o próprio valor não anula a vontade divina. Para nós e para o povo de Lúmenus, você é apenas a heroína. Suas mágoas e erros passados não significam nada para nós. Você precisa apenas servir ao seu propósito, nada mais e nada menos que isso. Posso sentir a energia de seu âmago. Posso sentir o potencial colocado em você. Mesmo que ainda não compreenda quem se tornou, sua existência agora pertence a algo muito maior do que sua antiga vida miserável.

    O rosto de Stella queimou.

    Antiga vida miserável.

    A forma como ele disse aquilo foi insuportavelmente natural. Como se tivesse o direito de resumir tudo o que ela viveu a uma única palavra, como se morrer e acordar ali significasse que agora devia gratidão a homens que nem sequer conhecia.

    O velho avançou um passo. A esfera púrpura no topo de seu cetro brilhou com mais força.

    — Ainda assim, compreendo suas dúvidas — disse ele. — E dúvidas, quando submetidas à autoridade correta, podem ser corrigidas.

    Um sorriso lento surgiu em seus lábios.

    — Permita-me provar quem você realmente é.

    Um impulso violento de fugir atravessou Stella…

    Ela queria fugir daquele homem, ou ao menos arrancar aquela expressão satisfeita do rosto dele.

    Foi tarde demais… O cetro se ergueu.

    E, no instante seguinte, uma dor abrasadora explodiu em seu pescoço.

    — Argh!

    O grito escapou de seus lábios antes que pudesse contê-lo. A sensação era insuportável, como se alguém pressionasse ferro incandescente contra sua carne, mas a dor não parava na pele.

    Ela afundava, atravessando músculos e ossos, alcançando alguma coisa muito mais profunda.

    Stella sentiu que algo estava sendo gravado nela. Não apenas em seu pescoço, mas em sua essência.

    Em sua alma.

    — PARE COM ESSA MERDA! — conseguiu gritar, enquanto suas pernas cediam. — Pare com isso!

    O velho não respondeu. O brilho de seu cetro aumentou, e a dor aumentou junto. O velho homem apenas revelou um sorriso de satisfação brutal, olhando-a com superioridade.

    Caindo sobre um dos joelhos, Stella pressionou uma das mãos contra o pescoço.

    Seus músculos se contraíam sozinhos, e lágrimas encheram seus olhos. Não eram lágrimas de tristeza, mas lágrimas arrancadas pela dor.

    Ao redor dela, ninguém se moveu.

    Nenhum sacerdote demonstrou horror, nenhum guarda avançou para ajudá-la, e nenhum servo desviou o olhar.

    Todo o salão observava seu sofrimento em silêncio, tratando aquela tortura como parte de uma cerimônia sagrada.

    Quando o velho finalmente abaixou o cetro, o sofrimento cessou tão rápido quanto tinha começado.

    Stella caiu com as duas mãos apoiadas no chão, ofegante. Seu corpo tremia. O ar entrava em seus pulmões de forma irregular.

    Com cuidado, levou os dedos ao pescoço. A pele estava quente. Mas não havia queimadura.

    Havia apenas uma marca pulsando sobre sua carne, como se sempre tivesse estado ali.

    Do alto, o velho a observou.

    — Contemple, jovem heroína — proclamou. — O que agora está gravado em seu pescoço é a marca daqueles escolhidos por nosso Deus.

    Sua voz cresceu, preenchendo todo o salão.

    — Glória a Lúmenus!

    Quase todos ao redor se ajoelharam no mesmo instante. Sacerdotes, guardas, servos e nobres curvaram a cabeça diante daquele homem e da marca que ele havia imposto a Stella…

    O homem sentado no trono inferior permaneceu em seu lugar, apenas observando cada acontecimento com cautela.

    Apoiando-se em seu cetro, o velho desceu os degraus do altar. Cada passo era coordenado como parte de uma encenação ensaiada. Um servo intimidador que estava ajoelhado se aproximou e lhe entregou um espelho ricamente ornamentado.

    Parando diante de Stella, o pontífice segurou o espelho próximo ao rosto dela.

    — Veja com seus próprios olhos — disse ele, com uma voz solene. — Esta é a runa divina dos santos heróis. O símbolo da justiça misericordiosa de Deus contra este mundo impuro.

    Stella ainda respirava com dificuldade. Mesmo assim, ergueu os olhos para observar o espelho.

    Lá estava, gravado em seu pescoço: um símbolo claro e inconfundível. Um olho aberto e vigilante, atravessado por uma espada envolta em espinhos.

    As pontas de seus dedos tocaram a marca. Não parecia uma tatuagem, não parecia um ferimento, e nem parecia algo desenhado sobre sua pele.

    Era vívido e pulsante… cravado profundamente, de uma maneira que não poderia ser tirado.

    Era como se aquele símbolo sempre tivesse existido ali.

    O estômago de Stella se revirou. Ela tinha sido reconstruída, marcada por algo desconhecido, transformada em alguma coisa que ainda nem compreendia.

    E ninguém naquele lugar parecia interessado em perguntar se ela aceitava aquilo.

    Antes que pudesse exigir qualquer explicação, o velho se virou para o salão e ergueu novamente o cetro.

    — Esta valorosa heroína foi escolhida para libertar o Sacro Império de Lúmenus daqueles que ousam macular o nome de nosso Deus sagrado!

    O salão inteiro pareceu prender a respiração em união quando o pontífice começou a declarar.

    — Neste mundo, existe uma blasfêmia que se autodenomina a mais poderosa entre os Dungeon Lords! Uma criatura cujo nome faz reis tremerem e nações inteiras pagarem tributos apenas para continuarem respirando sob sua sombra!

    A voz do pontífice ficou mais intensa e fervorosa.

    — Uma inimiga que escraviza povos! Que ceifa vidas! Que transforma reinos em ruínas! Que ousa desafiar a ordem sagrada estabelecida por Lúmenus!

    Os sacerdotes murmuraram orações. Alguns fizeram sinais religiosos diante do peito.

    Com os braços abertos, o velho proclamou:

    — Seu nome é Serafina!

    O nome ecoou pelo salão completamente silencioso.

    Serafina…

    Stella não sabia quem era aquela pessoa, nem sabia o que era um Dungeon Lord, e muito menos sabia por que aquele nome provocava tanto medo nas pessoas ao redor.

    Mas entendeu imediatamente que Serafina era o motivo de sua existência ali.

    O motivo de a terem convocado. O motivo de terem gravado aquela marca em seu pescoço.

    — Serafina é uma afronta ao Deus onipotente! — continuou o pontífice. — Portadora da destruição e do caos! Ceifadora de vidas! Aniquiladora de nações!

    A esfera púrpura sobre seu cetro brilhou mais uma vez.

    — A profecia é clara: caso aquela criatura não seja derrotada, este continente caminhará para o próprio fim, e até mesmo o mundo correrá perigo!

    Então, ele se virou para Stella. Seus olhos se fixaram diretamente nos dela.

    — Portanto, nossa última esperança repousa sobre você, santa heroína.

    Um vazio se abriu no estômago dela.

    Era impossível ignorar aquilo: a morte, o novo mundo, o corpo reconstruído, a marca ainda ardendo em seu pescoço, aqueles homens falando de profecias.

    Stella não sabia o que era verdade, não sabia se Serafina realmente era uma criatura terrível ou apenas uma inimiga conveniente para aquele império.

    Mas sabia uma coisa:

    Naquele momento, não tinha poder algum.

    Estava sozinha… Todos naquele salão já tinham decidido o que ela deveria ser antes mesmo que abrisse os olhos.

    O velho estreitou os olhos, observando-a novamente.

    Stella conhecia muito bem aquele tipo de teatro encenado pelo velho. Era assim que pessoas poderosas falavam quando queriam transformar obediência em privilégio.

    O velho se virou, tratando o assunto todo como encerrado.

    — Tudo o que me foi revelado foi transmitido fielmente. A escolhida chegou. A marca foi concedida, e a missão foi declarada.

    Ele caminhou em direção às grandes portas do salão.

    — Eu, Papa Aurelius Solarius, declaro encerrado este ritual.

    Papa Aurelius Solarius.

    O nome ficou gravado na mente de Stella. Era o homem que a chamara de heroína, o mesmo que queimara uma marca em seu pescoço sem pedir permissão. E era também o homem que falava sobre Deus enquanto a observava como propriedade.

    Antes de atravessar as portas, Aurelius voltou o rosto uma última vez.

    — Concedo ao imperador de Lúmenus autoridade para negociar os termos da permanência da heroína e sua contribuição ao Império.

    Sua boca se curvou em um sorriso sereno e venenoso.

    — Não desperdice a misericórdia que lhe foi concedida, jovem heroína. Poucos recebem uma segunda chance como você. Menos ainda recebem a permissão para torná-la gloriosa.

    As enormes portas se fecharam atrás dele. O eco atravessou o salão de ponta a ponta.

    Durante alguns segundos, ninguém falou.

    Ainda ajoelhada, com a mão sobre o pescoço quente, Stella tentava organizar tudo o que acabara de acontecer.

    Tinha morrido, despertado em outro mundo, sido reconstruída, marcada e nomeada como heroína.

    Entregue a uma missão que não tinha escolhido.

    E, pela primeira vez desde que abriu os olhos naquele lugar, compreendeu algo com absoluta clareza.

    Ela tinha sido escolhida, mas isso não significava que havia sido abençoada.

    O silêncio religioso do salão morreu com a saída de Aurelius, e os nobres voltaram a conversar entre si.

    No trono inferior, o imperador de Lúmenus finalmente se inclinou para a frente. Seu olhar já não carregava reverência alguma.

    A cerimônia havia acabado, mas agora começaria a verdadeira negociação.

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