O suspiro de Stella se misturava ao vento gelado da noite, a chuva escorria pelo visor de seu capacete, distorcendo as luzes da avenida.

    Com força, ela apertou o acelerador da moto, e o motor rugiu, cortando o asfalto molhado, levando-a para longe do posto, dos tiros e do corpo que deixara para trás.

    Mas sabia que não conseguiria fugir de tudo o que havia acontecido poucos minutos antes.

    O som do disparo ainda ecoava em sua cabeça.

    A pressão do gatilho sob seu dedo… O coice da arma… O corpo de Kendrick tombando para o lado.

    E, acima de tudo, aquele olhar. O olhar que Kendrick lançou em sua direção quando percebeu quem havia atirado nele: desprezo e nojo.

    Aquela expressão continuava cravada dentro dela, profunda e agonizante.

    — Merda… merda… merda…

    As palavras escaparam entre seus dentes cerrados.

    Aquilo não deveria ter acontecido daquela forma, pensou, rangendo os dentes um contra o outro.

    Jamais imaginara que acabaria envolvida na morte de alguém, ainda mais de uma pessoa que, um dia, esteve ao seu lado. Uma pessoa que, um dia, acreditou conhecê-la.

    Mas não era culpa dela… Não poderia ser.

    Forçando os olhos para enxergar naquela chuva, tentou manter a atenção na avenida.

    Kendrick tinha avançado sobre Victor, derrubado a arma e apertado seu pescoço com as próprias mãos. O caixa estava ferido, os reféns gritavam, a polícia já devia ter sido chamada.

    Tudo aconteceu rápido demais… e, por isso, saiu completamente do controle.

    Ela apenas fez o que precisava fazer e impediu que Kendrick matasse Victor.

    — Droga… tsc…

    O resmungo escapou um pouco mais alto. Agarrado à cintura dela na garupa da moto, Victor ouviu.

    Seu nariz estava quebrado devido aos socos de Kendrick, e o sangue escorria pelo rosto.

    — O que foi, Stella? — perguntou, irritado.

    Ela não respondeu.

    Victor soltou uma risada debochada e curta enquanto dizia:

    — Não vai me dizer que ficou com dózinha do Kendrick?

    Os dedos dela apertaram ainda mais o guidão.

    — Você precisava mesmo ter atirado mais três vezes? — rosnou, sem diminuir a velocidade. — Eu atirei para tirá-lo de cima de você! Só para acabar com aquela merda toda! Mas você fez questão de terminar tudo da pior forma possível, seu imbecil!

    Por um instante, lançou um olhar rápido para o retrovisor. Algumas viaturas que passavam por ali acenderam os giroflexes quando os notaram subindo a avenida na contramão.

    — A polícia não vai largar do nosso pé tão facilmente agora! — continuou. — Um assalto já seria ruim o bastante. Mas você matou alguém! Você entende o tamanho da merda que fez dessa vez?

    Victor se irritou no mesmo instante.

    — Da merda que eu fiz? — gritou, apertando-se contra ela para não cair com o movimento da moto. — Stella, você é burra ou só gosta de fingir que não tem culpa de nada?

    O maxilar dela travou.

    — Foi você quem puxou a merda do gatilho primeiro! — ele continuou. — Eu só terminei o que você começou!

    — Eu não atirei para matar!

    — Ah, claro. Você atirou nas costas dele por carinho?

    A frase atingiu Stella como um tapa. Por um instante, ela não encontrou resposta.

    Victor riu novamente.

    — Kendrick pediu por aquilo. Da outra vez, eu só mandei dar uma surra nele, e você viu muito bem o que aconteceu hoje. Foi ele quem decidiu bancar o herói. Foi ele quem decidiu vir para cima de mim. Foi ele mesmo quem se matou!

    A voz dele ficava mais alta a cada frase, como se repetir aquelas palavras pudesse torná-las verdadeiras.

    — Meu nariz está quebrado, a polícia está atrás da gente e você ainda quer jogar tudo nas minhas costas? — Victor cuspiu as palavras. — Você tem tanta culpa nisso quanto eu!

    Stella mordeu a língua.

    Ele estava errado.

    Precisava estar errado.

    Ela não tinha matado Kendrick. Victor fez aquilo. Atirou três vezes no peito dele. Cuspiu contra ele. Foi ele quem transformou tudo em algo impossível de consertar.

    Ainda assim…

    Se ela não tivesse disparado o primeiro tiro, Kendrick talvez ainda estivesse vivo.

    O pensamento surgiu rápido, cruel e inconveniente. Stella o esmagou antes que pudesse crescer.

    — Tsc… Chega, Victor. — Sua voz saiu mais fria do que antes. — Não adianta discutir isso agora. A desgraça já aconteceu.

    A única saída dos dois era aquela moto cortando a chuva. Por mais que estivessem em um impasse, naquele momento só podiam confiar um no outro.

    Ou, pelo menos, precisavam fingir que podiam.

    No fim das contas, Kendrick escolheu se envolver… Foi ele quem avançou. Quem provocou Victor. E acabou transformando um assalto em uma tragédia.

    Se tivesse simplesmente ido embora… Se tivesse apenas ignorado tudo… nada daquilo teria acontecido.

    Sim.

    A culpa era dele… Precisava ser dele.

    O rugido do motor aumentou, fazendo o corpo de Stella vibrar. O asfalto se tornou um borrão acinzentado sob as rodas, coberto por uma camada traiçoeira de água.

    As sirenes continuavam atrás deles. Victor gritou alguma coisa que ela não conseguiu ouvir.

    Então, um som atravessou a avenida com violência.

    Uma buzina longa e desesperada ecoou pelo ar.

    Por instinto, Stella ergueu o olhar.

    Uma luz brutal explodiu diante dela, branca e intensa.

    Um caminhão vinha em sua direção.

    — Stella! — Victor gritou, desesperado.

    Ela tentou virar o guidão.

    A moto derrapou.

    Por um único instante, Stella sentiu as rodas perderem completamente o contato com o chão.

    E então o mundo virou.

    O corpo de Victor foi arrancado da garupa. A moto deslizou de lado. Stella foi lançada para a pista.

    O tempo pareceu desacelerar. A buzina soou novamente, profunda e interminável, engolindo qualquer outro som. Ela viu o farol do caminhão se aproximar. Viu a própria mão tentando se apoiar no asfalto. Viu pequenas gotas de chuva suspensas no ar, brilhando sob a luz como fragmentos de vidro.

    Então, o impacto veio.

    O som do metal se despedaçando, o estalo seco dos ossos. Um cheiro forte de combustível, borracha queimada e ferrugem.

    Seu corpo foi lançado com violência contra o asfalto. Suas pernas desapareceram em uma explosão de dor. Não houve tempo para gritar ou pensar.

    Quando percebeu o que tinha acontecido, já estava caída no meio da avenida, olhando para um céu negro coberto pela chuva.

    Tentou se mover, mas nada aconteceu.

    Não sentia as pernas. Muito menos os braços.

    Tentou respirar, mas o ar não entrou em seus pulmões. Uma dor lancinante atravessou seu peito, profunda e esmagadora. Parecia haver alguma coisa perfurando seu corpo por dentro, rasgando-a a cada tentativa inútil de puxar o ar.

    Seus pulmões pareciam prestes a explodir.

    Um zumbido ensurdecedor tomou seus ouvidos. Sua visão oscilava entre a escuridão total e imagens confusas da moto destruída a alguns metros de distância. O caminhão estava parado no acostamento, com a dianteira deformada.

    A chuva continuava caindo sem piedade.

    Deitada em meio àquele caos, com a água golpeando seu rosto e o sangue se espalhando pelo asfalto, Stella compreendeu uma coisa com uma nitidez terrível:

    Ela ia morrer.

    O pensamento deveria tê-la apavorado. Talvez tivesse mesmo. Mas, naquele momento, sua mente parecia distante demais para reagir direito.

    Em vez do medo, vieram lembranças. Tudo o que fizera para sobreviver naquele mundo: mentiras, pessoas que usou, palavras cruéis que disse sem olhar para trás, mãos que aceitou segurar apenas enquanto eram úteis e sentimentos que descartou assim que começaram a pesar demais.

    Kendrick.

    A imagem dele surgiu por um instante. Caído no chão da loja, com o sangue se espalhando sob seu corpo, olhando para ela como se finalmente enxergasse tudo o que existia por trás de seu rosto.

    Stella tentou afastar aquela lembrança.

    Não… Não poderia pensar nele agora. Nem permitiria que o último instante de sua vida fosse tomado pela culpa.

    Pois o que mais ela poderia ter feito?

    Desde criança, aprendeu que, para sair do buraco onde nasceu, precisava sacrificar algumas coisas: muitas vezes, a dignidade; às vezes, o afeto. E, às vezes, até mesmo pessoas.

    O mundo nunca tinha sido gentil com ela. As pessoas mentiam, traíam e usavam umas às outras. Stella apenas aprendeu a fazer o mesmo antes que alguém a destruísse primeiro.

    Tudo o que fizera tinha sido para sobreviver… E, mesmo assim…

    Ali estava ela, despedaçada no asfalto, sem sequer ter chegado a lugar algum.

    O caminhoneiro desceu do veículo em choque. Gritava alguma coisa, procurando o celular nos bolsos enquanto corria em direção a ela. Stella não conseguia entender suas palavras.

    As sirenes policiais se aproximavam cada vez mais. Luzes vermelhas e azuis refletiam-se nas poças ao redor de seu corpo.

    Com dificuldade, virou a cabeça, procurando Victor, mas não o encontrou. Talvez tivesse sido arremessado para fora da estrada, talvez estivesse morto. Também havia uma pequena chance de que ainda estivesse vivo e tivesse conseguido fugir até mesmo daquilo.

    Já não importava mais…

    As bordas de sua visão começaram a escurecer. O mundo perdeu peso, os sons ficaram distantes, e a dor, antes insuportável, começou a desaparecer lentamente.

    Foi então que uma sensação diferente percorreu todo o seu corpo.

    Não era uma dor comum. Era bem pior.

    Stella sentiu que estava sendo desmontada, não apenas sua carne. Não apenas seus ossos. Era algo mais profundo, mais íntimo. Cada camada de sua existência parecia ser rasgada, transformada em fragmentos invisíveis e arrancada dela à força.

    Talvez fosse sua alma, ou talvez fosse algo ainda mais profundo do que a alma.

    Ela tentou gritar.

    Não havia mais voz. Nem pulmões com que respirar.

    Tentou se agarrar a algum pensamento, a qualquer coisa que provasse que ainda era ela, mas não havia nada.

    Foi então que surgiu uma luz parecida com o brilho do próprio sol. Violenta e celeste, ela engoliu tudo: as sirenes, a chuva, o asfalto, o sangue, seu corpo destruído e até mesmo o medo.

    Por fim, engoliu a própria Stella.

    Tudo desapareceu…

    Por um momento, houve apenas escuridão, silêncio e vazio.

    Então, uma brisa suave tocou seu rosto.

    Stella abriu os olhos.

    O ar entrou em seus pulmões de uma vez, e ela se ergueu bruscamente, como alguém despertando de um afogamento. Sua mão foi imediatamente ao próprio peito.

    Respirava profundamente.

    Sem sangue, sem asfalto, até a dor de antes havia desaparecido.

    Atordoada, olhou ao redor. Não estava mais na avenida, nem sob a chuva, nem fugindo da polícia.

    Encontrava-se no centro de um salão majestoso, com uma arquitetura que lembrava a Idade Média. O teto era tão alto que parecia desaparecer entre arcos de pedra branca e vitrais iluminados por uma luz dourada. Colunas enormes sustentavam o espaço, todas talhadas com imagens de cavaleiros, anjos e figuras empunhando espadas contra monstros deformados.

    Não havia nada de rústico ou primitivo naquele lugar. Cada detalhe transbordava luxo, poder e autoridade.

    Um amplo círculo de pessoas a rodeava. Algumas vestiam longos mantos cerimoniais em branco, vermelho e dourado. Outras usavam armaduras reluzentes e seguravam lanças ornamentadas demais para pertencerem a simples soldados.

    Ninguém falava. Todos a observavam com cautela e respeito.

    Como se encarassem algo esperado há muito tempo.

    Um arrepio percorreu o corpo de Stella.

    No centro do salão, um extenso tapete vermelho atravessava o piso de pedra até um altar elevado. Ali estavam dois homens.

    O primeiro parecia ter pouco mais de cinquenta anos, vestia roupas luxuosas, dignas de um rei, e estava sentado em um trono adornado com ouro, tecidos finos e pedras preciosas. Sua postura era rígida. Seu olhar, atento e calculado.

    Era alguém que parecia acostumado a mandar. Alguém que jamais precisaria repetir uma ordem duas vezes.

    O segundo homem estava acima dele.

    Seu trono ocupava um nível mais alto do altar e era ainda maior, mais grandioso e mais ornamentado do que o trono real.

    O velho devia ter mais de oitenta anos. Vestia uma enorme batina branca e vermelha, bordada com fios dourados que formavam símbolos religiosos desconhecidos.

    Sobre a cabeça, ostentava uma imponente mitra papal. Em suas mãos, segurava um cetro de ouro puro, com uma esfera púrpura e brilhante no topo.

    Aquele homem não apenas possuía poder. Sua presença parecia exigir que todos reconhecessem esse poder a cada respiração.

    Stella tentou se levantar.

    Foi então que percebeu a sensação estranha em seu corpo.

    Algo estava diferente. Não se sentia ferida nem cansada. Muito pelo contrário. Seus músculos estavam firmes como jamais haviam sido. Seus ossos pareciam mais densos, mais sólidos. Até o ar entrando em seus pulmões carregava uma energia que não existia antes.

    Era como se seu corpo tivesse sido reconstruído e aperfeiçoado.

    Ela olhou para as próprias mãos. Ainda eram suas mãos. Mas alguma coisa havia mudado nelas.

    A lembrança do caminhão retornou, o impacto brutal que sofrera. Suas pernas estavam completamente dilaceradas. A sensação de seu corpo se desfazendo.

    Ela deveria estar morta, e não havia qualquer dúvida sobre isso.

    Enquanto tentava encaixar qualquer lógica nesses pensamentos, o velho semelhante a um papa ergueu levemente o cetro. Sua voz ressoou por todo o salão.

    — Saudações, jovem heroína escolhida por Deus.

    Stella permaneceu imóvel.

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