CAPÍTULO 2: A PAZ QUE NÃO VEIO
A chuva atingiu Kendrick poucos minutos depois que ele deixou o restaurante.
No começo, eram apenas gotas finas tocando seu rosto… Mas, em poucos segundos, o céu pareceu desabar sobre a cidade, transformando as ruas em reflexos borrados dos postes e calçadas vazias.
Naquele horário da noite, quase nenhuma loja estava mais aberta. Kendrick só pôde continuar andando em busca de algum lugar para se esconder da chuva.
Com cuidado, apertou a sacola de pães contra o peito, protegendo-a da chuva sob o casaco.
O senhor Marcos tinha lhe dado aquilo poucos minutos antes.
Você não está sozinho, Kendrick.
Aquelas palavras ainda aqueciam seu coração. Talvez fosse idiota ou patético se agarrar àquilo.
Mas, após tanto tempo vivendo apenas por obrigação, era difícil não desejar que aquela noite significasse alguma coisa.
Que aquele pedido simples tivesse sido ouvido.
“Um pouco de paz.”
Era somente isso que ele havia desejado do fundo de seu ser.
O ponto de ônibus ainda estava distante, e Kendrick tinha esquecido de levar o guarda-chuva de manhã, graças à pressa com que teve que sair de casa. Em pouco tempo, seus cabelos já grudavam na testa, e suas roupas estavam quase completamente encharcadas.
— Ótimo… — murmurou, olhando para o céu fechado. — Eu deveria ter pego o bendito guarda-chuva!
Foi então que, enquanto andava pela calçada, viu a luz de um posto de gasolina aberto do outro lado da rua. A loja de conveniência parecia vazia, mas estava iluminada por lâmpadas fluorescentes.
Não era um lugar especial nem chamativo. Kendrick já tinha passado por ali algumas vezes no caminho de volta para o ponto de ônibus.
Naquela noite, porém, havia algo de estranho no lugar.
Tudo estava muito silencioso.
Ainda protegendo a sacola sob o casaco encharcado, atravessou a rua correndo. Ao se aproximar do posto, percebeu uma moto parada do outro lado do estacionamento.
Não havia funcionário algum próximo às bombas. Nem clientes ou funcionários saindo da loja.
Então, enquanto se aproximava, ouviu um grito. Seus passos pararam… O som acabava de vir de dentro da loja.
Por um instante, pensou em chamar a polícia e se afastar, em não se meter em algo que não dizia respeito a ele. Mas seu corpo avançou antes que sua mente conseguisse decidir.
Pela vitrine, viu o caixa pálido atrás do balcão, imóvel, com os braços erguidos. Dois funcionários estavam ajoelhados no chão, tremendo. E, no centro de tudo, um homem apontava uma arma.
Kendrick reconheceu aquele rosto antes mesmo de poder aceitar o que estava vendo.
Era aquele mesmo desgraçado.
Victor.
Tudo ficou mudo por um momento. A chuva, o vento e os carros desapareceram. Restou apenas aquele rosto. Aquele mesmo sorriso arrogante e nojento que insistia em ficar na mente dele. Ele estava ali, tranquilo, como se não carregasse culpa alguma pelas coisas que tinha feito.
O estômago de Kendrick se revirou. Sua mão apertou a sacola com tanta força que o papel quase cedeu entre seus dedos.
Victor estava ali, vivo e armado, agindo como se tivesse todo o controle e poder sobre as pessoas, sem se importar com as dores dos outros, da mesma forma como já havia feito com Kendrick no passado.
Uma onda de lembranças o atingiu com brutalidade.
A porta de sua casa sendo arrombada. Os amigos de Victor entraram, quebraram móveis, rasgaram roupas e pisotearam tudo o que encontravam.
As únicas fotos de sua mãe caídas no chão… As últimas lembranças que ainda tinha dela, reduzidas a pedaços sob os sapatos daqueles desgraçados.
Victor, com o rosto ensanguentado, sorria enquanto dizia o quanto Stella o preferia. Stella olhava para ele com desprezo, fria e distante, sem se importar com nada do que acontecia.
Eles dois trataram sua dor como algo engraçado, pisaram em seus sentimentos, sem qualquer remorso.
Depois daquela noite, Kendrick perdeu tudo: sua casa, o direito de andar pela comunidade e a pouca dignidade que ainda conseguia reunir. Ferido, sem ter para onde ir, ficou vagando pelas ruas até Matheus encontrá-lo quase inconsciente perto de uma calçada.
A dor daquela noite ainda vivia dentro dele… O medo… A vergonha… A impotência.
E agora Victor estava ali, fazendo tudo de novo com outras pessoas.
Kendrick poderia ter ido embora. Poderia ter chamado a polícia e se escondido. Poderia ter fingido que não reconhecia aquele rosto.
Mas seus punhos se fecharam sozinhos, e a sacola de pães escapou de sua mão e caiu perto da entrada. Seus sapatos molhados tocaram o piso da loja. O som foi baixo.
Ainda assim, Victor ouviu.
Ao virar o rosto, seus olhos encontraram os de Kendrick. Então, ele sorriu.
— Olha só quem apareceu? — murmurou, abaixando um pouco a arma. — Meu velho amigo, Kendrick.
Aquele sorriso cínico fez o sangue de Kendrick ferver.
— Que coincidência engraçada, você não acha? — Victor continuou. — Encontrar você justamente hoje deve ser obra do destino ou algo assim… Por acaso, lembrei daquele dia esta manhã, sabe?
Com os dentes cerrados, Kendrick respondeu:
— Pelo jeito, você continua sendo um desgraçado miserável.
Victor inclinou levemente a cabeça.
— E você continua vivo, né? Eu sinceramente achei que você já tivesse pulado de alguma ponte por aí.
O caixa olhava para Kendrick com desespero, como se ele pudesse fazer alguma coisa.
Mas ele não fazia ideia de quantas coisas Kendrick carregava dentro de si.
— Você é uma pessoa bem vazia, Victor — murmurou Kendrick. — Podre por dentro e por fora. Sempre foi… Eu deveria ter imaginado o tipo de merdinha que você acabaria se tornando.
Victor riu.
— E você sempre foi tão fraco assim? Até mesmo ela te deixou. Acho que, no fim das contas, mesmo sendo uma pessoa podre, eu ainda era uma escolha melhor do que você.
Dando um passo à frente, manteve a arma firme em sua mão.
— Eu sabia que este dia chegaria… Você quer mesmo bancar o corajoso agora, meu amigo? Mesmo depois de tudo o que aconteceu?
Kendrick sentiu o peito queimar.
— Acho que você esqueceu que quebrei sua cara naquela noite. Essa arma na mão de um merda como você não passa de enfeite para mim!
O sorriso de Victor vacilou por um único segundo.
Depois voltou, ainda mais sádico.
— Lembro muito bem, Kendrick. Mas isso não importou tanto no final, não é? E, se você não se importasse com Stella, teria chorado tanto quando ela lhe disse aquelas palavras?
Ele ergueu a arma e apontou diretamente para Kendrick.
— Chega dessa conversa estúpida; ela não vai nos levar a nada… Mas me diz: vai fazer o quê agora? Vai tentar me bater de novo? Será que consegue antes de eu pôr uma bala na sua cabeça?
O corpo de Kendrick tremia… Tudo aquilo que havia enterrado por tempo demais tentava rasgar seu peito de dentro para fora.
Ao perceber que Victor tinha desviado a atenção, o caixa tentou se mover discretamente para o lado.
Victor sequer precisou olhar.
Bang!
O tiro ecoou por toda a loja. Atrás do balcão, o caixa caiu gritando, segurando o ombro ensanguentado. Os dois funcionários que estavam ajoelhados saíram correndo aos berros, aproveitando o instante de confusão.
Naquele momento, Kendrick viu a abertura perfeita… Era uma única e pequena abertura, mas ele avançou.
Agarrou os braços de Victor e os empurrou para o lado no instante em que outros dois tiros foram disparados.
Bang!
Bang!
As balas atingiram uma prateleira de bebidas. Garrafas explodiram em uma chuva de vidro e líquido.
Victor tentou puxar a arma de volta, mas Kendrick acertou um soco em seu rosto. O impacto o fez cambalear. Sem dar tempo para reagir, Kendrick agarrou seu pulso e o torceu com toda a força que tinha.
Victor grunhiu de dor. E a arma caiu no chão.
Kendrick não permitiu que ele a recuperasse. Girou o corpo e acertou uma meia-lua brutal contra seu queixo.
O golpe o lançou para trás, e Victor caiu com força no piso molhado, batendo a cabeça no chão.
Kendrick avançou sobre ele, e todo o ódio e os sentimentos ruins que guardara há tanto tempo tomaram conta de seu corpo.
Não havia mais pensamento.
Ele desferiu um soco de direita contra seu rosto. Depois, outro. E outro. E outro.
Cada golpe carregava um pedaço de tudo o que Victor havia arrancado dele.
Sua casa, seu amor e seu orgulho.
A pele sobre os nós de seus dedos se abriu. Seu sangue começou a se misturar ao de Victor.
— SEU FILHO DA PUTA! — Kendrick gritou, acertando-o novamente. — VOCÊ TÁ ACHANDO GRAÇA DISSO? ACHA ENGRAÇADO RIR DAS DESGRAÇAS DOS OUTROS? VOCÊ RIU DAQUILO QUE ERA MAIS IMPORTANTE PARA MIM, SEM QUALQUER CONSIDERAÇÃO PELO TEMPO EM QUE TE CONSIDEREI UM AMIGO!
Victor cuspiu sangue para o lado. Mesmo com o rosto deformado pelos golpes, ele riu e respondeu aos gritos:
— AH, VOCÊ DIZ AQUILO? NADA DO QUE PASSAMOS SIGNIFICOU ALGO PARA MIM, SEU MALDITO ESTÚPIDO! VOCÊ REALMENTE ACHOU QUE ÉRAMOS AMIGUINHOS? ACORDA, KENDRICK! NESTE MUNDO, VOCÊ SÓ VALE AQUILO QUE TEM! E, NESTE MOMENTO, VOCÊ SÓ TEM ISSO… AINDA NÃO PERCEBEU QUE ESTÁ SE AGARRANDO A ESSA MÁGOA ESTÚPIDA POR SER UM MERDINHA FRACO?
Aquelas palavras destruíram o último pedaço de controle que ainda restava nele.
As mãos de Kendrick foram para o pescoço de Victor. Seus dedos apertaram com força.
Naquele instante, ele não queria justiça, nem resposta alguma.
Ele queria matá-lo, acreditando que aquilo acabaria com tudo de uma vez.
Queria apagar daquele mundo o homem que havia pisado sobre suas feridas.
— MORRA, SEU DESGRAÇADO! — gritou, apertando ainda mais forte.
Bang!
Uma dor explosiva atravessou suas costas.
Kendrick perdeu toda a força de uma vez. Seu corpo caiu de lado, pesado, incapaz de obedecer aos próprios comandos. Por alguns segundos, não entendeu o que havia acabado de acontecer.
Então, sentiu algo quente jorrar por suas costas.
Era sangue… Ele tinha sido baleado.
Com dificuldade, virou o rosto em direção à entrada da loja.
E então a viu.
Parada sob a luz branca do posto, usando um capuz impermeável preto e segurando um revólver calibre .38 ainda fumegante.
Ela estava próxima da porta, perto o bastante para ter visto tudo e também próxima o bastante para reconhecê-lo.
Seus olhos eram frios e distantes. Não havia culpa nem hesitação neles.
Era ela… Stella.
Por um instante, Kendrick não conseguiu respirar. A dor do tiro desapareceu diante daquela visão.
Ela tinha atirado nele. Mais uma vez, ela o observava com frieza, a mesma frieza de quando o havia traído, escolhendo Victor.
Depois de tudo o que tinha feito contra ele, depois de tudo o que ele havia perdido, Stella ainda olhava para Kendrick como se ele fosse um desconhecido.
Alguém sem importância.
Victor tossiu, tentando recuperar o ar, enquanto ela correu até ele e o ajudou a se levantar.
— Droga, Victor! Vamos embora logo! — Stella disse, olhando nervosamente para fora. — Os reféns fugiram gritando! A polícia vai chegar a qualquer momento!
Cambaleando, Victor passou a mão ensanguentada pelo próprio pescoço. Então, olhou para Kendrick caído no chão.
E sorriu.
— Espera só um pouquinho.
Stella arregalou os olhos quando percebeu sua intenção.
— Victor, para com isso!
Ele apenas a ignorou. Caminhou cambaleando até onde a arma tinha caído e a pegou do chão.
Kendrick tentou se mover. Tentou se levantar, mas só conseguiu se desequilibrar e cair de costas contra o chão.
Seu corpo não respondia.
Parado diante dele, Victor apontou a arma diretamente para seu peito.
— Isso acaba aqui! Você pode não acreditar, Kendrick, mas te desejo uma boa estadia no inferno, meu caro amigo.
Bang!
O primeiro tiro atravessou seu peito.
Bang!
O segundo arrancou todo o ar que ainda restava em seus pulmões.
Bang!
O terceiro fez seu corpo se dissolver em dor, mas nem mesmo gritar ou expressar isso era possível naquele momento.
Kendrick não conseguiu entender por que, depois de tudo, aquilo ainda parecia tão injusto.
Victor cuspiu ao lado de seu rosto antes de correr para fora com Stella. Poucos segundos depois, o motor da moto rugiu sob a tempestade.
O som se afastou e desapareceu.
Kendrick ficou ali, caído no piso frio da loja, sangrando.
Cada respiração vinha menor do que a anterior. Talvez alguém estivesse gritando, talvez o atendente ainda tentasse pedir ajuda.
Mas tudo parecia distante demais.
Perto da entrada, a sacola que o senhor Marcos tinha lhe dado estava rasgada no chão. Os pães frescos caíram sobre o piso molhado, encharcados pela chuva que entrava pela porta aberta… Um deles tocava a poça de sangue.
Kendrick tentou rir. Mas não conseguiu.
Em sua mente, não surgiu o rosto de Victor. Nem o de Stella.
Surgiu um bolo posto sobre uma mesa vazia. Velas coloridas. O sorriso de Matheus. As mãos firmes do senhor Marcos sobre seus ombros. Até mesmo seu cachorro abanando o rabo, querendo brincar.
Então, aquela mesma voz voltou a ecoar:
Você não está sozinho, Kendrick.
Ao menos Marcos e Matheus ainda estavam lá. Mesmo sem ele, seu cachorro não ficaria sozinho. Teria os dois.
Kendrick tentou se agarrar a esse pensamento. Tentou acreditar que aquilo tornava tudo um pouco menos doloroso.
Mas a ilusão logo se desfez.
Lágrimas escorreram pelo canto de seu rosto.
Ele tinha pedido apenas paz… Só um pouco de paz.
Talvez tivesse pedido demais.
Sua visão começou a escurecer. O frio da chuva já não parecia tão distante, e a dor também começou a desaparecer.
Por um breve instante, Kendrick pensou que deveria sentir medo. Medo de morrer. Medo de não voltar para casa. Medo de nunca mais ver aqueles que considerava tão próximos quanto um pai e um irmão.
Medo de que aquela fosse a última página miserável de uma vida que jamais tivera a chance de melhorar.
Mas já estava cansado demais.
Cansado de perder. De sofrer. De tentar sobreviver em um mundo determinado a esmagá-lo sempre que conseguia se levantar.
Se a morte realmente estivesse vindo buscá-lo, talvez ao menos significasse descanso.
Seu último pensamento voltou para o bolo. Para Marcos e Matheus. Para o pedido que tinha feito diante das pequenas chamas.
Desculpa…
Ele não sabia exatamente a quem aquela desculpa pertencia. Aos dois, por morrer logo depois de prometer a si mesmo que tentaria continuar. À mãe, por não conseguir ser feliz. Ou a si próprio, por acreditar, mesmo que por pouco tempo, que alguma coisa poderia mudar.
Sua consciência começou a se desfazer lentamente naquele chão manchado de sangue. Kendrick só pôde esperar… Pela ajuda ou pela morte.
Então, em meio à escuridão que começava a engoli-lo, uma imagem surgiu.
Branca e dourada.
Impossível de esquecer.
Era a empunhadura de uma espada.
A mesma espada que o chamou naquele sonho.
Dessa vez, porém, não havia força alguma afastando-o dela. Não havia nada impedindo que se aproximasse.
A morte não seria o fim de Kendrick.
Seria apenas o instante em que aquela espada finalmente poderia alcançá-lo.

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