CAPÍTULO 1: UM PEDIDO DE PAZ
Um som agudo e estrondoso ecoou em todas as direções, e Kendrick foi brutalmente arrancado daquele sonho como se um balde de água fria tivesse sido jogado sobre seu rosto. Ele abriu os olhos de uma vez, encharcado de suor e deitado sobre a cama.
Por alguns instantes, permaneceu imóvel, encarando o teto do quarto, tentando entender onde estava ou o que havia acabado de acontecer.
Seu coração batia depressa, e a respiração vinha curta e irregular. A névoa, a espada esquisita e a mulher envolta naquela luz celeste, tudo ainda parecia muito próximo e bem vivo em sua mente, como algo real demais para pertencer a um simples pesadelo.
Kendrick levou uma das mãos ao peito. Ainda conseguia sentir as palpitações aceleradas. A dor estranha ao olhar para a mulher. A vontade absurda de tocar a espada. E, acima de tudo, a sensação de ter perdido alguma coisa no exato instante em que acordou.
Soltou o ar devagar e passou o dorso da mão pelo rosto.
— Que sonho mais ridículo… — tentou dizer para si mesmo.
Virou-se para o lado e encarou o alarme sobre a cômoda de madeira. Seus olhos se arregalaram.
— Droga!
Faltavam apenas cinco minutos para o horário em que deveria sair de casa. Num salto, Kendrick levantou da cama e quase caiu ao tropeçar em uma pilha de roupas largadas no chão.
Seu quarto estava um caos havia vários dias, mas só naquele momento percebeu o tamanho da bagunça.
Camisetas amassadas estavam espalhadas por todas as partes… Embalagens vazias se acumulavam sobre a escrivaninha, livros haviam sido empilhados de qualquer jeito, um par de meias permanecia abandonado sobre a cadeira havia mais de duas semanas.
E, perto da porta, um de seus tênis mais novos, que havia comprado há poucos dias, estava com metade da sola comida.
Lentamente, Kendrick olhou para o cachorro deitado no canto do quarto. O animal o observava com a língua para fora e o rabo balançando, satisfeito consigo mesmo.
— É sério isso? — Apontou para o tênis. — Aquele era um sapato novo, seu pulguento safado.
Em resposta ao comentário de seu dono, o cachorro abanou o rabo ainda mais rápido.
— Nem tenta parecer fofo para mim agora. Eu já sei muito bem que você andou escapando para a rua escondido!
Kendrick pegou a meia que estava sobre a cadeira e a lançou na direção dele. O cachorro pareceu ainda mais animado, como se tivesse acabado de ganhar um brinquedo.
Mas não houve tempo para continuar aquela discussão unilateral. Às pressas, Kendrick jogou as roupas dentro do cesto, empurrou as embalagens para a lixeira e ajeitou a cama da forma mais preguiçosa possível. Não era uma limpeza de verdade, mas pelo menos evitaria voltar para casa e encontrar o quarto ainda mais deprimente do que já estava.
Em seguida, correu para o banheiro. Escovou os dentes às pressas, tomou um banho frio que quase congelou sua alma no lugar e vestiu a primeira roupa minimamente apresentável que encontrou.
Ao passar pela cozinha, encheu o pote de ração do cachorro e tentou tomar um gole de café. Mas, antes que a xícara sequer encostasse em seus lábios, o alarme do celular tocou novamente. Kendrick revirou os olhos e respirou fundo.
— Perfeito.
Deixou o café sobre a pia, pegou a mochila e saiu correndo. Como sempre, o atraso já o acompanhava.
Do lado de fora, o dia era belo. As colinas distantes estavam cobertas pelas nuvens da manhã, e o sol começava a se revelar. O cântico dos pássaros era harmônico e a primeira terapia do dia para os trabalhadores.
Mas, quando Kendrick finalmente chegou ao ponto de ônibus, o cenário já era completamente diferente.
O trânsito, como sempre, já estava caótico. Carros presos nos semáforos. Motoqueiros costurando entre as faixas. Motoristas gritando uns com os outros, e cada buzinada era uma clara declaração de guerra.
Apenas mais uma manhã completamente normal, Kendrick pensou, puxando o máximo de ar que podia. Mas até mesmo esse momento de suspiro foi arruinado quando um caminhão que passava bem próximo soltou uma grande carga de fumaça em seu rosto.
Quando finalmente conseguiu entrar no ônibus, Kendrick já estava irritado, atrasado e sem café. O veículo estava tão lotado que encontrar espaço para respirar se tornou um desafio.
Espremido entre os passageiros, segurou-se em uma das barras e colocou os fones de ouvido, tentando abafar os ruídos do ônibus com a música.
Pela janela, a cidade passava em tons acinzentados. Prédios e mais prédios tampavam a visão quase por completo. O céu ainda estava coberto por nuvens pesadas, mas Kendrick não prestava atenção à paisagem; sua mente voltava sempre àquela espada, à bela mulher e às mãos que tentavam alcançá-la.
Já tivera sonhos estranhos antes… Pesadelos, lembranças confusas, noites ruins o bastante para fazê-lo acordar desejando não sair da cama.
Mas aquele sonho tinha sido diferente. Ele era real demais para simplesmente desaparecer quando abrisse os olhos.
Enquanto pensava sobre aquele sonho, o ônibus freou bruscamente, arrancando-o dos pensamentos. Kendrick quase esbarrou no passageiro à sua frente. Pedindo desculpas às pressas, olhou pela janela.
Aquele já era o seu ponto.
Desceu correndo e seguiu por algumas quadras até chegar ao restaurante onde trabalhava. Era um lugar simples e pequeno, com um estilo mais rústico.
Assim que conferiu o horário no celular, sentiu o peso da própria estupidez cair como uma bigorna sobre sua cabeça.
Ele havia se atrasado por nove minutos.
— Ótimo, lá vem mais uma bronca…
Resmungou diante da porta do restaurante, mas respirou fundo e pensou que talvez pudesse entrar em silêncio.
Havia a chance de o senhor Marcos estar ocupado e, por algum milagre, ninguém ter percebido seu atraso.
Empurrou a porta lentamente para que não fizesse barulho.
— Kendrick!
A voz do senhor Marcos ecoou pelo restaurante no mesmo instante. Kendrick fechou os olhos… O milagre não veio como havia pensado.
Atrás do balcão, Marcos estava de braços cruzados, com aquela expressão carrancuda que Kendrick conhecia muito bem: uma mistura de irritação e preocupação.
Apesar da aparência durona, Marcos era uma pessoa boa. Boa demais, na verdade. Fora ele quem estendera a mão quando Kendrick já não enxergava caminho algum à frente, quando tudo o que restava em sua vida parecia ser vergonha, raiva e um vazio capaz de engolir qualquer vontade de continuar.
— Eu sei, eu sei… — Kendrick começou, guardando a mochila depressa. — Trânsito, despertador, cachorro, ônibus lotado… desculpas idiotas. Foi mal.
— Pai, tenta pegar mais leve com ele.
Matheus surgiu da cozinha com um pano sobre o ombro e um sorriso debochado no rosto.
— Olha bem a cara dele. Por si só, ela já diz que ele veio espremido num ônibus cheio de possíveis homicidas.
Kendrick soltou um riso curto, agradecido pela tentativa de salvamento. Marcos suspirou.
— Kendrick, apenas não transforme isso em rotina. — Sua voz perdeu um pouco da dureza. — Eu sei que você não anda bem, garoto. Mas precisa continuar seguindo.
Por um instante, o homem hesitou antes de completar:
— Sua mãe teria orgulho do jovem esforçado que você se tornou.
A menção a ela sempre causava o mesmo impacto. Por um instante, quase conseguiu ver o rosto da mãe sorrindo para ele.
Mas a imagem desapareceu logo em seguida… Como sempre, ela desaparecia.
Ele apenas assentiu.
— É, eu sei…
Não havia mais nada que conseguisse dizer sem deixar a voz falhar. Então, vestiu o avental e começou a trabalhar.
Com o passar das horas, o restaurante começou a encher. Pedidos eram feitos. Bandejas atravessavam o salão de ponta a ponta. Clientes reclamavam da demora, do molho, da bebida e da temperatura da comida, transformando pequenos inconvenientes em dramas pessoais.
Kendrick entrou no modo automático. Sorria, anotava, servia e limpava, fazendo o que precisava ser feito sem pensar demais. Havia algum tempo que sua vida funcionava daquele jeito: o corpo seguia em frente, enquanto a mente insistia em voltar para algum lugar do passado.
Enquanto limpava uma mesa próxima à janela, viu um casal discutindo em voz baixa. A garota virou o rosto, irritada.
Aquele único gesto foi suficiente.
Stella.
O nome surgiu em sua mente como uma pontada aguda. Seu estômago se revirou. Por um instante, o restaurante pareceu distante. Quase conseguiu ouvir a voz fria dela novamente, tratando tudo o que viveram como algo vergonhoso e ridículo, como se ele jamais tivesse significado nada para ela.
Com força, apertou o pano entre os dedos e desviou o olhar. Não valia a pena pensar nela, não ali, não mais uma vez.
Mais tarde, ao passar pela cozinha, o cheiro dos temperos trouxe outra lembrança: sua mãe diante do fogão, preparando o almoço de domingo. O sorriso cansado. A colher de madeira batendo contra a panela. O jeito como sempre lhe dava a primeira porção, fingindo que aquilo não era favoritismo.
Por um segundo, Kendrick quase sentiu que ela ainda estava ali.
Então, a memória se desfez mais uma vez, deixando apenas o cheiro da comida de outras pessoas.
Ele engoliu em seco e continuou trabalhando.
— Kendrick, leve esses pedidos para mim.
A voz do senhor Marcos o trouxe de volta. Sem dizer nada, Kendrick pegou a bandeja e assentiu.
Marcos tinha aquele jeito firme, quase bruto, mas sempre atento. Para alguém que nunca havia conhecido o próprio pai, ele era o mais próximo que Kendrick já tivera de um. Mas jamais diria aquilo em voz alta. Nunca soube como agradecer por algo daquele tamanho.
Durante um momento mais tranquilo do turno, Matheus encostou no balcão ao lado dele.
— Você está com uma cara péssima, irmão. Não dormiu bem à noite?
Kendrick pensou na mulher envolta em luz, na espada branca e dourada e na sensação de que ela estava tentando alcançá-lo.
— Não foi nada, é que tive um sonho estranho esta noite! — respondeu, secando um copo com um pano. — Foi só isso.
Matheus arqueou a sobrancelha.
— Estranho do tipo “entrei pelado na escola e todo mundo viu meu precioso” ou estranho do tipo “uma entidade ancestral tentou roubar minha alma”?
Kendrick quase riu.
— É… talvez o segundo.
— Ah! Isso é normal, mano. Acontece toda terça-feira.
Ouvindo o comentário, ele deixou escapar um sorriso. Foi uma risada pequena e curta, mas verdadeira.
Satisfeito por conseguir arrancar aquilo dele, Matheus sorriu de lado e não insistiu mais no assunto.
Kendrick voltou ao trabalho. Os clientes vinham e iam; as horas passavam. Mesmo assim, seu passado sempre encontrava formas de aparecer nas pequenas coisas: em uma palavra mal colocada, em um cheiro conhecido, em uma dor nas costelas que surgia quando se curvava rápido demais.
Em dias ruins, aquelas lembranças vinham com força suficiente para esmagá-lo. Houve uma época em que acordar era pior do que qualquer pesadelo, pois significava enfrentar outro dia dentro da própria mente.
Em seus momentos mais sombrios, Kendrick pensara seriamente em acabar com tudo… Não como uma súplica dramática, nem como um pedido de atenção, mas como alguém cansado demais para continuar sentindo aquela dor.
Marcos e Matheus perceberam antes que fosse tarde.
Foram eles que o fizeram confessar e o convenceram a buscar ajuda. Também lhe deram trabalho, comida e um lugar onde pudesse dormir sem medo.
Com os dois, Kendrick voltou a encontrar pequenos motivos para enfrentar um dia depois do outro.
Talvez por isso odiasse tanto a sensação de ainda não conseguir melhorar de verdade. Odiava a ideia de poder decepcioná-los novamente.
Perdido em pensamentos, não percebeu quando um cliente se levantou atrás dele. Seu pé esbarrou contra uma cadeira, Kendrick tropeçou, e a bandeja se inclinou em suas mãos. Antes que pudesse segurá-la, as bebidas voaram para o chão.
As garrafas se estilhaçaram com um som seco. Alguns cacos deslizaram para perto de uma mesa ocupada por jovens mulheres. Uma delas se levantou imediatamente, encarando a própria roupa respingada de bebida.
— Merda! Você está louco? Olha só o que fez com a minha saia!
O rosto de Kendrick queimou de vergonha.
— Desculpa, eu…
— Kendrick, você está bem?
O senhor Marcos apareceu antes que a situação piorasse. Kendrick apenas assentiu depressa, tentando recuperar alguma dignidade.
— Estou. Eu só me distraí um pouco e acabei tropeçando.
Por um instante, Marcos o observou. Foi um instante em que parecia enxergar profundamente dentro dele.
— Vá lavar as mãos e respirar um pouco. Eu resolvo isso aqui.
— Mas as garrafas…
— Eu resolvo, garoto.
Não era uma sugestão. Com a cabeça baixa, Kendrick respondeu:
— Obrigado.
Enquanto recolhia os cacos mais afastados, Marcos pediu desculpas às clientes, ofereceu novas bebidas e conduziu tudo com naturalidade. Apesar de as mulheres ainda estarem bravas, mais uma vez ele se pôs à frente da situação, protegendo Kendrick daquele constrangimento como já o protegera de tantas outras coisas.
O restante do turno se arrastou. Quando o restaurante finalmente fechou, Kendrick sentia a exaustão grudada aos ossos. Estava guardando os últimos utensílios quando ouviu seu nome.
— Kendrick!
Levantou o olhar. Perto do balcão, o senhor Marcos e Matheus estavam parados, sorrindo de um jeito suspeito. Kendrick franziu a testa.
— O que vocês aprontaram dessa vez?
Matheus deu alguns passos para o lado.
E Kendrick congelou.
No centro do restaurante, sobre uma mesa vazia, havia um bolo. Um bolo simples, feito às pressas, decorado com algumas velas coloridas que claramente não combinavam entre si.
Kendrick sentiu o peito apertar ao vê-lo.
O senhor Marcos segurava uma caixa de fósforos. Já Matheus sorria como se tivesse acabado de completar a ideia mais genial que já tivera em sua vida.
— Feliz aniversário! — disseram os dois, quase ao mesmo tempo.
Kendrick ficou parado, sem reação e sem palavras.
Havia anos que não comemorava um aniversário, talvez porque a data trouxesse lembranças que preferia esquecer, ou porque, em algum momento, havia simplesmente parado de acreditar que sua existência fosse motivo para celebração.
Mas eles se lembraram… Mesmo quando ele próprio quase havia esquecido.
Matheus se aproximou e deu um leve empurrão no ombro dele.
— Você devia ter avisado, mano. Quantos anos você está fazendo?
O rosto de Kendrick esquentou.
— Vinte e cinco.
— Só vinte e cinco? — Matheus arregalou os olhos, fingindo choque. — Eu jurava que você já estava chegando na casa dos trinta.
— Matheus, olha bem no espelho antes de falar dos outros — disse Marcos, acendendo as velas. — Quem parece ter mais de trinta anos aqui é você, meu filho.
— Para com isso, pai, você está é com inveja da minha maturidade e beleza jovial, seu coroa carrancudo.
— Além disso, você é sem educação! Eu deveria ter ouvido sua mãe quando ela disse que era para vender aquele seu computador. Aliás, sua feiura é falta de sono e cabelo mal lavado! Já faz três meses desde que você começou com aquele negócio de fazer lives jogando, não é?
— Ah, pai, deixa de ser estraga-prazeres. Eu durmo no horário certo quase todas as vezes. Só em alguns dias passo das quatro da madrugada! Mas o senhor fala isso porque é velho e não sabe apreciar uma obra de arte como Caminhos do Divino. Aquele jogo é simplesmente uma masterpiece.
Kendrick soltou uma risada baixa ao observar a discussão de Matheus e Marcos.
Após acender as velas, Marcos olhou para ele com orgulho. Aquela expressão o fez esquecer qualquer lembrança ruim que pudesse perturbar o momento.
— Vá, garoto. Faça um pedido.
As pequenas chamas tremularam diante dele. Era um bolo simples. Uma mesa simples. Uma comemoração pequena, improvisada, sem presentes caros, sem festa, sem nada grandioso.
Ainda assim, Kendrick precisou respirar fundo para não permitir que aquele momento o desmontasse.
Durante um bom tempo, ele acreditara que não tinha mais ninguém. Que todo afeto acabava indo embora em algum momento. Que toda pessoa que se aproximasse dele descobriria, cedo ou tarde, que não valia a pena ficar.
— Se continuar olhando para o bolo dessa forma, vou entender que você não quer e vou comer tudo sozinho — Matheus provocou, estendendo a mão em direção à faca.
Kendrick empurrou a mão dele para longe.
— Só por cima do meu cadáver e, de preferência, depois que só os ossos restarem.
Matheus riu. Diante das velas, Kendrick fechou os olhos.
Não pediu dinheiro, sorte ou que sua vida se transformasse em algo extraordinário.
Pediu apenas um pouco de paz.
Apenas isso.
Um pouco de paz e descanso.
E que momentos como aquele durassem mais do que todos os outros.
Então, soprou as velas. Marcos e Matheus aplaudiram com sorrisos contagiantes. Ao cortar o bolo, Matheus o fez de um jeito tão torto que a primeira fatia quase desmoronou antes mesmo de tocar o prato.
— Está meio destruído — admitiu, entregando-a a Kendrick. — Mas é como diz o velhote: “a intenção é o que importa” ou algo assim.
Kendrick segurou o prato e sorriu.
— Nem parece tão torto assim… Ele parece perfeito para mim.
E realmente estava.
Os três comeram juntos, conversando sobre coisas pequenas e irrelevantes. Enquanto estava ali, rindo e comendo bolo com os dois, nada conseguiu arrancá-lo daquele momento.
Por alguns minutos, Kendrick apenas aproveitou o sabor especial que aquela ocasião dava ao bolo.
Quando finalmente chegou a hora de ir embora, o senhor Marcos pegou uma sacola atrás do balcão e a colocou nas mãos dele.
— Leve isso para casa. São pães frescos. Você precisa se alimentar melhor. Emagreceu bastante ultimamente, garoto.
Kendrick olhou para a sacola. Depois, para Marcos. Em seguida, para Matheus. Sua garganta apertou.
— Obrigado… — disse, com a voz mais baixa do que esperava. — Obrigado de verdade. Por tudo o que vocês fizeram por mim até hoje.
O senhor Marcos colocou as duas mãos sobre os ombros dele.
— Você não está sozinho, Kendrick. Hoje, amanhã e daqui para frente, enquanto depender de nós.
Ao lado do pai, Matheus assentiu.
— Infelizmente, você vai ter que aguentar a gente por bastante tempo ainda.
Kendrick sorriu. E, naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, realmente acreditou que aquilo fosse verdade.
Talvez não estivesse sozinho, talvez sua vida ainda pudesse encontrar algum rumo, ou talvez aquele pedido simples tivesse sido ouvido.
Com a sacola de pães protegida junto ao peito, atravessou a porta do restaurante e saiu em direção à rua.
Não sabia que aquela seria a última vez que ouviria as vozes dos dois como alguém que ainda possuía um futuro.
Também não sabia que a paz que acabara de pedir já estava prestes a ser arrancada de suas mãos.
E, acima de tudo, não sabia que o passado o aguardava logo adiante, armado e sorrindo no meio da tempestade que se aproximava.

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