Capítulo 11 - Mau presságio
~ Dia 18 do mês 4 do ano 555 na penumbra. ~
Naquele dia, os heróis chegaram ao décimo ponto de acampamento seguro. “Seguro”, na verdade, não era mais uma palavra que pudesse ser usada para descrever os pontos de acampamento da rota, uma vez que os artefatos responsáveis por banir a névoa e os espectros não funcionavam mais.
Elicia olhou ao redor, avaliando o cenário.
O grupo acabara de adentrar a floresta morta, deixando para trás a planície que rodeava a cidade por algumas centenas de quilômetros.
Aquela paisagem era sombria e mal agourenta. As árvores todas se encontravam como o nome da floresta sugeria, mortas. Os troncos cinzentos pareciam ter passado por um processo de fossilização antinatural, pois, em vez da madeira apodrecer, havia se transformado em um material de dureza semelhante à pedra bruta.
O solo era árido, a única coisa que crescia naquele lugar era a resiliente erva da lua, que se espalhava livremente por provavelmente todo o mundo mergulhado nas sombras.
Elicia se aproximou de onde Viktor adaptava o artefato para usar sua magia assim que fosse requisitada. Aquela era a rotina de quando chegavam a cada novo ponto de acampamento, e vinha funcionando muito bem. Enquanto Luna e Will vigiavam os arredores, Elicia e Viktor tratavam de fazer o lugar menos perigoso ao ativar o artefato adaptado.
— Está feito. — Viktor anunciou.
Elicia então infundiu o artefato com sua magia.
A magia como um todo era invisível em sua forma crua, apenas tomando forma visível quando transformada em elementos físicos ou se infundida em artefatos especialmente preparados para funcionar com ela, cada um reagindo de uma maneira diferente dependendo de sua função.
Apenas os cristais mágicos exibiam uma reação mais chamativa à magia, brilhando em cores e intensidades diferentes a depender do seu tipo ou do tipo de influência recebida.
— Vai ser um trabalho verdadeiramente ingrato recuperar todos esses cristais mágicos depois que a névoa desaparecer e as barreiras não serem mais necessárias. — Elicia puxou assunto enquanto o grupo se reunia ao redor da fogueira recém acesa.
— Bem, não precisamos nos preocupar com isso, afinal, nós estaremos sendo glorificados como heróis e vivendo uma vida muito confortável enquanto algum desafortunado faz esse trabalho. Haha. — Will respondeu dando de ombros.
— Se voltarmos vivos. — Luna percebeu que a expressão de todos afundara com seu comentário. — Ah, desculpa, eu não quis…
— Tudo bem, todos tememos essa possibilidade porque ela é real. Mas não podemos nos prender nesse tipo de pensamento, ainda temos muito chão pela frente! — Elicia rapidamente apaziguou.
— Bom, mudando de assunto, agora eu entendo porque os adultos usavam histórias sobre essa floresta para assustar eu e o Max quando éramos crianças… Esse lugar me dá arrepios.
— Eu sei bem, minha avó também me apavorava dizendo que os espectros iam me arrastar para cá se eu não me comportasse adequadamente.
Luna e Will começaram a trocar experiências de suas infâncias. Eles pareciam menos distantes agora, Luna ao menos aparentava estar se esforçando para ser mais tolerante com a outra parte desde os sermões.
Enquanto isso, Elicia se aproximou de Viktor para poder falar com ele sem interromper a outra conversa.
— Como está se sentindo?
— Eu já disse, estou bem! Você quer verificar por acaso?
Elicia estreitou seus olhos e viu Viktor revirar os dele. Ele retirou parte da armadura de couro e levantou a camisa para mostrar a cicatriz do ferimento agora completamente curado.
— Ótimo, a partir de amanhã vamos aumentar o ritmo de viagem.
— Estou ansioso por isso. — Viktor comentou em tom de ironia enquanto abaixava a camisa e começou a vestir novamente a parte retirada da armadura.
Elicia fitou-o por alguns instantes, então baixou a cabeça e suspirou.
— Foi muita sorte você ter sobrevivido àquilo. Se… acontecer novamente de eu não poder me proteger adequadamente, não quero… — Ela fez uma pequena pausa. — Que se sacrifique por mim. — Concluiu, erguendo a cabeça para encará-lo.
Viktor não se abalou com a declaração dela.
— Você pode fazer o mesmo?
— Eu… — Elicia entendia muito bem o que ele queria dizer com aquilo. — Esqueça! O chá está pronto? — Ela perguntou num tom mais alto, chamando a atenção de Luna e Will também.
…
Aquela noite também passou tranquilamente. Aparentemente todas as bestas da região haviam se afastado muito da área por onde o Behemoth havia passado e, até o momento, o grupo ainda não encontrara nenhuma.
Os espectros por algum motivo também não deram qualquer sinal de presença desde a noite do ataque à cidade. O motivo daquilo fora debatido pelos heróis no sexto acampamento.
— Isso é estranho, a área próxima da cidade até o vigésimo acampamento era para estar lotada de espectros… — Luna estava perturbada.
— Os espectros eram atraídos para toda essa área pela quantidade de pessoas reunidas na cidade, agora não tem mais pessoas na cidade. — Viktor fez uma análise fria da situação.
— Acho que não é só isso… — Elicia estava pensativa.
— O que você quer dizer? — Will parecia preocupado, sempre que Elicia ficava pensativa, eles recebiam alguma péssima notícia.
— Pelo que eu lembro ter sentido da névoa na noite do ataque, todos os espectros debandaram em uma só direção. Algo me diz que todos eles seguiram aquele general.
— Isso… significa que vamos ter que passar por todos eles logo antes de chegar ao general, não é? — Will agarrava os cabelos e olhava para cima. — Já não era difícil o suficiente para nós?
— Acalme-se, pense pelo lado bom, devemos poder aumentar o ritmo por um bom pedaço do caminho se não precisarmos nos preocupar com eles. Mas também não sejamos tão otimistas, talvez eles comecem a voltar antes. Devemos estar preparados para o que vier.
— Certo… — Will angustiadamente teve que aceitar a realidade.
…
Na manhã seguinte à chegada à floresta morta, os heróis já se preparavam para seguir viagem. O acampamento havia sido levantado e só o que restava era desativar o artefato, montar nos lobos e partir.
A névoa continuava branca, dando à paisagem um toque a mais de morbidez. Mas o grupo se sentia aliviado pela névoa continuar clara. Assim que ela começasse a escurecer novamente, eles sabiam que não teriam mais descanso em sua jornada.
Elicia verificava seu lobo quando teve um mal pressentimento. Ela olhou em volta e percebeu que Viktor parecia inquieto. Ele andava de um lado para o outro procurando por algo, quando encontrou o olhar dela, ele perguntou:
— Você por acaso não pegou o artefato fixo de barreira não é?
— Ah, não? — Elicia levantou uma sobrancelha e respondeu com outra pergunta sem entender muito bem o questionamento.
— Claro que não, é um artefato FIXO por um motivo!
Elicia estava verdadeiramente confusa com a fala dele, mas percebeu que algo claramente não estava certo e mudou sua expressão de confusão para seriedade.
— O que houve?
— Ele sumiu.
— Sumiu? Como assim sumiu?
Elicia deixou o lobo e se dirigiu ao centro do acampamento onde a estrutura protetora do artefato deveria estar, mas de fato não estava.
— O… O QUEEE?!

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