Capítulo 9 - O fim do mundo
Após meia hora da passagem da besta colossal, Elicia, Luna e Will começaram a sentir náuseas severas, e qualquer conteúdo que ainda estava presente em seus estômagos foi expulso para fora. Aqueles tremores pareciam ter mexido mais com seus corpos do que eles foram capazes de sentir no momento que ocorreram.
Aquela besta estava além da imaginação dos heróis, nunca antes sequer avistada por um grupo anterior.
Elicia ocupou seu lugar de guarda, assumindo o último turno da noite para que seus companheiros pudessem descansar ao menos um pouco.
Luna havia se oferecido para continuar na guarda, mas Elicia não conseguiria dormir de qualquer forma. Ela não conseguia parar de pensar naquela criatura, algo a incomodava, como se estivesse prestes a lembrar de algo.
Enquanto o barulho da chuva aumentava, com raios retumbando intermitentemente, Elicia lembrava cuidadosamente de cada detalhe que fora capaz de perceber sobre a criatura: o que conseguira ver sobre sua forma no curto intervalo de iluminação tênue de cada relâmpago, a forma que sentira com o movimento da névoa durante sua passagem, os sons e cheiros semi-ocultados pela chuva.
Era… peculiar.
Era assustador.
A forma parecia de um mamute, mas seus membros anteriores eram mais longos que os posteriores, semelhantes aos braços de um gorila. Além disso, não possuía rabo nem tromba, mas as presas de marfim estavam presentes, com o comprimento de quase dois terços da altura da besta. O formato da cabeça também lembrava vagamente um primata.
Aquela coisa era coberta de pelos escuros apodrecidos e tinha um cheiro repugnante de carne em processo de decomposição.
Com a forma da besta mais clara em sua mente, Elicia teve um lampejo de reconhecimento.
Os heróis não eram obrigados ou mesmo incentivados a ler sobre as culturas antigas de diferentes locais do mundo, mas Elicia pessoalmente gostava de entender como diversos tipos de povos enxergavam o mundo antes da era de sombras. Ela até mesmo nutria uma certa esperança de que pudesse um dia encontrar com aquelas pessoas caso mais alguém, talvez num lugar muito distante, também tivesse sido capaz de sobreviver à névoa negra.
Entre o material disponível para estudo na Cidade do Sol, havia uma seção sobre mitologia, e daquela seção vinha o reconhecimento de Elicia sobre aquela besta.
Behemoth, um colosso que nivelaria o mundo quando os dias da humanidade chegassem ao fim.
A lenda contava sobre uma criatura de criação divina que pisaria sobre a terra no fim dos tempos. E agora os tempos estavam chegando ao fim muito mais do que há quinhentos anos, pelo menos para a Cidade do Sol.
“Talvez isso signifique que nós realmente somos os últimos…”
A cabeça de Elicia latejava enquanto ela tentava não se prender à uma história de um povo que desaparecera há tanto tempo atrás.
Talvez fosse realmente apenas uma lenda, e não houvesse qualquer relação de causa e efeito entre o desaparecimento do povo da Cidade do Sol e o aparecimento da criatura, mas Elicia não podia evitar a comparação.
O mito também falava sobre uma criatura de igual proporção que abalaria os mares, mas estando os heróis no centro do continente, ao menos se os mapas ainda estivessem certos sobre a geografia do mundo, tal criatura não era uma preocupação no momento.
Enquanto suor frio escorria por sua testa, Elícia ouviu seu apelido sussurrado, parecia quase um suspiro.
— Eli…
Elicia instintivamente se aproximou de Viktor para ouví-lo melhor, esquecendo por um momento da nova capacidade de seus sentidos.
— Estou aqui.
— O que houve depois que “aquilo” passou? — Ele perguntou em voz baixa, não querendo acordar os outros dois.
— Nada… Ele foi embora. Depois disso nada mais aconteceu, abençoadamente.
— Você conseguiu ver?
Elicia descreveu a criatura detalhadamente e contou sobre a associação que fizera com o mito. De manhã ela repetiria aquelas informações para os outros.
— Aqueles tremores… tenho medo de imaginar o que poderia acontecer se estivéssemos mais perto. Minha intuição, realmente minha intuição, não a névoa, me disse que, se nós nôs mexêssemos, aquele monstro perceberia imediatamente.
— Entendo. Então…— Viktor ficou pensativo por um momento. — É possível que ele consiga sentir tudo que os tremores produzidos por ele tocam. Assim como você agora pode sentir pela névoa, ele pode sentir pelas vibrações.
— Faz sentido. — Elicia suspirou.
— Você viu para onde ele foi?
— Passou atrás do nosso acampamento, cruzando a planície pelo caminho mais longo. Pelo menos, se ele continuar nessa rota, não devemos mais topar com ele.
— Assim espero…
Viktor apoiou-se em um braço para tentar se sentar. Ao perceber, Elicia o ajudou.
— Você não deveria estar se movendo assim.
— Está tudo bem, a ferida só abriu superficialmente.
— Se você diz… — Elicia suspirou novamente.
— Você anda suspirando bastante.
— Você acha? Eu nem percebi… — Elicia se policiou ao perceber que estava prestes a suspirar mais uma vez. — É verdade. — Ela esboçou um sorriso.
Ela arrumou a postura e provocou:
— E quando foi que você arrumou tempo para ficar reparando nos meus suspiros?
Viktor sentiu um calor se espalhar por seu rosto. Elicia nunca tivera ideia do quanto suas provocações eram efetivas, pois ele era bom em esconder tudo que dizia respeito a si. Ele se recompôs rapidamente e, dessa vez, respondeu com sinceridade em vez de devolver a provocação.
Ele olhou-a nos olhos.
— Eu sempre tive tempo suficiente para reparar no que é importante, e em “quem” é importante.
— Óh, então eu sou importante para você? — Elicia continuou provocando, agora com um sorriso malicioso.
— Você é.
A resposta de Viktor soou clara e convicta, não deixando margem para interpretações, e dessa vez era ele quem não fazia idéia do efeito que provocara em sua contraparte.
Elícia sentiu seu rosto queimar ruborizado enquanto um frio se espalhava por sua barriga. Ela fora pega totalmente de surpresa por aquela resposta direta. Ele sempre respondia às provocações dela à altura e, em seguida, eles riam juntos das besteiras que haviam falado. Por que dessa vez havia sido diferente?
Na verdade, Viktor parecia diferente desde o dia em que ela havia brigado com ele sobre a ideia de deixá-lo para trás. De repente, ela percebeu que também reparava nele constantemente.
— Maiz zuma caneca pur… favor… — Will falou arrastadamente enquanto dormia.
— Hummm! — Luna pareceu reclamar do barulho de Will, mesmo estando inconsciente.
— É melhor você dormir mais um pouco! — Elicia falou mais rápido do que gostaria, tirada de seu torpor pelo barulho de Will e Luna. — Se não, eles vão acabar acordando.
Ao declarar aquilo, ela se levantou do lugar ao lado de Viktor e se afastou rapidamente, tomando novamente o lugar onde estava fazendo a guarda anteriormente.
Ela não estava pronta para lidar com aqueles sentimentos ainda, na verdade, não podia se dar ao luxo de parar para entendê-los. O mundo estava acabando, e se ela não fosse forte o bastante, acabaria junto com ele.
Bestas colossais se erguiam sobre a terra moribunda enquanto um espectro de poder desconhecido levava as almas raptadas da Cidade do Sol para sabe-se lá onde.
Não havia tempo para pensar em si, e toda energia que pudesse reunir deveria ser usada para se aproximar daquele objetivo tão inalcançável.
O restante da madrugada passou muito lentamente até que, inevitavelmente, a penumbra do dia permeou a névoa.
De manhã, bem cedo, os heróis levantaram acampamento e partiram em direção ao próximo ponto.
Uma pressa inexplicável se enraizou em seus corações. Uma pressa de chegar antes do fim.
Se o fim chegasse antes, nada mais poderia ser feito, e o fim se aproximava numa velocidade avassaladora.
Os heróis ainda estavam longe do destino final, e também muito longe de entender o que esse destino lhes reservava.

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