Depois da luz, um silêncio pesado varreu todos os ruídos e formas, diferente do vazio onde a espada o encontrou.

    Kendrick não sabia se tinha passado um instante ou uma eternidade. Talvez o tempo nem existisse ali, e a noção de espaço e até mesmo a matéria pareciam igualmente ausentes.

    Primeiro, sentiu uma friagem suave invadir seu ser. Aquela friagem se espalhou por cada parte de si como se corresse por todas as suas terminações nervosas, e em seguida um choque lhe fez sentir como se tivesse um corpo novamente.

    Mesmo que aquilo não fosse exatamente um corpo, era algo bem próximo disso. Era maleável, instável, mas tinha peso e forma suficientes para que reconhecesse como parte de si mesmo.

    Ao abrir os olhos, percebeu que estava deitado no centro de uma arena colossal.

    O chão parecia feito de areia, mas era diferente, as características como textura, peso e temperatura se alteravam constantemente.

    Ao redor dele, milhares de assentos subiam pelas arquibancadas e desapareciam no alto, engolidos por uma fuligem escura semelhante à que havia visto anteriormente. Ela cobria todas as extremidades daquele lugar.

    Todas as arquibancadas estavam vazias. Não havia ninguém e nem nada que pudesse explicar por que ele estava ali.

    Kendrick tentou se levantar, mas suas pernas vacilaram. Aquele corpo era tão maleável que a menor das alterações em suas intenções o fazia se desorganizar.

    Mesmo assim, conseguiu ficar de pé.

    — Onde estou…?

    Sua voz ecoou pelo coliseu, espalhando-se em todas as direções e voltando como sussurros.

    Levando a mão ao próprio peito, Kendrick não encontrou ferimentos, sangue ou os buracos deixados pelas balas de Victor.

    Também não havia batimento e nem calor.

    A lembrança dos tiros veio de uma só vez: o posto, a chuva, Victor sorrindo com a arma, Stella na entrada segurando o revólver fumegante, Marcos agarrado à sua mão e Matheus gritando por ajuda.

    Ele cambaleou.

    — Eu…

    A palavra que estava prestes a proferir travou em sua garganta.

    Ele já sabia muito bem o que havia acontecido.

    Tinha sentido o próprio corpo parar. Se lembrava com clareza da sombra engolindo-o, e do momento em que tudo desapareceu de sua visão.

    Mesmo assim, estar consciente depois da morte parecia absurdo demais para alguém tão descrente como Kendrick. Aceitar a morte sem resistência era difícil.

    Procurando qualquer sinal de saída, Kendrick olhou ao redor. Perto de uma das extremidades da arena, havia uma abertura simples, semelhante à passagem usada por gladiadores.

    Sem outra opção, começou a caminhar até lá.

    Cada passo parecia estranho, não produzia som algum, e mesmo o som de sua voz que há pouco tempo ainda ecoava distante havia sumido na imensidão daquele lugar.

    Atravessando a saída, encontrou um caminho plano, parecido com uma rua pavimentada, estendendo-se para além da arena.

    Ao lado da entrada, duas estátuas se erguiam.

    Uma representava uma mulher imponente, de túnica longa, livro aberto nas mãos e três luas minguantes formando um símbolo atrás das costas.

    A outra era um emblema colossal: círculos e um hexágono envolvendo um olho aberto, cercado por seis marcas míticas.

    Kendrick não reconhecia nenhum daqueles símbolos, mas o olho de pedra lhe causou uma sensação incômoda.

    Como se estivesse sendo observado, mas então percebeu algo ainda mais absurdo.

    O coliseu, as estátuas e o caminho existiam sobre uma ilha flutuante.

    Além das bordas, não havia céu nem chão. Apenas uma imensidão escura coberta pela mesma fuligem que cobria as extremidades do coliseu e que o havia engolido em seus últimos momentos.

    Assim que deu um passo para fora da entrada do coliseu, uma dor profunda atravessou sua cabeça.

    Kendrick levou as duas mãos à testa e caiu sobre um joelho.

    — Droga…

    As lembranças vieram cada vez mais fragmentadas.

    O gosto amargo de morrer pelas duas pessoas que o traíram permanecia nítido. Mas outras memórias estavam diferentes: os rostos, as vozes e os nomes de Marcos, Matheus e sua mãe.

    Ele sabia que aquelas pessoas tinham significado algo, mas ao mesmo tempo não conseguia recordar de nada. Era como se algo as tivesse borrando de sua cabeça aos poucos. Ele sabia que algo ainda doía por deixá-las, no entanto, seus rostos pareciam fotografias antigas expostas ao sol, perdendo cor e forma a cada tentativa de recordá-los.

    — Não…

    Apertou a cabeça com força.

    — Não. Espera…

    Tentou alcançar o sorriso de Matheus, a voz da mãe, os olhos de Marcos segurando sua mão no chão da loja.

    Tudo escapava.

    — Eu não quero esquecer…

    Mas nenhuma súplica o impediu de esquecer. Tudo que restou foram apenas alguns fragmentos.

    Kendrick respirou fundo, embora nem soubesse se ainda precisava respirar, e continuou caminhando. Não podia ficar ajoelhado ali, esperando que as próprias memórias desaparecessem por completo.

    Diante dele, a fuligem se afastou lentamente, revelando uma parte maior da ilha.

    Foi então que uma voz surgiu.

    Ela não atravessou o ar, não ecoou pelas pedras… Apenas apareceu dentro de sua cabeça.

    — Isso é bem interessante, devo lhe dizer garoto. Este lugar não costuma reagir a estímulos emocionais.

    Kendrick se virou bruscamente.

    Sobre uma elevação que ele não havia notado antes, uma mulher estava sentada em um trono simples. O trono parecia moldado pela própria fuligem.

    A desconhecida tinha aparência jovem, bela e fria. Cachos loiros caíam sobre seus ombros, e um livro marcado por símbolos repousava em sua mão.

    Ela era a mesma figura da estátua próxima ao coliseu que havia visto antes.

    Seus olhos, porém, eram muito mais impassíveis que a pedra, brilhavam em um púrpura intenso como ametistas, e seu corpo era pálido e estava embrulhado em um vestido gótico feito da fuligem.

    Diante dela, Kendrick se sentiu pequeno, como se sua vida, sua morte, sua existência e toda a injustiça que carregava fossem apenas poeira diante daquela figura. A mulher não o observava com compaixão ou curiosidade, mas com a atenção fria de alguém analisando uma falha em um sistema.

    — Onde eu estou? — Kendrick perguntou, tentando manter a voz firme.

    Por mais alguns segundos, ela permaneceu em silêncio.

    Então respondeu:

    — Você morreu… Pensei que isso estivesse bem claro.

    O corpo inteiro de Kendrick endureceu. Apesar de já saber, ouvir aquilo em voz alta e de outra pessoa fez tudo ganhar um peso diferente do qual já havia experimentado.

    — Então… foi real? — murmurou. — Eu realmente morri?

    A mulher se levantou do trono.

    — Sim.

    A resposta foi simples e fria, sem qualquer delicadeza… Descendo da elevação, ela continuou:

    — Este lugar é o Abismo. Um vazio além das realidades, um espaço onde existências que já não podem permanecer no lugar ao qual estavam vinculadas são descartadas, para serem redirecionadas ou excluídas.

    Kendrick apertou os punhos.

    — Excluídas?

    Sem responder imediatamente, a mulher continuou se aproximando.

    — Você deveria estar mais preocupado com o fato de sua essência ter chegado até aqui preservada.

    — Minha essência?

    — Aquilo que você chamaria de alma, embora o termo seja simples demais para definir exatamente o que de fato é a essência.

    Kendrick tentou organizar os pensamentos, mas sua sanidade já havia se perdido, só lhe restou engolir em seco e buscar por mais respostas.

    — Quem é você?

    Parando a poucos passos dele, a mulher respondeu:

    — Isso é irrelevante no momento, Kendrick.

    O modo como ela pronunciou seu nome fez um arrepio atravessar seu corpo.

    — Como você sabe meu nome?

    — Posso ver muito mais sobre você do que seu nome.

    Ela ergueu uma das mãos. Parte da fuligem desceu até seus dedos e se condensou numa nuvem escura, sobre a qual a mulher se sentou com absoluta naturalidade.

    Era como se aquele lugar inteiro respondesse à vontade dela.

    — O fato de sua essência ter chegado preservada já seria incomum — continuou. — A maioria das existências humanas jamais atravessaria este lugar mantendo consciência ou identidade.

    O peito de Kendrick se apertou.

    — Então por que eu consegui?

    Os olhos dela se estreitaram.

    — Esse é justamente o problema.

    A nuvem escura flutuou alguns centímetros acima do chão.

    — Sua essência foi alterada antes de chegar até mim.

    Kendrick congelou.

    A espada surgiu em sua mente.

    A empunhadura branca. Os detalhes dourados. A luz explodindo ao redor dele. A sensação de estar sendo aberto, invadido e rearranjado.

    — Alterada…?

    — Marcada. Fundida a alguma coisa que não consigo identificar completamente.

    A mulher apoiou o rosto sobre uma das mãos.

    — Você morreu como um humano comum, Kendrick. Mas não chegou ao Abismo como um.

    O silêncio cresceu ao redor deles.

    A espada não tinha sido um sonho nem uma alucinação da morte. Ela tinha tocado sua essência, entrado nele, e nem aquela mulher parecia compreender por inteiro o que isso significava.

    — Aquela espada… — murmurou.

    Pela primeira vez, o olhar dela mudou, não muito. Apenas o suficiente para demonstrar interesse.

    — Espada?

    — Antes de chegar aqui… havia uma espada. Tinha empunhadura branca, adornos dourados… E eu a toquei.

    Levou uma das mãos ao peito.

    — Depois disso, senti que alguma coisa dentro de mim foi mudada.

    A mulher ficou em silêncio.

    O livro em sua mão desapareceu em partículas escuras. Em seguida, ela estendeu a palma aberta em direção ao peito de Kendrick.

    — Fique imóvel.

    Antes que pudesse protestar, uma pressão intensa o atingiu.

    Kendrick sentiu os olhos daquela mulher atravessando-o por dentro, procurando cada parte de sua existência, cada fragmento, cada marca deixada pela espada.

    Por um instante, a expressão dela vacilou. O controle absoluto em seu rosto foi substituído por um esforço visível.

    Algo dentro de Kendrick resistia à análise, algo que não queria ser tocado por ela.

    De repente, a mulher retirou a mão. Seus dedos tremiam, pouco mas tremiam.

    Kendrick percebeu.

    — O que aconteceu?

    Massageando a palma da mão, ela continuou olhando para ele.

    — Há algo dentro de você.

    — Eu sei disso. A espada…

    — Não.

    A interrupção foi seca.

    — Você não compreende. Seja o que for que tocou, isso não apenas o acompanhou até aqui. Alterou a estrutura da sua essência. Fundiu-se a você em um nível que deveria ser impossível.

    A garganta de Kendrick secou.

    — Isso é ruim?

    A mulher o observou em silêncio. Demorou mais do que ele gostaria para responder.

    — Significa que você se tornou uma anomalia grande demais e por isso foi lançado para fora daquela realidade.

    A palavra o atingiu com mais força do que esperava.

    — Uma anomalia…

    — A realidade é maleável — explicou ela. — Mas mesmo aquilo que é maleável possui limites. Existem leis. Estruturas. Ordens que sustentam cada mundo, cada dimensão, cada fluxo de existência.

    Ao redor da ilha, a fuligem se moveu lentamente.

    — Quando algo se torna incompatível com essas leis, quando uma existência ultrapassa os limites da realidade que deveria sustentá-la, ela é expulsa.

    Kendrick baixou o olhar para as próprias mãos.

    — Então eu sou algum tipo de erro?

    — Você se tornou uma falha para as leis da realidade onde morreu, mas pelo fato de isso só ter acontecido depois que tocou a tal espada, esse pode ser o motivo.

    A resposta veio direta, sem cuidado ou piedade.

    Uma revolta surgiu dentro dele. Mesmo depois de morrer e perder tudo, ainda precisava ouvir que era uma falha. Que sua existência não cabia em lugar algum.

    — E o que acontece com uma falha? — perguntou, com a voz baixa.

    A mulher se levantou da nuvem escura. Desta vez, havia algo mais sério em seu olhar.

    — Meu dever primário é preservar a ordem.

    Então caminhou até ele.

    — E a ordem exige que exceções como você sejam analisadas para serem excluídas ou recondicionadas.

    Excluídas…

    Um frio percorreu a existência de Kendrick quando parou para pensar nas palavras.

    — Você vai me apagar?

    — Se não houver uma realidade capaz de comportar sua essência atual, esse é meu dever.

    Parando diante dele, a desconhecida colocou a mão sobre seu peito outra vez.

    — Uma existência incompatível não pode permanecer solta entre as realidades. Seria perigoso demais para a ordem.

    — Mas que merda! Eu não pedi por isso!

    A voz de Kendrick explodiu antes que conseguisse contê-la.

    — Eu não pedi para morrer! Não pedi para tocar aquela espada! Não pedi para ser arrancado do meu mundo e vir parar nesse lugar!

    O desespero e a impotência retornaram junto com a raiva.

    — Eu só queria continuar vivendo! — gritou. — Eu só queria voltar para casa!

    A mulher não recuou, nem sequer reagiu à explosão de fúria de Kendrick. Apenas manteve a mão sobre seu peito.

    — Sua vontade não altera o que aconteceu. O que você deseja para mim não faz a menor diferença. Suas razões e traumas para mim não passam de algo tão irrelevante quanto a menor das partículas subatômicas.

    A frieza daquela resposta quase o fez odiá-la.

    Então uma queimação inquietante percorreu o interior de Kendrick.

    A mulher fechou os olhos.

    Toda a fuligem ao redor deles vibrou. Pouco a pouco, a concentração no rosto dela deu lugar à estranheza e, por fim, a uma surpresa silenciosa.

    Ela retirou a mão de seu peito e deu um passo para trás.

    — Isso não faz sentido…

    Kendrick respirou com dificuldade.

    — O quê diabos é agora?

    Erguendo uma das mãos, a mulher fez surgir diante de si novamente um livro. Este era diferente do anterior, parecia mais antigo, envolto em fuligem e coberto por símbolos mutáveis. Ela o folheou rapidamente.

    — Encontrei algo… algo surpreendente sobre sua essência. Ela pertence a uma realidade distinta.

    Kendrick ficou imóvel.

    — O que você quer dizer?

    A mulher parou de folhear o livro. Seus olhos se fixaram nos dele.

    — Kendrick… Existe um lugar em que sua essência poderia ser aceita.

    O mundo pareceu silenciar novamente.

    — O quê?

    — Sua essência, por ser uma anomalia, tecnicamente não deveria ter compatibilidade com nenhum mundo. Em tese, eu deveria excluir vossa existência. No entanto, quando busquei através de ti um mundo, encontrei algo inesperado: um lugar onde você pode pertencer.

    A mente de Kendrick pareceu girar.

    — Isso era para ser impossível?

    — Deveria ser. Eu não sei o motivo, mas você está envolto de mistérios que nem mesmo eu posso desvendar.

    Ela fechou o livro.

    O som ecoou pelo vazio.

    — Somente após sua morte e a fusão com aquilo que você chama de espada sua essência mudou. Talvez a chave para descobrir o porquê de tudo isso ter acontecido esteja em algum lugar daquele mundo.

    Kendrick não conseguia respirar. Ou talvez estivesse apenas fingindo que ainda precisava fazer isso.

    Por alguns segundos, a mulher permaneceu em silêncio.

    Kendrick abaixou a cabeça… apesar de triste, ele ansiava pelas respostas. Tudo o que viveu eram apenas rastros de uma versão dele que sequer existia mais.

    O velho homem que sorria para ele, o amigo de infância sempre próximo, a mulher que cozinhava e o olhava com ternura, o lugar com cheiro de comida, a cena do bolo sobre a mesa, a mão quente segurando a sua enquanto morria, e até os dois que o olharam com desprezo.

    Mesmo com as lembranças se apagando, tudo aquilo ainda se mantinha em sua cabeça, mesmo que fragmentado.

    — Mas aquele mundo no qual vivi, meu antigo mundo… — murmurou. — As pessoas que eu conheci estavam lá. Tudo o que eu fui estava lá.

    A mulher não respondeu de imediato. Quando falou, sua voz pareceu um pouco menos fria.

    — Nada poderá apagar o fato de que você passou por aquele mundo. Mas simplesmente não há mais volta para você. Aquele não é mais seu lar.

    A resposta não o confortou, mas impediu que aquela verdade o esmagasse por inteiro.

    O livro se desfez em partículas de fuligem.

    — Existe apenas uma realidade capaz de comportar sua essência atual — disse ela. — A realidade à qual você poderá recomeçar.

    Kendrick ergueu os olhos.

    — Então… você vai me mandar para outro mundo?

    — Sim.

    A resposta o atingiu como um tapa.

    — Retornar à sua antiga realidade não é possível. Permanecer aqui também não. Sua única alternativa à exclusão é atravessar para o mundo que pode sustentá-lo e reintegrá-lo à ordem.

    Ele fechou os olhos.

    Morrer já tinha arrancado tudo dele. Agora, até o direito de olhar para trás seria negado.

    Tudo o que restava era seguir para um lugar que nem sequer conhecia.

    — Eu não tenho escolha, tenho?

    — Não.

    Kendrick soltou um riso baixo.

    — Amargo. Pelo menos você é honesta.

    A mulher o observou sem reagir.

    Então ergueu as mãos, e a ilha estremeceu.

    A fuligem girou até abrir uma fenda acima deles. Do outro lado, um fluxo de energia exibia luzes, sombras e fragmentos que Kendrick não sabia nomear.

    — Ao atravessar, sua essência será guiada até a realidade compatível — explicou a mulher. — No entanto, seu destino dentro dela é imprevisível.

    Kendrick encarou a fenda.

    — Imprevisível como?

    — Sua consciência pode despertar em qualquer lugar. Em qualquer condição. Em qualquer corpo.

    Um nó se formou em sua garganta.

    — Então eu posso nem continuar humano?

    — Pode não continuar sequer semelhante ao que entende como humano.

    Kendrick permaneceu em silêncio. Aquilo não parecia uma salvação, mas apenas mais um tiro no escuro.

    Outra vida que não tinha escolhido… Ainda assim, um destino incerto era melhor do que ser apagado por completo.

    A fenda continuava girando acima deles.

    Antes que a mulher o enviasse, ele ergueu o rosto.

    — Espere.

    Ela não fechou o portal.

    Apenas o observou.

    — Quem é você?

    — Isso ainda importa?

    — Importa para mim. — Kendrick respirou fundo. — Se vou acordar sabe-se lá onde… em sabe-se lá qual corpo… eu quero ao menos saber o nome da pessoa que decidiu não me apagar.

    Pela primeira vez, a mulher hesitou.

    — Não fiz isso por você. Sigo as leis que me foram confiadas e, quando não há ordem exata, faço o que preserva o equilíbrio. Não confunda isso com bondade.

    Apesar da firmeza, havia cansaço em sua voz.

    Uma tristeza muito antiga.

    Kendrick a observou por alguns segundos insistindo na resposta.

    — Mesmo assim, você poderia ter escolhido a solução mais simples.

    A mulher desviou o olhar para a fenda. Por um breve instante, sua expressão pareceu quase humana.

    — Eu não possuo um nome que realmente importe agora. Sou apenas uma serva da lei.

    Fez uma pausa.

    — Mas, há muito tempo, fui chamada de Neris.

    Kendrick guardou aquele nome consigo… Neris.

    Uma figura enigmática que falava sobre apagar almas com naturalidade e, mesmo assim, tinha decidido permitir que ele seguisse existindo.

    — Sou uma das matronas da Ordem dos Arcontes — concluiu ela.

    Ele assentiu lentamente.

    — Adeus, Neris.

    Ela não respondeu.

    Kendrick olhou mais uma vez para as próprias mãos. Elas estavam instáveis, estranhas, quase irreais.

    — Eu nem sei dizer quem sou agora — murmurou, levando a mão ao peito. — Minhas lembranças estão se desfazendo cada vez mais. Algo foi arrancado de mim, e a espada colocou outra coisa no lugar. Mas ainda restam fragmentos de alguém chamado Kendrick.

    Neris o observou em silêncio, e então, por um segundo, sua expressão se suavizou.

    — Nesse caso, leve esses fragmentos com você, Kendrick. Eles podem ser a motivação que o levará a desvendar os mistérios que o envolvem.

    Ela estendeu uma das mãos.

    O corpo de Kendrick ficou mais leve. Seus pés deixaram o chão. A cada instante em que se aproximava da fenda, sua forma parecia se desfazer, transformando-se em partículas de energia levadas pela correnteza daquele caminho.

    Ele não lutou, apesar de não estar tranquilo e nem aceitar tudo. Mas, pela primeira vez desde que morreu, sentiu que havia algo adiante.

    Algo além da morte e além da vida que tinha sido arrancada dele.

    Quando chegou diante da fenda, perdeu a forma por completo… Foi engolido pelo fluxo violento e caótico, sua consciência quase desapareceu.

    Ainda assim, dessa vez, não sentiu que estava perdido… Estava sendo conduzido. Para um mundo novo e uma vida nova que talvez pudesse ser uma nova casa.

    Pouco antes de sua consciência adormecer novamente, um último pensamento surgiu em sua mente.

    Talvez não fosse tão ruim assim ter um novo lar.

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