Capítulo 0206: Uma visita inesperada
Três dias se passaram desde a chegada de Siegfried ao Castelo Essel, mas pouco havia acontecido.
O Rei Donoghan reuniu um enorme exército e os problemas já começavam a aparecer; precisava pô-los em marcha em breve ou mandá-los para casa — não havia comida o suficiente para todos eles e o número de moradores de Cidade Bela se queixando do assédio dos soldados crescia diariamente (embriaguez e baderna eram as maiores preocupações).
— Eles destruíram a minha taverna — disse um suplicante qualquer. — Beberam todo o meu estoque e, quando pedi que pagassem, quebraram tudo e espantaram os fregueses.
Na verdade, isso era bastante comum.
Os soldados chegavam, pegavam o que queriam e, se alguém insinuasse que deviam pagar por algo, destruíam tudo e davam uma surra no infeliz (caso ele tentasse pará-los).
Mesmo as rameiras reclamavam da falta de pagamento e agora a maioria dos bordéis já se recusava a aceitar os soldados.
“É só uma questão de tempo até os estupros começarem.”
O Barão Deepwood tinha a maior tropa entre todos os lordes (duzentos homens) e era o braço-direito do Rei Donoghan, por isso ficou responsável pela guarda da cidade — uma função importante e de grande prestígio.
Siegfried ficou responsável por patrulhar as tropas acampadas do lado de fora da cidade. Por quê? Simplesmente porque ninguém mais queria fazer isso. Era uma tarefa trabalhosa e ingrata que exigia do rapaz atenção constante; passava boa parte do seu dia resolvendo disputas e brigas e distribuindo punições. A maioria dos nobres preferia evitar essa função por um motivo bastante simples: medo.
Pôr ordem em homens armados e irritados é uma tarefa perigosa. Se for rígido demais ou mole demais, pode terminar com uma flecha nas costas.
Siegfried tinha pouca experiência como líder. Na Vila do Lobo, fez um trabalho horrível em manter a ordem no seu distrito. Era duro nas situações em que devia ser leniente e leniente nas situações em que devia ser duro. Infelizmente, aprendeu pouco com a experiência passada.
“Por que é tão difícil liderar?!”
As disputas passaram a ser resolvidas com um ‘julgamento por combate’. O que era só uma forma bonita de dizer que, sempre que os soldados discordassem de algo, deveriam resolver o assunto em uma pequena arena improvisada. Dois ou mais homens então se enfrentavam com os punhos e, quando a luta terminasse, deviam compartilhar um copo de cerveja. A maioria se acalmava depois disso. Para aqueles que não, Siegfried era o juiz.
A princípio, tentou ser justo e dedicado, mas o volume de solicitações cresceu rápido e foi se acumulando, até que o rapaz decidiu que era melhor pôr um fim definitivo nas disputas: alguém sempre seria enforcado ao final do julgamento… Ou, no mínimo, recebia dez chibatadas (se fosse uma disputa inútil).
Obviamente, alguns homens não gostaram do seu tratamento. Quatro soldados fizeram uma emboscada no meio do acampamento durante uma patrulha, almejando se vingar. Matou todos em combate e mandou enforcar os cadáveres, como um aviso. Depois disso, passou a usar os seus próprios soldados como guardas — não precisava deles para se defender, mas covardes tendem a hesitar quando veem um grande grupo e o seu objetivo era simplesmente desencorajar novas tentativas de assassinato (o que parece ter funcionado).
Como num passe de mágica, todos os problemas desapareceram do acampamento. Estavam apenas escondendo as coisas dele e sabia disso. Certamente as disputas continuavam, mas, agora, ninguém mais levava o assunto até ele e resolviam as coisas com as próprias mãos ou deixavam o problema para lá. Não era o ideal, mas agora tinha tempo para resolver outros assuntos.
Também proibiu os soldados de entrarem na cidade. Se quisessem algo, tinham primeiro de pedir a autorização de Siegfried; se fosse necessário, enviaria um pequeno grupo até a cidade para trazer o que precisavam (quase sempre cerveja e rameiras). Obviamente, os próprios soldados pagavam por tudo o que solicitassem.
E assim o tempo passou.
Estava retornando ao castelo depois de mais um dia cansativo, subindo a torre que levava até o seu alojamento, quando abriu a porta do quarto e foi surpreendido.
— Eu não acredito nisso — disse Gwen.
A jovem assassina estava exatamente como lembrava dela: em sua roupa de couro preto; os olhos azuis brilhando na escuridão. O seu corpo, com mais curvas e volume do que da última vez que a viu. Devia estar com cerca de quinze anos agora (tornava-se uma mulher).
Siegfried tocou o cabo da espada, como que para garantir que ainda estava lá, mas não a desembainhou:
— Gwen! Veio me matar… De novo?
— Matar…?
Ela parecia estranha. Estava um pouco lenta. Morosa. Embriagada? Podia sentir o cheiro de álcool, embora claramente não estivesse bêbada, apenas… Cansada.
— O que você quer!?
Ela se aproximou descuidadamente e tocou o peito de Siegfried, precisamente onde a sua adaga havia-lhe perfurado o coração há quase um ano:
— Como você ainda tá vivo?
Estava indefesa. Perto demais e desarmada. Podia tê-la matado bem ali; ou simplesmente a capturado. Ao invés disso, respondeu:
— Sorte.
— Sorte… É! Acho que foi, não é?!
— …
— Vi você com o Conde Donoghan. — A voz dela fraquejou. Baixa. Se não a conhecesse, poderia pensar que estava tentando segurar as lágrimas. Não. Impossível. Ainda assim… — Por que você sempre escolhe o lado errado?!
— Continua leal ao Príncipe Helmut, pelo que vejo.
— Calaboca!
E descansou a cabeça no peito de Siegfried. Levou um instante até o rapaz perceber que ela havia dormido em pé. Devia estar muito cansada. Pegou ela no colo e a pôs na cama (só os deuses saberiam dizer o porquê).
Tirou as adagas escondidas que Gwen tinha e pôs em uma gaveta na cômoda ao lado da cama, só por precaução. Cobriu ela com um lençol e deixou que dormisse. Por um breve momento, considerou amarrá-la, mas mudou de ideia — se ela quisesse matá-lo, poderia ter feito isso antes.
Só havia uma cama no quarto, por isso sentou no chão, recostou as costas na parede e dormiu de espada na mão.
“Parece que todos os fantasmas do meu passado escolheram me visitar recentemente.”
Teve um bom sonho naquela noite; campos verdejantes, uma casa humilde e a sua filha correndo descalça na grama. Mas não sabia dizer quem era a mulher ao seu lado. Seria a Dara? Gwen? Alguma outra? Quanto mais olhava, menos via.
Ainda assim, foi um bom sonho.

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