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    Dara era a convidada de honra.

    Embora o jantar tenha sido uma simples refeição e não um banquete, a Baronesa Hawk fez questão de exibi-la ao Brandon Donoghan e ao Barão Talmond. Não era preciso ser um gênio para entender o motivo.

    Assim como o Barão Whitefield havia tentado casar Dara e seu filho para ganhar legitimidade sobre o Condado de Essel, era exatamente o que os nobres do Condado de Donoghan estavam fazendo agora.

    Era possível que o Conde Donoghan tenha ido ao Castelo Essel não para ajudar a Condessa Essel a combater o Barão Kessel (como Brandon havia insinuado), mas para tomar as suas terras. Por que mais tratariam Dara com tamanha deferência?

    Com o Conde Essel capturado e nenhum herdeiro masculino para tomar o seu lugar, qualquer um podia ver que a casa Essel enfrentava agora o seu momento mais obscuro. E, por experiência, Siegfried sabia que os nobres de Thedrit adoravam apunhalar seus aliados pelas costas.

    Mas quem seria o noivo de Dara? Talvez o próprio Brandon? A mera possibilidade lhe tirou o apetite.

    Havia passado os últimos dois meses na companhia do herdeiro Donoghan e não gostou nem um pouco do que viu. Era arrogante, orgulhoso e inconsequente. Recrutou Siegfried por tédio e levou a esposa do Barão Talmond (seu aliado) para a cama, enquanto estava sob seu teto. Brandon Donoghan não tinha qualquer respeito por quem quer que fosse. E a simples ideia de que ele pudesse vir a ser o noivo de Dara dava-lhe ânsia de vômito.

    Imaginou-o por cima dela, seu corpo suado na pele macia e delicada de Dara. Montando nela, tal como havia montado a Baronesa Talmond e sabem-se os deuses quantas rameiras mais antes disso. Seu pênis dentro dela. Seu sêmen dentro dela.

    Podia ouvi-la gemer.

    Não!

    Siegfried sentiu seu corpo queimar e o ódio explodir no peito. A respiração pesada e os sentidos entorpecidos, como se tudo fosse um pouco alto demais; um pouco brilhante demais. Sentia-se tonto. Podia ver Brandon e todos ao seu redor. Seria tão fácil matá-lo. Podia fazer isso. Rasgar a sua garganta antes mesmo que alguém tivesse sequer tempo de entender o que estava acontecendo.

    Ao invés disso, levantou-se e deixou o salão para tomar um ar, sem que ninguém lhe prestasse atenção.

    Havia algo de errado.

    Não era a primeira vez que notava isso, mas finalmente entendeu o que lhe faltava. Era a Lili. Ela não estava mais lá. Tentou chamá-la. Nada. Seria uma provocação? Ela também o deixou por um tempo depois de Anna. Talvez estivesse testando-o.

    Então lembrou do beijo de Eroth. Teria sido isso? Deuses! Teria ela tomado Lili para si? Ela sempre teve interesse na succubus. Se fosse esse o caso, o que significava? Claro! Lili era um demônio e adorava tentá-lo de todas as formas possíveis, mas era também poderosa e compartilhava com ele esse poder. Além disso, havia se acostumado com a sua presença. Era estranho não tê-la ali.

    Mas havia algo.

    Siegfried podia sentir. Talvez fosse apenas raiva, mas conhecia a sensação. A mesma sensação que tinha com a Lili; de que havia algo escondido nas suas entranhas.

    Podia ser só um desejo inconsciente. Uma forma de preencher o vazio deixado por Lili. Ou talvez fosse a própria Lili, escondida bem lá no fundo; fugindo das garras de Eroth. Fosse o que fosse, queria sair. Queria matar Brandon.

    A noite já havia se transformado em um breu eterno, quando Dara enfim deixou o salão de jantar e encontrou Siegfried esperando por ela do lado de fora do seu alojamento.

    A garota vestiu um manto com capuz e então deixaram o Salão Hawk pela porta da frente. Com tantos soldados entrando e saindo a todo momento, os guardas haviam se deixado ficar desleixados com a segurança e não fizeram questão de checar a identidade deles ou perguntar o motivo de estarem deixando o salão. Simplesmente ignoraram o casal e continuaram conversando entre si.

    Siegfried buscou por Sábio no acampamento dos soldados, ajudou Dara a montar e então cavalgaram noite adentro.

    Sua filha estava na Torre Belet.

    Aparentemente, a Baronesa Hawk deixou a bebê sob cuidado dos Belet (uma pequena casa vassala dos Hawk), antes da chegada do Conde Donoghan e seus homens. Afinal, a filha bastarda de Dara poderia levar a uma série de questionamentos quanto à honra da jovem e arruinar os planos da casa Hawk.

    Por sorte, a Torre Belet ficava a não mais de quatro horas de cavalgada do Salão Hawk e o casal chegou sem problemas.

    Os guardas reconheceram Dara e avisaram a Lady Belet — uma mulher rechonchuda de 25 anos, cabelos negros e sorriso fácil. Sem demora, recebeu Siegfried e Dara, ofereceu alguns biscoitos e leite e fez o papel de boa anfitriã. Mas quando perguntou o motivo de estarem ali tão tarde, a resposta era óbvia:

    — Lady Belet, agradeço a hospitalidade — disse Dara. — Estou aqui para ver a minha filha.

    A bebê ficava no último andar. O quarto da própria Lady Belet. E dormia pacificamente em seu berço quando chegaram.

    Dara pegou a filha com muito cuidado e sem acordá-la, chegando mais perto para que ele pudesse vê-la; era uma coisinha pequena, de finos cabelos negros (como os de Siegfried), pele rosada e cheiro de leite. Já havia visto outros bebês antes, mas aquela parecia tão diferente. Era sua filha. Tinha o seu sangue.

    — Quer segurar? — perguntou Dara.

    Siegfried sentiu o coração pulsar acelerado, mas aceitou. Tomou a criança no colo com o máximo de delicadeza possível. Era mais pesada do que parecia. Fofa e delicada. A bebê moveu-se desconfortável em busca de uma boa posição e então agarrou a gola de sua camisa, pondo na boca. Não acordou.

    — Ela tem os meus olhos — disse Dara. Seus olhos eram verdes, muito mais bonitos do que os olhos castanhos de Siegfried. — Fez quatro meses há cinco dias.

    — Uma criança do inverno.

    — Poisé.

    — Qual o nome dela?

    — Não me deixaram dar um. Disseram que eu não devia me apegar muito a ela. Que ia ser melhor assim. Que eu teria outros filhos e devia pensar no meu futuro.

    — …

    — O que você acha?

    — …

    — Sieg?

    — …

    — Siegfried?

    — Ingrid.

    — O quê?

    — Significa ‘bela filha de Ing’, a deusa anã da fertilidade e da paz.

    Dara hesitou, surpresa, e então sorriu.

    — Ingrid. É um nome bonito.

    — Era o nome da minha mãe.

    Silêncio.

    De repente, Dara o abraçou e então ambos abraçaram Ingrid. Ficaram assim por algum tempo; então a puseram de volta no berço e observaram-na dormir.

    Siegfried já suspeitava há algum tempo, mas foi apenas quando segurou a mãozinha de sua filha e viu ela sorrir que teve certeza: Dragoslav o estava punindo. Que outra explicação haveria para isso? Por que mais os deuses fariam algo tão cruel? Uma filha. Mais do que isso: um futuro. Um futuro que não estava cheio apenas de guerra e sangue, mas também de alegria e esperança. Um futuro precioso e delicado que ameaçava se desfazer em mil pedaços caso segurasse firme demais.

    Por que os deuses lhe dariam algo tão belo e delicado, se não para destruí-lo bem diante de seus olhos?

    Devolveram-lhe Dara e deram-lhe uma filha, mas era agora um homem casado, Dara estava noiva de Brandon Donoghan ou outro fidalgo qualquer e a filha deles… O que seria dela? Poderia levá-la de volta ao Castelo dos Ossos? A Baronesa Hawk permitiria isso? Quantas pessoas teria de matar para proteger Ingrid?

    Não podiam levar a filha naquele momento, mas Lady Belet prometeu cuidar da bebê e o casal partiu.

    Retornaram ao Salão Hawk pelo amanhecer e encontraram Ingrith Hawk, a tia de Dara, esperando por eles. Não parecia muito feliz.

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