Cap 21 - O preço da informação
Eram 4 pessoas, o que falava era alto e esguio. Um era pequeno, Aisha não sabia se era uma criança. Havia um gordo e um sem nada de especial, além de uma tatuagem no rosto.
— O que você quer? — Aisha perguntou, sem pigarrear.
— O de sempre… — ponderando rapidamente, seus lábios se curvaram em um sorriso.
— Preciso de um trabalho — sua voz era zombeteira.
Aisha não respondeu de imediato, ela não tinha motivo para recusar.
— Quem? — ela perguntou, sem sentimentos em sua voz.
O homem esguio olhou para os dois lados, ele tirou uma folha do bolso e entregou a Aisha.
| Kevin, da realeza |
Era só uma frase, e isso fez Aisha congelar. Ela não conhecia o homem, o que a assustava era o fato de ele ser da realeza.
Ela sabia que fazer aquilo era entrar em guerra com o castelo, e o rei.
Ela coçou a cabeça.
— Você sabe as regras… A informação primeiro.
Essa era uma regra seguida pelo Mercado Invisível… A palavra valia muito aqui. Se alguém descumprisse, resolveria com o pentágono do Mercado Invisível.
Aquilo era ainda mais perigoso do que o castelo.
— Ele foi visto andando por aí com uma espada falante — ele balançou a cabeça — É isso que eu sei.
Aisha não respondeu, saindo do beco.
Ela não conhecia nenhuma espada falante… Mas as ruas falavam. E agora ela sabia o que ouvir.
O sol já tocava o horizonte, espalhando tons alaranjados sobre os telhados cobertos de neve.
As sombras se alongavam pelas ruas de pedra, enquanto o brilho do dia enfraquecia lentamente.
Lanternas começavam a ser acesas diante das lojas e tavernas, seus reflexos dourados tremulando sobre a neve acumulada.
O céu adquiria tons azulados e violáceos.
A noite se aproximava.
Hoje o dia havia sido mais produtivo do que os outros, ela finalmente conseguiu algo. Talvez Bernabei soubesse de algo sobre a espada.
Ela iria perguntar. Caminhando sem fazer paradas, logo chegou à porta do bar, quando entrou foi recebida com o calor agradável.
O interior do bar fervilhava em uma desordem familiar. Risadas altas se misturavam ao bater de canecas, enquanto grupos de clientes discutiam apostas, contavam histórias exageradas ou simplesmente bebiam para esquecer os próprios problemas.
O cheiro de fumo barato pairava pesado no ar, misturado ao aroma forte de álcool derramado e madeira envelhecida. A fumaça dançava próxima ao teto, iluminada pelas lanternas amareladas penduradas nas vigas.
Ela caminhou entre as mesas sem diminuir o passo, recebendo sorrisos tortos, cochichos abafados e olhares que fariam muita gente voltar para casa. Não ela, é claro.
Seus olhos encontraram Bernabei que apreciava a carne de um animal desconhecido, seu cachimbo estava ao seu lado.
Ela puxou uma cadeira e se sentou ao seu lado.
Bernabei lhe deu um olhar curioso. Ele não tinha a visto hoje. Não por culpa dele, ela saiu mais cedo do que o habitual.
Aisha não perdeu tempo, indo direto ao assunto.
— Velho, você já ouviu falar em uma espada falante?
Bernabei não respondeu rapidamente, pegando um pedaço da carne e levando-o à boca.
Degustando lentamente, antes de engolir. Soltando um suspiro longo, respondeu.
— Eu já ouvi histórias por aí, mas acredito que não passam de histórias — sua voz era calma, como sempre.
— Acho que não são só histórias… Fiquei sabendo que Miguel tá passeando por aí com uma.
Os olhos de Bernabei ficaram distantes.
— Eu não sei te dizer… Existe uma história que contam por aí, um homem foi amaldiçoado por uma bruxa… Seu corpo se transformou em sua própria espada.
Bernabei comeu o último pedaço de carne, enquanto encarava Aisha.
— Bruxa? Elas não foram extintas? — perguntou Aisha, com uma expressão confusa.
— É uma história antiga — Bernabei deu uma tragada no cachimbo.
Aisha ponderou por um momento, sua expressão cansada.
“Como uma espada falante anda por aí sem ser percebida?”
Ela praguejou, seus olhos estavam pesados.
— Bem… Tenho um trabalho amanhã, vou para a cama.
Ela não tinha cabeça para conversar mais e, sem esperar uma resposta, subiu para o quarto.
Ela caiu na cama sem tirar nem mesmo os sapatos, seus olhos se fecharam.
Miguel estava deitado sobre um piso de madeira podre, sendo acordado pelos sons de ratos.
Estava escuro, Miguel só conseguia ver a silhueta de uma mulher, ela estava sentada encarando o teto, o teto estava quebrado, a luz da lua entrava pelas frestas.
Miguel esfregou os olhos para despertar.
— O que aconteceu? — sua voz era confusa.
Many desviou seu olhar, encarando-o com frieza. Miguel estremeceu.
— É eu quem deveria perguntar isso! — ela gritou com raiva, tampando a boca depois de perceber que perdeu a compostura.
Miguel desviou o olhar, suspirando cansado.
Ele sabia o que tinha acontecido, porém não saberia explicar.
Nem deveria, ele não confiava nela o suficiente, nem mesmo Aisha sabia sobre o que dormia em seu olho.
Miguel deu um breve olhar em sua volta, as paredes tinham ranhuras e buracos. Alguns ratos espreitavam o escuro. O que o fez lembrar de uma frase que Antônio havia lhe dito.
‘Não saia à noite’
Ele suspirou, ele não sabia se o lunático falava a verdade, mas era bom se prevenir.
Ele deu de ombros.
— Onde está Sorlot? — sua voz não era preocupada, ele sabia que Sorlot sabia se defender.
Pelo menos ele achava que sabia.
Many deu-lhe mais um olhar irritado, Miguel não podia culpá-la.
— Ele teve que resolver umas coisas… Logo ele aparece — ela suspirou cansada.
— Eu preciso descansar… Fica de guarda — ela ponderou por um momento, então acrescentou — Se você tentar qualquer coisa, eu arranco sua cabeça!
Ela disse isso calmamente, um sorriso pairava sua feição. Miguel engoliu em seco antes de responder.
— T-tudo bem.
Com a confirmação de Miguel ela caiu de costas no chão duro, dormindo instantaneamente. Ele tinha suas dúvidas no entanto, era esquisito a facilidade das pessoas para caírem no sono aqui…
Many disse para ele não tentar nada… Mas isso não significa que ele não podia fazer nada. Ele tinha planos, lembrando da breve conversa que teve com astrador.
Ele precisava encontrar alguém para entrar em seu olho, e duvidava que seria um trabalho fácil.
Ele fez um mapa mental em sua mente.
Eu preciso de informações primeiramente… Ele foi tirado de seu devaneio pelo ronco da própria barriga.
“Primeiro eu preciso comer! Definitivamente!”
Era tarde da noite, ele sabia pela posição da lua, não deveria ter muitas pessoas por aí.
Ele fitou a porta de madeira que estava a sua direita, seu olhar apreensivo. Se levantando lentamente para não fazer barulho, ele foi em direção à porta.
De frente com ela, um pressentimento de que aquilo era errado invadiu seu coração, ele devia mesmo? Quem sabe os perigos que rondavam por aí?
“Quem não arrisca não petisca!”
Ele abriu a porta, ela não rangeu pra sua sorte. Saindo, ele deu um breve olhar para os dois lados.
A rua antes movimentada estava totalmente vazia, o que o assustou ainda mais… Algo o dizia que não estava vazia sem motivo.
Ele caminhava com passos lentos, ele não conhecia a cidade, então não podia se perder.
Seus olhos eram como uma gota de licor negro. Ele encarava o céu com uma carranca. Não era bom…
As nuvens estavam lentamente se juntando, a lua se escondia. Isso significava que logo ele teria apenas as luzes de lanternas para o guiar.
Pior do que isso, era que ali não chovia. Uma nevasca estava se encaminhando. Ele esfregou os braços quando um arrepio percorreu sua espinha.
Estava deserto… Ninguém estava ali além dele, isso era tão bom quanto ruim.
A solidão o fez lembrar de Aisha, será que ela havia notado seu desaparecimento? Fazia o quê? Um dia que ele estava fora?
Ele não sabia, às cegas na sua linha temporal, ele empurrou os pensamentos para longe.
Então, um brilho moribundo apareceu à sua direita, no meio da estrada.
Uma luz fraca saia da tampa de um bueiro. Em todas as webtoons que ele havia visto quando vivo, nenhuma aconteceu aquela situação.
O que ele deveria fazer? Era perigoso definitivamente, mas… Ele não tinha mais nada para fazer.
Ele tinha uma ideia do que, mas por onde começar?
Sua curiosidade gritou mais alto, seus olhos se estreitaram quando ele chegou perto do bueiro.
Uma fraca luz escapava pelas frestas da tampa de ferro. Miguel engoliu em seco.
“Que merda…”
Apoiando as duas mãos no metal gelado, ele fez força.
Um rangido abafado percorreu a rua, a tampa se moveu. No mesmo instante, a luz desapareceu.
Miguel congelou.
— Hein?
Ele se inclinou sobre a abertura, apenas escuridão estava lá.
Mas… Por um breve segundo, ele jurou sentir uma vibração na escada de aço que descia. Era uma clássica escada reta. A escada era antiga, e um pouco de musgo cobria algumas partes.
Ele não conseguia ver o fundo, franzindo a testa, ele gritou no buraco.
— Tem alguém aí? — sua voz era curiosa.
Mais uma vez, ninguém o respondeu, ele já estava acostumado com isso.
Ele espiou mais uma vez. Um cheiro de terra molhada entrou em suas narinas… E havia algo mais, o cheiro de diesel era forte.
Miguel praguejou baixinho
“Isso é uma péssima ideia”
Ele ponderou pensando no que faria.
“Nunca me arrependi de uma boa péssima ideia”
Segurando a borda, Miguel começou a descer. A escada era úmida e gélida.
Cinco metros… O som do vento da superfície desapareceu.
Dez metros, a lua havia desaparecido.
Quinze metros. Um som ecoou de baixo.
Água corria em algum lugar. Ele suspirou, e continuou descendo.
Vinte metros.
Seus pés finalmente tocaram um chão firme, Miguel ergueu o rosto lentamente.
Era um esgoto… muito grande, o garoto olhou à sua volta.
Água corria descontrolada pelo centro, nas laterais lanternas esverdeadas deixavam o corredor claro, um pouco pelo menos.
A luz que ele havia visto era diferente dessa…
Arcos de pedra sustentavam um teto alto demais.
Miguel encarou o rio verde a sua esquerda, ele quase vomitou… Ali não chovia, aquilo era merda e urina… Por outro lado não fedia…
Tudo era esquisito demais. Ignorando seus pensamentos, ele andou em direção à nascente do rio.
Enquanto caminhava, ele encontrou muitos canos se ligando ao rio, canos gigantes, maiores que ele mesmo.
Miguel hesitou, olhando para trás rapidamente, ele podia jurar que sentiu um olhar… Um olhar assustador. Não tendo mais a escolha de voltar, ele seguiu.
Após cerca de 20 minutos de caminhada, algo chamou sua atenção… Restos de uma túnica suja estava jogada no chão.
“Maldição”
Antes que pudesse averiguar a situação com calma, um som familiar invadiu seus ouvidos.
Sniff! Sniff!
Algo pulou atrás dele, quando olhou para trás assustado.
Seu olhar se misturou com desdém e nojo.

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