Capítulo 30: Paraíso
O caminho que seguiam até a entrada da Cidade das Cartas era silencioso. Apenas as próprias vozes davam uma certa familiaridade ao ambiente.
Um bip soa no anel de Ré, que já estava quase caindo no sono.
— Olha, Roseta. — Ré sorri ao ver a mensagem.
Roseta lança um olhar curioso.
— O que tem aí? — Ela volta a olhar para a estrada, sem querer desviar a atenção do caminho.
— É a Tulipán. Ela disse que já levou a Locista para casa e, como agradecimento, Charmomilla deixou ela usar o teleporte para voltar direto para Our Journey. Ela queria ir de trem para casa, mas, pelo que a Charmomilla disse, apenas a linha direta está consertada. — Ré continua mexendo no anel para ler o restante da mensagem.
— Espero que realmente esteja consertada, já que não dá para chegar à Catedral sem o trem da linha direta. — Roseta responde, sem tirar os olhos da estrada. — Mas quando o trem chegaria à Cidade das Cartas?
— Daqui a três dias, mas eu tenho um jeito de fazer eles esperarem. — Ré dá um sorriso travesso.
— Não vá pedir ajuda à Startinne. Tenho certeza de que essa reconstrução já está sendo estressante demais para ela.
— Eu não vou pedir ajuda. Eu tenho meu jeito, é só confiar. — Ré sorri e olha para a estrada à frente. — Falta muito?
— Não falta muito. Aproveita e avisa os dois lá dentro.
O olhar da Donzela Vermelha se afia ao notar pequenas flores vermelhas espalhadas pelo caminho. Flores que ela não reconhecia.
Ré faz um pequeno parkour, pula pela janela da carruagem e cai exatamente na poltrona ao lado de Pionla.
— Estamos quase chegando. Acho que mais uns minutinhos e prontinho.
Ela se ajeita de maneira despreocupada, mas isso dura pouco. A carruagem para repentinamente.
Roseta caminha até a porta traseira da carruagem e a abre calmamente.
— Não dá para continuar de carruagem… bem, por esse motivo.
Ela aponta para enormes raízes que bloqueavam completamente o caminho.
— Sério… Deixa que eu resolvo. — Pionla movimenta a mão, criando uma serra. Ela tenta cortar uma das raízes, mas a lâmina simplesmente se parte.
— Acho que realmente vamos ter que ir andando. — Ré dá uma batidinha no ombro da amiga e começa a caminhar na frente.
O toque faz Pionla sair do choque.
— Realmente vamos… — Ela segue ao lado do irmão e de Roseta.
O céu estava escuro, como em uma noite Carmim. As raízes acompanhavam o caminho até a fonte, e as ruas permaneciam vazias, envoltas em um silêncio estranho para uma metrópole.
Eles andavam em silêncio, com exceção de Ré, que continuava falando sobre o lugar enquanto seguia alguns metros à frente do grupo.
— Será que todos estão bem? — Pionla pergunta, observando aquele lugar que antes era tão diferente.
O grupo entra em um túnel formado pelas raízes emaranhadas.
— Acho que sim… — Roseta responde, mantendo a rapieira erguida.
Bauvalier já não escutava mais a conversa; seu olhar estava fixo em Ré, que havia parado ao final do túnel. Seu corpo tremia e ela parecia distante, então, sem pensar, ele acelerou o passo para alcançá-la.
— Ré… o que houve?
Ele se aproxima e observa a expressão dela. Então olha na mesma direção.
No mesmo instante, leva a mão à boca, tomado pela angústia.
As duas meninas se aproximam para descobrir o que havia deixado os amigos daquele jeito.
— Pelos deuses… — Roseta sente o ar lhe faltar e aperta com força o cabo da própria rapieira.
— Pierro… — As pupilas da deusa tremem.

Ela via alguém que jamais esperava encontrar naquela situação.
Seu olhar percorre os arredores.
Flores maiores do que ela se erguiam por toda parte. Onde deveriam existir seus estames e estigmas, havia caveiras das quais escorria sangue. Em seus caules, havia órgãos que ainda pareciam levemente úmidos. Algumas caveiras ainda guardavam globos oculares em suas órbitas.
Mesmo com o choque inicial, eles não podiam permanecer parados. Ainda tinham algo a procurar.
— Por que essas flores são assim? — Ré sai do transe e se esconde atrás de Pionla.
— Sai de trás, Ré. Você que devia me proteger. — Pionla se esconde atrás dela.
— Você é uma deusa, não precisa de proteção. — Ré volta para as costas da amiga, e as duas ficam nesse vai e vem.
Roseta se aproxima e encosta nas pétalas daquelas estranhas flores.
— Será que é… Mors Ranunculus… — Ela analisa a planta, enquanto Bauvalier encara as flores, incrédulo.
— Como podem existir plantas tão macabras… — Sua voz soa angustiada.
— Eu também gostaria de saber. — Roseta toca naqueles órgãos, percebendo que ainda pulsavam levemente.
— Mas… e o Pierro? — Bauvalier olha por cima do ombro. — Não tenho dúvidas de que ele deve ter pegado o artefato.
Pionla se aproxima do irmão e observa Pierro.
— Mas onde pode estar o artefato?
Ela ia se aproximar mais para examiná-lo quando pisa sobre uma planta.
— Pionla! — Ré corre e a puxa para longe.
A planta que Pionla havia pisado se fecha no ar com violência e, em seguida, torna a se abrir, escondendo-se novamente sob a terra.
— O que foi isso…? — Pionla se ajeita e olha para o lugar onde a planta estava.
— Armadeira. É uma flor sobre a qual minha mãe costumava contar histórias. — Ré se aproxima da amiga. — A flor se fecha na presa, suga seus nutrientes, prende a vítima… e a mata.
Ela abraça Pionla com força, como se imitasse a planta.
— …E depois some. Ninguém nunca mais vê quem ela devorou.
Pionla consegue se soltar do abraço.
— Que ecossistema tenebroso estamos vendo… Flores estranhas e plantas que te devoram de uma vez.
— Será que os cidadãos foram devorados por essas flores-armadeiras? — Roseta acompanha com o olhar o caminho seguido pelo sangue que escorria das flores de ossos.
— Espero que não, porque esse parece um destino pior do que a morte. — Sua voz carregava preocupação.
Bauvalier observa Pierro com mais atenção e nota uma joia de rubi presa ao pescoço dele.
— Achei.
Ele ergue a espada, fazendo diversas espadas surgirem e avançarem contra a pedra. Ao atingi-la, porém, nada acontece. Nem sequer um arranhão.
— O quê…? — Ele franze a testa, confuso.
— O que houve, Bauvalier? — Pionla pergunta.
Quando seus olhos encontram a pedra, ela também compreende.
— Se a pedra está aí, isso significa que o artefato não está longe.
Pionla pega Ré pela roupa e a leva para procurar qualquer pista.
— Não me parece que ele vai acordar. — Ré observa Pierro com atenção e, em seguida, pula sobre sua cabeça. — É… ele não vai acordar.
Ela dá alguns tapinhas no topo da cabeça dele.
Pionla usa a tesoura para empurrá-la de lado e a segura antes que caia no chão.
— Mesmo ele tendo se transformado, ainda é uma pessoa.
Ela coloca Ré novamente de pé.
— Isso eu sei. Mas sabe o que eu não sei? Onde está o artefato. Porque, mesmo lá de cima, não dá para ver nada que pareça algo de uma divindade. — Ela arruma o cabelo.
Bauvalier se aproxima da parte escurecida do corpo de Pierro e sente uma energia pulsando dentro dele.
— Será…? — Ele cruza os braços, pensativo.
Enquanto isso, Roseta continua seguindo o rastro de sangue até chegar a uma das raízes, que era mais avermelhada do que as outras.
Ela ergue o olhar e vê grandes flores espalhando sementes pelo chão. Onde cada semente caía, uma flor-armadeira nascia.
Mas ainda faltava uma peça naquele quebra-cabeça.
Enquanto isso, os outros continuavam procurando o artefato, mas sem encontrar nada.
— Acho que está dentro dele, já que do lado de fora não tem nada. — Bauvalier cria um machado e desfere um golpe contra Pierro.
O machado se parte.
— Se estiver dentro dele, não vai dar para tirar. — Ele diz, desanimado.
— Não dá para acordar ele, nem atacar. E ele está preso ao chão, então também não dá para mover. — Ré cruza os braços e fecha os olhos.
— Estamos em um beco sem saída. — Pionla suspira e olha para Roseta, que permanecia observando as plantas. — Tem alguma ideia, Roseta?
— Ainda não tenho uma resposta, mas pensei em algo. — Ela se aproxima do grupo. — Ele não está apenas com o artefato e a joia. Também se fundiu com a semente. Isso explicaria por que as plantas começaram a nascer ao redor dele. Deve ter intensificado tudo ao mesmo tempo… mas sinto que ainda estamos deixando alguma coisa passar.
Ela anda de um lado para o outro, refletindo.
Enquanto todos pensavam, as orelhas de Ré se erguem ao captar um som não muito distante.
Ela segue a origem do barulho e encontra uma flor-armadeira fechada.
— Pionla, me empresta sua tesoura.
Pionla entrega a arma, e Ré abre a flor com cuidado.
Lá dentro havia uma pessoa.
Os olhos do cidadão brilhavam em um estranho padrão colorido.
— Senhor, está bem?
Ele não responde.
Empurra Ré para longe e murmura, em voz baixa:
— Deixe… deixe-me… sonho… paraíso…
Cambaleando, ele pisa em outra flor-armadeira, que imediatamente se fecha ao seu redor.
— O que deu nele? — Pionla se aproxima de Ré, enquanto a tesoura desaparece em magia.
— Não sei… ele parecia estar em transe. — Ré pensa por um instante. — Mas flores-armadeiras não fazem isso… espera… tive uma ideia.
— Qual? — Bauvalier pergunta.
— E se o Pierro também estiver nesse lugar? Nesse mesmo transe? Isso significa que talvez…
Ré pega o talismã e tenta usá-lo sobre Pierro.
Mesmo ativado, nada acontece.
— …Ou talvez não.
— Foi uma boa tentativa. — Pionla dá um tapinha nas costas dela.
Roseta caminha até uma das flores-armadeiras, parando a poucos centímetros para não ativá-la.
— E se formos devorados? Talvez nesse transe exista algo que possa nos tirar desse beco sem saída.
Ela cruza os braços, séria.
— Mas como entrar sem ter o corpo consumido? — Bauvalier pergunta.
O olhar de Roseta recai sobre o talismã.
— Podemos tentar.
Ré segura o talismã com firmeza.
— Pelo Carmim, pelo Ouro, pela Umbra… permitam-nos nos defender dos males. Protejam a mim e aos meus amigos.
O talismã brilha em vermelho, dourado e cinza.
— Então… estão a fim de arriscar?
Ela olha para os gêmeos.
— Já que não temos outras possibilidades no momento, acho que vai ter que ser assim. — Bauvalier se aproxima.
— Vamos acabar logo com isso. — Pionla responde, determinada.
— Pois bem.
Com um movimento rápido, Roseta puxa os três para perto e pisa sobre a flor.
A armadeira se fecha instantaneamente ao redor deles, e no momento em que as pétalas se fecham, todos apagam. O talismã, porém, continua brilhando sem parar.
Mas eles não eram os únicos.
Uma marionete, com a aparência de uma dama de vermelho, observava tudo em silêncio.
— Veremos como isso prossegue…
Ela pisa sobre outra flor-armadeira.
As pétalas se fecham no mesmo instante.
E sua consciência desaparece daquele corpo.
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