Capítulo 29: Imite Uma Forma Adorável
Enquanto chegavam à fronteira da Cidade das Cartas, acabam entrando em um pomar enevoado, onde começam a se perder em meio à neblina.
— Vamos parar por aqui! Não vai dar para continuar com toda essa neblina! — Bauvalier vai para a parte de trás da carruagem, gritando a informação.
As outras três descem.
— Ré, vê onde a gente tá, não queremos sair da rota. — Pionla se espreguiça enquanto sente a brisa gelada do local.
— Tamo… — Ré usa o anel e cria uma janela com um mapa e procura. — Pomar Niebafog faz fronteira direta com a Cidade das Cartas, então estamos no caminho certo.
Roseta se afasta um pouco do grupo e chega perto de uma árvore cheia de flores de ume.
— Estranho…
— O que é estranho, Roseta?
— É que essas flores já deviam ter se tornado ameixas de nébula, mas ainda parecem ter brotado há pouco tempo. — Roseta observa as árvores. Nenhuma possuía frutos.
— Talvez o pessoal da Vila Niebafog tenha colhido mais cedo do que o esperado. — Pionla arruma o cabelo enquanto comenta.
— Não é assim que plantas funcionam, Pionla. — Roseta anda ao redor da árvore.
Ré acompanha Roseta, mas suas orelhas se erguem de repente. Ela dá um chute em Roseta, fazendo-a cair nos braços de Bauvalier e escapar de explosões de flores que vinham da floresta e atingem a árvore.
— O que foi isso?! — Pionla pergunta.
Seus olhos encontram os de Roseta, que faz um sinal afirmativo e corre para dentro da floresta em alta velocidade para localizar quem estava atacando.
— Ré, por que chutou a Roseta para cima de mim? — Bauvalier pergunta, com as bochechas vermelhas.
— Eu só tirei ela da rota do ataque. Foi coincidência ela cair em você. Ou você preferia que ela caísse no chão? — Ré dá um sorrisinho.
— Não é isso… é só que você devia ter mais cuidado. — Ele responde, desviando o olhar.
Pouco depois, Roseta emerge da neblina arrastando uma menina de roupas felpudas e semblante confuso.
— Achei quem estava disparando. — Ela se vira para a garota. — Por que está atacando em todas as direções? Não sabe que é perigoso acertar alguém?
A menina balança a cabeça, tentando entender quem a havia capturado. Então seus olhos se arregalam.
— Madame Rose… — Ela vê os outros e começa a tremer. — Rei, rainha, madame Ré… o que estão fazendo aqui? Espera… eu quase atingi um de vocês? — Ela cai de joelhos. — Sinto muito…
— Pode levantar. Você não parece ter feito isso de propósito. Mas por que estava jogando magia para todo lado? — Pionla pergunta calmamente.
A garota se levanta, batendo na roupa para tirar a sujeira.
— Eu estava tentando acertar aquela coisa. — Ela aponta para um bichinho em forma de flor.
Todos olham para a criaturinha sobre um galho.
Pionla, em um movimento lento, bate o pé no chão, fazendo o bichinho cair. No mesmo instante, paredes de vidro o prendem dentro de um cubo. Ela pega o cubo e o joga para a garota.
— Toma aqui.
A menina o segura de forma desajeitada.
— O que é isso? — Ré se aproxima, tocando no cubo.
— Depois que vimos as notícias de que criaturas de Carmim estavam nascendo do chão, esses bichos começaram a aparecer por aqui. Então foi só juntar um mais um. — Ela encara a criatura com raiva.
Roseta se aproxima e examina o pequeno ser.
— Ré, faz um favor. Usa esse anel e procura no sistema de dados o livro Plantas Além do Tempo, capítulo 3, Simulacrum: Terra Virtual. Preciso confirmar uma dúvida.
— Tá bom, deixa eu ver se consigo fazer como a Locista ensinou. — Ré cria uma janela, procura o livro e abre o capítulo para Roseta.
— Então realmente é como eu esperava. — O olhar dela percorre as palavras da tela. — Boquila Imitation. Uma flor nascida nas terras de Simulacrum que pode se transformar na matéria orgânica que ingerir. Então não são criaturas de Carmim, mas ainda assim são plantas extintas. Como seria possível nascerem aqui?
— Isso não me surpreende, já que a vegetação está uma loucura. — A menina olha para a criaturinha.
— Como assim, uma loucura? — Pionla pergunta, observando outras daquelas criaturas espalhadas pelos galhos.
— Quero dizer, minha rainha, que nossa safra está atrasada. Essas coisas começaram a nascer no nosso território. E, como estamos bem ao lado da Cidade das Cartas, o pessoal da vila viu raízes vermelhas gigantes, do tamanho de casas, e flores enormes, quase do tamanho de uma pessoa. Disseram que as raízes pareciam moles. — A garota se encosta em uma árvore próxima. — Todas essas mudanças estão deixando a gente maluco.
— Plantas desse tamanho… — Roseta começa a falar, mas para no meio da frase e olha para Ré. — Depois vou precisar que você pesquise mais algumas informações para mim.
Ré faz um joinha.
A menina então se ajoelha diante deles.
— Madame Rose disse que essas plantas podem copiar formas. Se não for pedir muito… vocês poderiam me ajudar a capturar algumas dessas criaturas? Talvez possamos duplicar as ameixas de nébula e evitar dificuldades até a próxima safra. — Ela pede, com a voz trêmula.
— Não precisa de tudo isso. — Bauvalier ajuda a menina a se levantar.
— Já que vamos ficar um tempo até a neblina ficar mais fraca, podemos ajudar, sim. — Pionla confirma, criando alguns sacos e jogando um para cada um.
— Agradeço, realmente. Esses como se diz… Boquira… — Ela pronuncia o nome de forma estranha.
— É meio que isso. — Roseta comenta enquanto pega um dos bichos e o coloca no saco. — Mas pode só chamar de Falsa Atriz, é mais fácil de dizer.
Ré corre entre as árvores e usa o talismã, falando algumas palavras antes de lançá-lo contra uma das criaturas. Vários fios surgem, prendendo os bichos próximos e puxando-os para junto da primeira criatura. Em seguida, ela joga todos dentro do saco e recupera o talismã.
— Será que é o suficiente? — Ré mostra, orgulhosamente, a quantidade de bichos que conseguiu capturar.
Pionla e Bauvalier se entreolham e levantam as mãos. Diversas pequenas jaulas surgem, prendendo as criaturas antes de serem colocadas dentro do saco.
— Acho que deve estar bom. — Bauvalier olha para a menina.
A garota, por sua vez, tentava usar o cajado para lançar uma magia. A explosão acontece de novo, e o bichinho que ela tentava atingir foge.
— Acho que esse método não está sendo muito produtivo. — Bauvalier se aproxima para ajudá-la. — Tente se concentrar em prender, não em explodir.
A menina presta atenção e, com toda a concentração possível, dispara uma magia que aprisiona o bichinho dentro de uma sacola.
— Viu como é fácil, garota? — Bauvalier retorna para junto das meninas.
A jovem pega a sacola, animada.
— Não sei como posso agradecer, mas, se quiserem, eu posso fazer uma torta. — Ela diz, olhando para eles com expectativa.
Eles se entreolham. Bauvalier ia negar, mas Pionla toma a dianteira.
— Seria um prazer. — Pionla responde com um sorriso gentil.
Eles caminham até a vila da garota. O lugar era aconchegante, mas estranhamente vazio. Com um sorriso, ela os leva para dentro de sua casa. O cheiro da lareira deixava o ambiente acolhedor.
— Sinto muito por não poder recepcionar vocês com a grandeza que merecem. — Ela pega todos os sacos e segue para a cozinha. — Eu juro, vocês vão amar a torta. É uma receita de família. — Ela fala com certo orgulho enquanto vai para cozinha deixando eles sozinhos.
Roseta se senta próxima à mesa e se apoia no balcão, pensativa.
— Ré, pode fazer outro favor? Abre naquele livro que eu te falei, só que agora no capítulo 10: Ferrovias de Reisenoter.
Ré dá de ombros e abre uma janela com o capítulo solicitado. Roseta passa os dedos pela tela, procurando uma informação específica.
— Achei. — Ela suspira. — Lithops Via, uma flor de raízes gigantes e flores enormes. Usava os túneis das antigas ferrovias junto com o ferro ao redor para crescer. Foi extinta quando as ferrovias deixaram de ser construídas em túneis.
Roseta se levanta.
— Mas as plantas que a vila viu certamente não eram de ferro. Isso significa que é uma variante. E isso seria impossível… a menos que…
— Ballet… — Pionla deixa o nome escapar sem perceber.
— É a minha suspeita. Mas a pergunta é: para quê?
A conversa é interrompida pelo aroma da torta recém-assada.
— Melhor deixarmos isso apenas entre quem sabe dela ou já passou por algo relacionado. Não queremos causar ainda mais estresse ao povo, que já está vivendo em tensão. — Bauvalier sugere.
Todos concordam.
— Eu juro que vão amar! — A menina entra segurando a porta com uma mão e vários pratos na outra. Por um instante parece que vai derrubar tudo, mas consegue colocar tudo sobre a mesa. — Ah, esqueci os talheres…
Pionla puxa a garota para uma cadeira.
— Já fez o bastante. Pode comer também.
Com um movimento de sua mão, talheres surgem ao lado dos pratos.
Pionla corta a torta e coloca um pedaço em seu prato.
— Vamos ver se é tudo isso mesmo que você disse.
Ao levar o primeiro pedaço à boca, ela sente o gosto levemente amargo misturado com um doce suave e uma acidez equilibrada.
— Hm… — Pionla deixa escapar um sorriso. — Que delícia. Um doce digno da capital. — Ela pega mais um pedaço.
— Acha mesmo, minha rainha? — A menina sorri sem jeito.
— Devo admitir que o sabor tem sua delicadeza. — Bauvalier comenta enquanto prova mais um pedaço.
— Realmente está uma delícia, garota… — Ré para por um instante. — Qual é mesmo o seu nome?
Todos olham para a menina, percebendo que tiveram a mesma dúvida.
— Ah! Eu devo ter me esquecido de me apresentar. Com toda aquela confusão, nem percebi. — Ela sorri. — Me chamo Lamcora.
Seu tom era alegre ao dizer o próprio nome.
— É um lindo nome. — Pionla sorri.
O relógio na parede marca 17:10. Os olhos de Lamcora se arregalam.
— Tão tarde… — Ela deixa escapar, assustada. — Infelizmente, rei e rainha, vocês vão ter que ir embora. Papai e mamãe logo vão voltar, e eles odeiam visitas sem aviso prévio. Mesmo vocês… desculpem.
— Tudo bem. Mas a neblina ainda está muito densa, então provavelmente vamos continuar andando pela vila até ela diminuir. — Bauvalier responde calmamente.
— Mas a neblina dessa região é eterna… vocês não sabiam? — Lamcora pergunta.
— Diga que não. — Pionla faz uma expressão culpada.
A garota suspira e vai até o quarto. De lá, retorna segurando um lampião coberto de runas.
— Papai e mamãe vão ficar muito irritados por eu emprestar isso, mas acho que vai guiar vocês para fora da neblina é só seguir a luz. — Ela estende o lampião onde dentro a luz se torna uma seta.
— Agradecemos. — Roseta o recebe tranquilamente.
Pionla cria uma maleta cheia de dinheiro e a coloca sobre a mesa.
— Considere isso uma compensação pelo lampião.
— Eu agradeço… agradeço mesmo. — Os olhos da jovem se enchem de lágrimas.
Eles saem da casa, e Pionla e Bauvalier criam uma nova carruagem. Roseta e Ré sentam-se na frente, prontas para seguir viagem. Os gêmeos, por sua vez, acomodam-se atrás.
Mas, no instante em que Bauvalier estava prestes a entrar, sente uma mão gentil tocar seu ombro.
— Desculpa incomodar… eu achei que talvez vocês quisessem levar uma torta para a viagem… — Lamcora segurava uma torta cuidadosamente embrulhada em um pano.
Bauvalier sorri e passa a mão sobre a cabeça dela.
— Agradecemos.
Então ele entra na carruagem e fecha a porta atrás de si.
A menina mexe os braços, fazendo sinais de despedida.
Depois de algum tempo, Bauvalier observava a torta em silêncio, pensativo.
— O que te deixou tão pensativo, irmão? — Pionla se aproxima.
— Não é nada. — Ele responde de forma seca.
— Estamos apenas nós dois aqui. Pode confiar em mim. — Ela suspira.
Bauvalier permanece em silêncio por alguns instantes antes de falar:
— Lembra do que Alicex disse? “Mas ia ficar bem melhor se nosso reino não fosse ignorado pelos deuses.” Será que nossa conduta anterior realmente fez o que ela disse? Não sabemos de nada e, mesmo quando queremos fazer o melhor…
— Fizemos muita coisa errada, mas aos poucos estamos vendo os problemas que ignoramos. E quando resolvermos esse problema da praga, logo resolveremos os problemas do povo. — Pionla coloca a mão no ombro dele. — Agora vamos descansar, porque daqui a pouco chegaremos ao nosso destino.
— Seu jeito positivo faz parecer que tudo vai se resolver como mágica. — Bauvalier cruza os braços.
— Se não tiver alguém para pensar assim, como você vai poder pensar negativamente? É o equilíbrio necessário. — Ela sorri e coloca o chapéu sobre o rosto, como se fosse dormir.
— Talvez esteja certa…
Por baixo do chapéu, porém, havia um olhar triste.
Pionla fazia uma anotação mental de mais um lugar que precisaria ajudar.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.