Os dias seguintes se tornaram uma rotina cansativa de caça.

    Arthur e o resto da família passaram a sair quase todas as manhãs, agora acompanhados por outras pessoas que haviam se juntado ao pelotão comandado por Lucas e Felipe. Ao todo, eram pouco mais de dez pessoas. No início, usaram as armas distribuídas pelo batalhão para atirar nas criaturas do outro lado da barreira, mantendo uma distância segura. Mas as balas não eram infinitas. Em poucos dias, os estoques secaram, e os pelotões foram obrigados a atravessar a barreira para enfrentar os bichos de perto. 

    Ainda assim, o trabalho se mostrou mais simples do que Arthur esperava. Estar em grupo ajudava, e quase todos já tinham evoluído o suficiente para dar conta dos goblins e ratos gigantes sem grande risco. Não era surpresa. As pessoas selecionadas pelo batalhão eram justamente aquelas com boas habilidades de combate. 

    O problema, para Arthur, era outro.

    Ele percebeu logo nos primeiros dias que a maior parte das criaturas não lhe dava experiência nenhuma. As poucas que davam, ofereciam quase nada. Usando a Inspeção, descobriu que os goblins e ratos gigantes variavam entre os níveis 1 e 3, e que só os mais fortes, no topo dessa faixa, ainda contavam para ele. O resto simplesmente não somava mais nada. 

    Lembrou do Caiman-carniceiro. Aquela luta quase o havia matado, mas tinha valido um salto inteiro de nível. Talvez fosse assim que o sistema funcionava. A diferença entre o nível dele e o da criatura precisava representar um desafio real. Quanto mais fraca, pouca ou nenhuma experiência. Quanto mais forte, talvez até um bônus.

    Fazia sentido, de um jeito cruel, mas não ajudava em nada sua situação. Além de poucas criaturas valerem a pena, a experiência que ainda conseguia arrancar era dividida com o grupo. Arthur fez as contas mentalmente mais de uma vez e chegou sempre à mesma conclusão: não subiria de nível antes da próxima integração. Não daquele jeito. 

    Ele olhou para o cronômetro luminoso no canto de sua visão, encarando os números como se isso pudesse mudar alguma coisa. 

    Tempo para integração com os níveis 6 ao 10: Dias: 15 | Horas: 16 | Minutos: 42 | Segundos: 19. Ao fim do prazo, as criaturas serão integradas.

    Quinze dias. Pouco mais de duas semanas para criaturas ainda mais fortes aparecerem. O sol ainda não estava no ponto mais alto, mas já castigava a estrada e o mato seco ao redor. 

    Um grito curto chamou sua atenção.

    Clara avançou contra um goblin que cambaleava de um lado para o outro, lento e desorientado pelo efeito da habilidade de Cecília, que permanecia alguns passos atrás, concentrada. O goblin nem chegou a levantar o braço antes de Clara passar por ele e despejar uma descarga elétrica em seu corpo. Mais à frente, o golem de Lara avançou pesado sobre outro goblin que tentava fugir. Não houve chance de fuga. O punho de pedra desceu uma vez, e foi o suficiente. 

    Arthur observou, sem se aproximar. Não sentiu nada quando os dois caíram. Nenhum ganho. Nenhuma experiência. Só mais dois corpos no chão.

    — Como está a mão?

    A voz de Rafael veio de trás. Arthur não tinha percebido a aproximação.

    — Bem — respondeu, fechando os dedos por reflexo. As feridas ainda ardiam sob a bandagem, mas ele manteve o rosto neutro. — Só um corte. Já tá quase fechando.

    Rafael olhou para a mão dele por mais tempo do que Arthur gostaria.

    — Se estivesse bem, você não teria fechado a mão desse jeito.

    Arthur desviou os olhos antes de responder.

    — Foi só reflexo…

    Rafael não pareceu convencido, mas não insistiu. Um chamado veio alguns metros à frente.

    — Lucas.

    A voz era de Felipe. Não havia urgência nela, e talvez por isso Arthur tenha prestado atenção. Felipe raramente levantava a voz sem motivo. 

    Quando o grupo se aproximou, ele estava agachado à beira da estrada, perto de uma faixa de terra seca marcada por pegadas fundas e largas demais para qualquer goblin. O mato ao redor havia sido amassado em uma trilha irregular, abrindo caminho entre galhos retorcidos e espinhos quebrados em direção a algumas propriedades rurais abandonadas. Atrás de uma cerca caída, as casas apareciam entre a vegetação.

    Lucas se aproximou devagar.

    — Que merda é essa?

    Felipe tocou uma das marcas com a ponta dos dedos.

    — Algo que a gente não vai caçar hoje.

    Algumas pessoas do pelotão trocaram olhares, mas ninguém reclamou.

    Arthur continuou encarando os rastros. Pela primeira vez em dias, sentiu aquele aviso frio subindo pela nuca. Não era o desconforto comum dos goblins. Era mais próximo do que havia sentido diante do Caiman-carniceiro.

    — Vamos voltar — disse Felipe. — A gente informa o batalhão e deixa eles decidirem o que fazer.

    Lara olhou para os rastros, inquieta.

    — E se essa coisa estiver perto?

    — Então é mais um motivo pra não procurar — respondeu Lucas.

    Rafael permaneceu em silêncio ao lado de Arthur. Por um instante, os dois olharam em direção às propriedades à frente. Arthur sabia que voltar era a decisão certa. Esse era o problema.

    O grupo retornou sem muita conversa. O humor que costumava aparecer entre uma caçada e outra desapareceu no caminho de volta, substituído pelo som das botas sobre a terra seca, pelo atrito das mochilas e pelo bater baixo de cabos de lança e facões improvisados. Ninguém reclamou da decisão de recuar. Se havia alguma coisa forte o suficiente para deixar marcas daquele tamanho no chão, ninguém parecia ansioso para descobrir o que era. 

    Quando atravessaram a barreira e voltaram para a parte interna da cidade, algumas pessoas do pelotão respiraram com alívio. Lucas e Felipe seguiram em direção ao batalhão para informar sobre os rastros, enquanto o restante do grupo começou a se dispersar.

    Arthur olhou para a própria mão.

    — Vou passar no batalhão também — disse.

    Cecília franziu o cenho.

    — Aconteceu alguma coisa?

    — A bandagem soltou um pouco. Vou trocar antes de voltar pra casa.

    Lara olhou rapidamente para a mão dele.

    — Aproveita e vê se consegue mais gaze. A gente já tá quase sem em casa. 

    Arthur assentiu.

    — Vou ver.

    Rafael olhou para ele.

    — Volta antes de escurecer.

    — Volto.

    Arthur seguiu na direção do batalhão até a família virar a esquina. Só então diminuiu o passo.

    As ruas internas da cidade estavam mais movimentadas do que antes, mas ainda havia pontos vazios entre uma casa e outra, becos estreitos, muros quebrados e caminhos que quase ninguém usava. Arthur atravessou dois quarteirões e seguiu até um trecho afastado da cidade, longe de qualquer ponto de patrulha. Alguns minutos depois, estava do outro lado da barreira outra vez. 

    O calor era sufocante. O vento soprava pela estrada, mas não refrescava. Só levantava poeira, que grudava no suor do rosto e secava a garganta. Arthur seguiu pelo mesmo caminho que o pelotão havia feito pouco antes, acompanhando as marcas na terra seca. Quando encontrou as pegadas novamente, parou.

    A trilha continuava ali, entrando pelo mato baixo. Sem o barulho do grupo, o lugar parecia maior. Os galhos quebrados, a cerca caída, as casas rurais ao longe, tudo no mesmo lugar de antes. Arthur observou por mais um instante, depois seguiu mato adentro. 

    A vegetação seca raspava em suas pernas enquanto avançava fora da estrada. O mato era baixo, mas fechado o bastante para esconder buracos, pedras soltas e espinhos que prendiam na roupa ao avançar. Mais de uma vez, Arthur sentiu a barra da calça prender em algum galho retorcido.

    Logo alcançou a pequena propriedade rural.

    Era um sítio simples, daqueles que já tinha visto muitas vezes pela região. Uma casa baixa, de paredes claras queimadas pelo sol, ficava no centro do terreno. Havia um curral de madeira torta ao lado, um chiqueiro cercado com tábuas velhas e uma caixa d’água apoiada sobre uma estrutura de ferro enferrujado. O terreiro era quase todo de terra batida, com algumas pedras espalhadas e marcas antigas de pneu secas no chão. Perto da entrada, uma cerca de arame havia sido arrancada do lugar e pendia de lado, presa apenas por uma estaca inclinada. 

    Arthur se abaixou atrás de um tronco seco e observou. Cinco goblins ocupavam a propriedade. Dois deles estavam montados em ratos gigantes, circulando o terreno enquanto as montarias farejavam o chão de tempos em tempos. Ambos seguravam lanças compridas, malfeitas, com pontas de metal presas por tiras de couro e arame. Não pareciam muito inteligentes, mas também não estavam ali por acaso.

    Os outros três permaneciam perto do chiqueiro. Diante deles, um porco morto estava estendido sobre uma porta usada como mesa improvisada. Cortavam a carne sem cuidado, arrancando pedaços com facas serrilhadas enquanto discutiam entre guinchos e grunhidos. O sangue escorria pela madeira e pingava na terra, formando uma mancha escura que atraía moscas. 

    Arthur continuou imóvel. Depois de observar com cautela, percebeu as armadilhas: um fio de arame quase invisível atravessava a passagem entre duas estacas, folhas secas cobriam um buraco raso no chão, e pedaços de madeira com pregos enferrujados estavam espalhados perto da cerca caída, mal disfarçados sob poeira e capim seco. Não era nada elaborado. Mas bastava um passo errado.

    Arthur ativou a Inspeção.

    [Goblin — Nível 3]

    [Rato Gigante — Nível 2]

    [Goblin — Nível 1]

    As informações surgiram uma após a outra enquanto seu olhar passava pelas criaturas. Os dois goblins montados eram nível 3, os únicos que ainda poderiam dar alguma experiência decente. As montarias, nível 2, talvez dessem pouca coisa. Os três no chiqueiro, nível 1, provavelmente não dariam nada. 

    Ele observou o movimento dos dois montadores por mais alguns segundos. Um deles se afastava dos outros a cada volta, passando perto da cerca caída. Mantinha a lança apoiada no ombro e olhava para a estrada de vez em quando, mais preocupado com algo vindo de fora do que com o mato às suas costas. O rato farejava o chão, lento, como se não tivesse pressa. 

    Arthur levou a mão até uma das facas presas à cintura e esperou. 

    Quando a montaria passou perto da cerca outra vez, arremessou. A faca saiu torta de seus dedos, girando em uma trajetória confusa, mais baixa do que o planejado. O cabo bateu na cabeça do rato, arrancando um chiado agudo da criatura, que saltou para o lado, assustada. O goblin quase caiu, mas se agarrou aos pelos da montaria, ainda tentando entender o que estava acontecendo. 

    A faca estava caída no chão, perto da cerca. Até um goblin teria acertado melhor do que ele. 

    Arthur estalou a língua, irritado, e avançou. O goblin ainda lutava para recuperar o equilíbrio quando ele atravessou a cerca caída e entrou no terreiro, desviando do arame baixo quase por instinto. A criatura virou o rosto tarde demais.

    O sabre de ossos desceu em diagonal.

    O golpe acertou o ombro do goblin e rasgou seu corpo até a cintura, derrubando as duas metades sobre a terra seca. Sangue escorreu pelo chão, mas o sabre não parou ali. A lâmina continuou o arco e atingiu também a cabeça do rato, que cambaleou antes de desabar, se debatendo na poeira.

    [Você derrotou um Goblin.]

    [Você ganhou experiência.]

    Os chiados do rato ferido atravessaram o terreiro, agudos o suficiente para alertar o restante da propriedade. Os três goblins perto do chiqueiro largaram a carne quase ao mesmo tempo. Dois pegaram facas. O terceiro agarrou um pedaço de madeira com pregos tortos na ponta. Do outro lado do terreiro, o segundo montador puxou a lança para frente e fez o rato gigante disparar.

    Uma faca cortou o ar em direção a Arthur. Ele desviou para o lado, e a lâmina passou pelo lugar onde seu rosto estava um instante antes. A segunda veio logo depois, mais baixa. Ele torceu o corpo a tempo, mas sentiu a lâmina raspar de leve em sua manga antes de se perder na poeira atrás dele. 

    O goblin montado veio rápido, a ponta da lança fixa em direção ao peito de Arthur, que esperou até o último segundo antes de sair da linha do ataque. A estocada passou rente ao seu corpo e a lança cravou na madeira do curral. O goblin tentou puxá-la de volta, mas Arthur golpeou o cabo com o sabre, partindo a arma no meio.

    A criatura puxou o restante da lança contra o corpo e tentou se afastar, mas o rato atacou antes que ele pudesse fazer qualquer coisa. Arthur desviou e as presas se fecharam contra o vazio. Aproveitando a força da investida, ele acertou um chute na lateral do animal. 

    O rato perdeu o rumo e foi lançado contra a cerca do curral. A madeira velha estalou quando uma das estacas quebradas entrou fundo em seu flanco. O goblin foi arremessado das costas da montaria e caiu alguns metros à frente, rolando na terra seca. Ele tentou se erguer, mas Arthur chegou antes. O sabre desceu uma vez e abriu sua cabeça. 

    [Você derrotou um Goblin.]

    [Você ganhou experiência.]

    Atrás dele, o rato se debatia contra a estaca, arranhando a terra e tentando se soltar. A cada puxão, a madeira rangia dentro de seu corpo, mas a criatura ainda tinha força nas patas. Arthur se virou antes que ela conseguisse se desprender e golpeou seu pescoço. O rato se contraiu uma última vez, depois ficou imóvel. 

    [Você derrotou um Rato Gigante.]

    [Você ganhou experiência.]

    Os três goblins hesitaram por um momento. O mais próximo ainda tentou atacar. Avançou gritando, com o bastão de pregos erguido acima da cabeça. Arthur desviou para o lado e o acertou com um golpe curto no pescoço. A cabeça da criatura se desprendeu do corpo, que caiu de joelhos antes de tombar sobre a terra. Nenhuma mensagem apareceu, mas já era esperado. 

    Os outros dois correram. Um disparou em direção à casa e o outro tentou alcançar o mato atrás do chiqueiro. Arthur escolheu o mais próximo primeiro. Atravessou o terreiro em poucos passos, desviando dos pedaços de madeira com pregos espalhados no chão, e alcançou o goblin antes que ele passasse pela lateral da casa. O sabre atingiu suas costas, derrubando-o contra a parede. A criatura escorregou pela pintura suja, deixando um rastro escuro antes de cair. 

    O último goblin se aproximava da linha de arbustos, seria trabalhoso alcançá-lo. Sem muitas expectativas, Arthur pegou uma pedra do chão e arremessou. A pedra acertou a nuca da criatura com força suficiente para fazê-la tropeçar. O goblin caiu de rosto na terra e tentou se levantar, mas Arthur já estava sobre ele. Um único golpe encerrou a tentativa. 

    O terreiro ficou calmo outra vez.

    Arthur permaneceu parado, recuperando o fôlego. O cheiro de sangue fresco se misturava ao do porco aberto sobre a porta velha, ao esterco seco do curral e à lama do chiqueiro. Moscas se aproximaram dos corpos, como se nada tivesse acontecido. 

    Não havia experiência nos goblins fracos. Quase nada nos ratos. Alguma coisa nos montadores, mas não o bastante. Ainda assim, era mais do que tinha conseguido com o grupo nos últimos dias. 

    Ele olhou ao redor. Não havia mais nenhum goblin de pé. Restava apenas o som irritante do rato gigante ferido perto da cerca. A criatura respirava com dificuldade, o corpo se contraindo em espasmos curtos. O sangue escorria do ferimento aberto e formava uma poça escura na terra. De vez em quando, soltava um chiado baixo, fraco, quase engasgado.

    Arthur encarou o animal, mas não sentiu pena. Deveria estar mais incomodado, mas ao lembrar dos corpos nas ruas, dos goblins ao redor do caldeirão na praça, das criaturas tratando gente como carne, era incapaz de ser piedoso. O rato continuava ali, agonizando. Arthur poderia ter acabado com aquilo com um golpe rápido. Em vez disso, desviou o olhar e caminhou até o centro do terreiro. 

    Ele limpou o sabre em um pedaço da roupa do último goblin morto e olhou para a casa outra vez. Um dos goblins tinha tentado correr naquela direção antes de morrer. Talvez houvesse mais alguma coisa lá dentro. Mantendo o sabre à frente do corpo, ele atravessou o terreiro e subiu os dois degraus baixos da varanda. A porta estava apenas encostada.

    Assim que a empurrou, o cheiro de carne podre o atingiu, fazendo-o parar no mesmo instante. Era um fedor pesado, velho, misturado ao calor preso dentro da casa. Havia algo doce e podre no ar, forte o bastante para fazer sua garganta fechar. Ele cobriu o nariz com a camisa e entrou devagar. 

    A sala era pequena. Um sofá gasto ocupava um canto, voltado para uma televisão antiga coberta de poeira. Havia copos sobre a mesa, roupas jogadas em uma cadeira e uma panela esquecida sobre o fogão da cozinha. Nada parecia revirado. A casa não tinha sido destruída pelos goblins, só tinha sido abandonada. O cheiro vinha do quarto.

    Arthur se aproximou da porta aberta e olhou para dentro.

    Encostado na parede, ao lado da cama, estava caído o corpo de um homem. Parecia um fazendeiro, talvez já perto dos cinquenta, pelas roupas simples, pelas botas sujas e pelas mãos grossas. O rosto estava inchado e escurecido pelo início da decomposição. Moscas se acumulavam ao redor dele, entrando e saindo pela fresta da janela. Perto de sua mão havia um revólver.

    Arthur não precisou olhar muito para entender. Uma mancha seca cobria a parede atrás do corpo. Não havia sinais de luta no quarto. Nenhuma porta arrombada. Nenhum móvel fora do lugar. Só aquele homem, o revólver e o silêncio da casa.

    Ele se abaixou sem tocar no cadáver e pegou a arma pelo cabo. Era um revólver calibre trinta e oito, antigo e malcuidado. Parte do metal estava tomada por ferrugem, e o tambor parecia preso em alguns pontos. Arthur o guardou na cintura e saiu da casa antes que o cheiro o fizesse vomitar.

    Do lado de fora, precisou respirar fundo algumas vezes. O ar quente do terreiro não era agradável, mas parecia limpo depois daquele quarto. Arthur passou os olhos pela propriedade até encontrar algumas ferramentas encostadas na lateral do curral: uma enxada, uma pá velha e um enxadão de cabo rachado. 

    Não era problema dele. Ele precisava encontrar a criatura que tinha deixado aqueles rastros e voltar antes que a família percebesse sua ausência. Mesmo assim, não conseguiu simplesmente ir embora.

    Quando terminou, o sol já tinha subido mais alto no céu.

    A cova era rasa demais para o que Arthur considerava certo e funda demais para o pouco tempo que tinha. A terra seca tinha resistido ao enxadão como pedra em alguns pontos, e suas mãos doíam sob a bandagem. O cheiro ainda permanecia preso em sua roupa e parecia pior toda vez que o vento mudava.

    Arthur ficou parado diante do monte de terra, respirando pesado.

    — É tudo que eu posso fazer por você.

    A frase saiu baixa, sem cerimônia. Não havia oração, nem nome para colocar sobre aquela cova. Apenas a terra recém-revirada e as ferramentas deixadas ao lado.

    Ele puxou o revólver da cintura e abriu o tambor mais uma vez. O metal estava em péssimo estado, marcado pela ferrugem perto do mecanismo e pelas rachaduras na madeira do cabo. Quatro das cinco câmaras ainda guardavam cartuchos intactos. Na quinta, havia apenas a cápsula deflagrada. 

    Atrás dele, perto da cerca do curral, o rato gigante soltou um último chiado fraco.

    [Você derrotou um Rato Gigante.]

    [Você ganhou experiência.]

    Arthur não olhou para trás. Fechou o tambor, guardou o revólver e voltou a atenção para a trilha que seguia em direção ao fundo da propriedade. Se aquela trilha realmente pertencia a uma criatura maior, talvez fosse a chance de subir mais um nível.


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