Capítulo 9: Corpos na Rua
O saco de arroz ficou largado em algum canto da casa.
A luz do sol poente alongava as sombras no quintal. Nos fundos, Arthur encarava o monte de terra recém-formado. Suas mãos ainda estavam sujas, com terra presa entre os dedos e sob as unhas. Alguns grãos haviam entrado nas feridas e ardiam ao menor movimento. O suor escorria devagar pelo rosto, mas ele não o enxugava. O cheiro de terra úmida estava preso em sua garganta. Ele não sabia exatamente há quanto tempo estava ali.
Clara estava ao seu lado, os braços cruzados contra o peito. Ela chorava em silêncio, tentando prender os soluços como se ainda tivesse alguma obrigação de ser forte. Arthur não disse nada. Não sabia o que poderia dizer. Qualquer palavra parecia pequena demais diante daquela cova rasa.
Não havia cruz, placa ou qualquer coisa que dissesse quem estava enterrado ali. Apenas terra remexida, algumas pedras empilhadas por cima e o peso absurdo de saber que Jack não voltaria correndo quando alguém chamasse.
Clara soltou um som baixo, quase engolido.
— Ele estava com medo? — perguntou.
A resposta saiu antes que Arthur conseguisse segurá-la.
— Estava.
Clara fechou os olhos, e mais lágrimas desceram pelo rosto.
Arthur engoliu seco. Podia ter mentido. Talvez devesse. Mas Jack tinha morrido naquela casa enquanto todos tentavam sobreviver, e transformar aquilo em uma mentira parecia uma segunda covardia.
— Mas ele não fugiu — disse, a voz baixa.
Clara levou a mão à boca.
Arthur continuou encarando a terra. Era pouco. Uma cova pequena. Algumas pedras. Duas pessoas de pé em silêncio no quintal. Nada daquilo parecia suficiente para um cachorro que tinha sido parte da casa por tantos anos. Mas era tudo que tinham.
Atrás deles, a casa parecia tentar continuar de pé.
A maior parte do sangue já havia sido limpa, embora algumas manchas ainda insistissem nas frestas do piso. Rafael havia arrancado a porta do depósito e improvisado uma nova entrada para a cozinha. Não ficou bonita. Nem fechava direito. Mas era uma barreira entre eles e o lado de fora, e naquele momento isso já era alguma coisa.
Também não havia energia. Nenhum zumbido de geladeira. Nenhuma lâmpada acesa. Nenhum som dos vizinhos. A cidade parecia respirar mais baixo sem eletricidade. Arthur ficou no quintal até o escuro fechar por completo. Só então entrou.
Na manhã seguinte, Rafael, Cecília, Clara e Lara foram para o treinamento organizado pelos militares.
Arthur não sabia exatamente o que seria. Ninguém havia explicado muito além do necessário. Os selecionados seriam orientados e preparados para atuar nas patrulhas quando chegasse a hora. Era tudo vago demais para tranquilizá-lo, mas ainda assim parecia melhor do que qualquer alternativa. Enquanto estivessem dentro da cidade e acompanhados por soldados, estariam mais seguros do que em qualquer outro lugar.
Foi o que Arthur repetiu para si mesmo quando os viu partir. Ele, por outro lado, não havia sido selecionado. Por isso, algumas horas depois, estava no meio de uma rua tomada pelo cheiro de sangue seco, suor e carne apodrecendo, ajudando outras pessoas a remover os corpos deixados pela noite anterior.
Arthur segurou uma das criaturas pelos braços finos e enrijecidos enquanto outro homem agarrava as pernas. Os dois ergueram o corpo com esforço e o lançaram na caçamba de um caminhão estacionado no meio da rua. O cadáver caiu sobre os outros com um som pesado e úmido.
Arthur respirou pela boca, mas não ajudou muito.
A caçamba já estava quase pela metade. Havia goblins empilhados uns sobre os outros, ratos gigantes com o pelo escuro grudado de sangue e pedaços que ele preferia não identificar. Moscas começavam a se juntar, atraídas pelo cheiro que parecia crescer a cada minuto. Não era um lugar agradável de estar, mas pelo menos não estava no grupo que retirava os corpos humanos.
Um soldado, parado perto da cabine do caminhão, anotava alguma coisa em uma prancheta.
— Tudo vai para o batalhão — disse ele, sem olhar para ninguém. — Sem deixar corpo na rua.
Arthur olhou para a pilha de monstros, mas não perguntou por quê. Talvez nem precisasse. As pessoas precisavam comer e os estoques eram limitados. A cidade estava isolada. E, gostassem ou não, carne era carne. Por mais repugnante que parecesse.
Ele desviou os olhos, mas a ideia continuou ali, grudada no fundo da cabeça como o cheiro na roupa. Talvez estivesse errado. Talvez os militares só quisessem estudar as criaturas, queimá-las longe das casas ou impedir que alguma doença se espalhasse. Mas e se realmente estivessem tentando descobrir se aquilo podia ir para a panela?
Ele apertou a mandíbula e voltou ao trabalho.
— Informação privilegiada não é de graça — disse uma voz alguns metros adiante.
Arthur puxava o corpo de outro goblin pela calçada quando ouviu a frase. Não olhou de imediato. Naquela manhã, qualquer pessoa parecia ter uma teoria, um medo ou uma certeza absurda para compartilhar.
— Um quilo de arroz — continuou a voz. — Só isso. Um quilo, e eu conto tudo que está acontecendo no treinamento dos selecionados.
Alguém riu.
— Quem precisa pagar pra você? — perguntou um homem. — Todo mundo já sabe do treinamento.
— Todo mundo acha que sabe — respondeu o rapaz, no mesmo tom tranquilo de quem vendia um produto raro. — Informação de verdade custa caro.
Arthur parou por meio segundo. Conhecia aquela voz.
Virou o rosto na direção do grupo e viu o rapaz da cusparada encostado na lateral de uma caminhonete abandonada, as mãos nos bolsos e a cabeça erguida como se estivesse em cima de um palco. O mesmo cabelo despenteado. A mesma expressão irritantemente calma. Ao redor dele, algumas pessoas fingiam não estar interessadas, mas ouviam mesmo assim.
O homem que havia rido cruzou os braços.
— Deram arma pro povo selecionado — disse o homem, alto o bastante para os outros ouvirem. — Vão levar todo mundo pra perto da barreira e botar pra atirar nas criaturas do outro lado. O pessoal mata de longe, ganha experiência e não vira comida no processo. Pronto. Informação dada. Cadê minha parte do arroz?
Algumas pessoas murmuraram, interessadas.
Arthur ficou imóvel por um instante, segurando o braço rígido do goblin. Então era isso. Rafael, Cecília, Clara e Lara seriam colocados diante da barreira para matar criaturas à distância. Protegidos, pelo menos em teoria. A imagem de Clara parada diante daquela parede invisível, com monstros do outro lado, fez algo se apertar em seu peito.
O rapaz da cusparada ergueu as sobrancelhas, teatralmente impressionado.
— Você é bem informado.
O homem inflou o peito.
— Eu presto atenção.
— Então sabe também da incursão ao Atacadão?
Algumas cabeças se viraram. Até quem carregava corpos reduziu o ritmo por um instante. O homem abriu um sorriso satisfeito, como se aquela fosse exatamente a pergunta que ele esperava.
— Claro que sei.
O rapaz inclinou a cabeça.
— Mesmo?
— Foi um sucesso — disse o homem, saboreando a atenção. — Entraram cedo. Tinha goblins lá dentro, mas nada demais. Parece que um sujeito com habilidade de ficar invisível entrou primeiro, viu onde estavam as criaturas e abriu caminho. Depois os soldados vieram, limparam o lugar e começaram a carregar os suprimentos pro batalhão.
Arthur sentiu o pensamento se desviar no mesmo instante.
Lucas e Felipe.
Ele não os havia visto no dia da avaliação. Na hora, não se preocupou tanto. Os dois tinham habilidades boas o bastante para sobreviver, talvez até boas demais para serem ignoradas pelos militares. Se havia uma equipe recolhendo comida nos mercados e atacadões da cidade, era possível que estivessem nela. Talvez estivessem juntos.
— Invisível? — perguntou alguém.
— Foi o que disseram — respondeu o homem. — Entrou antes, viu onde estavam as criaturas e facilitou o serviço.
O rapaz da cusparada abriu a boca em uma expressão exagerada de surpresa.
Arthur estreitou os olhos. Aquilo soava forçado demais. A admiração vinha tarde, e as perguntas eram precisas demais para simples curiosidade. O rapaz parecia menos interessado em vender informação e mais em arrancá-la de quem queria parecer importante.
— Impressionante — disse o rapaz. — Então você sabe mesmo das coisas.
O homem sorriu, satisfeito.
— Eu disse.
— Sabe até do presídio?
O sorriso dele cresceu.
— Todo mundo devia saber disso.
Arthur voltou a arrastar o goblin, mas os ouvidos permaneceram presos na conversa.
— A mesma equipe que limpou o Atacadão passou por lá — disse o homem. — Pelo menos foi o que ouvi. O presídio estava tomado. Goblin pra todo lado. Mataram as criaturas e vasculharam o lugar.
— E os presos? — alguém perguntou.
O homem deu de ombros.
— Mortos. Todos. As criaturas chegaram antes.
Um silêncio breve se espalhou entre os que ouviam. Não era piedade exatamente. Talvez fosse só o peso de imaginar um lugar inteiro cheio de gente presa, sem para onde correr, enquanto aquelas coisas entravam.
O homem quebrou o silêncio com um muxoxo.
— Talvez tenha sido melhor assim. Não sei vocês, mas eu não ia dormir tranquilo com aquele povo solto por aí no meio desse inferno.
Ninguém respondeu de imediato. Arthur empurrou o corpo do goblin para mais perto do caminhão. Não gostou da frase. Soava limpa demais para falar de gente morta. Como se bastasse chamar alguém de perigo para a morte deixar de pesar. Mas também não conseguiu fingir que não entendia de onde vinha o medo. Talvez apenas estivesse sendo hipócrita.
— Só foi uma pena pelo Carniceiro — continuou o homem.
Arthur ergueu os olhos. O rapaz da cusparada também pareceu prestar mais atenção.
— Carniceiro? — perguntou ele.
— O irmão dele — corrigiu o homem. — Charles Rodrigues. Aquele desgraçado que foi transferido pra cá. Dizem que era igual ou pior. Meu irmão acompanhou esse caso de perto. Se eu soubesse que o mundo ia acabar desse jeito, tinha ido lá antes e resolvido com minhas próprias mãos.
O rapaz assobiou baixo.
— Vingança pessoal?
— Justiça — disse o homem, seco. — Aquele monstro merecia morrer olhando no olho de alguém que sabia o que ele era.
A frase continuou remoendo em Arthur enquanto voltava a arrastar o corpo do goblin. Talvez fosse o jeito como o homem falou. Talvez fosse a naturalidade com que todos aceitavam a morte de pessoas que, até o dia anterior, ainda estavam sob custódia. Ou talvez fosse só o cansaço, o cheiro e a sensação de que a cidade começava a decidir muito rápido quem ainda merecia ser tratado como gente.
Quando chegaram à traseira do caminhão, Arthur ajeitou a pegada para empurrar o corpo para dentro da caçamba.
— Merda!
O homem que ajudava a carregar o goblin havia se distraído durante a conversa. O peso escapou de suas mãos, e o cadáver bateu contra a borda da caçamba antes de cair de volta no asfalto com um som mole. Por um instante, os dois ficaram olhando para o corpo no chão.
Então o homem sorriu.
— Foi mal — disse ele.
Arthur o olhou pela primeira vez com atenção. Era um homem como qualquer outro ali. Magro, barba por fazer, o cabelo escuro grudado de suor na testa. A manga da camisa estava manchada de sangue seco, como a de quase todo mundo que carregava corpos há horas.
— Sem problema — respondeu Arthur.
O homem se abaixou para agarrar novamente as pernas do goblin.
— Vamos tentar de novo?
Arthur assentiu e segurou os braços da criatura. O trabalho continuou até o fim da tarde.
Quando Arthur finalmente voltou para casa, a rua já começava a escurecer, mas o cheiro dos corpos ainda parecia preso em sua roupa. Mesmo depois de tomar banho, lavou as mãos mais de uma vez, esfregando os dedos até as feridas arderem, mas a sensação de sujeira não ia embora. Não estava mais na pele. Estava enraizada em algum lugar no fundo da sua mente.
A casa estava quieta, exceto pelas vozes baixas e pelo som eventual de Rafael, mais uma vez, ajustando a porta improvisada da cozinha. Parecia que ele não se cansava do rangido irritante que soava a cada vez que ela era movida.
Arthur estava sentado perto da entrada, tentando ignorar o cansaço nos braços, quando alguém bateu no portão. Rafael ergueu a cabeça no mesmo instante, a mão já indo para a espingarda.
— Arthur? — chamou uma voz do lado de fora. — Tá aí?
Arthur reconheceu a voz de Felipe antes mesmo da segunda batida. Logo depois, Lucas completou, no mesmo tom debochado de sempre:
— Se tiver dormindo, acorda. Se tiver morto, manda alguém avisar.
Clara soltou um riso baixo, quase involuntário. Cecília levou a mão ao peito, aliviada ao ouvir vozes conhecidas. Lara, porém, permaneceu em silêncio.
Arthur se levantou devagar.
— São meus amigos.
Só então Rafael soltou a espingarda e pareceu relaxar.
Arthur abriu o portão. Lucas e Felipe estavam do lado de fora, os dois sujos de poeira e suor, mas inteiros. Lucas carregava uma mochila pendurada em um dos ombros, e Felipe mantinha uma das mãos apoiada na cintura, como se o corpo ainda não tivesse decidido se podia relaxar.
— Você tá com uma cara horrível. Ainda bem que feiura não é crime — disse Lucas.
Arthur olhou para ele.
— Sorte sua.
— Então tá tudo certo — respondeu Felipe, entrando depois dele. — Pelo menos ninguém tá destoando.
Cecília apareceu perto da entrada da sala ao ouvir as vozes. Quando viu Lucas e Felipe no portão, a tensão em seu rosto cedeu um pouco.
— Graças a Deus vocês estão bem. E os pais de vocês?
A pergunta fez Arthur ficar imóvel por um instante. Lucas passou a mão pelo cabelo, tirando parte da poeira da testa.
— Estão no batalhão. Conseguimos levar os dois pra lá naquela primeira noite.
— Foi uma das primeiras coisas que fizemos — completou Felipe. — Depois disso, virou bagunça.
— Graças a Deus — disse Cecília.
Arthur baixou os olhos.
Não havia perguntado. Nem quando encontrou os dois na praça, nem depois. Tinha visto Lucas e Felipe vivos e aceitado aquilo como suficiente, como se eles não tivessem pais, casa e gente para perder também.
Felipe pareceu perceber alguma coisa, mas não comentou. Em vez disso, olhou ao redor. Os olhos passaram pela porta improvisada da cozinha, pelas marcas que ainda restavam no piso e pela casa silenciosa demais sem energia.
— Vocês conseguiram ajeitar bastante coisa.
— Não ficou muito bonito, mas dá pra passar a noite — respondeu Rafael.
Lucas soltou um ar curto pelo nariz.
— Hoje em dia isso já conta como luxo.
Ninguém discordou.
O silêncio ficou entre eles. Não era exatamente desconfortável, mas também não era tranquilo. Havia coisa demais em volta para qualquer conversa parecer normal.
Felipe foi o primeiro a falar.
— A gente veio por um motivo.
Arthur olhou para ele.
— Não estão de olho nos meus cinco quilos de arroz, né?
Lucas ergueu as mãos.
— Tentador, mas não.
Felipe respirou fundo, e a expressão dele perdeu o resto do humor.
— A gente passou o dia em operação. Atacadão, mercados menores… até o presídio.
Rafael levantou os olhos ao ouvir a última palavra.
Felipe percebeu, mas continuou mesmo assim.
— Não foi bonito. Mas conseguimos levar bastante coisa pro batalhão. Comida, água, remédio, tudo que dava pra carregar.
Lucas soltou um riso baixo, sem humor.
— Quase tudo fedia ou tentava morder.
Felipe ignorou o comentário.
— Por causa do que fizemos desde ontem, os militares deixaram a gente montar uma equipe.
Arthur franziu o cenho.
— Que equipe?
Lucas olhou rapidamente para Felipe antes de responder.
— Um pelotão.
Arthur ficou em silêncio.
Lucas continuou, agora sem brincadeira na voz:
— E a gente quer você com a gente.
Arthur demorou a responder.
Não era que a proposta fosse ruim. Pelo contrário. Estar com Lucas e Felipe parecia melhor do que continuar sendo empurrado de um lado para outro pelo batalhão, fazendo qualquer trabalho que sobrasse para os não selecionados. Com eles, pelo menos, teria alguma escolha. Mesmo assim, a resposta não veio.
Lucas percebeu a hesitação.
— Você não precisa decidir agora.
— Não é questão de tempo — disse Arthur.
Felipe inclinou um pouco a cabeça.
— Então é o quê?
Arthur olhou para as próprias mãos. Os cortes ainda estavam ali, alguns reabertos depois do trabalho daquele dia. Mas não era aquilo que o travava. Ele fechou os dedos devagar, sentindo a pele repuxar nas feridas.
— Nada.
O silêncio caiu. Lara, encostada perto da entrada da cozinha, desviou os olhos para Arthur. Rafael permaneceu imóvel, ouvindo. Cecília parecia prestes a dizer alguma coisa, mas não disse.
Lucas e Felipe trocaram um olhar rápido.
— Cara — disse Lucas, mais baixo. — Se é por causa da experiência, relaxa.
Arthur ergueu os olhos.
— Experiência?
Felipe assentiu.
— A gente sabe que em grupo o ganho diminui. Quanto mais gente participa de uma luta, menos cada um recebe. E quanto maior o nível, mais difícil fica subir.
Lucas completou:
— Você subiu rápido. Pra continuar evoluindo, vai precisar de mais experiência do que a gente. Se não quiser dividir com todo mundo, ninguém vai achar estranho.
Arthur ficou em silêncio. Não sabia disso. Ou talvez devesse ter imaginado. Até ali, quase tudo que havia conquistado viera de lutas em que estava sozinho. O homem-crocodilo. Os goblins do posto. O hobgoblin. Ninguém havia dividido aquela experiência com ele.
— A gente não vai te prender — disse Lucas. — Se quiser caçar sozinho pra evoluir mais rápido, não tem problema. O pelotão não é uma coleira.
Felipe abriu um sorriso pequeno.
— É mais tipo uma placa dizendo que, se der merda, pelo menos tem alguém sabendo onde procurar seu corpo.
Clara fez uma careta.
— Isso era pra tranquilizar?
— Mais ou menos — respondeu Felipe.
Arthur quase sorriu, mas a sensação passou rápido. Lara continuava olhando para ele.
— Seu nível é tão alto assim? — perguntou.
A pergunta fez Arthur travar.
Lucas ficou imóvel por um instante.
— Ela não sabia?
Arthur não respondeu.
Lara olhou de Lucas para Arthur, e a surpresa em seu rosto aumentou.
— Que nível você está?
Arthur respirou devagar.
— Cinco.
A cozinha ficou quieta demais. Cecília levou uma das mãos à boca. Clara arregalou os olhos. Rafael não pareceu surpreso da mesma forma, mas sua expressão ficou mais séria. Lara permaneceu imóvel, absorvendo aquilo.
— Cinco? — repetiu ela, baixo.
Arthur desviou o olhar.
— Não espalhem isso.
— Por quê? — perguntou Lucas.
Arthur soltou uma risada curta, sem humor, mas não respondeu. Seu nível podia parecer grande coisa agora, mas era só isso. Logo gente com habilidades melhores iria ultrapassá-lo. Quando isso acontecesse, preferia não ter sido o idiota que todo mundo achou especial por dois dias. Sua habilidade era ruim. Quanto mais cedo aceitasse isso, melhor.
Lucas ainda parecia esperar uma resposta, mas Felipe não esperou junto. Encostou o ombro na parede e olhou para Rafael, depois para Cecília e Clara.
— De qualquer forma, você não é o único que a gente quer chamar.
Arthur ergueu os olhos.
— Seu pai já subiu de nível. Sua mãe e Clara têm habilidades úteis — disse Felipe. — Não faz sentido vocês acabarem espalhados em equipes diferentes.
Clara olhou para Arthur, surpresa.
— A gente pode ficar junto? — perguntou ela.
— Essa é a ideia — respondeu Felipe. — Pelo menos enquanto der.
Lara, ainda perto da entrada, continuou em silêncio. Mesmo assim, Arthur percebeu quando o olhar dela passou rapidamente por Lucas e Felipe.
Lucas acompanhou o movimento.
— O convite vale pra você também, Lara. Se quiser.
Ela demorou um instante antes de assentir.
Rafael olhou para Arthur.
— Parece uma proposta sensata.
Cecília assentiu devagar. Clara olhava para Arthur como se a resposta dele importasse mais do que queria demonstrar.
Arthur respirou fundo.
— Certo — disse. — Eu entro.
Lucas abriu um sorriso.
— Sabia que você era inteligente.
— Não exagera — disse Felipe. — Ele só tomou a primeira decisão razoável desde que explodiu um posto.
Arthur encarou os dois.
— Vocês nunca vão esquecer isso, né?
— Nunca — responderam juntos.
Cecília franziu o cenho.
— Explodiu o quê?

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