— Senhores, eu sou Rauf, guerreiro de Silicium. Hoje, vou presenteá-los com um belo show vermelho.

    — Apreciem!

    Dren permaneceu com o olhar na lança do oponente.

    Rauf abriu um sorriso largo e sem dentes.

    — Seu dono vai se decepcionar quando vir que você não dura dez segundos.

    Dren estendeu a mão para frente.

    — Eu concordo.

    O comando partiu dos andares superiores.

    — Lutem!

    Dren esperou o primeiro movimento da lança. Rauf avançou e o golpe abriu uma onda de vento na direção oposta. Dren afastou o braço do tronco, deixando a lâmina atravessar o espaço vazio entre seu braço e o peito.

    Rauf tentou puxar a arma de volta, mas Dren agarrou o cabo com a mão esquerda. Quando Rauf puxou com força, a lança retornou e arrastou Dren junto.

    A corrente tilintou quando a lâmina surgiu.

    — REND BLADE: CAPRICÓRNIUS!

    A ponta da lâmina entrou pela parte superior do crânio e saiu entre o ombro e a clavícula.

    A cabeça atingiu o chão e rolou até parar aos pés de Gareth.

    Rauf caiu de joelhos, seu corpo permanecendo imóvel e a lança em sua mão foi se tornando translúcida até desaparecer por completo.

    Dren sacudiu o sangue da espada. Dos andares superiores, uma voz gritou:

    — I-KILL!

    Outras vozes repetiram o nome.

    — I-KILL!

    Gareth encarava Dren enquanto a carroça cortava o deserto.

    — 41, está me escutando?

    Dren virou o olhar para Gareth e assentiu com a cabeça.

    — Essa é uma boa chance de fugir, estamos nós dois e o cocheiro.

    Dren desviou o olhar.

    — Eu sei o que os olhos amarelados conseguem fazer.

    Gareth sorriu.

    — Como previu o ataque de Rauf?

    Dren olhou para ele, sem encará-lo.

    — Pelo jeito que ele entrou andando.

    Gareth cuspiu para fora do vetor.

    — Três staters vão para abater a sua dívida, os outros três são o seu custo da semana.

    Dren limpou o rosto, depois olhou para cima e sussurrou.

    — Também treinei algumas vezes contra uma lança branca.

    Gareth não escutou.

    Pouco depois Dren foi escoltado de volta à cela. Aveline estava recostada, mas alerta.

    Ele se sentou na cama. Faltavam duas horas para os treinos.

    * * * * *

    Já fazia três semanas desde que deixaram Silicium e viajavam com uma caravana de comerciantes pelas bordas da fronteira entre Silicium e Quanterra.

    As planícies cinzentas de Commeris já estavam à vista.

    Planície dos Afogados.

    As invasões de Quanterra e Magnion afetaram a economia dos vizinhos.

    A família de Dren havia perdido tudo e um incidente com o seu avô cortou qualquer possibilidade de retorno a Silicium.

    Dren e Han caminhavam pelo assentamento em direção ao estábulo. Han parou ao lado de um dos cavalos, passou a mão pelo pescoço do animal e começou a desfazer um nó preso na crina.

    — O sul de Commeris ainda tem potencial. Quanterra ainda não chegou tão longe.

    Dren colocou a mão na crina do animal para ajudar a desfazer o nó.

    — Talvez. Apenas talvez. Não chegaram notícias de Silicium, não ouvi falar do meu avô e a última coisa que soube foi que um esquadrão de Quanterra, liderado por um Major Rennick, planejava invadir.

    Dren soltou o animal e desviou o olhar.

    — Ao menos não terei mais que passar por treinamento militar, eu era o único com uma lâmina translúcida.

    Os dois chegaram à tenda, no mesmo instante que Lior chegou da ronda com um sorriso e tocou no ombro de Han.

    — Pai, serei o herói desta caravana. Meu nome vai entrar para a história desta família!

    A mãe assentiu com um sorriso e colocou uma panela de cozido à mesa à frente dele enquanto se virava para fora da tenda acenando para Nyss.

    Ela entrou pulando e correndo e se sentou ao lado de Dren.

    Han bateu a mesa e esperou que todos o olhassem, depois encarou um a um.

    — Nunca mais pronunciem nosso sobrenome.

    Todos assentiram.

    * * * * *

    Eram quase três da manhã, quando Dren despertou, Aveline já estava em pé.

    O espaço de treino era delimitado por estacas, com o chão coberto por areia fina.

    Dren treinava socos em um saco de areia.

    Gareth andava em círculos entre os Breakers.

    — Vem aqui 41.

    Dren se aproximou.

    Gareth apontou para outro saco maior.

    — Neste aqui.

    Dren obedeceu e o golpe fez o saco balançar.

    A haste de uma lança acertou seu estômago, fazendo Dren dobrar o corpo para frente.

    — Não vai envergonhar este Ludus. De novo!

    Ele fechou os olhos, inspirou e levantou os punhos.

    * * * * *

    Dren estava de volta a um dia de treino em Silicium.

    À sua frente, um boneco de madeira preso por uma haste.

    — Não use só o braço.

    A voz era familiar.

    — Pé esquerdo na frente.

    — Agora gira o quadril. Não a porra do braço.

    Dren girou e o soco machucou sua mão.

    — De novo!

    — Gire o corpo junto com o punho.

    Dren girou.

    O soco desta vez afundou a madeira.

    ­— Muito pouco. Assim que se faz! Vou manter a arma em uma mão e socar com a outra.

    Ao lado, Dren viu uma lança branca deslizar para trás enquanto o outro punho atravessava o boneco sem balançar a haste que o sustentava.

    Ele se virou para Dren.

    — De novo.

    * * * * *

    Dren abriu os olhos.

    O punho girou junto com o corpo e o impacto fez o saco estremecer sem sair do lugar.

    Um rasgo pequeno abriu onde o punho acertou.

    E a haste da lança voltou a atingir sua costela.

    — Mais forte, lixo.

    Horas se passaram.

    Dren olhou para o saco e atacou.

    O movimento do punho deslocou o ar e o soco atingiu o centro do saco, abrindo um rasgo na frente e atrás do tecido.

    A areia vazava pelos buracos.

    — Sempre odiei treinar.

    Dren viu que Gareth estava observando. A partir deste dia o saco de treino duraria menos de um turno.

    Semanas se passaram e entre lutas arranjadas e descontos Dren havia juntado 11 staters.

    Em algumas arenas o público gritava um nome:

    I-Kill.

    Certa vez, Dren ouviu Gareth dizer, enquanto gritavam:

    — Toda semana surge um com esse nome. E dois morrem com ele.

    O treinamento de mais um dia terminou e Gareth reuniu os Breakers apontando para um painel com o título:

    Simulacro.

    — Aproximem-se lixos, aqui está descrita a única escolha que um Breaker pode tomar por conta própria neste Ludus.

    No quadro os contratos estavam listados com valores de ganho equivalentes a 2, 6, 18, 36 e 72 staters.

    Ao lado de cada valor, o responsável pelo pagamento.

    Gareth tocou no quadro e encarou o grupo.

    — Se escolherem os contratos que pagam 2, 6, 18 ou 36 staters, se falharem, ainda têm a chance de retornarem vivos.

    — Se tentarem a de 72 staters, mesmo que o contrato não mate vocês, este Ludus matará.

    Breaker 03 deu um passo à frente, seu corpo estava marcado por cicatrizes. Havia sido derrotado e ferido em seu último contrato e uma visita ao Rend Cure do Ludus custa 2 staters.

    Dren não sabia o quanto, mas seu saldo era negativo.

    Breaker 03 arrancou o contrato de 72 staters do painel.

    Gareth franziu o cenho.

    — Você, o inútil que envergonhou este Ludus? Pegue outra coisa, este é um contrato para quatro.

    Dren atravessou por entre os Breakers e parou ao lado de Breaker 03 que sorriu para ele.

    — Talvez isto seja pior do que a Cruz Negra.

    Dren devolveu o olhar.

    — Eu também estou pior.

    Regras dos Comentários

    • Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • Comentários ofensivos serão removidos.

    Para receber notificações, ative o sininho ao lado do botão de Publicar.

    Nota