Orfelha se aproxima de Roseta e toca no rosto da garota.

    — Era para você estar morta, mas algo mudou. — Ela se afasta levemente.

    — Roseta, será que agora você pode sentir amor romântico? — Bauvalier pergunta, e Pionla e Sherine trocam olhares complacentes.

    — Talvez… deixa eu… — Roseta ia falar, mas Orfelha dá um peteleco na testa dela.

    — Nem pense nisso, porque você já está viva, e isso não era para acontecer. Então mantenha esse sentimento bem trancado. — Orfelha olha para Bauvalier. — Bauvalier, vá para longe enquanto eu vejo esta menina.

    — Tá, vamos, pessoal…

    — Só você, Bauvalier. Sua amiga e sua irmã ficam. — Ela diz com certeza na voz.

    Bauvalier vai a contragosto e se senta em uma flor ao longe, olhando de cara fechada para elas.

    — O que há de errado? — Roseta questiona. — Teoricamente eu não estou livre da minha maldição.

    — Teoricamente, sim. Mas, na minha visão do futuro, eu vi você sendo a primeira a acordar neste mesmo cenário. Quando achou que estava livre, você sentiu… sentiu e morreu. A última cena era de uma planta que havia adentrado este mundo, perfurada por espinhos. — Ela olha para Sherine. — Mas, pelo que vejo, você foi a última, e isso mudou o resultado final, já que estamos aqui para levar esse sentimento de novo ao seu interior.

    — Eu tinha acordado primeiro, só que alguém veio falar comigo. — Ela encosta na rapieira. — Ela entrou na minha cabeça e tentou fazer um acordo comigo.

    — Conte do começo, querida. — Sherine se senta ao lado dela na rosa. — O que ela te disse?

    — Foi assim…

    Um lugar escuro se abriu aos olhos de Roseta. Ela anda e anda até achar uma cadeira. Havia uma mesa com um chá, o seu preferido. Mesmo temerosa, sentou-se, e uma dama de vermelho se sentou na cadeira do outro lado.

    — Roseta Rose, dama da Mansão Rose. — A dama de vermelho sorri.

    — Suponho que a senhorita seja Ballet. — Seu olhar se afia.

    — Menina esperta. — Ela coloca a mão no próprio rosto.

    — Por que me trouxe aqui? — Roseta se levanta, apontando sua rapieira para ela.

    — Nada demais, querida. — Ela nem se move, dizendo em um tom calmo. — Apenas uma solução para sua maldição.

    — Não acho que daria uma cura de graça, mesmo que eu duvide que você tenha esse tipo de recurso. — Ela não desvia o olhar da dama de vermelho.

    — Acha mesmo que não tenho meus métodos? — Ela ri. — Além disso, você está certa. Não faria isso de graça, mas um acordo seria mais adequado à minha pessoa. — Ela sorri levemente.

    O olhar das duas mulheres não se desvia. A tensão era tão palpável quanto a própria apreensão de Roseta.

    — Mesmo sendo verdade ou não… — Ela segura forte o cabo de sua lâmina, sua mente cada vez mais distante da razão. — Sei que fazer um acordo com você é pedir para ser enganada.

    Ballet boceja, olhando para a situação em que Roseta estava se metendo.

    — Vejo que não está entendendo o que está perdendo. Engano seu achar que eu brincaria com algo tão sério quanto libertar você para amar. Eu sei quem é, mesmo que você afirme que não é ninguém. Seu âmago sabe muito bem.

    A vista de Roseta começa a ficar turva. O aperto em sua lâmina diminui.

    — Não vou cair… — Ela respira fundo, juntando forças que sua mente mal possuía. — Não vou cair nesse papo. Eu prefiro mil vezes fazer um acordo com o diabo.

    Ela aperta o máximo o cabo da lâmina e avança contra Ballet.

    — Vejo que ainda não está pronta, mas sei que estará. — Com um movimento de sua mão, outra mão de marionete gigante surge do vazio, segurando firmemente Roseta. — Mas não se esqueça, Roseta… — Ela sorri. — Mente vazia é oficina minha.

    Ela move a outra mão, fazendo outra mão gigante surgir do abismo e arrancar a cabeça de Roseta.

    Roseta apaga.

    Ela acorda naquele mesmo lugar, com a vista ardendo por causa das cores e seus amigos preocupados ao redor.

    — Foi basicamente isso… — Ela suspira, culpada. — Receio minha imprudência. Sei que devia ter questionado qual era o acordo ou até perguntado sobre outro assunto, mas minha mente me traía. Ela me levava para muito longe. Eu sabia que não resistiria por muito tempo.

    Pionla segura forte a mão da amiga e a olha com calma.

    — Você não fez errado, Roseta. Não duvido que aquela…

    — PI-RA-I-NHA! — Rimuru diz alto, acentuando o “piranha”.

    — É PI-RA-NHA, sem “i”, Rimuru. — Orfelha corrige.

    — É piranha ou pirainha, não importa. Sei que ela é os dois. — Rimuru afirma enquanto se senta no chão.

    Pionla pensa um pouco para lembrar o que estava falando.

    — Como eu ia dizer, muito provavelmente ela deve ter alguma habilidade que facilite fazer acordos. Não me surpreende, considerando o jeito calmo que você disse que ela estava agindo. — Pionla afirma, olhando para Roseta.

    — Certo… mas agora temos que nos concentrar na missão principal: pegar o artefato das mãos de Pierro e libertá-lo desse lugar. — Roseta olha ao redor, pensativa. — O que é exatamente este lugar, pensando bem? É tipo um mundo dos sonhos?

    — Não é, não. — Quineiou surge atrás de Red. — Se fosse um mundo dos sonhos, eu estaria vendo o futuro adoidado. Mas também não é um mundo onírico. Está meio a meio, na metade do caminho dos dois.

    Bauvalier se aproxima para escutar o que estão falando.

    — Agora posso ficar aqui ou vão falar mais coisas que são secretas para mim? — Bauvalier cruza os braços, olhando para elas irritado.

    — Sim, pode. Mas agora temos que pensar em como achar o Pierro nesse mundo inteiro. — Ré comenta.

    — Acho que talvez eu possa ajudar. — Orfelha diz com a voz fria.

    — Sério? Como faria isso? — Pionla pergunta animada.

    — Se ele está usando o poder de um deus, a energia dele deve ter aumentado e, por consequência, as vibrações que a alma dele produz também. — Orfelha flutua e fecha os olhos.

    Orfelha respira fundo, concentrando-se em uma batida parecida com a de Red. A batida estava distante, separada em três pulsações, mas, juntas, eram exatamente o que ela procurava, mas uma das pulsações estava distante de sua visão.

    — Achei, mas não tenho as melhores notícias para dar. — Orfelha volta ao chão. — Está separado. A alma dele criou três formas, que carregam a mesma batida. Mas a que vocês estão procurando está atrás de algum lugar que minha visão não alcança.

    — Provavelmente as outras formas estão impedindo sua visão, tia Orfelha. Mas como resolveríamos isso? — Bauvalier questiona.

    — Se não me engano, se matarmos essas formas extras, as almas delas voltam para o corpo ou para a mente original. Então talvez assim minha irmã consiga ver onde ele está com certeza. — Red sugere, mas sem muita convicção.

    — Talvez realmente dê certo. — Orfelha olha para a sobrinha. — Se quiserem, posso levar vocês até essas batidas. Me avisem quando estiverem prontos.

    Ela se distancia e volta para a mesa, onde toma um pouco de chá de flores.

    — Vocês vão vir junto, mãe e tios? — Bauvalier questiona.

    — Pode ter certeza, meus bebês. — Sherine sorri, aproximando-se dos dois filhos para dar um grande abraço.

    — Eu não perderia uma aventura. — Rimuru comenta enquanto limpa uma das máscaras que surgiu do nada em sua mão.

    Red acena em concordância, e Orfelha, mesmo distante, faz um sinal de joinha.

    — Tia Orfelha conseguiu escutar daqui. — Pionla olha surpresa.

    — Ela sempre teve uma audição muito boa, querida. — Sherine cria uma cadeira para Pionla se sentar.

    — Senhorita Sherine, acho que Pionla não vai precisar sentar. Logo iremos atrás das batidas. — Roseta diz com a voz calma.

    — Realmente. Temos que nos apressar, porque já perdemos muito tempo nesse paraíso. — Pionla sorri e arruma o chapéu.

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