Toda partida trazia consigo uma crueza particular, especialmente quando o destino final permanecia envolto em névoa e incertezas. Deixar tudo para trás significava sepultar as próprias memórias e o eu que outrora existira naquele lugar. Rakei Dell Sue partiu em uma jornada motivada por vidas, a determinação de ceifar as de seus inimigos e a urgência de resgatar as de seus companheiros. Ela caminhava agora sobre uma linha tênue, onde o sangue manchava ambos os lados. 

    A estrada que rumava ao sul iniciava-se pela densa floresta que se estendia logo atrás de Rhasta, serpenteando em direção às montanhas onde as fronteiras de Rusfield verdadeiramente começavam a se desenhar. Os cavalos da comitiva, mostravam-se ideais para longas e extenuantes marchas. A viagem seguia em um ritmo constante e inflexível, nem apressado, nem lento, avançando pela trilha principal que se espremia entre paredões rochosos e copas fechadas de árvores antigas.

    O silêncio que se instalou entre os quatro viajantes era denso e quase palpável. Sue e Hilla mantinham as feições rígidas, trancadas em seus próprios lutos, Francis liderava a fila, sentindo em suas costas o peso de olhares prontos para devorá-lo à menor suspeita, e Mall, posicionada no centro da formação, buscava desesperadamente alguma brecha para quebrar a tensão.

    — Eghh… — pigarreou Mall, soltando um ruído indefinido para testar o ambiente. — Aquele tal de Joff parece ser uma criatura detestável, não acham? Foi só a Lamúria sentir a presença dele que resolveu te aceitar no mesmo instante!

    O silêncio que se seguiu foi imediato, cruel e constrangedor. Mall percebeu o erro no mesmo segundo. Trazer à tona a lembrança do assassino de Rolly dificilmente seria a melhor forma de puxar assunto, especialmente quando não se haviam passado sequer vinte e quatro horas desde o funeral.

    “Mall, sua estúpida, cala essa boca! Que tipo de comentário grotesco foi esse? Você não está na capital lidando com mercenários, sua idiota!” —  esbravejou ela contra si mesma em seu foro íntimo. No entanto, um som inesperado quebrou a rigidez do grupo, surpreendendo a todos.

    — Hum. — Foi um sopro breve, o início de uma risada seca e desprovida de humor, vindo justamente de Sue. — Ele ficou bem feio depois do Desastre.

    “Ah, Sue… Então você também recorre ao humor negro para não enlouquecer?” — pensou Mall, sentindo um misto de alívio e surpresa.

    — Não é? — respondeu Mall, ainda um pouco sem graça. Ela desejou agradecer à jovem por ter salvado o diálogo, mas julgou que já havia falado além da conta.

    Hilla, que mantinha os olhos fixos na trilha à frente, soltou um murmúrio baixo, indicando que daria continuidade à conversa. Mall apurou os ouvidos, a expectativa renovada. “Elas não estão tão amargas quanto eu temia! Até você, Hilla… O que vai dizer agora? Vai emendar outra ironia? Encontrar uma faísca de graça em meio à nossa própria tragédia?” Os olhos de Mall fixaram-se na amiga, aguardando a resposta.

    — Chegamos. — sentenciou Hilla, a voz fria e cortante sepultando qualquer tentativa de leveza. — Deixaremos os animais aqui. Os cavaleiros vão recolhê-los assim que passarem em direção a Bacia da Prata.

    O ponto de parada era um recuo estratégico já conhecido pelos soldados de Rhasta, camuflado por uma cortina de árvores densas. Dali em diante, os cavalos seriam inúteis para o terreno que os aguardava. Com as mochilas pesadas ajustadas às costas, o quarteto abandonou a estrada e virou-se para o leste, de frente para as franjas escuras do pântano.

    — O porto de Cogos! — anunciou Francis, utilizando a lâmina para abrir caminho entre a vegetação que se tornava cada vez mais intrincada. — Eles serão obrigados a consertar o dirigível naquele morro.

    — Cogos é aquele capitão? — questionou Mall, que ainda trazia os músculos doloridos do embate a bordo do aeromóvel.

    — Sim — respondeu Francis, mantendo o tom monocórdico que parecia blindar sua alma contra o medo. — O Fúria Voadora não irá chegar em Bacia naquele estado, e a base deles é o único ponto antes de seguirem viagem.

    — Quanto tempo até lá? — A pergunta de Sue veio como uma lufada de ar ártico, batendo diretamente na nuca do guia.

    — Por ar, seriam poucas horas. Agora, por terra… — Francis fez uma pausa, os olhos varrendo a transição abrupta da paisagem. A floresta de solo firme começava a se dispersar, cedendo espaço a uma planície encharcada. — Depende do que formos encontrar pelo caminho.

    O sol atingira o zênite quando eles finalmente cruzaram a divisa que tanto perseguiam. À frente, o terreno declinava em um vasto tapete verdejante e enganoso. A grama sob os pés tornou-se fofa, saturada de água e lodo, as folhas das plantas exibiam bordas finas e afiadas como navalhas, e as árvores erguiam-se longas, magras e retorcidas. À medida que avançavam, o cenário fechava-se ao redor deles em corredores estreitos de vegetação alta o bastante para ocultar um homem adulto. 

    Uma névoa espessa e albina começou a rastejar pelos calcanhares do grupo. Sacando suas espadas, eles passaram a cortar a folhagem persistente até encontrarem uma elevação estreita que servia como passarela natural. De ambos os lados do caminho, o declive sumia na bruma, tornando impossível distinguir onde terminava a terra e onde começavam os poços de água estagnada.

    Mall, que assumira a vanguarda, estancou de repente, erguendo a mão espalmada.

    — Parem!

    O comando silencioso paralisou o grupo. Hilla e Sue moveram os olhos rapidamente pelas laterais, buscando qualquer perturbação na névoa.

    — Já está perto demais… — sussurrou Mall, a testa franzida. — Eu mal consegui sentir a sua presença.

    Por entre as árvores acinzentadas, um impacto pesado fez o solo lamacento pulsar sob as botas dos viajantes. A vegetação adiante foi empurrada para os lados, e galhos robustos partiram-se com facilidade quando uma silhueta emergiu da bruma. A criatura ostentava a estrutura de um bípede, um tiranossauro, mas sua pele era de um verde-oliva densa e, no lugar de braços ou patas dianteiras, portava asas mal feitas formadas por uma fusão de folhas e galhos retorcidos.

    — Uma besta… — balbuciou Francis, a voz vacilando enquanto o sangue sumia de seu rosto.

    — Não se mexam — ordenou Mall, embora seus próprios olhos demonstrassem que aquela espécie em particular não constava em seus mapas de treinamento.

    Sue, contudo, ignorou a advertência. Em um movimento fluido, ela sacou a Lamúria de suas amarras e apontou a lâmina azulada diretamente para o focinho da fera. O monstro interpretou o gesto como uma afronta e inclinou o corpo para o bote, mas a jovem Rakei agiu primeiro. A espada incendiou-se em um estalo, com um movimento chicoteante de seu braço, o ar e o fogo fundiram-se em uma rajada compacta que atingiu o flanco do predador, deixando uma marca profunda de queimadura na carcaça. 

    O golpe não foi letal, mas carregava poder o suficiente para que a criatura compreendesse que aqueles viajantes não seriam uma presa fácil. Soltando um sibilo grave, a besta recuou para o interior do nevoeiro, embora seus olhos selvagens tenham permanecido fixos nos de Sue por alguns segundos, ambos sustentando um olhar igualmente implacável e territorial.

    Francis finalmente soltou o ar que prendia nos pulmões. Mall aproximou-se da princesa com um sorriso nos lábios, tecendo elogios à precisão do contra-ataque, mas Sue limitou-se a embainhar a Lamúria, o rosto impassível, e continuou a caminhada sem dizer uma única palavra.

    O avanço pelo pântano mostrou-se um teste de resistência física e psicológica. Criaturas de naturezas bizarras cruzavam suas rotas a cada milha, colônias de cogumelos que se contorciam sobre raízes expostas, troncos antigos providos de fendas que imitavam olhos e bocas, parecendo vigiar a passagem do grupo e aves de envergadura colossal que rasgavam o céu enevoado. Em dado momento, ao atingirem o topo de um barranco onde a bruma temporariamente se dissipara, os quatro olharam para o vale abaixo e depararam-se com uma visão monumental.

    Uma criatura de proporções grotescas caminhava vagarosamente pela depressão do terreno. Era uma entidade humanoide que lembrava a estrutura de um alce, porém sua estatura superava facilmente a das árvores mais altas da região. De suas costas, no lugar de galhadas comuns, brotavam ramificações lenhosas imensas que terminavam na forma de jaulas naturais feitas de cipós e raízes retorcidas.

    — O… o que é aquela coisa? — perguntou Francis, o cenho franzido em repulsa.

    Ninguém respondeu de imediato, até que Hilla quebrou o silêncio, a voz carregada de uma solenidade antiga.

    — Eu já ouvi histórias sobre eles na taverna de Rhasta… Dizem que há muito tempo, aquilo já teve forma humana. Dizem ser um caçador de tesouros, outros dizem ser alguém que buscou respostas neste lugar e acabou consumido pelo esquecimento do pântano. O corpo foi corrompido pela magia da terra e a alma ficou aprisionada na matéria, transformando-se em algo além da razão. Hoje, ele apenas vaga sem rumo, coletando o que sua mente distorcida julga ter algum valor e aprisionando tudo em seu próprio corpo.

    As palavras de Hilla encontraram eco na imagem que se desenhava diante deles. No interior das jaulas orgânicas que o monstro carregava nas costas, misturados a musgos e folhagens, podiam-se avistar ossadas antigas, pedaços de armaduras enferrujadas, pertences pessoais e até pequenas feras do pântano que agonizavam em uma armadilha sem saída.

    — Chamam-nos de almas corrompidas. Humanos que se transformaram em… alguma coisa. — lamentou Hilla, desviando os olhos da criatura. — Cada um deles carrega uma forma diferente, moldada pela obsessão que tinham em vida. Um destino cruel… existir após a morte sem consciência, sem rumo e sem humanidade.

    O trio escutou o relato com uma pontada de desconforto, divididos entre a descrença nos mitos do pântano e a evidência que caminhava sob seus olhos. Ninguém ousou fazer qualquer ruído que pudesse atrair a atenção daquela imensidão ambulante, era uma regra velada da sobrevivência não perturbar o que se movia no isolamento. 

    O espetáculo, contudo, fez com que Sue refletisse sobre os termos de sua própria jornada. Ela observou o gigante afastar-se, questionando-se até que ponto a obsessão e a fúria de um ser humano poderiam deformá-lo antes do fim. Teria aquele homem encontrado o que tanto procurava antes de virar parte da paisagem? Sem proferir uma palavra, ela deu as costas ao vale e retomou a trilha, seguida pelos outros, que ainda olhavam de relance para a silhueta que sumia na névoa.

    A vegetação permaneceu fechada e opressiva até que o grupo alcançou uma clareira relativamente aberta, dominada por uma lagoa de águas escuras e estagnadas. As horas pareciam se espremer sob o manto cinzento do céu, a luminosidade pálida do dia ameaçava se extinguir a qualquer momento, engolida pela névoa que se adensava com a aproximação do crepúsculo.

    — Estamos perto? — perguntou Hilla, voltando-se para Francis. Seus ombros tensos denunciavam o esgotamento físico.

    Francis ergueu os olhos em direção ao horizonte além da lagoa, onde a bruma parecia um bloco sólido de fumaça. Ele apontou o dedo indicador para uma silhueta imprecisa que se erguia à distância.

    — Naquele pico.

    O cume do morro rochoso mal se desenhava contra a paleta cinzenta do final de tarde, o terreno despencava em um vale úmido antes de iniciar a subida em direção à fortaleza dos saqueadores. Diante deles, estendia-se um mar de vegetação rasteira e traiçoeira.

    Hilla suspirou, o desânimo evidente em suas feições, Mall limitou-se a erguer as sobrancelhas, conformada com as dificuldades do trajeto, enquanto Sue deixou a mochila pesada escorregar pelos ombros, deixando-a cair na grama antes de se espreguiçar longamente.

    — Vamos acampar aqui. — declarou a jovem Rakei.

    — Dormir no meio do pântano?! — sobressaltou-se Francis, os olhos arregalados.

    — Precisamos manter o ritmo e nos apressar — ponderou Hilla, avaliando o declive à frente.

    — Chegar ao território do inimigo com os músculos esgotados é uma péssima estratégia — interveio Mall. Ela mediu as palavras para não parecer indolente diante da pressa de Hilla, mas Hilla apenas assentiu, reconhecendo a lógica do argumento.

    — Um descanso rápido, então — cedeu Hilla, acomodando seus pertences ao lado dos de Sue.

    — Vocês estão falando sério? Querem mesmo passar a noite no pântano? — Francis parecia genuinamente horrorizado. A aparente ingenuidade ou sangue-frio das três mulheres começava a testar seus nervos. O homem que passou os últimos dias agindo como um prisioneiro sem vida agora parecia lutar desesperadamente para se manter respirando. — O “Pântano dos que Foram” não recebeu esse nome atoa! — disse ele já se conformando com o fato. 

    — Eu sempre preferi o nome “Pântano dos Esquecidos” — comentou Mall, ajeitando alguns gravetos secos para iniciar a fogueira, divertida com a variedade de lendas que cercavam a região.

    — “O Pântano Vivo” — murmurou Sue, sentando-se sobre uma rocha, o olhar fixo na água escura da lagoa. Seu tom era neutro, desprovido de qualquer traço de hesitação.

    — Esse eu nunca tinha ouvido — admitiu Mall, virando-se para as duas mulheres que haviam passado os últimos dez anos na fronteira daquela região. — Que outras histórias os viajantes contavam em Rhasta sobre este lugar?

    — As de sempre… — respondeu Sue, as esferas azuis de seus olhos refletindo a primeira faísca da fogueira que Mall acendia. — Relatos de aventureiros experientes que cruzaram as margens e nunca mais retornaram, boatos de tesouros antigos escondidos sob a lama, jazidas perdidas de pedras mágicas, bestas com inteligência humana, masmorras ancestrais… e, pelo visto, hangares ocultos de contrabandistas.

    — “Os monstros fugiram do julgamento dos homens e buscaram abrigo sob o manto branco do verde molhado” — citou Hilla, recitando um fragmento de crônica que escutava em seus primeiros anos no vilarejo. — As lendas podem ser distorcidas pelo tempo, mas as ameaças que as geraram são bem reais.

    Pouco depois, os quatro encontravam-se reunidos ao redor do fogo. Embora a noite estivesse apenas começando, a densidade da névoa e a copa das árvores já haviam mergulhado o acampamento em uma escuridão quase absoluta. O calor das chamas mostrava-se um aliado indispensável contra o vento frio e úmido que soprava das águas estagnadas. Uma panela de ferro fervia sobre as brasas, exalando o aroma do cozido de peixe e das provisões secas que traziam na bagagem.

    — Muito bem, minhas amigas… e amigo — começou Mall, elevando o tom de voz para capturar a atenção do grupo e afastar o silêncio opressor do pântano. — Eu tenho uma proposta para tornar esta noite um pouco mais interessante: uma história.

    Os olhos de Hilla e Sue moveram-se na direção da elementar de terra, curiosas com a mudança repentina de postura. Mall sorriu, mas logo estendeu o braço, apontando o dedo indicador na direção do guia do outro lado do círculo de pedras.

    — Mas não serei eu a narradora. Será você. Compartilhe conosco a sua história, Francis Cardeon.

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