— Espelho, espelho meu, quem é a mais bela sob o Céu?

    Tais palavras não vinham como uma pergunta; invocavam uma vontade primitiva, um instinto. Dentro de si e da voz que as proclamavam, ecoavam a firmeza de uma rocha, convicta da resposta que se seguiria.

    “Em verdade, o Céu tudo julga, tudo vê.
    És tu, Rainha, a mais bela a reinar,
    Em terra ou mar, aqui ou acolá.
    Todo homem se curva à sua mercê!
    Nenhuma face supera teu fulgor,
    E todo reino dá a ti seu amor!”

    As palavras vinham de duas vozes. Uma declamava como um rei em discurso aos seus súditos; um leão que rugia e ditava-lhes as ordens, absolutas e finais. A outra cochichava; falava aos sussurros de um espectro, escondido atrás das cortinas, imitando as falas do leão e a elas dando uma sustância quieta, mas assertiva.

    Sua imagem era nada mais que um eco, um espectro. O cristal negro não se preocupava em refleti-la; suas palavras eram o derradeiro reflexo.

    Donde surgiam suas palavras? De um sorriso.

    Branco como a neve, frio como ela. E a face, a máscara, da qual vinha esboçava um vazio de emoções. Ainda assim, sorria com a alegria de mil verões.

    Aquela que via o fantasma de seu rosto no espelho, que lançara a pergunta ao espírito dentro dele, imitou a expressão desse.

    Seus dentes aparecerem num arco de mármore. As mãos, unidas sobre sua barriga, fecharam-se com a pressão de um martelo sobre uma bigorna. Fogo percorreu por elas, por seus braços e por seu rosto; queimava por seu coração, que batia com fúria.

    Mais uma vez, estava correta. Por que não estaria? Recebia a mesma resposta desde a primeira vez que fizera a pergunta.

    “Espelho, espelho meu, quem é a mais bela sob o Céu?”

    “És tu, Anastacia, a mais bela que há.”

    No porão de sua casa, cercada de teias de aranha e focos de poeira, ouvira tais palavras. Donde viera aquele espelho? Por que ressoara com seus desejos, seus anseios?

    “O que desejas, senhorita? Tudo que me perguntares, responderei.”

    Sua casa? Seu clã? De nada serviam os Corvane, uma das famílias mais antigas, mas também decaídas, de Eisenwald. O que tinham de especial, na era atual?

    “Anastacia, a mais bela do reino!”

    Sua mãe dizia-lhe, em meio a abraços e risadas.

    “Nem por isso nos salvamos.”

    Respondia seu pai, severo.

    A mais bela do reino. Anastacia nunca se esqueceu das palavras de sua mãe. Seriam verdade? Ela não sabia; nunca saberia.

    Isso, claro, até conhecer o Espelho Encantado. Ele que “tudo vê e tudo sabe”.

    Escondido nas profundezas das masmorras de sua família, seu “porão”, Anastacia Corvane o encontrou. Tinha correntes de prata cinzenta o emaranhando, porém mantinha a fala.

    “És tu, Anastacia, a mais bela que há.”

    Dizia-lhe a verdade? Como saberia? Decerto, Anastasia, na época pequenina, sequer cogitou se o espelho sabia da beleza de uma ou outra para as comparar com ela própria.

    E de que isso importava?

    Era a mais bela do reino!

    Desde moça, todos os olhares caíam sobre a filha dos Corvane. Não escapava dos elogios dos iguais e inveja dos superiores. Nas festas de gala, era o Sol de todos; nos jantares, a serena Lua descansava nas mesas.

    Não tinha status, poder, ambição; tinha beleza. Beleza de rosto, beleza de coração, de alma. Quantos corações encantou com o sorriso perolado, a voz açucarada e o coração cristalino! Inúmeras propostas, pedidos, súplicas dos homens para tomar sua mão em casamento.

    Como seriam mentiras tais palavras, se o mundo as confirmavam?

    “Case-se comigo, senhorita Anastacia!”

    A coroa, incrustada de rubis e esmeraldas, ardeu diante do Sol poente. Suor escorria por baixo dela, entre as mechas lisas e escuras de cabelo. O rosto, liso, mas também severo e delineado, contraia-se de leve. Tinha o fogo da convicção, que mascarava um receio azedo do interior da alma.

    Anastacia lembrava-se de notificar ao seu soberano, o Rei Aeric, as suas origens. Sua casa há muito perdera seu poder; seu pai jazia cansado, e pouco podia diante de uma eventual guerra ou conflito interno. O que teriam os Corvane a oferecer ao seu rei?

    “Você, Anastacia! A mais bela e doce sob o céu!”

    Naquele dia, lembrou-se do espelho, a quem sempre fazia a mesma pergunta. Aí encontrava-se a prova derradeira.

    O rei insistiu, e suas memórias dali em diante eram um tanto turvas. Aceitou o pedido, meio contente, meio receosa, para a alegria de seus pobres pais. Em menos de dois dias, mudou-se para Silberfaust, a capital do reino. A memória dos muros e casas, castanhos e quentes como as Montanhas Castanhas, ficaram gravadas em sua mente.

    A côrte a recebeu com alegria, vinho e música em plena luz do dia. O Rei Aeric, diante da sala do trono e seus maiores confidentes, ajoelhou-se diante de Anastacia uma segunda vez e beijou-lhe a mão. Encaixou em seu dedo um anel de diamantes, e declarou que, desde que a vira na última festa em que participara, nunca esqueceu de seu rosto, de seu sorriso.

    Vendo-o de perto, percebeu como era jovem; apenas dois ou três anos mais velho que ela própria. Sabia que assumira o trono cedo, pela morte prematura de seu pai. Da mesma forma, desposou de uma nobre da alta cúpula de Eisenwald, com quem viveu e governou por breve período. Amava-a mais que tudo, diziam os empregados; porém, sua alma elevou-se para fora dos círculos do mundo antes da hora. Anos depois, Anastacia descobriria que sucumbiu a uma doença antiga.

    Deixara o rei quase que submerso nas trevas, não fosse o fruto de seu amor. A herdeira dos Corvane a conheceu no mesmo dia em que chegou à capital; uma pequenina, agarrada na barra das vestes de seu pai. Branca como a neve, de lábios rosados e vivos e olhinhos tão amedrontados quanto curiosos. Escondera-se no mesmo instante que tentaram lhe apresentar a sua nova mãe.

    Anastacia temeu que a pequenina a rejeitasse, mas jurou em sua mente que cuidaria dela. Afinal, sempre quisera ser mãe.

    E assim o fez. Criou Evelyne, a filha do Rei, como se fosse sua. Os anos fizeram com que a menina se referisse à Anastacia como mãe, e logo a distância entre elas tornou-se tão curta quanto a das fibras de uma túnica. Chamava-a de “querida filha”, e Evelyne, risonha, respondia “querida mãe”. Nunca desejou o lugar de sua predecessora, mas a jovenzinha colocou-a nessa posição em seu coração.

    Ajudou o marido nos afazeres do reino. De fato, escondia uma mente sã e consciente dos assuntos do país. Diante das enormes bibliotecas e dos sábios na fortaleza de Silberfaust, logo desabrochou numa flor de inteligência e prudência. Fortaleceu o comércio com Rosenthal, importando frutos e plantas de seus melhores herbalistas; expandiu as lavouras nas planícies do reino e cessou as grandes temporadas de fome; até mesmo conquistou a confiança das Sete Tribos Anânicas das Montanhas Castanhas, criando uma aliança inestimável.

    Seus súditos a apelidaram de Rainha Bela, a mais doce e gentil que já reinou

    Tamanha era a amizade com os Anões que, nos dias de inverno, visitava suas cidades subterrâneas em viagens diplomáticas; pretextos para férias, na verdade. Divertia-se ao ver Evelyne correr junto das crianças anãs, em meio aos goles de chá.

    Não concedeu à sua filha os irmãos que queria. Descobrira, com enorme dor no coração, que não era capaz de ter filhos. Seu marido consolou-lhe durante todas as noites em que os rios de lágrimas desciam de seu rosto. E Evelyne, agora uma mocinha de oito anos, abraçava sua segunda mãe pelas costas, chorando por ela e por seus irmãos que nunca foram e nunca seriam.

    Resistiria contra todos os flagelos que o Destino lhe trouxesse. Enquanto tivesse Aeric e Evelyne, enquanto fosse a Rainha Bela de Eisenwald, seria feliz.

    “Espelho, espelho meu, quem é a mais bela sob o Céu?”

    “És tu, Anastacia, a mais bela entre a Terra e o Céu!”

    No fim, Aeric as deixou, fraco e caído sobre seu leito. Evelyne chorou por dias; depois, calou-se por semanas. Mãe e filha não interagiram por quase um mês.

    O que seria de Eisenwald? Aeric não teve herdeiros, então Anastacia tomou o governo para si. Acreditava, antes de tornar-se viúva, que fazia um bom trabalho; contudo, logo entendeu a pressão e os deveres de um monarca regente.

    Os nobres conspiravam, conforme o tempo seguia, na tentativa de alçar ao posto da realeza. Quantos pais não ofereciam seus filhos como noivos de Evelyne, na tentativa de assumir o reino no futuro. Alguns até traziam ofertas à própria Anastacia, pois, mesmo com o passar dos anos, permanecia semelhante aos dias de recém casada.

    “Espelho, espelho meu, quem é a mais bela sob o Céu?”

    “És tu, Anastacia, a mais bela entre a Terra e o Céu!”

    Permanecia a Rainha Bela. Mesmo diante das garras de seus inimigos, mesmo em frente das espadas dos que antes considerara amigos. Evelyne crescia e se tornava moça; Anastacia permanecia a mais bela entre a Terra e o Céu. Juntas, tornavam-se as mais belas que o mundo já viu.

    — Querida mãe, que será do reino? — questionava-a Evelyne, sempre sorrindo.

    — Um lugar belo, minha querida filha — respondia Anastacia. — Em meio às montanhas, aos prados e as florestas. Eisenwald, como seu pai deixou em nossas mãos.

    Sim. Enquanto estivessem juntas.

    “Espelho, espelho meu, quem é a mais bela sob o Céu?”

    “É verdade, Anastacia. Tu é bela!
    mas há outra, tão pura, tão singela.
    Não só de rosto, mas de coração;
    e a Rainha desvanece, perde a posição.

    Fruto que a Rainha mesma cultivou,
    cuja pureza o tempo não manchou.
    Branca como Neve, de cabelos
    Negros como a noite mais além.
    Lábios rubros, cheia de zelo.
    É ela, Rainha, sabes bem!”

    Um som oco invadiu a sala. Anastacia, que penteava seus longos cabelos, congelou, com as mãos entre suas mechas. Não se importunou com a escova caída, nem com a janela que bateu nas paredes. O vento correu, embaralhou as tapeçarias e derrubou seus castiçais prediletos.

    Anastacia não se mexeu.

    — O que disse, Espelho Mágico? — recuperada da rigidez, agarrou o suporte do espelho, agora incrustado de ouro e prata. — Quem é a mais bela sob o Céu?

    “Tal pergunta eu prontamente respondi.
    Não duvido, ela é a mais bela que já vi.”

    Balançou as hastes de prata, e as gemas penduradas debateram-se como corvos assobiando. Mais uma vez, de voz trêmula e gaguejando, perguntou:

    — Espelho, espelho meu, quem é a mais bela sob o Céu?

    “Por que insistes em tal pergunta assim?
    Já lhe revelei a flor mais bela do jardim.
    Não há outra senão Evelyne!”

    Caiu de joelhos. Sua filha, Evelyne Aeric Eisenwald. A mais bela que o mundo já viu! Sua menina, sua pequena! Quanta alegria teria uma mãe ao ter tais palavras adentrando seus ouvidos.

    Por que, então, Anastacia sentia uma agulha sobre o seu coração?

    Encarou o próprio reflexo. O rosto do espelho já havia desaparecido, e agora só o seu permanecia. Nada mudara na última década; poucos reconheceriam a sua real idade, sem dúvidas.

    O que, então, a fez perder o posto de mais bela?

    Cobriu a boca com a mão. Os olhos, já vermelhos, mal se aguentavam. O peito contraía-se em espasmos, segurando a força do desespero iminente. A outra mão permaneceu no chão e, num surto, riscou a rocha, marcando-a com sangue.

    Em meio ao seu lamento, Anastacia Corvane Eisenwald escapou do mundo. Não via, não ouvia, não sentia.

    Se fizesse sequer um desses, com certeza teria notado que tinha companhia.

    Uma sombra, impossível de existir em tal tamanho num quarto tão iluminado pelo Sol, aproximou-se dela. Assemelhava-se a um manto, que refletia a infinita imensidão da noite vesperiana.

    Dela surgiu uma mão, que não perdeu tempo em acariciar o ombro de Anastacia. Inclinou-se sobre suas costas e, por entre o véu negro, um sorriso alvo cochichou:

    — Quer ser a mais bela entre a Terra e o Céu? Eu posso lhe ajudar.

    A Rainha Anastacia olhou então para seu espelho. Não viu o espectro, ou não se importou com sua presença; viu seu rosto, suas lágrimas, sua dor, palpável diante daquela superfície de cristal.

    Nunca chegou a perceber se dissera “sim” em voz alta, ou apenas em sua mente.

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