Capítulo 145 - Brutal
Nas margens de Cahjia, Brok e Rorgn encaram-se com armas erguidas e apontadas. Ambos rosnando um para o outro, no prenúncio de um duelo.
“Não tenho medo de você”, declara Rorgn. “Se vou poder lutar diretamente contra você, eu aceito.”
Brok bufa, com o ar escapando das narinas de maneira barulhenta. “Vai… Ser melhor assim”, diz ele.
A multidão ao redor os observa atônita, cheia de orcs sem nem saber como reagir.
Do fundo, Mindinho dá um passo à frente. Suas mãos tremem e ele possui uma expressão boquiaberta.
“Brok, o que está fazendo?!”, ele pergunta. A mesma dúvida permeia a mente de toda a tribo ao redor. “Isso não é problema nosso!”
Beck, diante de Brok, grunhe tão confuso quanto os demais, mas um olhar semicerrado também aparece em sua feição. “Ele tem razão. Isso é assunto dos Ma’Al, não seu”, afirma ele, como um aviso.
Brok brande o machado, golpeando o ar na direção do forasteiro mais velho. “Dois orcs vão derramar sangue na minha terra… É meu problema também”, retruca ele. “Assim como eu… você vê que não há motivo para duelar por nossas terras. Mas… é diferente quando alguém vai contra isso desse jeito. É algo que não posso aceitar.”
A princípio, Beck permanece calado, encarando Brok, até suspirar pesado como o ranger de um galho. “Pode resolver assim se quiser”, diz ele. “Mas eu não queria que as coisas terminassem assim.”
O chefe dos Maal recua, dando espaço para o confronto. Ele se junta aos orcs na multidão e o jovem com escudo o acompanha.
E, na sequência, Brok volta a apontar a arma para Rorgn.
Mindinho dá mais um passo à frente. “Eu entendi o que disse, mas não precisa ser você a duelar”, insiste ele. “Esse daí não é chefe, ele não pode duelar com você. Deixa eu…”
“Mindinho… Você e os outros, acham que posso perder aqui?”, interrompe Brok, sem deixar de encarar Rorgn.
O orc hesita, com olhos arregalados “Não! Nunca quis dizer isso. Só acho que…”, responde ele, tentando encontrar palavras para se explicar.
*Então, por que a sua voz treme? Por que vejo medo no olhar de todos?”, Brok pergunta.
Mindinho trava com a boca fechada, sem palavras para responder. Seu braço faz menção de se esticar para alcançar o ombro do chefe, mas vacila, recuando-o e fechando o punho.
Ele abaixa a cabeça. “Brok… Eu…”, ele começa, mas é interrompido novamente.
“Peço… que tenham fé em mim…”, diz Brok, calmo. “A mesma fé que me permitiu trazer vocês aqui. A mesma fé que pedi que tivesse na força maior, que você até chamou de deusa.”
Diante do pedido, Mindinho baixa os braços e, sem dizer nada, recua à plateia que cerca o chefe.
No final, no centro da roda de orcs, apenas Brok e Rorgn permanecem.
Há poucos passos de distância um do outro, os dois guerreiros se encaram fixamente.
“Você parece forte. Isso eu admito”, diz o jovem desafiante. “Mas você não é tão imponente quanto Estoratora, e eu sou o melhor caçador dos Ma’Al. Por isso, sei que posso te derrotar.”
Enquanto Rorgn realiza seu monólogo, Brok fica calado.
As palavras do orc chegam aos ouvidos, mas não tocam seus pensamentos.
Ele vê a boca de Rorgn se movendo, sem prestar atenção em nenhum som.
Para Brok, nos momentos que precedem a luta, nada que não esteja entre sua arma e seu alvo parece importar.
Brutal… Agora eu entendo, Senhor Byron, divaga ele. Entendo por que preciso fazer as coisas dessa maneira. Não é só para evitar duelos.
A imagem da tribo aflita ao fundo chega aos seus olhos, mas não abala sua determinação.
Mesmo agora… eles ainda têm muito medo. Medo até quando as coisas dão certo, avalia Brok. Isso ainda é culpa dele… É como uma maldição deixada por Estoratora. Uma magia que acaba com a paz das tribos e faz os orcs fortes ficarem cegos.
Ele tensiona ainda mais os dedos. Os da mão direita apertam a arma com mais força, enquanto os da mão livre se fecham em punho.
Quero livrá-los disso… Por isso preciso ser brutal. Para evitar que orcs que só pensam na força estraguem as coisas. Para evitar que chefes bons como Beck morram em vão. E também… para garantir que minha tribo possa prosperar sem medo. conclui Brok. Minha lorde… eu entendo… entendo porque precisa que eu seja seu campeão. Para manter a sua e a minha vontade, farei quantos duelos forem necessários. Mesmo que nunca te conheçam, farei todos eles acreditarem na sua força que corre no meu sangue.
“Venha logo”, pede ele. “Vamos… acabar com isso.”
Rorgn olha para Brok, confiante de sua vitória. “Certo, então”, diz ele.
E, no instante seguinte, o orc avança contra o chefe. Um salto veloz como o bote de uma cobra. A espada lustrosa é empurrada, encurtando ainda mais a distância entre os dois.
Brok ergue a mão livre para frente com a palma aberta diante da arma de seu inimigo, como se fosse um escudo. Rorgn não hesita e mantém o ataque.
A ponta toca a pele e atravessa impiedosamente, saindo pelo dorso momentos depois.
A lâmina segue atravessando, rumando diretamente contra o peito de Brok.
Rorgn sorri, vendo o sangue escorrer na palme. Mas essa animação dura pouco.
Quando a lâmina está atravessada pela metade, o chefe subitamente move a mão para o lado. A espada fica travada entre a carne e os ossos de Brok e é arrastada junto.
A força é tanta que o cabo escapa dos dedos de Rorgn sem dificuldades e o jovem fica desarmado.
Ele arregala os olhos. O quê Como…?, Rorgn se pergunta. Mas, antes de ter chance de recuperar sua arma ou se recompor, Brok ergue seu machado.
O olhar desesperado do jovem encontra o semblante calmo e controlado do chefe.
A lâmina desce contra a cabeça de Rorgn e o duelo acaba no primeiro golpe de Brok.
O corpo do perdedor cai no chão. O chefe prende o machado na cintura, remove a espada fincada em sua mão e, lentamente, volta a prestar atenção nos arredores.
Ele logo percebe que urros e comoção o cercam. A tribo comemora eufórica a vitória.
Brok olha para o corpo sem vida aos seus pés. “Que sua luta seja grande e seu golpe pesado”, roga ele.
O chefe volta a atenção para Beck, que o observa sério e com um olhar fechado pesado, em meio à plateia urrante.
Os dois trocam um aceno de cabeça em aprovação sincera, um gesto que dispensa qualquer palavra.
Mindinho é o primeiro a se aproximar. “Brok, nunca vi um duelo assim”, comenta ele, aliviado e, na sequência, lembra de algo. “A sua mão, deixa que enfaixo ela. Trouxe uma das misturas de plantas da Mãe Verde e…”
Brok o cala novamente, dessa vez mostrando a palma aberta para ele. Já não há nenhum sinal de ferimento, nem mesmo uma cicatriz.
Mindinho arregala os olhos e começa a tatear a mão de Brok, cutucando-a incrédulo.
Após confirmar que está intacta, volta o olhar para o chefe, abismado e com um sorriso torto na boca. “Como… como isso é possível?”, ele pergunta.
Brok fecha o punho, sorrindo. “Acredita em mim agora?”, questiona ele, com gracejo.

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