Índice de Capítulo

    Nzambi observou a carruagem de Seu Bastos sumir na poeira da estrada, seu coração ainda pesado pelo silêncio carregado que se instalara entre eles. Respirou fundo, sentindo no ar o cheiro diferente deste lugar: terra molhada, lenha queimando e um toque doce de fruta madura que não conseguia identificar. Virou-se e se dirigiu a um dos guardas que patrulhava a entrada do quilombo, um homem robusto com um uniforme simples de linho cru, uma lança descansada no ombro.

    — Boa tarde — disse Nzambi, a voz ainda um pouco fraca da viagem. — Eu… gostaria de saber como posso viver aqui. No quilombo.

    O guarda o observou de cima a baixo, seus olhos percorrendo as roupas surradas, o manto gasto e as faixas limpas que ainda cobriam seus ferimentos mais recentes. A avaliação foi rápida, mas minuciosa.

    — Claro — respondeu o guarda, sua voz neutra, sem hostilidade, mas também sem calor. — Apenas me siga.

    Nzambi o seguiu, seus pés descalços sentindo a textura firme e regular do chão sob seus pés. Ele não esperava aquilo. A “estrada” dentro do quilombo não era um simples caminho de terra batida. Era feita de um material cinza, liso e sólido, que rangia levemente sob as solas das sandálias de outras pessoas. Olhou em volta, absorvendo o movimento. O lugar fervilhava. À sua esquerda, um mercado improvisado sob toldos de lona colorida: mulheres regateavam preços de tecidos, o som metálico de gemas sendo pesadas em pequenas balanças ecoava, e o aroma de peixe defumado e mandioca assada fazia seu estômago roncar de fraqueza. À direita, homens descarregavam toras de madeira de uma carroça, seus músculos tensionados sob a pele suada, gritando ordens curtas uns aos outros.

    “É igual… e ao mesmo tempo tão diferente”, pensou ele, comparando involuntariamente o burburinho organizado dali com o caos opressivo das minas de Gemas Gerais.

    Não demorou muito para que passassem por um trecho onde a estrada ainda estava sendo construída. Homens e mulheres, negros em sua maioria, trabalhavam com pás e enxadas, colocando camadas de areias e pedriscos e depois colocando o material cinza já pre feito. 

    A estrada já alcançava um aglomerado de casas de taipa e madeira, que pareciam esvaziadas. Muitas portas estavam escancaradas, revelando interiores vazios e poeirentos; janelas quebradas olhavam para a rua como órbitas vazias. O silêncio naquele pedaço contrastava brutalmente com o barulho do mercado. O ar cheirava a abandono e mofo.

    Nzambi não conseguiu conter a pergunta, que saiu mais como um sussurro de preocupação:

    — O que… o que aconteceu aqui?

    O guarda nem diminuiu o passo, sua resposta veio direta, como um relatório.

    — Metade são covardes. Desertores. Quando a República se formou e Carlos pediu braços para defendê-la, pegaram o que puderam e fugiram com Ganga Zala, com medo de uma guerra que ainda nem chegou. — Ele cuspiu no chão, com desprezo. — A outra metade são patriotas. Foram para o acampamento principal, perto do mocambo do Presidente Carlos, para trabalhar. Para lutar, se for preciso. Cada um escolheu seu lado.

    “Então eles tiveram uma escolha…”, refletiu Nzambi, sentindo um frio na espinha. “Mas um homem jovem e são como eu… duvido que tenham me deixado muitas opções além de lutar.”

    Logo depois, eles pararam diante de um prédio que fez Nzambi prender a respiração. Era uma estrutura enorme, de dois andares, feita daquele mesmo material cinza e sólido da estrada, mas cortada por grandes janelas de vidro transparente. Nunca tinha visto algo assim. Parecia ter sido erguido por gigantes, não por mãos humanas. Acima da grande porta de madeira maciça, letras pretas formavam uma palavra que ele não conseguia ler: PREFEITURA.

    O guarda, porém, não o levou à entrada principal. Contornou o edifício até um anexo menor e mais simples. Havia uma porta singela e, acima dela, uma placa de madeira com outro símbolo pintado: uma seta apontando para dentro e uma figura estilizada de uma pessoa com uma trouxa nas costas. Nzambi entendeu a ideia.

    O guarda bateu na porta, dois golpes secos.

    — Boa tarde. Chegou um imigrante para o registro.

    De dentro, uma voz masculina e jovem respondeu:

    — Pode entrar!

    O guarda se virou para Nzambi e fez um gesto com a cabeça em direção à porta.

    — É por aqui. O Miguel vai te explicar as regras e te direcionar. Boa sorte.

    Nzambi engoliu seco e empurrou a porta, que rangeu levemente nas dobradiças. A sala era pequena, com uma única janela que deixava entrar um quadrado de sol poeirento. O cheiro era de tinta, papel velho. Sentado atrás de uma mesa simples, estava um jovem negro de rosto inteligente, usando óculos de armação de madeira. Havia uma cadeira vazia do outro lado da mesa.

    — Pode se sentar — disse o jovem, com um sorriso profissional que não alcançava totalmente os olhos. — Me chamo Miguel. E você?

    Nzambi se aproximou, sentindo o assoalho de madeira rangir sob seus pés. Sentou-se com cuidado, como se a cadeira pudesse quebrar.

    — Nzambi — respondeu, mantendo as mãos pousadas no colo para esconder o tremor.

    Miguel pegou uma caneta de pena e um formulário de papel.

    — Certo, Nzambi. Vamos começar pelo básico. De onde você veio? E o que te traz à República do Brasil?

    Nzambi sentiu o suor frio nas costas. A formalidade daquilo tudo era opressiva.

    — Eu vim… de Gemas Gerais. — Ele fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado. — Vim porque… os rumores dizem que este é o quilombo que melhor sabe se defender. Ouvi falar que há outros, mas só aqui vocês conseguem enfrentar exércitos e vencer. Pensei que seria um lugar mais seguro para viver.

    Miguel anotou, a pena raspando suavemente no papel. Seus movimentos eram calmos, metódicos.

    — Entendo. Busca por segurança é um motivo comum. — Ele olhou para o próximo item da lista. — Idade?

    — Dezoito anos.

    — Já teve algum ofício? Carpintaria, ferragem, trabalho com couro? Algo do tipo?

    — Não, senhor. Só conheço o trabalho na mina. Carregar, quebrar pedra… isso.

    — Sabe ler? Escrever?

    — Não.

    Miguel fez outra anotação, seu rosto inexpressivo. Então, ergueu os olhos, e os óculos pareceram captar a luz da janela de um jeito estranho.

    — E gemas? Você é adepto de alguma gema mágica? Qual delas utiliza?

    A pergunta caiu como uma lâmina. Nzambi sentiu os dedos se contraírem involuntariamente, buscando o cabo da adaga que não estava mais em seu cinto. Seu coração acelerou.

    “É um interrogatório…”, o pensamento veio rápido e afiado. “Se eu falar da Gema da Invocação… ninguém conhece. Vão me tratar como um aberrante, um perigo. Melhor que não saibam.”

    Ele baixou os olhos para as próprias mãos, para as faixas que escondiam cicatrizes novas e antigas.

    — Não… não sou adepto de nenhuma gema. — A mentira queimou sua língua, e ele não conseguiu sustentar o olhar de Miguel.

    Miguel observou-o por um segundo que pareceu uma eternidade. A pena dele pousou sobre o papel, mas ele não anotou nada imediatamente. Em vez disso, fez um som pensativo.

    — Hmm. Com seu histórico — e ele deu uma rápida olhada nas anotações —, a área que mais precisa de braços e oferece moradia e sustento garantidos é o Exército da República. — Ele ergueu a mão rapidamente, antes que Nzambi pudesse reagir. — Mas não é um destino ruim. Os soldados recebem salário regular, vestuário e comida. Está disposto a lutar pela República, se for necessário?

    “Salário… regular?”, Nzambi quase não acreditou. Em Gemas Gerais, o “pagamento” era comida estragada e mais trabalho. A ideia de receber algo tangível, seja dinheiro ou provisões, por seu esforço, era estranha e tentadora. “Vão me mandar para a guerra de qualquer jeito. Mas se for para ganhar algo com isso…”

    — Estou… estou sim — ele disse, a voz um pouco mais firme.

    Miguel esboçou um sorriso mais genuíno, dessa vez.

    — Então, em nome do Presidente Carlos, a República do Brasil te dá as boas-vindas! — Ele puxou um pedaço de papel pergaminho de uma gaveta e desenrolou-o sobre a mesa. Era um mapa tosco, com desenhos de ruas e símbolos. — Esta é a nossa vila. Nós estamos bem aqui, na Prefeitura.

    Ele apontou com o dedo, que percorreu o mapa até um pequeno quadrado desenhado.

    — A sua casa ficará aqui, na Rua do Carneiro, número 107. Anotei o caminho para você aqui em cima. Como você não lê, apenas siga os símbolos: veja, desenhei uma casa pequena aqui, depois uma curva no caminho, e um triângulo que é o telhado do galpão do curtume… — Ele explicou com paciência, traçando a rota com a ponta da pena. — Esta cruz aqui é o hospital. Recomendo fortemente que você passe por lá. Esses ferimentos novos precisam de um olhar profissional para não infeccionar. — Seu dedo saltou para outro ponto, um retângulo com uma espada desenhada ao lado. — E este é o quartel. Apresente-se lá amanhã ao nascer do sol para o recrutamento oficial.

    Nzambi olhava para o mapa, atordoado. A informação vinha rápido demais.

    “Já tenho um endereço? Um trabalho para amanhã?” A eficiência era assustadora. Em nenhum lugar por onde passara as coisas funcionavam assim.

    — Obrigado… — ele balbuciou. — Posso ir, então? A viagem foi longa e…

    — Um momento, Nzambi. — A voz de Miguel tornou-se um pouco mais rígida. — Há uma última regra. Para a segurança de todos, qualquer arma que você esteja portando deve ficar sob custódia da Prefeitura. Após um mês de serviço comprovado e leal, ela será devolvida a você. É um procedimento padrão.

    O ar saiu dos pulmões de Nzambi. Ele levou a mão ao cinto, onde o vazio do coldre da adaga era uma sensação física, uma falha em seu próprio corpo. Seus dedos se cerraram em um punho. Entregar a adaga era como entregar um pedaço de si, o segredo que o definia e ao mesmo tempo o condenava. Mas os olhos de Miguel, por trás daqueles óculos, eram implacáveis. A sombra do guarda do lado de fora da porta parecia maior agora.

    Com movimentos lentos, quase cerimoniais, Nzambi puxou a adaga de dentro das dobras do seu manto. A gema-ébano da lâmina absorveu a luz da sala, sem refletir. Ele a colocou sobre a mesa de madeira, onde o som surdo do metal e da gema contra a superfície pareceu ecoar.

    — Tenho… apenas essa — sussurrou.

    Miguel pegou a adaga com cuidado, sem tocar na lâmina. Examou-a por um instante, seus olhos estreitando-se atrás das lentes, antes de colocá-la em uma gaveta da mesa e trancá-la com uma pequena chave que tirou do bolso.

    — Certo. Tudo em ordem. Agora você está livre para ir. Boa sorte com a nova vida, Nzambi.

    Nzambi levantou-se, sentindo-se mais leve e, paradoxalmente, mais vulnerável do que nunca. Acenou com a cabeça, sem confiança para mais palavras, e saiu da sala, fechando a porta atrás de si.

    O clique da fechadura soou como um ponto final.

    ***

    Assim que os passos de Nzambi se afastaram no corredor, uma sombra no canto mais escuro da sala, onde a luz da janela não alcançava, pareceu se desprender da parede e tomar forma. Um vulto surgiu ao lado de Miguel, silencioso como um suspiro noturno.

    — Ele mentiu sobre as gemas — disse a figura, sua voz era um sussurro áspero, como folhas secas sendo arrastadas no chão.

    — Já percebi — respondeu Miguel, sem se surpreender. Ele tirou os óculos e os limpou na ponta da túnica. — Guiei muitos dos que vieram dos mocambos menores. Aprendi a perceber quando o olho foge, quando a mão se contrai. — Ele colocou os óculos de volta, e seus olhos, agora sem o aumento das lentes, pareciam menores e mais cansados. — Mas ele entregou a arma. Com estes óculos da Gema da Visão, eu via a aura mágica emanando dela como fumaça negra. Era a única que ele carregava.

    Sombra, pegou a pequena chave da mesa e abriu a gaveta. Retirou a adaga de Nzambi, virando-a sob a luz fraca. A gema-ébano não cintilava; parecia sugar a claridade ao seu redor.

    — Esta gema… não é de nenhum tipo que eu conheça. — Seus dedos enluvados passaram perto da lâmina, sem tocá-la. — A mentira em si pode não prejudicá-lo. No exército, vão descobrir suas aptidões na prática, quer ele queira, quer não. — Ela ergueu os olhos, direcionando um olhar penetrante a Miguel. — O que importa é o porquê da mentira. O que um jovem mineiro, cheio de feridas recentes, está tentando esconder com tanta força?

    Miguel encolheu os ombros, reorganizando os papéis em sua mesa com um gesto burocrático.

    — Bom, isso daí já é problema da Segurança Interna. A minha parte — ele bateu com o dedo no formulário preenchido de Nzambi — está resolvida e arquivada.

    Sombra lançou um último olhar para Miguel, um lampejo de algo gelado e perigoso que cruzou seus olhos ocultos. Sem dizer mais uma palavra, envolveu a adaga em um pano escuro e, com um movimento fluido, fundiu-se novamente com as sombras do canto da sala, desaparecendo como se nunca tivesse estado ali. A única evidência de sua passagem era a gaveta entreaberta e o silêncio súbito, muito mais profundo do que antes.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (3 votos)

    Nota