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    A luz do fim de tarde entrava fraca pelas pesadas cortinas de veludo do escritório, lutando para iluminar a espessa atmosfera que pesava sobre o Palácio das Duas Torres. Cada raio de sol poente carregava partículas de poeira que dançavam lentamente, como se relutantes em se mover no ar parado. O ambiente estava impregnado com o cheiro envelhecido de cera de abelha que escorria dos candelabros, misturado ao aroma úmido de papéis antigos e uma tensão nova e afiada que parecia cortar a respiração. Governador Bento Vidal afundou-se em sua cadeira de espaldar alto de couro desgastado, seus dedos tamborilando uma valsa nervosa sobre a pilha de relatórios que ameaçava dominar sua pesada mesa de jacarandá. O som abafado da pele batendo no madeiro ecoava no silêncio quase absoluto.

    Do outro lado do cômodo, perto da janela que oferecia uma vista ampla dos telhados de telha colonial de Areia Branca até o porto movimentado, o Capitão-Mor Caetano Velho parecia uma estátua de tranquilidade. Seus dedos longos e pálidos giravam lentamente um copo de cristal vazio, onde restavam apenas os vestígios âmbar de um suco de laranja há muito consumido e um anel de umidade sobre a mó de mármore da janela. Lá fora, o som distante dos vendedores anunciando seus produtos chegava abafado, junto com o cacarejar de galinhas e o tropel ocasional de cavalos sobre o calçamento.

    O silêncio prolongou-se até que Bento Vidal não pôde mais suportá-lo.

    — E então, Caetano? — sua voz soou áspera, rompendo o silêncio como um estampido. Ele limpou a testa com um lenço já úmido. — Parece que seus planos deram errado. Seus subordinados não eram tão competentes a ponto de matarem Tassi e Carlos. Os ladrões não conseguem assaltar as carroças que vão à Cidade Sagrada. — Fez uma pausa, engolindo seco. — Apenas o acordo de paz deu algum resultado.

    Caetano Velho continuou olhando para a janela por um momento adicional, seus olhos seguindo o voo de um urubu que circulava sobre os telhados. Finalmente, em tom firme mas medido, respondeu:

    — Competentes eles foram, Bento. Apenas não foram o suficiente. — Girou lentamente o copo vazio entre os dedos. — Parece que subestimei essas armas de fogo deles. Pelos relatórios da batalha contra o quilombo, elas não eram tão poderosas… — Deixou a frase pairar no ar, como um fio prestes a se romper.

    Bento inclinou-se para frente, os braços da cadeira rangendo sob seu peso.

    — O que quer dizer?

    — Que eles conseguiram mais armas, ou melhoraram as que já tinham. — Caetano finalmente se virou parcialmente, seu perfil afiado destacando-se contra a luz da janela. — Se for este o caso, isto pode ser um problema. Eles estão evoluindo enquanto nós estamos estagnados.

    Ele levou o copo à boca, tentando uma última gota inexistente, antes de pegar um cubo de gelo remanescente com os dedos e levar a boca. O som cristalino do gelo sendo mastigado ecoou estranhamente no ambiente silencioso.

    — Quanto aos ataques dos bandidos… — continuou Caetano, voltando a olhar para fora — pelos relatórios que recebi, a igreja faz comércio com o quilombo regularmente. Não apenas os comerciantes, mas a própria papisa visita o local. Além disso, muitos comerciantes estão ficando tão ricos que estão contratando mercenários para proteger seus comboios cada vez maiores.

    Bento soltou um grunhido de desdém, mas seus olhos piscaram rapidamente. O termo “mercenários” parecia tocar em uma memória recente ainda dolorida.

    — Mercenários? — repetiu, sua voz um pouco mais fraca. — Como os holandeses contratavam?

    Caetano notou a mudança no tom, mas apenas fez um gesto sutil com a mão livre.

    — Sim. Naturalmente, simples ladrões não dariam conta de realizar ataques. Eu até pensava em mandar meus homens saquearem a rota, mas receio que isso apenas faria os comerciantes gastarem mais dinheiro com mercenários. Criaria um exército privado, financiado pelo comércio com o próprio inimigo.

    O governador bufou, levantando-se pesadamente. Suas botas de couro bateram no assoalho de madeira nobre enquanto caminhava até o aparador, onde uma garrafa de água parada esperava. Encheu um copo, bebendo com goles ruidosos que pareciam excessivamente altos no silêncio.

    — E os navios? — perguntou, enxugando a boca com as costas da mão.

    — O mesmo vale para os navios que eles mandam às cidades sagradas — respondeu Caetano, acompanhando os movimentos do governador com um olhar calculista. — Porém, ainda precisamos estrangular essa economia da república. E sei que o que mais gera dinheiro para eles é o aço que estão produzindo.

    Ele fez uma pausa significativa antes de perguntar:

    — Por acaso, a Coroa já respondeu sobre essa questão?

    Bento suspirou profundamente, um som que parecia vir das profundezas de seu peito. O copo de água tremia levemente em sua mão.

    — Não. Eu mandei a mensagem pelo navio mensageiro mais veloz que tinha, mas mesmo assim a resposta está demorando para vir. — Sua voz carregava uma nota de desespero contida. — Enquanto isso, os navios de minérios não param de passar…

    O governador agora fixou seu olhar ao fundo, direcionado ao porto visível entre as cortinas entreabertas. Os mastros dos navios pareciam uma floresta petrificada contra o céu alaranjado. Seus olhos percorreram os telhados que sabia terem sido reconstruídos após os ataques holandeses.

    — Todos os navios com minérios de Gemas Gerais passam por aqui, não é mesmo? — falou mais para si mesmo do que para Caetano. — Não precisamos esperar a resposta da Coroa. Basta nós prendermos esses navios aqui. Aposto que a Coroa ficará feliz de ouvir que impedimos o comércio com um estado rebelde…

    Caetano virou-se completamente agora, um leve brilho de interesse em seus olhos escuros.

    — Isso… — disse lentamente, como se saboreasse a ideia — não é uma má ideia. Um bloqueio direcionado. Sim, poderia funcionar.

    Bento Vidal ficou visivelmente animado, seus olhos brilhando com um lampejo de esperança.

    — Podemos começar amanhã mesmo! Mandar dois navios de guerra para interceptar…

    — Calma, Governador. — Caetano ergueu uma mão em gesto moderador. — Primeiro, precisamos de documentos em ordem, justificativas preparadas. Mas sim, é um começo.

    Ele caminhou até a cadeira fronteiriça à mesa do governador e sentou-se. Seu olhar, porém, permaneceu distante, como se visse algo além das paredes do escritório.

    — Agora, quanto a essa República…

    Bento bateu a mão aberta na mesa, fazendo os relatórios saltarem.

    — O quê? A tal fanfarronice da “República do Brasil”? — Sua voz subiu de tom, carregada de desprezo. — Um bando de negros fugidos se achando fundadores de uma nação? É patético. Ridículo!

    Mas mesmo enquanto dizia isso, seus dedos apertaram a borda da mesa até as articulações ficarem brancas. Caetano notou o movimento, registrando-o mentalmente.

    Finalmente, Caetano Velho fixou seus olhos completamente no governador. Seus olhos escuros, profundos como poços noturnos, encontraram os de Bento com intensidade perturbadora. Um sorriso quase imperceptível — mais uma contração dos músculos faciais do que uma expressão de alegria — tocou seus lábios finos.

    — Patético, sem dúvida — concordou, sua voz suave contrastando com a explosão do governador. — Mas também é, devo dizer, um presente dos céus. Por mais irônico que soe.

    Bento franziu a testa, as sobrancelhas espessas quase se encontrando.

    — Presente? Como assim, presente? O que há de bom nisso?

    Caetano inclinou-se para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos entrelaçadas.

    — Ganga Zala era um rei. Um rei negro, mas um rei. Um homem com quem, em última instância, poderíamos ter sentado à mesa, trocado ameaças e talvez chegado a um acordo. — Suas palavras saíam medidas, cada uma pesada com significado. — Um rei entende a linguagem do poder. É uma dinâmica familiar, até mesmo reconfortante em sua previsibilidade.

    Ele fez uma pausa, deixando as palavras pairaram na atmosfera carregada do escritório. Fora, um sino de igreja começou a badalar, marcando o Ângelus.

    — Mas uma república? — continuou Caetano, o badalar dos sinos servindo como contraponto sombrio às suas palavras. — Um estado rebelde declarado no coração da colônia de Sua Majestade? Isto não é mais uma questão de ordem pública, Bento. É uma declaração de guerra existencial.

    Bento Vidal franziu a testa, confuso por um momento, antes que o entendimento começasse a iluminar seus olhos, como um raio de sol cortando a penumbra do crepúsculo que se aprofundava no ambiente. Lentamente, ele se deixou cair de volta em sua cadeira, o couro rangendo em protesto.

    — Uma declaração… — ele sussurrou, mais para si mesmo.

    — Exatamente — confirmou Caetano, levantando-se e caminhando lentamente em direção à mesa. O som abafado de sua bengala de ébano ecoando no piso de pedra marcava seu progresso. — Antes, esmagar o quilombo era um assunto nosso, local, um problema de administração colonial. Agora, é uma necessidade política para a Coroa. Lisboa não pode, sob nenhuma circunstância, tolerar o surgimento de um estado rival em suas terras. A mão de Lisboa, que antes talvez hesitasse, agora será forçada a nos apoiar.

    Ele parou diante da mesa, e seus dedos finos bateram levemente na madeira polida, marcando cada ponto com precisão cirúrgica.

    — Nossas próprias mãos, outrora um pouco atadas por considerações de diplomacia e economia, agora estão não apenas livres, mas obrigadas a erguer a espada. — Fez uma pausa significativa, seus olhos fixando Bento com intensidade. — E mais: obrigam Lisboa a erguer a espada conosco.

    Bento passou a língua pelos lábios ressecados. Seus olhos pousaram brevemente no retrato na parede — ele mesmo, mais jovem, ao lado de outros senhores de engenho, todos empunhando armas, todos com expressões determinadas. A imagem fora pintada para comemorar a expulsão dos holandeses apenas dois anos antes, em 1654. Uma vitória conquistada pelos colonos, praticamente sem ajuda de Portugal.

    — Você sabe o que aconteceu com os holandeses, Caetano — disse Bento, sua voz contendo uma nota que não estava lá antes. — Nós os expulsamos. Nós. Os senhores de engenho, os moradores. Com nossas próprias armas, nossas próprias tropas. Portugal nos enviou pouquíssima ajuda até o fim.

    Ele ergueu-se novamente, começando a caminhar pelo cômodo com passos pesados.

    — E se acontecer de novo? Se esses… esses quilombolas se tornarem uma ameaça tão grande que os senhores de engenho decidam agir por conta própria? Se decidirem que a Coroa é muito lenta, muito distante? — Sua voz tremia levemente. — Eu os lideraria, Caetano. Como fiz antes. Mas desta vez… desta vez não seria contra invasores estrangeiros. Seria contra a própria Coroa, se ela vacilar.

    Caetano observou a agitação do governador com interesse clínico. Este era o medo que ele esperava surgir — não apenas o medo dos quilombolas, mas o medo do próprio poder que ele uma vez liderara.

    — Precisamente, Governador — disse suavemente. — E é por isso que sua próxima carta a Lisboa deve ser escrita não como um pedido, mas como um aviso. Um aviso urgente.

    Ele aproximou-se, abaixando a voz como se compartilhasse um segredo.

    — Escreva outra carta, Bento. Desta vez, não apenas informe sobre a situação. Peça. Exija, com todo o respeito devido, é claro. Peça a Lisboa para nos mandarem mais dinheiro para reforçar as tropas. Recrutamento, armamentos, navios. E quem sabe… — ele fez uma pausa dramática, virando-se para enfrentar o governador — …até mercenários experientes. Italianos, alemães, aqueles suíços que lutam por dinheiro. Homens que não têm escrúpulos sobre contra quem combatem.

    Bento assobiou baixinho, o som sibilando entre seus dentes amarelados.

    — Mercenários estrangeiros? O custo…

    — É infinitamente menor que o custo de outra rebelião — cortou Caetano, sua voz adquirindo uma aspereza metálica. — Mas há algo específico que você deve mencionar, Governador. Algo que fará Lisboa entender a gravidade.

    Ele inclinou-se ainda mais para frente, sua sombra engolindo Bento.

    — Mencione as armas de fogo. Não apenas mencione — descreva-as. Fale dos relatos de mosquetes como os quilombola os chamam. De armas mais leves mas igualmente poderosas. De uma fábrica que produz aço de qualidade dentro da República. — Suas palavras saíam rápidas, urgentes. — Portugal sabe o que acontece quando uma colônia desenvolve sua própria capacidade militar. Os holandeses foram expulsos por colonos armados. Agora imagine esses mesmos colonos… ou pior, escravos libertos… com armas superiores às da própria metrópole.

    Bento pálido levemente. A imagem era terrível — não apenas uma rebelião, mas uma rebelião bem armada, forjando suas próprias armas com o minério que deveria enriquecer a Coroa.

    — Dê ênfase nessa parte — insistiu Caetano. — Descreva a República não como um quilombo expandido, mas como um arsenal em crescimento. Um câncer que, se não cortado agora, se espalhará por todo o Brasil. Fale do exemplo que estabelecem. Outros quilombos, outros descontentes podem começar a forjar suas próprias armas, a sonhar com suas próprias repúblicas.

    Ele se aproximou da mesa e apoiou as duas mãos na borda, inclinando-se sobre Bento como um falcão sobre sua presa.

    — Lisboa entenderá. Eles devem entender. A última coisa que a Coroa quer é outra colônia que aprendeu a se defender sozinha… especialmente uma colônia que pode ensinar outras a fazer o mesmo.

    Bento passou uma mão pelo rosto, sentindo a oleosidade de sua pele. Seu olhar voltou ao retrato na parede — aos homens determinados, às armas empunhadas, à vitória conquistada sem permissão. O mesmo fogo que queimara nos olhos daqueles homens agora queimava nos olhos de outros, em Areia Branca. A mesma determinação, mas voltada em outra direção.

    O crepúsculo aprofundava-se no escritório, e as sombras alongavam-se como dedos escuros alcançando todos os cantos. Bento sentiu o peso da história — não apenas a história passada, mas a história que estava sendo escrita agora, naquele mesmo momento, e que ele poderia ser forçado a repetir.

    — E enquanto essa ajuda não chega? — perguntou, sua voz mais fraca agora. — Pode levar meses até que um navio vá e volte de Lisboa, ainda mais com reforços. Tempo que essa… essa república usará para produzir mais armas, recrutar mais seguidores.

    Caetano afastou-se da mesa, e aquele sorriso quase imperceptível voltou a tocar seus lábios.

    — Enquanto essa ajuda não chega… — começou, mas parou quando um criado entrou com mais velas, iluminando repentinamente o cômodo.

    A luz dançou nos cristais, nos metais, nos olhos do capitão-mor. Quando o criado saiu, Caetano completou:

    — …temos outras cartas para jogar. Mas isso é conversa para amanhã, Governador. Hoje, escreva sua carta a Lisboa. Descreva as armas. Descreva o perigo. Faça-os entender que o Brasil que expulsou os holandeses pode, com as armas erradas nas mãos erradas, expulsar os portugueses.

    Bento assentiu lentamente, seus olhos ainda presos ao retrato. A determinação do homem mais jovem na pintura parecia agora um aviso, não uma celebração.

    — Vou escrever — disse, sua voz finalmente firme. — Vou escrever como se o futuro do Brasil dependesse disso.

    — Depende — disse Caetano simplesmente, pegando seu chapéu. — Até amanhã, Governador.

    E enquanto Caetano saía, suas botas ecoando nos corredores escuros do Palácio das Duas Torres, Bento Vidal sentou-se à sua mesa, pegou uma pena, molhou-a na tinta e começou a escrever. As palavras fluíam, carregadas do peso da história recente e do medo do futuro.

    “À Sua Majestade, o Rei de Portugal… Escrevo com urgência extrema sobre um perigo que cresce no coração de suas colônias… Não se trata mais de quilombolas fugitivos, mas de um estado rebelde forjando armas… Eles aprenderam a fazer o que fizemos contra os holandeses… Temam, Majestade, que aprendam também a fazer contra nós…”

    A noite caiu completamente sobre Areia Branca, mas a luz das velas no escritório do governador permaneceu acesa até tarde, enquanto a pena raspava contra o papel, escrevendo não apenas um pedido de ajuda, mas um aviso sobre o fantasma da própria independência colonial — um fantasma que agora vestia as roupas de uma república de homens livres, e empunhava armas forjadas com o aço de sua própria resistência.

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