Capítulo 103 - Estratégia em Duas Torres Parte II
O sol da manhã entrava em ângulos agudos pelas janelas do Palácio das Duas Torres, iluminando a poeira que ainda dançava no ar como se a conversa da noite anterior tivesse agitado o próprio pó dos documentos antigos. Bento Vidal estava à sua mesa, os olhos vermelhos de uma noite mal dormida, mas com uma expressão de determinação renovada. Diante dele, a carta para o Governador-Geral do Estado do Brasil— com cópia para o Conselho Ultramarino em Lisboa — aguardava apenas a tinta secar antes do selo oficial.. O cheiro de tinta de nogueira e papel úmido preenchia o espaço ao redor de sua escrivaninha.
Caetano Velho entrou no escritório sem bater, como era seu hábito. Trazia consigo o cheiro fresco da manhã e do mar — tinha claramente estado no porto. Seus olhos pousaram na carta quase pronta e um quase-sorriso tocou seus lábios.
— Ainda bem que cheguei a tempo — disse ele, aproximando-se da mesa, suas botas de couro rangendo levemente no assoalho de madeira.
Bento ergueu os olhos, esfregando-os com os nós dos dedos.
— A tempo de quê? A carta está quase pronta. O Ventania parte na maré alta, dentro de duas horas. — Ele apontou com a pena em direção à janela, onde se via o porto. — Com esses novos velames e seus adeptos do vento a bordo, dizem que fará a travessia em tempo recorde. Quinze dias, talvez menos, se os ventos cooperarem e aqueles… especialistas fizerem seu trabalho.
Caetano assentiu, familiar com o navio mensageiro mais rápido da frota colonial — um bergantim ágil cuja tripulação incluía meia dúzia de adeptos do vento.
— Exatamente por isso vim — disse Caetano, puxando uma cadeira de espaldar alto e sentando-se com sua postura caracteristicamente ereta. — Há uma estratégia que precisamos implementar imediatamente, e Lisboa deve ser informada desde já.
Bento franziu a testa, defensivo. Passou uma mão pelos cabelos desgrenhados.
— Já descrevi as armas, a fábrica de aço, o perigo de repetirmos a história dos holandeses… — Sua voz carregava um cansaço genuíno. — Que estratégia ainda falta, Caetano? O que mais Lisboa precisa saber?
Caetano inclinou-se para frente, seus dedos longos e pálidos entrelaçando-se sobre a mesa polida. A luz da manhã destacava as linhas finas em seu rosto, os olhos escuros que pareciam calcular cada palavra antes de pronunciá-la.
— Cartas de Marca e Corseira, Governador.
Bento piscou, confuso. A pena que segurava pairou sobre o papel.
— Cartas de… o quê? Não conheço esse termo.
— São autorizações oficiais — explicou Caetano, com uma paciência que parecia estudada — que permitem a cidadãos leais organizar milícias particulares para atacar e saquear inimigos da Coroa. No nosso caso, a autointitulada República.
Bento abriu a boca para protestar, mas Caetano ergueu uma mão — um gesto suave, mas que silenciava.
— Ouça primeiro, Bento. — Seu uso do primeiro nome era raro, e carregava um peso de urgência. — Enquanto esperamos meses pela resposta de Lisboa — e mais meses pela travessia do Atlântico com reforços, armamentos, mercenários — a República cresce. Forja mais armas a cada semana. Treina mais homens. Consolida seu poder. Não podemos ficar parados, olhando para o mar à espera de ajuda.
Ele fez uma pausa, deixando que a imagem se fixasse.
— As Cartas de Marca nos permitem mobilizar os próprios colonos contra o inimigo. Imediatamente. Sem custo para os cofres da Capitania.
Bento ainda parecia perplexo. Ele colocou a pena no tinteiro, limpou os dedos manchados de tinta em um pano já sujo.
— Mas… milícias particulares? — balbuciou. — Dar licença para senhores de engenho formarem seus próprios exércitos? Caetano, você sabe o perigo disso. Esses homens já são poderosos demais.
— Não estamos dando nada — corrigiu Caetano, sua voz firme mas calma. — Estamos vendendo licenças. Por uma taxa substancial de licenciamento. — Ele fez uma pausa, seus olhos fixos nos de Bento. — E cobraremos vinte por cento sobre todos os espólios. Tudo o que roubarem da República.
Bento ficou em silêncio por um momento, processando. Fora, o grito de um vendedor de peixe chegava distante pela janela aberta.
— Vinte por cento… — murmurou.
— Imagine — continuou Caetano, seus dedos desenhando círculos invisíveis na mesa — Albuquerque, Fernandes, Castro… cada um com sua própria milícia, competindo não por influência política aqui em Areia Branca, mas por riquezas no quilombo. Em vez de questionarem sua autoridade, estarão ocupados saqueando a República. Em vez de conspirarem contra a Coroa, conspirarão uns contra os outros para obter a melhor presa.
A compreensão começou a iluminar o rosto de Bento, mas também o ceticismo. Ele levantou-se, caminhou até a janela, olhando para o Ventania que balançava suavemente nas águas da baía.
— É arriscado — disse, sem se virar. — Criamos pequenos exércitos leais a senhores, não à Coroa. E o que Lisboa dirá? Autorizar saques… soa a pirataria.
Caetano levantou-se também, juntando-se a ele na janela. Os dois homens olhavam para o navio, um símbolo da ligação com uma metrópole distante.
— Por isso precisamos mencionar na carta — disse Caetano, sua voz mais baixa agora. — Não em detalhe, mas como uma medida provisória de emergência.
Bento virou-se, seus olhos estreitando-se.
— Diga-me exatamente o que escrever.
— Diga que, para conter o avanço rebelde enquanto a ajuda de Lisboa não chega, autorizaremos milícias leais a atacar alvos da República. — Caetano falava com precisão cirúrgica. — Isso mostrará iniciativa. Mostrará que estamos usando todos os recursos disponíveis — inclusive a ganância dos próprios colonos — para proteger os interesses da Coroa.
Bento hesitou. Ele caminhou de volta para a mesa, sua sombra projetando-se longa no assoalho de madeira.
— Mas ainda não decidimos isso oficialmente… — protestou, embora sua voz já carregasse menos convicção. — Nem mesmo sei exatamente como funcionaria na prática. Essas… Cartas de Marca. Quais as regras? Os limites?
— Decidiremos hoje — disse Caetano com firmeza, seguindo-o. — Imediatamente após enviarmos a carta. E quando Lisboa aprovar — e aprovará, porque estará preocupada com as armas quilombolas que você descreveu — já estaremos à frente. Com as milícias formadas, os primeiros ataques em andamento.
Ele se inclinou sobre a mesa, suas mãos apoiadas na borda.
— Pense, Governador: se mencionarmos as Cartas de Marca na mesma carta em que pedimos ajuda, parecerá uma medida temporária de emergência, não uma política de longo prazo. Mais palatável para burocratas distantes que nunca viram um quilombo, muito menos uma república armada.
Bento sentou-se pesadamente, a cadeira rangendo. Seus olhos percorreram as palavras já escritas — as descrições de mosquetes, nome que os quilombolas dão a essas armas, que disparavam mais rápido, da fábrica de aço que funcionava.
— E há um segundo ponto — continuou Caetano, sentando-se novamente. — Você menciona a Igreja na carta, mas apenas de passagem. Precisa ser explícito.
Bento ergueu os olhos.
— Explícito como?
— Peça que Lisboa pressione a Cidade Sagrada de Alba — disse Caetano, cada palavra medida. — Para forçar a Papisa a romper todos os laços com a República. Corte de relações, excomunhão dos líderes, o que for necessário. Um estado rebelde não pode manter reconhecimento da Igreja. É uma contradição teológica e política que Alba não tolerará.
Bento ficou em silêncio por um longo momento. Finalmente, ele pegou a pena novamente, mergulhou-a no tinteiro, e a tinta preta brilhou à luz da manhã.
— Então me dite os parágrafos — disse, sua voz resignada mas decidida.
Caetano ditou lentamente, cuidadosamente. O primeiro parágrafo, um pedido direto para que Portugal usasse sua influência em Alba para isolar a República religiosamente. O segundo, uma breve menção às “medidas extraordinárias de mobilização de recursos privados leais” que seriam implementadas para conter a ameaça imediata — uma formulação vaga o suficiente para não comprometer, mas clara o suficiente para obter aprovação tácita.
Quando Bento terminou de escrever, secou a tinta com areia fina de uma caixinha de madeira, soprou o excesso e dobrou o documento com cuidado. O papel fazia um som satisfatório, crocante. Ele pegou o selo de lacre — o brasão da Capitania de Pernambuco —, aqueceu a cera vermelha sobre uma vela, deixou-a cair na dobra do documento e pressionou o selo. O cheiro de cera quente misturou-se aos outros odores do escritório.
— Está feito — disse Bento, sua voz carregando um peso solene. Ele chamou um secretário que esperava à porta. — Para o capitão do Ventania. Ele parte com a maré alta, e esta carta tem prioridade absoluta.
O homem pegou o documento com uma reverência e saiu rapidamente, seus passos ecoando no corredor de pedra.
Quando ficaram sozinhos novamente, Caetano caminhou até a janela. Lá fora, podia-se ver o bergantim ancorado no porto, suas velas brancas já desfraldadas parcialmente, ansiosas pelo vento. Tripulantes minúsculos moviam-se no convés como formigas.
— Agora — disse Caetano, virando-se — enquanto o Ventania leva nossas palavras a Lisboa, nós implementamos as Cartas de Marca. Mas primeiro, preciso explicar melhor como funcionarão, pois percebo que você ainda tem dúvidas.
Bento assentiu, aliviado. Ele se serviu de um copo d’água de uma jarra de barro, bebendo com sede.
— Sim — disse, enxugando a boca. — Preciso entender melhor isso de “licenciar saques”. Soa… como os bandeirantes. Lembro que tornaram-se quase um poder independente. Um estado dentro do estado. Precisamos evitar que isso se repita aqui.
Caetano não respondeu imediatamente. Em vez disso, um sorriso lento e orgulhoso tocou seus lábios — um sorriso que carregava o peso de décadas de experiência no sertão. Ele ergueu levemente a cabeça, e pela primeira vez na conversa, Bento viu nele não apenas o Capitão-Mor, mas o bandeirante que havia percorrido milhares de léguas de território selvagem.
— Eu também me lembro muito bem, Governador — disse Caetano, sua voz ganhando um tom diferente, mais terreno, como se trouxesse o cheiro de poeira do sertão para dentro do escritório. — Sou parte dessa história. Meu pai e meu avô foram bandeirantes. Eu mesmo explorei os rios do interior antes de receber esta comissão.
Ele levantou-se, e Bento notou pela primeira vez como a postura do homem mudava ligeiramente — menos o oficial português, mais o sertanista acostumado a mandar por mérito próprio.
— Os bandeirantes não se tornaram independentes por acaso — continuou Caetano, caminhando até a janela como se visse não os telhados de Recife, mas as matas infinitas do interior. — Tornaram-se independentes porque a Coroa os negligenciou. Porque lutaram contra holandeses, franceses, quilombolas e índios rebeldes com pouquíssimo apoio de Lisboa. Quando um homem aprende a sobreviver e vencer sem ajuda, ele aprende também a questionar por que precisa daqueles que não o ajudaram.
Bento ficou em silêncio, sentindo a crítica velada nas palavras. Afinal, ele próprio liderara os senhores de engenho contra os holandeses quase sem apoio português.
— É exatamente esse o ponto — insistiu Bento. — Não quero criar uma força que um dia possa se voltar contra nós.
Caetano virou-se, e seus olhos escuros brilharam com uma luz que Bento nunca vira antes — a luz de quem conhecia o jogo de poder não dos salões, mas das trilhas e dos acampamentos noturnos.
— Mas essa é a beleza do plano, Governador — disse Caetano, voltando à mesa e apoiando as mãos na madeira polida. — Desta vez, nós controlamos o processo desde o início. As Cartas de Marca serão emitidas por você, revogáveis por você. Os saques serão taxados por você. E mais importante… — ele inclinou-se para frente, sua voz baixando para um tom confidencial — …nós mantemos os senhores de engenho ocupados lutando contra um inimigo comum, não contra a autoridade colonial. E se algum deles começar a ficar poderoso demais?
Caetano fez uma pausa dramática, um sorriso quase predatório em seus lábios.
— Bem, sou bandeirante, Governador. Sei como essas milícias funcionam. Conheço suas fraquezas, suas rivalidades. Se o Albuquerque ficar muito ambicioso, redirecionamos o Fernandes contra ele. Se o Fernandes criar um pequeno exército pessoal, revogamos sua licença e oferecemos uma recompensa por sua captura — às próprias milícias que ele ajudou a criar.
Bento olhou para Caetano com renovado respeito — e uma ponta de temor. O homem não estava apenas propondo uma estratégia militar. Estava propondo um sistema de controle onde a ganância dos outros seria usada para mantê-los em cheque.
— Você está falando de jogar uns contra os outros — disse Bento, lentamente.
— Estou falando de administrar ambições — corrigiu Caetano, sentando-se novamente com a elegância que contrastava estranhamente com suas palavras de sertão. — Os bandeirantes se tornaram independentes porque ninguém os administrou. Nós administraremos. E quando a República finalmente cair… bem, as Cartas de Marca podem ser revogadas. As milícias, desarmadas. Os homens mais problemáticos… tratados como se tornaram problemáticos.
A frieza da última frase pairou no ar. Bento entendeu o que não estava sendo dito: se necessário, eles usariam as próprias milícias para eliminar seus líderes mais ambiciosos.
— Você fala como se fosse fácil — disse Bento.
— Não é fácil — admitiu Caetano. — Mas é possível. E eu, Governador, sou a pessoa ideal para gerir isso. Conheço a mentalidade desses homens porque sou um deles. Conheço o sertão porque vivi nele. E conheço os quilombos porque os combati por vinte anos antes desta República surgir.
Ele ergueu um dedo, como se apontando para um mapa invisível.
— Damos a eles um inimigo comum, sim. Mas também damos a eles regras, limites, taxas. E acima de tudo, damos a eles a ilusão de autonomia enquanto mantemos as rédeas firmes. É assim que se controlam homens ambiciosos: dando-lhes um inimigo para odiar e um prêmio para cobiçar, enquanto você segura a chave do tesouro.
Bento passou uma mão pelo rosto, absorvendo a profundidade da estratégia. Fora, um grito de marinheiro chegou distante — o Ventania preparando-se para partir. Caetano não estava apenas emprestando sua experiência como bandeirante — ele estava transformando essa experiência em um sistema de controle colonial refinado.
— E se eles perceberem o jogo? — perguntou Bento.
Caetano sorriu novamente, um sorriso que não chegava aos olhos.
— Eles não perceberão. Estarão muito ocupados competindo entre si pelos espólios do quilombo. Aço, gemas, máquinas… e escravos recapturados, pelos quais receberão recompensa adicional por cabeça. — Ele fez uma pausa, seu tom tornando-se praticamente. — E se algum perceber… bem, sou bandeirante, Governador. Sei como sumir com pessoas no sertão.
O silêncio que se seguiu foi carregado. Bento olhou para o homem à sua frente e viu, finalmente, a combinação perfeita para o problema que enfrentavam: um bandeirante que entendia tanto de poder no sertão quanto de política na colônia.
— Então começamos com Albuquerque — disse Bento finalmente.
— Começamos com Albuquerque — confirmou Caetano, o sorriso dando lugar à expressão profissional habitual. — Ele é o mais rico, o mais ambicioso, e ainda guarda rancor por ter perdido terras para o avanço do quilombo no tempo de Aqua. Oferecemos a primeira carta com um desconto na taxa. Ele será nosso exemplo.
Bento assentiu. Sua decisão estava tomada.
— Vou mandar chamá-lo para amanhã. E você, Caetano, preparará os documentos das Cartas de Marca. Com todas as regras, taxas, condições.
— Já tenho um esboço — disse Caetano, levantando-se. — Baseado nas licenças que os ingleses usam no Caribe, mas adaptado às nossas… necessidades específicas.
Ele caminhou até a porta, mas parou antes de sair.
— Há mais uma coisa, Governador. Os próprios quilombolas.
Bento ergueu os olhos.
— O que sobre eles?
— Meus ataques anteriores — disse Caetano, sua voz baixa — criaram uma divisão entre os que querem paz e os que querem guerra. Com essas milícias atacando constantemente, com mais mortes, mais famílias destruídas… essa divisão crescerá. Alguns começarão a questionar Carlos. A questionar se a República vale tanto sangue.
Ele fez uma pausa significativa.
— Não conquistamos apenas pela força, Bento. Conquistamos pela desesperança. Mostramos que a liberdade que eles tanto apregoam tem um preço em sangue que talvez não queiram pagar.
E com isso, Caetano saiu, suas botas ecoando nos corredores do palácio.
Bento ficou sozinho. Ele olhou pela janela mais uma vez. O Ventania agora se movia, lentamente no início, depois ganhando velocidade. Suas velas estavam completamente cheias, infladas por um vento que parecia surgir do nada — obra dos adeptos, certamente. O navio deslizava pela baía como uma flecha, rumo ao horizonte leste.
Ele olhou para o retrato na parede — ele mesmo, mais jovem, ao lado de outros senhores de engenho, todos empunhando armas. Heróis da Restauração Pernambucana. Homens que lutaram por sua terra, por sua liberdade dos holandeses.
Agora, preparava-se para usar esses mesmos homens — sua ambição, seu poder, sua experiência em lutar sem ajuda — como armas contra outro sonho de liberdade. A ironia era tão pesada que quase doía.
Enquanto isso, no horizonte, o Ventania diminuía, um ponto branco contra o azul do mar e do céu, carregando advertências, pedidos e estratégias. E no escritório do governador, começava a nascer uma nova guerra — não de exércitos regulares, mas de milícias gananciosas; não pela glória, mas pelo lucro; não apenas para destruir um inimigo, mas para corromper a própria ideia que ele representava.
Bento serviu-se de um gole de cachaça da garrafa que mantinha na gaveta. O líquido queimou-lhe a garganta, familiar e reconfortante.
“Cartas de Marca”, pensou, olhando para o copo. “Pedidos a Alba. Ameaças de armas. E uma república que ousa sonhar.”
Ele bebeu o resto de um só gole, sentindo o fogo descer até o estômago. Lá fora, o Ventania desaparecia no horizonte, levando suas palavras para Lisboa. E a oeste, sob o mesmo sol, a nova república continuava sua forja — de aço, de sonhos, e agora, sem saber, do seu próprio cerco.

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