Índice de Capítulo

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    A luz da tarde começava a ficar dourada no escritório de Carlos, filtrando-se pela janela e iluminando os papéis espalhados sobre a grande mesa de madeira. O ar estava pesado com o cheiro de tinta, papel velho e uma tensão administrativa que parecia mais sufocante que qualquer batalha. Carlos estava sentado, os cotovelos apoiados na mesa, ouvindo o relatório da Ministra da Economia, Aqua, cujos dedos finos percorriam colunas de números em um grande livro contábil.

    — No total, Presidente — dizia Aqua, sua voz mantendo o tom suave e preciso de sempre —, a população da República está estimada em vinte e três mil almas.

    Fernanda, a Ministra do Trabalho, que estava sentada ao lado, inclinou-se para frente.

    — Sendo que, desse total — interveio ela, com um tom prático que contrastava com a formalidade de Aqua —, cerca da metade ainda reside e trabalha fora do Mocambo do Tatu, principalmente nas lavouras.

    Aqua lançou um olhar breve e ligeiramente irritado para Fernanda — uma disputa silenciosa sobre quem apresentava os dados mais relevantes —, mas não a interrompeu. Carlos observou a troca de olhares com um cansaço resignado. “Não me diga que estão se desgostando uma da outra…”

    Ele pegou uma das folhas, seus olhos escaneando os números que pareciam dançar diante dele. Uma preocupação profunda franziu sua testa.

    — E os que partiram? — perguntou, sem levantar os olhos do papel. — Quantos seguiram Ganga Zala?

    Aqua folheou algumas páginas de seu livro até encontrar a seção certa. Seu dedo indicador desceu por uma coluna.

    — Do nosso próprio mocambo, foram apenas três — ela informou, com uma ponta de alívio. — Idosos, temerosos com os rumores de guerra. Quanto aos outros mocambos… — Ela fez uma pequena pausa, escolhendo as palavras. — Nossa estimativa é de cerca de sete mil pessoas. Como não estavam sob nossa jurisdição direta antes, não tínhamos registros detalhados. Desses, cerca de trezentos eram trabalhadores das estradas.

    Carlos soltou um longo suspiro, que parecia carregar o peso daquela divisão. Ele ergueu o olhar, fitando o vazio além da janela.

    — Até que não foi tão catastrófico quanto poderia ter sido — murmurou, mais para si mesmo.

    Fernanda, porém, não permitiu que a observação pairasse no ar. Um meio-sorriso, carregado de ironia e exaustão, surgiu em seus lábios.

    — Catastrófico para você, talvez, Presidente — ela disse, seu tom era firme, mas não desrespeitoso. — Para o meu ministério, foi um dilúvio. Tivemos que processar a chegada de milhares de pessoas de uma só vez. Alojamento, atribuição de trabalho, registro familiar… A fila em frente ao escritório da imigração estendia-se literalmente até o final da rua principal. Precisamos de mais funcionários. Com urgência.

    Aqua, vendo a abertura, aproveitou para acrescentar seu próprio fardo.

    — E não é só o Ministério do Trabalho — disse ela, fechando o livro com um baque suave. — Tive que recalcular toda a folha de pagamentos, incorporando esses novos cidadãos e, agora, os salários do exército. Para completar, o volume de importações e exportações que precisamos contabilizar, com a Papisa e outros pequenos comerciantes… — Ela abanou a cabeça, e pela primeira vez, Carlos viu uma fissura na sua compostura perfeita. — Os recursos humanos que temos são insuficientes para a nação que estamos tentando construir.

    Carlos levou a mão à testa, esfregando as têmporas onde uma dor latejante começava a se anunciar. O peso das decisões, da logística, da construção de um Estado a partir do zero, era às vezes mais opressivo que a ameaça de um exército.

    — Eu entendo — disse ele, sua voz soando rouca pela primeira vez na reunião. — Entendo que está sendo um fardo sobre-humano para todos. Mas não posso fabricar pessoas alfabetizadas e treinadas do nada. A Ministra Quixotina está finalizando as provas do ensino fundamental. Quem for aprovado terá a chance de trabalhar conosco. É a única maneira sustentável de crescer.

    Quase em uníssono, tanto Aqua quanto Fernanda se inclinaram para frente, os rostos marcados pela mesma frustração urgente.

    — Presidente, com todo respeito, não podemos esperar — começou Aqua.

    — As provas vão levar semanas para serem aplicadas e corrigidas, e os problemas são agora! — completou Fernanda, a voz dela um tom mais alto.

    Carlos estava prestes a responder, tentando acalmar as águas com um argumento sobre planejamento de longo prazo, quando um som cortou o ar.

    Não foi um estrondo comum. Foi algo diferente. Um CRACK agudo e seco, como uma árvore gigante partindo-se ao meio, seguido imediatamente por um rugido abafado e profundo que fez as vidraças do escritório tremerem levemente. Um tremor quase imperceptível percorreu o piso de concreto.

    Todos os três ficaram imóveis por uma fração de segundo. O som veio do leste.

    — Da zona industrial! — Carlos gritou, erguendo-se tão rápido que sua cadeira caiu para trás com um baque. Ele correu até a janela, seus olhos vasculhando freneticamente o horizonte, onde uma nuvem diferente começava a subir — não a fumaça preta e grossa do carvão, mas uma nuvem acinzentada-amarelada, com reflexos sinistros.

    No canto da sala, Sombra já estava em movimento. Seus olhos, por um instante, brilharam com a frieza calculista do caçador farejando a presa. “Inimigos novamente no coração do mocambo? Inaceitável!”

    — Entendido — rosnou, e sua forma escura se desfez da sombra do canto, atravessou a sala e desapareceu pelo corredor em um movimento fluido e silencioso que mais parecia um deslizar.

    Sombra chegou à zona industrial como uma extensão da própria ansiedade que tomava conta do lugar. Seus sentidos, afinados para a violência, buscavam sinais de combate: armas, formações inimigas, gritos de ordem. Em vez disso, encontrou um caos diferente.

    O cheiro era o primeiro indicador de que algo estava terrivelmente errado. Não era pólvora, nem sangue fresco. Era um odor químico, corrosivo, que arranhava a garganta e fazia os olhos lacrimejarem. Um cheiro de coisas sendo dissolvidas que não deveriam ser.

    A fábrica química, uma estrutura de concreto mais simples, não tinha paredes explodidas. Mas da sua porta aberta, uma fumaça esbranquiçada e amarelada rolava para fora, pesada, movendo-se lentamente como um fluído doente. Pessoas corriam para longe, tossindo, algumas agarrando o rosto ou os braços, com expressões de pânico e dor confusa.

    “Gás!”, pensou Sombra. Sua mão foi ao punho da adaga. Ele se projetou para a frente, não fugindo da fumaça, mas mergulhando em sua borda, buscando o epicentro.

    O interior era uma visão de tormento silencioso. A fumaça era mais densa perto de uma bancada central, onde um grande recipiente de vidro grosso havia trincado, vazando um líquido claro e fumegante sobre a madeira, que fumegava e escurecia. Não havia guerreiros inimigos. Havia apenas vítimas.

    Dois corpos estavam no chão, próximos à bancada.

    Uma mulher mais velha (Dona Marta) estava de joelhos, agarrando seu braço direito. A pele, onde a névoa ácida a tocara, estava vermelha, com bolhas horríveis e esbranquiçadas já se formando. Ela chorava sem som, o rosto contraído em uma máscara de choque e agonia.

    Um homem forte (Raimundo) estava um pouco mais afastado, caído de costas. Ele respirava em gargaladas curtas e ofegantes, cada inspiração era um chiado úmido e horrível. Seus olhos arregalados, cheios de um terror incompreensível, viam o teto. Ele tentou se levantar, mas só conseguiu cuspir um líquido rosado e espumoso.

    Outros dois operários mais afastados, menos atingidos, tentavam ajudar, mas eram repelidos pela tosse e pela ardência nos olhos.

    A fúria inicial de Sombra — a ânsia por encontrar um inimigo para enfrentar — evaporou, substituída por uma urgência gelada e prática. Isto não era um ataque. Era um acidente. Um acidente horrível.

    — Você! — a voz de Sombra cortou o ar, apontando para um dos operários menos afetados, que segurava um pano úmido no rosto. — Ar limpo! Agora! Puxe eles para fora!

    Sem esperar, Sombra agiu. Respirando o mínimo possível, ele se aproximou de Raimundo. O chiado nos pulmões do homem era o som da morte. Envenenamento por inalação. Sombra não era médico, mas conhecia ferimentos. Ele pegou o homem forte pelos ombros — sentindo os músculos crispados em espasmos de dor — e o arrastou para trás, para longe da poça fumegante e da fumaça mais densa. Cada puxada era seguida pelo som angustiante da respiração de Raimundo.

    Depois, foi até Dona Marta. Ela recuou, assustada com a figura escura e impessoal.

    — O braço… arde tanto… — ela gemeu.

    — Fora daqui primeiro — ordenou Sombra, sua voz era um comando, não um conforto. Ele a ajudou a se levantar e a guiou para a saída, seu toque firme mas evitando as áreas queimadas.

    Uma vez do lado de fora, na relativa segurança do ar livre, ainda carregado com o cheiro mas não com a concentração mortal, Sombra avaliou a cena. Uma pequena multidão de curiosos e preocupados começava a se formar, mantendo distância.

    Ele viu um guarda do períterno, atraído pelo alvoroço, correndo em sua direção, lança em punho.

    — Você! — Sombra apontou para o guarda. — Ocorreu um acidente. Estes dois estão envenenados. Leve-os ao hospital. Agora. Prioridade total. Use uma carroça se precisar. Não deixem que parem de respirar.

    O guarda, reconhecendo a autoridade na voz da sombra viva do Presidente, assentiu rapidamente. — Sim, senhor Sombra!

    Em segundos, ele e outro homem que se ofereceu colocaram Raimundo, que agora estava quase inconsciente, em uma esteira improvisada. Dona Marta, em estado de choque, foi ajudada a caminhar.

    Sombra não os acompanhou. Ele ficou para trás, de pé na fronteira entre o ar limpo e o inferno químico que vazava da fábrica. Seus olhos escaneavam a cena novamente, agora com a perspectiva correta. O recipiente quebrado. O tambor caído ao lado com uma mancha vermelha e marrom de queimado na lateral. Outro tambor, mais longe, com uma faixa de tinta vermelha intacta ao redor da tampa.

    Ele olhou para suas próprias mãos, limpas, e então para as mãos das vítimas sendo levadas embora — uma queimada, a outra suja do líquido rosado de seus próprios pulmões.

    Sombra foi falar com o Ministro da Indústria Química para ver o que aconteceu.

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