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    — Vossa Santidade — disse Luzia, com uma pequena reverência. — Dom Mateus Orsini está no escritório. Ele solicita uma audiência.

    Paula sentiu um frio súbito percorrer sua espinha, um contraste com o calor do entusiasmo científico de momentos antes. “Chegou a hora”, pensou, secando as mãos no avental. “O verdadeiro jogador entra em cena.”

    Ela conhecia Orsini por reputação. “Um velho raposa”, continuou seu monólogo interno enquanto seguia Luzia pelos corredores. “Dizem que negociou a paz entre os estados papais e Veneza sem disparar uma única magia — apenas com dívidas e contratos. E o rumor mais persistente… que ele almeja ser o Pontífice Supremo. Um homem ambicioso, então.”

    Uma análise fria tomou conta dela. “Isso pode ser bom. Um homem ambicioso vê ferramentas, não heresias. Henrique é ganancioso, mas também é arrogante e burro — sua ganância o cega. Orsini… Orsini é apenas ganancioso. Calculista. Ele pode ver o valor do que construí aqui.” Ela respirou fundo, ajustando a cruz no pescoço. “Mas não será fácil. Ele não veio para admirar. Veio para avaliar. E possivelmente, para comprar.”

    Ao entrar em seu escritório, encontrou Dom Orsini não sentado, não examinando seus livros, mas de pé diante da grande janela que dava para o jardim interno. A luz da tarde, dourada e poeirenta, iluminava seu perfil aristocrático, suas mãos entrelaçadas nas costas. Ele observava as irmãs que cuidavam das ervas medicinais com um interesse que parecia genuíno.

    — Boa tarde, Dom Orsini — disse Paula, fechando a porta suavemente. — Espero que tenha encontrado a cidade… acolhedora.

    Ele se virou lentamente, e um sorriso amplo e polido surgiu em seu rosto. Era um sorriso que chegava aos olhos, mas não os aquecia.

    — Boa tarde, Santidade. Acolhedora? — ele riu, um som suave e cortês. — Estou maravilhado. Cada esquina é uma surpresa. Mas vamos deixar as formalidades de lado, não acha? O tempo, como dizem, é ouro.

    Ele deu dois passos à frente, seus olhos escuros fixando-se nela com uma intensidade desarmante.

    — Você está construindo o futuro aqui, Santidade. Um futuro impressionante. Mas, com o devido respeito… não é exatamente o futuro da Santa Madre Igreja. É o futuro de outra coisa. De uma ideia nova. Talvez da tal república sobre a qual todo mundo fala, mas ninguém parece nomear em voz alta.

    Paula sentiu um nó se formar em seu estômago. Ela esperava um jogo de palavras, uma dança diplomática. Não um ataque frontal e preciso. Em sua confusão, a pergunta que saiu de seus lábios foi tola, infantil:

    — O senhor… o senhor não está irado? Pelo que escondi da Igreja?

    O riso de Orsini foi mais alto desta vez, genuíno, como se ela tivesse contado uma piada excelente.

    — Irado? Minha cara Paula, se você soubesse a décima parte do que cada príncipe da Igreja esconde em seus porões… — Ele abanou a cabeça, o sorriso tornando-se cúmplice. — O pecado, para homens como eu, não está em esconder. Está em esconder mal, ou em esconder coisas que não valem o esforço. O que você tem aqui… — ele fez um gesto amplo, abarcando a janela, a cidade além — “…vale muito mais do que um simples pecado de omissão. Vale um império. Isso se usarmos bem a conexão com a nova república.”

    A palavra “usar” pairou no ar entre eles, tão palpável quanto o cheiro de pergaminho velho do escritório. Paula sentiu um desconforto físico, um frio na nuca. Usar. Era o que Carlos temia. Era o que ela própria temia.

    Orsini, mestre em ler as fraquezas alheias, captou a mudança em sua postura, o ligeiro tensionar de seus ombros. “Interessante”, pensou ele, mantendo a expressão aberta. “Ela é brilhante, mas tem o vício do idealista. Acredita no valor intrínseco das coisas. É uma fraqueza… e uma alavanca maravilhosa.”

    — Não se preocupe, Papisa — disse ele, a voz baixando para um tom quase confidencial, de conselheiro. — Não estou falando de exploração. Falo de… sinergia. A República tem o conhecimento prático — o aço, as máquinas, as armas. A Igreja tem a rede, o capital, a legitimidade. Nós os ajudamos a vender, a se protegerem com tratados, a existirem sem serem esmagados por Portugal amanhã. E em troca… compartilham conosco um pouco desse conhecimento. Para o bem maior, claro.

    Ele não disse a próxima parte em voz alta, mas seus olhos frios a proclamaram: “Não terão. Depois de aprendermos, eles serão um acidente de percurso a ser limpo, para apaziguar Lisboa e manter nossas mãos limpas.”

    Paula engoliu em seco. O nó em seu estômago apertou.

    — Mas… isso faria com que eles perdessem tudo — argumentou, a voz um pouco mais fraca do que desejava. — Sem o segredo do aço, sem as máquinas, eles são apenas outro quilombo. Indefesos. Carlos… o Presidente jamais aceitaria.

    — Carlos? — Orsini arqueou uma sobrancelha, como se o nome fosse um conceito curioso. — Ele aceitará. Porque a escolha dele não é entre segredo e parceria. É entre parceria conosco… e aniquilação solitária. Lembre-se, Santidade, todo o comércio deles passa por sua cidade. Todo o ferro, tudo o que vendem, toda a comunicação com o mundo exterior. — Ele fez uma pausa, deixando a ameaça pairar. — E devo lembrá-la que eles recusaram o acordo de paz do governador. São, oficialmente, rebeldes. A Igreja não pode parecer cúmplice de uma rebelião… a menos que essa rebelião se transforme em algo mais útil.

    A lógica era de uma frieza assassina. E era, Paula teve que admitir para si mesma com um gosto amargo na boca, razoável. Para a Igreja. Para a política. Ela olhou pela janela, para as torres de sua cidade. A cidade que salvara da peste, que alimentara, que iluminara com ideias novas. Essa cidade dependia da ordem, da paz relativa com as autoridades coloniais. E ela, Paula, dependia de seu posto para protegê-la.

    Em sua mente, surgiu a imagem de Carlos. Não o “Presidente” distante, mas o homem das cartas. A letra firme explicando células. O tom respeitoso, mas sem subserviência, quando discutiam filosofia da mente. Ele queria construir um mundo novo. Um mundo sem senhores e escravos. Ela, no fundo de seu coração de cientista, ansiava para ver aquele mundo. Para contribuir para ele.

    “A realidade é diferente”, um sussurro cruel ecoou em seus pensamentos. “Você faz parte da Igreja. Tem um povo que depende de você. E para protegê-los… precisa manter seu poder. E seu poder, hoje, depende de acordos com homens como Orsini.”

    Ela sentiu o peso daquela cadeira, daquela gema no pescoço, como uma coleira de chumbo. O sabor metálico da derrota política já estava em sua língua quando falou:

    — Eu… entendo. Podemos partir amanhã cedo para a fronteira. Discutiremos os termos com a República.

    A expressão de Orsini não era mais de confusão, era de descrença. Ele riu, um som curto e seco.

    — Partir? Nós? Santidade, acho que há um mal-entendido. — Ele endireitou a postura, a autoridade secular e clerical emanando dele como um manto. — Você escreverá uma carta. Um convite. Eles virão aqui. À sua sede. O poder reside em quem dita o local do encontro. Eles são uma república de… ex-escravos, por mais que se adornem com títulos. Nós somos a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Existimos desde Pedro. — Ele balançou a cabeça, com um misto de desdém e pena. — Paula, pense… seu antecessor era Henrique. Arrogante, limitado, mas ele entendia teatro do poder. Vocês são tão opostos…

    O golpe final. A comparação com Henrique. Paula sentiu-se pequena, tola. A santa que pensava poder negociar de igual para igual. Fechou os olhos por um segundo, o cansaço do dia, da conversa, do peso das expectativas, batendo nela. Quando os abriu, já havia uma decisão — uma rendição tática — em seu olhar.

    — Está bem — disse, a voz monocórdica, sem energia. — Escreverei a carta.

    Mas por trás daquela aparente capitulação, sua mente, a mente que dissecava ratos e desvendava micróbios, começou a trabalhar rapidamente. “Ganhar tempo”, pensou, os dedos percorrendo a borda da mesa. “Preciso de tempo. Para avisar Carlos. Para prepará-lo. Para… para encontrar uma terceira opção.”

    Ela ergueu o olhar para Orsini.

    — No entanto — continuou, a voz recuperando um fio de firmeza —, independente de como as discussões se desenrolarem, qualquer acordo de magnitude precisará ser relatado à Santa Sé para aprovação formal. Devemos enviar um relatório detalhado primeiro. E só iniciaremos ações concretas quando tivermos uma resposta. — Ela fez uma pausa, olhando-o diretamente nos olhos. — A partir de agora, serei completamente transparente com a Igreja. Você terá acesso a tudo.

    Orsini manteve o olhar por um longo momento. Um sorriso lento, quase admirativo, surgiu em seus lábios. “Conseguindo tempo para seus amiguinhos, não é mesmo?”, pensou, lendo a jogada como um livro aberto. “Muito bem. Joga melhor do que parece. Tudo bem, raposinha. Posso esperar. O tempo, afinal, joga ao meu lado também.”

    — Sem problemas, Santidade — disse ele, com uma inclinação de cabeça quase graciosa. — A prudência é uma virtude cardinal. Enquanto isso… vou voltar a aproveitar os ares de sua cidade fascinante. — Ele caminhou até a porta, parando na soleira. Virou-se, e seu sorriso agora era quase paternal, o que era pior. — Só espero que, quando a resposta de Alba chegar, você esteja preparada para tomar as decisões certas. As decisões que garantirão que esta cidade, e seu maravilhoso trabalho, continuem a ser… seus.

    A porta se fechou atrás dele com um clique suave e final.

    Paula ficou imóvel por um minuto inteiro. Então, seus joelhos cederam um pouco. Ela se apoiou na borda da mesa, os dedos brancos de tanto pressionar a madeira. O cheiro do laboratório — formol, esperança, frustração — ainda estava em suas roupas.

    “Um impasse”, pensou. “Mas não um xeque-mate.”

    Ela caminhou até a escrivaninha, pegou pena, tinteiro e um pergaminho limpo. Iria escrever a carta que Orsini exigia. Mas entre as linhas de convite formal, nas entrelinhas que apenas Carlos entenderia — usando o código que haviam desenvolvido para discutir fórmulas secretas —, ela escreveria um aviso. E um pedido de ajuda.

    A guerra não era mais silenciosa. Agora tinha regras, peões e um tabuleiro muito mais perigoso. E Paula, a Papisa dos Micróbios e das Máquinas, teria que aprender a jogar — ou ser varrida do jogo.

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