Índice de Capítulo

    O ar nos campos experimentais de Tassi carregava uma promessa doce. Não era mais o cheiro agridoce de fracasso e terra ressecada que Carlos conhecia de suas visitas anteriores. Agora, uma fragrância complexa dançava na brisa da tarde — o perfume floral das frutíferas em flor misturado ao aroma terroso de solo saudável e à nota herbácea das folhas verdes. A luz do sol, já mais baixa no céu, pintava tudo com tons de âmbar e ouro.

    Carlos caminhava entre os canteiros transformados quando a viu. Tassi não estava ajoelhada na terra, nem concentrada em algum broto frágil. Ela estava de pé no meio de uma pequena mas densa área de cultivo, segurando algo contra a luz com uma expressão de êxtate tão pura que ele quase não a reconheceu.

    Em suas mãos sujas de terra, ela equilibrava uma maçã vermelha e lustrosa e uma laranja de um laranja tão vibrante que parecia capturar o próprio sol. Ao seu redor, pequenas árvores frutíferas — algumas com mais de dois metros já — ostentavam frutos, e canteiros de cereais balançavam dourados ao vento.

    Quando seu olhar se desprendeu das frutas e encontrou o dele, seu rosto se abriu num sorriso tão amplo que fez os olhos estreitarem em fendas felizes.

    — Carlos!

    Ela veio em sua direção, quase pulando sobre os sulcos da terra, seus pés descalços levantando pequenas nuvens de poeira. Estendeu as frutas para ele como quem oferece tesouros.

    — Olha isso! Toma!

    Carlos aceitou as frutas, sentindo seu peso sólido e promissor nas palmas. A maçã era firme, sua casca lisa e brilhante sob seus dedos. A laranja, mais pesada do que esperava, exalava um perfume cítrico fresco que lhe fez a boca salivar.

    Ele ergueu a maçã até os olhos, examinando-a contra a luz. Não havia marcas de deterioração, nem a aparência murcha dos experimentos anteriores.

    — Espera… — ele disse, a voz carregada de incredulidade cautelosa. — Quer dizer que funcionou? Cresceram apenas com a Gema da Grama? Sem murchar?

    — Sim! — a resposta de Tassi veio em um sussurro exaltado. — E não é só isso. Prova. Vai, prova!

    Carlos levou a maçã ao nariz primeiro, respirando fundo. O aroma era doce, promissor. Mordeu. A casca estalou sob seus dentes com um som satisfatório, e a polpa branca e suculenta encheu sua boca.

    O sabor foi uma revelação.

    Não era aquela insipidez aquosa dos frutos anteriores. Era doce, levemente ácido, com a textura crocante de uma maçã perfeita. Seus olhos se arregalaram involuntariamente enquanto mastigava, processando não só o sabor, mas o que ele significava.

    — Você conseguiu… — ele murmurou, engolindo. — Meu Deus, Tassi, você realmente conseguiu!

    Tassi soltou uma risada, um som leve e vitorioso que parecia fazer as folhas ao redor tremularem em resposta.

    — Agora é só ver quanto tempo vão durar! — acrescentou Carlos, já pensando à frente, sua mente de administrador calculando logística, armazenamento, distribuição.

    — Essas daí têm dias — ela corrigiu, orgulhosa. — E acho que vão durar muito mais. Senta aí, deixa eu te explicar.

    Ela apontou para um tronco caído que servia de banco na borda do campo. Carlos se sentou, ainda segurando as frutas como se fossem artefatos preciosos. Tassi permaneceu em pé, gesticulando animadamente.

    — Depois daquele dia em que tivemos a ideia de fazer as plantas crescerem em fases, fiquei quebrando a cabeça. Por que uma planta que cresceu com a gema fica de pé por um tempo antes de murchar? Em vez de focar no porque ela murcha, pensei: porque ela fica em pé? O que a sustenta?

    Carlos terminou de comer a maçã, deixando apenas o miolo. A doçura ainda estava em sua língua, uma prova tangível.

    — Ela fica em pé pela energia residual da gema — ele sugeriu. — E murcha quando essa energia se esgota. Mas o que tem de especial nisso?

    Tassi pegou a laranja de volta, seu rosto iluminando-se com o brilho de quem está prestes a compartilhar um segredo descoberto a duras penas.

    — Com essa hipótese em mente pedi um favor ao Miguel, da imigração.

    — O adepto da Visão? O que ele tem a ver com plantas?

    — Tudo a ver! — ela disse, animada. — Pedi para ele usar aquele óculos especial, o que aumenta a percepção de energias mágicas. Ele examinou essas frutas, esses grãos… procurando qualquer resíduo da mana da Grama que eu tinha usado.

    Ela fez uma pausa dramática. Carlos se inclinou para frente, o tronco rangendo sob seu peso.

    — E adivinha? Nada. Zero. — Os olhos de Tassi brilhavam. — Ele confirmou: normalmente, as plantas murcham quando a mana se esgota. Mas essas não murcharam *e* não têm mana residual. Elas não estão sendo sustentadas por magia. Estão… vivendo por conta própria.

    Carlos franziu a testa, tentando processar.

    — Então funcionou”

    — Sim! — Tassi exclamou, dando um passo para trás e abrindo os braços como para abraçar todo o campo experimental.

    Carlos sorrindo perguntou.

    — E como você conseguiu isso?

    — Deixa eu explicar do começo. Lembra da nossa conversa sobre agrofloresta? Sobre como na natureza tudo está conectado?

    Carlos assentiu.

    — As árvores altas protegem as baixas, as folhas que caem viram adubo, as raízes profundas trazem nutrientes…

    — Exatamente! — Ela cortou, animada. — Eu usei a Gema da Grama apenas para acelerar o crescimento inicial. Para colocar as “peças” no lugar. Mas uma floresta não é só um monte de árvores juntas. É um sistema.

    Ela começou a caminhar em direção aos canteiros, e Carlos se levantou para segui-la.

    — Eu plantei seguindo os princípios da agrofloresta que você me ensinou. Castanheiras no fundo, para sombra e estrutura. Bananeiras no meio, que gostam dessa meia-luz. Tomateiros e abóboras rasteiras na frente. — Ela apontou para cada camada enquanto falava. — Usei adubo orgânico que preparamos, não apenas a magia. E esperei a polinização natural, deixei as folhas caírem e viraram adubo… Mas ainda não estava dando certo. Os frutos nasciam, mas tinham aquele gosto de nada.

    Ela parou diante de uma pilha de caixas de madeira rudimentares. O zumbido era mais alto aqui — um som vibrante e ocupado. Abelhas.

    — Aí, tive que ajudar a Ministra Fernanda com a crise imigratória — continuou Tassi, observando as caixas. — Com tanto quilombola vindo para o mocambo principal… bom, você sabe como está. No processo, conheci um homem. Tiago.

    Ela apontou. Do outro lado das caixas, um homem de meia-idade, magro e de ombros largos, manipulava os quadros de uma colmeia aberta com as mãos nuas. Abelhas zumbiam ao seu redor, pousando em seus braços, seu pescoço, seu rosto. Ele parecia não notar.

    — Ele vivia num engenho — Tassi explicou, sua voz mais baixa, respeitosa. — Era responsável pelas colmeias. O senhor de engenho mantinha abelhas para o mel, claro. Tiago cuidava delas desde criança. Quando me contou, algo clicou. Lembrei das aulas básicas de biologia à noite, sabe? Sobre polinização.

    Carlos observou, fascinado e um pouco horrorizado, enquanto Tiago tirava um favo melado sem nenhuma proteção além de uma camisa de linho surrada e calças de algodão.

    “Meu Deus”, pensou ele, sentindo uma coceira imaginária em seus próprios braços. “Sem véu, sem luvas, nada.”

    — Eu pensei — Tassi continuou, seus olhos seguindo o trabalho hábil de Tiago — “se os polinizadores naturais não estão encontrando as flores porque elas aparecem literalmente da noite para o dia… que tal trazer os polinizadores até elas?” Coloquei as colmeias bem no meio da área experimental. As abelhas fizeram o resto.

    Nesse momento, uma abelha zangada zumbiu perto do rosto de Tassi. Ela tentou afastá-la com a mão, mas foi tarde — um pequeno zapt e um grunhido de dor.

    — Ai!

    Ela esfregou o antebraço onde a picada inchava instantaneamente, uma pequena marca vermelha e branca.

    — Vamos sair da linha de voo — sugeriu Carlos, recuando.

    Eles se afastaram, e Tassi riu, soprando o local da picada.

    — Só peça para a fábrica têxtil fazer umas roupas de proteção para ele — disse Carlos, ainda abalado pela visão. — Vou passar os diagramas para você depois. Véu, luvas, macacão… é básico.

    Tassi revirou os olhos, esfregando o braço.

    — Quem disse que eu deixei ele trabalhar assim? Ele mesmo se recusa! Diz que ‘sempre fez assim’ e que ‘as abelhas conhecem seu cheiro’. — Ela fez uma careta. — Para mim, a dor não é nada, comparada ao que já senti. Mas não quer dizer que não incomode. Arde que só.

    Carlos abanou a cabeça, um sorriso de resignação nos lábios. Algumas batalhas não valiam a pena. Ele voltou sua atenção para o que importava.

    — Tassi, o que você descobriu… — ele começou, a voz carregada de uma animação genuína que raramente demonstrava. — É mais do que incrível. Comida deixará de ser um gargalo. Poderemos alimentar toda a população urbana que cresce com as fábricas, o comércio… Poderemos até exportar. Imagine: comida de qualidade, cultivada magicamente mas sustentável, sendo vendida para outras cidades, para a cidade sagrada…

    A expressão de Tassi mudou. O orgulho e a animação se dissiparam, substituídos por algo mais duro, mais desapontado. Ela cruzou os braços, e Carlos percebeu que pisara em um terreno sensível.

    — Sabe, Carlos — ela disse, a voz mais contida. — Eu entendo que você tem que fazer o que é melhor para o quilombo… para a república. Mas eu… — ela fez uma pausa, procurando as palavras certas. — Eu gostaria que você passasse esse conhecimento para a Papisa. Para que ela o divulgasse. Para o mundo inteiro.

    Ela olhou para os campos férteis ao redor, seu rosto sério.

    — Isso poderia acabar com a fome, Carlos. De verdade. Não só aqui. Em toda a colônia. Talvez até além do mar.

    Carlos ficou em silêncio, surpreso. Ele sabia que Tassi tinha um coração maior que sua espada, mas essa súbita priorização do bem global sobre o bem local… era inesperada. Estrategicamente arriscada.

    Tassi viu sua hesitação. Seus olhos escureceram com uma sombra de memórias antigas.

    — Inesperado, vindo de uma ex-guerreira, não é? — ela disse, com um sorriso amargo. — Eu nunca contei isso a ninguém… nem a você. Fui entregue ao palácio real porque minha família passava fome. Teve um motivo, apenas não contei.

    O ar entre eles pareceu esfriar. O zumbido das abelhas soou distante, abafado pelo peso da confissão.

    — Eram cinco bocas para alimentar — ela continuou, seus olhos fixos em um ponto distante, além dos campos, além do tempo. — Meus pais, meu irmão mais velho, minha irmã mais nova… e eu. A escolhida para ser mandada fui eu.

    Ela engoliu em seco, os dedos apertando seu próprio braço onde a picada ainda doía.

    — Mas não era só pela fome — sua voz era um sussurro áspero. — Nunca fui a filha que eles queriam. Minha irmã… ela era linda. A flor da família. Ela teria sido uma concubina perfeita. Viveria uma vida fácil, luxuosa, entre sedas e banquetes. Em vez disso, mandaram a mim. A filha teimosa, com joelhos ralados. Tive que me tornar guerreira à força. — Ela deu uma risada curta, sem humor. — Huh. Até perdi meu ponto…

    Carlos não sabia o que dizer. Que conforto se podia oferecer para uma dor tão antiga e pessoal? Em vez disso, voltou gentilmente ao assunto original.

    — Sobre a fome… — ele sugeriu.

    — Ah, sim. — Tassi pareceu puxar-se de volta ao presente, sacudindo a cabeça levemente como para dispersar as memórias. — Agora que te contei… vi que não foi a fome que me separou da minha família. Foi só uma desculpa conveniente. Mas se eu puder eliminar essa desculpa para outras famílias… já vou ficar feliz. Já conheci escravos aqui que foram vendidos pelos próprios pais. Para não morrerem de fome juntos.

    A simplicidade de seu desejo, sua pureza diante da complexidade política, quase partiu o coração de Carlos. Ele soltou um longo suspiro, o som pesado com o peso do pragmatismo.

    — Tassi… — ele começou, escolhendo as palavras com cuidado. — Seu pedido é nobre. Mais do que nobre. Mas… não sei se poderei realizá-lo. Pelo menos não agora.

    Ela ergueu os olhos para ele, uma ponta de decepção já se instalando em seu rosto.

    — A Papisa me mandou uma carta — ele explicou, sentindo o sabor amargo da política em sua língua. — Emissários de alto escalão da Igreja chegaram a Santa Maria. Eles querem uma reunião. Para ‘reavaliar’ nossa relação com a Igreja.

    Ele fez uma pausa, deixando a informação pairar.

    — Sua descoberta… essa técnica revolucionária de cultivo sustentável com magia… seria uma carta valiosíssima na nossa manga. Algo concreto, tangível, que mostra nosso valor além de armas e aço. Algo que poderia mudar completamente o tom das negociações. Crucial, Tassi.

    Tassi olhou para o chão. Seus pés descalços afundaram um pouco mais na terra fértil que ela mesma criara. Por um longo momento, ela não disse nada, apenas observou os grãos de solo escuro entre seus dedos dos pés. Quando finalmente falou, sua voz estava baixa, resignada, mas sem amargura.

    — Eu entendo.

    As duas palavras carregavam o peso de uma decepção imensa, mas também a aceitação de uma guerreira que conhecia o custo das batalhas maiores. Ela levantou os olhos, e neles Carlos viu não derrota, mas determinação redirecionada.

    — Então vamos fazer dessa carta a mais valiosa possível. Para quando você jogá-la na mesa… ela mude o jogo.

    Era tudo que ela podia pedir. E, naquele momento, parecia tudo que Carlos podia prometer.

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