Capítulo 111 - Cruz
O sol nordestino martelava implacável sobre a estrada de terra batida que serpenteava entre canaviais intermináveis e manchas esparsas de mata atlântica. Carlos viajava numa carroça aberta, o calor um manto úmido e pesado sobre seus ombros. O suor escorria em filetes teimosos por suas têmporas, misturando-se à poeira fina e avermelhada levantada pelas rodas. Duas carroças compunham o comboio da República, uma delas carregando a carga mais preciosa: Tassi, Espectro, Sombra e ele mesmo. Atrás, outra conduzia uma escolta de seis guardas — alguns empunhando as armas de fogo que conseguiram com a própria igreja, outros com armas mágicas, também conquistadas através da igreja. Todos estavam com os olhos alertas e as mãos próximas às armas.
“Ugh, esse calor é desumano”, pensou Carlos, ajustando o colarinho de sua camisa de algodão, já manchada de suor. “Nunca imaginei que, de todas as coisas, sentiria falta de um carro com ar-condicionado. Mas isso vai demorar a ser feito” Seus olhos percorreram a estrada irregular, cheia de sulcos e pedras. “Uma ferrovia seria mais fácil de fazer e isso mudaria tudo. Mas com o futuro do minério de ferro incerto… melhor guardar o que temos. Não só o minério é incerto, como nossa relação com a cidade sagrada.”
Ele observou Tassi ao seu lado. Ela olhava a paisagem com os olhos de uma agricultora, avaliando a qualidade do solo, a saúde da vegetação rala. Espectro, em silêncio habitual, parecia uma estátua viva, seus sentidos estendidos além do visível. Sombra, ao contrário, estava tenso, os dedos tamborilando no cabo de sua adaga.
O som das rodas rangendo, o cheiro de poeira, cavalo e suor, o gosto seco na boca — era uma viagem que testava a paciência. Carlos voltou a seus pensamentos. “Paula me deu um respiro. Tempo até a resposta oficial de Alba. É o único trunfo que tenho no momento: tempo para pensar, para me preparar.”
Depois de horas que pareceram dias, o perfil familiar da Cidade Sagrada de Santa Maria começou a se desenhar no horizonte. Primeiro, as torres da catedral, imponentes contra o céu azul-claro. Depois, as muralhas claras. E, mais perto, o canteiro de obras.
“Olha só”, murmurou Carlos, apontando.
À frente, uma nova estrada estava nascendo. Diferente da trilha poeirenta por onde viajavam, essa era larga, reta, feita de uma superfície lisa e cinzenta. Homens — muitos deles negros e mestiços vestindo roupas simples mas íntegras da República — trabalhavam espalhando uma mistura pastosa que cheirava a cal e pedra moída.
— É o concreto — explicou Carlos para Tassi, que observava com curiosidade. — A estrada que vai ligar seu porto diretamente ao nosso território. Para o comércio fluir como um rio.
Ele não completou o pensamento em voz alta: “Se ainda houver comércio para fluir.”
Atrás da obra, a cidade se revelava em toda sua atividade febril. Santa Maria pulsava com uma energia que rivalizava a do próprio Mocambo do Tatu. O que mais chamava a atenção era o vestuário: quase todas as pessoas nas ruas, nos mercados, nas docas, usavam roupas de algodão resistente e bem cortado, tingidas com as cores vibrantes das fábricas têxteis da República.
“O comércio ainda segue firme”, pensou Carlos, um pouco de alívio misturado à apreensão. “Roupas, panelas, ferramentas… mas quando o fluxo de minério secar, será que as roupas serão suficientes? Tudo depende do que for decidido hoje, atrás daquelas paredes.”
Encontrar o caminho até a catedral foi fácil — as carroças com a insígnia da república eram conhecidas. Ao se aproximarem do grande portão de madeira reforçada com ferro, já os aguardava um grupo.
Paula estava à frente, vestindo seus hábitos brancos de trabalho, manchados nas bordas com o que parecia tinta. Seu sorriso era profissional, mas seus olhos azuis escuros transmitiam uma mensagem mais complexa — um misto de alerta e solidariedade. Atrás dela, os guardas e assistentes habituais de Santa Maria, que após meses de comércio intenso, já não ostentavam a desconfiança aberta de antes. Mas ao lado dela, três homens de batina fina e expressões afiadas observavam a chegada com um desdém tão palpável que Carlos quase pôde saboreá-lo no ar.
“Os enviados da igreja”, deduziu ele, enquanto descia da carroça, seus joelhos rígidos do balanço constante. “Os olheiros de Henrique. E provavelmente algo pior.”
— Boa tarde, Carlos! — a voz de Paula cortou o ar pesado, clara e um pouco alta demais. — Imagino que tenha sido uma longa viagem! Entrem, entrem, aqui fora está um forno!
O calor era realmente opressivo, mesmo já estando em pleno outono nordestino — uma estação que, na prática, significava apenas um sol um pouco menos assassino e noites um pouco menos abafadas. Carlos acenou com a cabeça em agradecimento e seguiu-a, sua comitiva formando uma sombra protetora atrás dele.
Foram conduzidos a uma sala ampla nos aposentos administrativos da catedral. Uma longa mesa de jacarandá polido dominava o centro. Como eram muitos, mesas menores haviam sido adicionadas nas laterais, criando um arranjo em “U”. O cheiro no ar era de cera de abelha envelhecida, madeira úmida e um leve traço do incenso que sempre parecia pairar nos corredores sagrados.
O “lado da Igreja” se acomodou: Paula à cabeceira, Dom Orsini à sua direita com um ar sereno, e os três monges enviados por Henrique à esquerda, seus rostos fechados. Do outro lado, apenas Carlos e Tassi sentaram-se. Espectro, Sombra e os guardas permaneceram em pé ao longo das paredes, uma presença silenciosa mas poderosa.
Quando o último arrastar de cadeia cessou, Paula falou. Sua voz era formal, o tom da diplomacia eclesiástica.
— Como expus na carta, Carlos, a decisão de sua… república de rejeitar o acordo de paz mediado pela Igreja e continuar em estado de rebelião contra a Coroa Portuguesa vai diretamente contra os princípios de conciliação e ordem que nossa Santa Madre Igreja defende.
Dom Orsini, ao seu lado, abaixou a cabeça para esconder um sorriso fugaz. “Ingenuidade ou teatro?”, pensou, seus dedos brincando com a borda da mesa. “Qualquer um que conheça o mínimo da história papal sabe que guerras são fontes de riqueza — doações, indulgências, terras confiscadas… O problema não é ele guerrear. É guerrear sem nos dar nossa parte. Se eu tivesse o segredo daquele aço… as campanhas na Europa, na África, seriam reescritas. E os cofres de Alba, transbordariam.”
Paula continuou, evitando olhar diretamente para Carlos.
— …Diante deste impasse, e considerando os riscos que a Igreja assume ao manter este canal comercial com um grupo em franca rebelião, a Santa Sé propõe um ajuste em nossa parceria. Em troca de nossa contínua mediação e proteção diplomática, pedimos que a República compartilhe conosco os métodos para a produção do aço, assim como os princípios por trás das máquinas avançadas que, segundo os relatos, operam em seu território.
Carlos sentiu um novo surto de suor, desta vez frio, percorrer sua espinha. Ele engoliu em seco, as mãos suadas sob a mesa. Dar discursos para seu povo era uma coisa. Negociar a sobrevivência de sua nação nascente em território alheio, cercado por potenciais inimigos, era outra completamente diferente. Respirou fundo, o ar carregado do cheiro do incenso agora parecão sufocante.
— Vossa Santidade — começou ele, forçando sua voz a soar firme e medida. — Tudo o que produzimos já é vendido exclusivamente através dos canais da Igreja. Os impostos, os lucros, fluem para os cofres sagrados. Vocês têm o monopólio sobre cada panela, cada ferramenta, cada peça de tecido que sai daqui com destino à Europa. E agora… querem também o segredo? A única coisa que nos diferencia, que nos dá alguma margem de segurança?
Ele fez uma pausa, olhando para Paula. “Eu poderia lembrá-la de todos os conhecimentos que já compartilhei com você, em confiança”, pensou, pesando a lealdade contra a necessidade. “Mas não. Não a jogarei aos lobos. Ainda não.”
Paula, ouvindo suas palavras, sentiu um nó de culpa se formar em seu estômago. Ela conhecia a verdade por trás daquela fachada. Mas seu papel naquela sala a obrigava a continuar.
— Temos uma parceria, é verdade — ela respondeu, mantendo o tom oficial. — Mas é uma parceria que está colocando a Cidade Sagrada em risco. A Coroa Portuguesa já enviou queixas formais. É uma questão de tempo até que haja um bloqueio naval, sanções… Ambos perderemos.
Dom Orsini quase aplaudiu mentalmente. “Perfeito”, ele pensou, observando o rosto de Carlos. “Para um estrangeiro, soa como uma ameaça plausível. Mas qualquer interno sabe que Portugal está de joelhos financeiramente, endividado até o pescoço com a Igreja após suas guerras contra a Espanha e a luta pela restauração. Eles não ousariam nem cuspir na direção de um barco papal. Mas ele não sabe disso.”
Carlos, de fato, não sabia. A informação caiu como uma pedra em seu peito. Era uma variável que ele não havia considerado suficientemente. O suor em suas mãos parecia gelar.
Antes que ele pudesse formular uma resposta, um dos monges ao lado de Paula — o Irmão Tomás, o de rosto estreito e olhos claros — explodiu. Ele bateu a mão aberta na mesa, o baque ecoando na sala silenciosa.
— Isso já chega! — sua voz era um latido carregado de desprezo. — Vocês, pretos, deveriam estar de joelhos, agradecendo por estarmos sequer na mesma sala que vocês! — Ele se virou para Paula, seu rosto contraído de ira. — E você, Santidade, deveria ser expulsa da Igreja por se rebaixar a negociar com esses… esses bárbaros sem alma!
O sangue de Paula subiu a seu rosto numa onda de calor vermelho e furioso. Seus dedos se cerraram em punhos sob a mesa. Do outro lado, Carlos sentiu uma fúria primitiva ferver em suas veias. Ele abriu a boca para gritar, para devolver o insulto, quando uma ideia — fria, calculada e perigosa — lampejou em sua mente.
Mas foi Paula quem falou primeiro. Ela se levantou, sua estatura parecendo crescer, seus olhos azuis faiscando com uma luz perigosamente calma.
— Chega! — a palavra cortou o ar como um chicote. — Vocês não têm autoridade para falar assim com meus convidados. Quem comanda esta Cidade Sagrada sou eu. E vocês não estão mais no Velho Mundo. Fora. Imediatamente.
Tomás levantou-se, tremendo de raiva.
— Como ousa?! Você é apenas a papisa desse ermo abandonado por Deus! E pior — sua voz escarninha baixou para um sussurro venenoso —, é uma mulher que já foi homem! Isso não é santidade, é sacrilégio!
— Guardas! — a voz de Paula não deixava espaço para contestação. — Ajudem esses monges a voltarem para seus aposentos. Eles parecem precisar de um tempo para reflexão e oração.
Seguiu-se um caos breve de protestos indignados, cadeiras arrastadas, vozes elevadas. Dom Orsini permaneceu sentado, imóvel, observando o tumulto com um interesse quase clínico. Quando a última batida de porta ecoou e o silêncio — tenso, elétrico — retornou à sala, Paula respirou fundo.
— Carlos… lamento profundamente por isso. Garanto que você não os verá novamente.
— Está tudo bem, Paula — ele respondeu, sua voz estranhamente serena.
Dom Orsini limpou a garganta suavemente, todos os olhos se voltando para ele. Sua expressão era de compreensão solene, quase paternal.
— Carlos, com todo o respeito devido à sua posição, compreendo a profundidade de suas preocupações. — Sua voz era mansa, persuasiva. — E é justamente por entendê-las que peço que considere a nossa. A Igreja arrisca muito. Precisamos de algo mais… sólido do que apenas uma parte do comércio. Peço apenas os métodos do aço. As máquinas, os outros segredos… podemos deixar para futuras conversas, com mais confiança construída. E, como a Papisa já mencionou, não precisa ser imediato. Aguardaremos a resposta formal de Alba.
A sala ficou em suspenso. Tassi olhou para Carlos, seus olhos implorando cautela. Espectro, normalmente uma máscara de impassibilidade, franziu ligeiramente a testa.
Carlos então fez algo que ninguém esperava. Ele sorriu. Um sorriso curto, profissional, que não alcançou seus olhos.
— Tudo bem. Acordo feito.
A reação foi uma sinfonia de espanto silencioso. A mandíbula de Tassi caiu ligeiramente. Espectro piscou, rápido. Até Paula, que deveria estar aliviada, parecia perplexa. Dom Orsini foi o primeiro a se recuperar. Seu rosto de político experiente suavizou-se num sorriso amplo e satisfeito.
— Excelente! Vejo que é um homem pragmático, Presidente. Muito inteligente para um… homem de sua origem.
O sangue de Carlos ferveu novamente, mas sua expressão permaneceu plácida. “Joga, não reage”, repetiu para si mesmo.
— Agora que isso está resolvido — continuou Carlos, voltando-se para Paula —, gostaria de discutir um assunto particular com a Vossa Santidade. A sós.
Orsini arqueou uma sobrancelha.
— Um assunto particular? E que assunto seria esse, que não pode ser tratado diante de um representante da Santa Sé?
— Assuntos — respondeu Carlos, olhando diretamente para Paula com um brilho desafiador nos olhos —, que dizem respeito apenas à governante desta cidade. Se, é claro, ela realmente governa.
Foi uma provocação descarada. Paula recebeu-a e devolveu com um sorriso afiado, quase predatório.
— Dom Orsini, o acordo principal está firmado. Agradeço sua mediação. Pode se retirar.
Orsini não se sentiu insultado. Pelo contrário. Uma centelha de interesse genuíno acendeu-se em seus olhos. “Ora, ora”, pensou ele, levantando-se com uma inclinação de cabeça. “O jovem presidente tem mais cartas na manga. E a boa Papisa parece ansiosa para vê-las. Muito interessante.”
— Como desejar, Santidade — disse ele, e saiu com passos tranquilos.
A porta se fechou com um click decisivo.

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