Índice de Capítulo

    O ar na sala pareceu mudar assim que a porta se fechou atrás de Dom Orsini. A formalidade cerimonial deu lugar a uma tensão diferente — mais íntima, carregada de segredos e possibilidades perigosas. A luz da tarde, agora dourada e oblíqua, entrava pelas altas janelas, iluminando partículas de poeira que dançavam no ar pesado.

    Carlos esperou alguns segundos, sua audição aguçada tentando captar qualquer som do corredor. Então, olhou para Paula.

    — Consegue verificar se há ouvidos indiscretos nas redondezas?

    Paula ficou surpresa por um instante, depois um sorriso de cumplicidade inteligente tocou seus lábios.

    — Percebeu que as lentes de contato com a Gema da Visão, que você sugeriu em uma carta, ficaram prontas?

    — Não — respondeu Carlos, um meio-sorriso nos lábios. — Percebi que você não tirava os olhos da caixa que o Espectro carrega. E pelo pouco que conheço seu… apetite por novidades, deduzi que já teria desenvolvido as lentes sobre as quais comentei há meses.

    Paula soltou uma risada genuína, um som surpreendentemente leve que iluminou seu rosto cansado.

    — E esse seria o motivo para expulsar todo mundo? Mostrar-me um artefato divino? 

    Espectro, sem fazer um som, aproximou-se e colocou a caixa de madeira simples sobre a mesa. Com gestos cuidadosos, abriu-a. Dentro, repousando sobre veludo escuro, estava uma adaga. A lâmina era de um roxo escuro, quase preto que parecia sugar a luz ao seu redor, pulsando com uma energia quase imperceptível.

    Paula levantou-se e se aproximou, seus dedos hesitando no ar antes de tocar a borda da caixa. Ela não precisou de lentes especiais para sentir — o ar ao redor do objeto vibrava com uma frequência estranha, familiar e ao mesmo tempo alienígena.

    — É… a mesma assinatura energética — ela sussurrou, mais para si mesma, seus olhos azuis escuros focados na gema. — O mesmo padrão de interferência mágica que os artefatos do seu mundo emanam. Mas mais intenso. Mais… puro.

    — Exato — confirmou Carlos, observando-a. — Conversamos e acreditamos que esta gema seja, de alguma forma, a chave para a travessia de objetos do meu mundo para este. Ela tem a mesma aura, mas concentrada, como se fosse a fonte. Queríamos saber se você, com seus arquivos e pesquisas, sabe algo sobre ela. Algum registro histórico, algum mito…

    Paula examinou a adaga sem tocá-la, sua mente visivelmente acelerando através de catálogos mentais de conhecimento, tratados proibidos, relatos de exploradores.

    — Não… não tenho registros de algo assim. — Ela balançou a cabeça, frustrada. — Sei o mesmo que vocês, talvez menos. Gemas de cor incomum sempre existiram, mas essa vibração… é única. Como a conseguiram?

    Carlos suspirou, um som de frustração e preocupação. Ele fechou a caixa com um click suave, como se quisesse conter a energia estranha que dela emanava.

    — Um imigrante a trouxe. Um jovem, magro demais, cheio de cicatrizes novas sobre as velhas. Mal conseguia falar. Dizia apenas ser um minerador das Gemas Gerais. — Carlos fez uma pausa, seu rosto sério. — Tentamos questioná-lo, mas… ele se fechou. O olhar dele… era o de alguém que viu coisas que a mente se recusa a lembrar. — Ele ergueu os olhos para Paula. — Não insisti. Humanidade antes da curiosidade. Não é a prioridade no momento.

    Ele deixou a frase pairar. O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo significado não dito.

    — A prioridade… — Paula completou suavemente, afastando-se da mesa e voltando a olhar pela janela, para sua cidade, “— é a nossa relação com a Igreja.”

    Ela sentiu um rubor de vergonha e gratidão misturados subir a seu rosto.

    — Eu… sinto muito por isso, Carlos. Por todo esse teatro. E obrigada. Por não ter mencionado o conhecimento que já compartilhou comigo. Foi… leal. Mais do que eu mereço, considerando o papel que preciso desempenhar.

    Carlos sorriu, um sorriso largo e verdadeiro desta vez, que transformou seu rosto e pareceu aliviar um pouco a tensão na sala.

    — A lealdade é uma rua de duas mãos, Paula. — Ele inclinou-se para frente, os cotovelos sobre a mesa. — E por falar em compartilhar conhecimento… tenho mais um. Um presente. Quero que você o espalhe pelo mundo. Com seu nome, seu crédito, sua credibilidade, será aceito e implementado rapidamente.

    Ele ergueu um dedo, seu olhar ficando sério.

    — Mas desta vez, você dirá que foi uma descoberta em conjunto conosco. Que a República do Brasil colaborou. Nosso nome precisa estar associado a algo bom, não apenas a aço e armas.

    A curiosidade de Paula foi instantaneamente fisgada, afastando qualquer sombra de culpa. Seus olhos brilharam com a famosa centelha de interesse científico.

    — E que descoberta seria essa? Algo médico? Uma nova aplicação da gema de cura?

    — Essa — disse Carlos, virando-se em sua cadeira com um gesto teatral —, será a Ministra da Agricultura, Tassi, quem explicará.

    Tassi, que observava tudo em silêncio absorvente, deu um salto na cadeira como se tivesse sido picada.

    — Eu? Explicar? Aqui? Agora? Mas… Presidente, não seria nosso maior trunfo? A segurança alimentar?

    — Justamente por ser nosso maior trunfo civil — respondeu Carlos, seu tom suave mas firme, pedagógico —, que não pode ficar só conosco. E por ser tão fundamentalmente bom, que o mundo precisa saber. A fome é um inimigo maior que qualquer exército, Tassi. E você encontrou uma arma contra ela.

    Tassi olhou para ele, depois para Paula, que a observava com uma fome intelectual quase palpável, as mãos já se movendo como se estivessem segurando uma pena imaginária. Respirou fundo, sentindo o peso da responsabilidade, mas também o impulso do propósito maior que Carlos acabara de dar à sua descoberta.

    E começou a falar.

    O que se seguiu foi uma explicação apaixonada, vívida, que transformou a sala de reuniões em um campo experimental. Tassi falou com as mãos, desenhando formas no ar. Falou de agrofloresta — não como um conceito abstrato, mas como uma sinfonia de raízes, folhas e flores. Explicou a simbiose, a sucessão natural, o papel de cada estrato. E então, o coração da descoberta: o uso da Gema da Grama não como uma muleta para sustentar plantas artificiais, mas como um catalisador.

    — A magia não é o solo, a água ou o sol — ela explicou, seus olhos brilhando com convicção. — É a mão que planta a semente na hora certa, no lugar certo. Ajuda a montar o sistema, mas depois… o sistema vive por si só. Porque respeita as regras da natureza, apenas acelera seu ritmo.

    Paula escutou, absorvendo, interrompendo apenas para fazer perguntas precisas e incisivas. “E a polinização?” “Como lida com pragas sem magia contínua?” “Qual a taxa de sucesso das sementes da segunda geração?” Em minutos, ela tinha um bloco de anotações coberto de diagramas, fórmulas e observações, sua letra uma mistura frenética de latim científico e português coloquial. O cheiro da tinta fresca se misturou ao incenso.

    Quando Tassi terminou, ofegante mas radiante, a luz na sala já estava avermelhada, anunciando o crepúsculo. Paula baixou a pena, olhando para as páginas preenchidas não como um tratado, mas como uma revelação.

    — Isto é… magnífico — ela sussurrou, reverente. — Uma filosofia. Não é apenas técnica agrícola, é uma forma de pensar a magia. Como uma parceira da natureza, não uma dominadora. — Ela ergueu os olhos para Carlos, uma admiração genuína em seu olhar. — Mas isso me leva de volta a uma dúvida. Por que aceitou o acordo com Orsini tão facilmente? Você não me parece o tipo de homem que entrega seu segredo mais estratégico — o aço — sem lutar até o último recurso.

    Carlos inclinou-se para frente, seus cotovelos apoiados na mesa, os dedos entrelaçados. Seu sorriso agora era estratégico, o sorriso de um general diante de um mapa de batalha, iluminado pela luz âmbar do pôr do sol.

    — Porque o acordo é uma ficção, Paula. Uma cortina de fumaça. — Sua voz era baixa, clara. — Orsini acha que ganhou tempo para que Alba dê um veredito. Eu ganhei tempo para agir.

    Ele fez uma pausa, deixando as palavras ecoarem.

    — Simples. Basta tomarmos Areia Branca antes que a Igreja ou Portugal possam cortar nosso comércio. Com nosso próprio porto, nosso próprio acesso ao mar… quem precisa de intermediários? Navegaremos nossos próprios navios, venderemos nosso próprio aço. Diretamente.

    O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo distante toque de um sino para a oração da noite. Paula ficou boquiaberta, sua mente de cientista processando a audácia brutal, a simplicidade perversa do plano. Tassi e Espectro trocaram um olhar de puro choque.

    — Você… pretende lançar um ataque militar em larga escala? Contra a segunda cidade mais importante da capitania? — perguntou Paula, finalmente encontrando a voz, que soou rouca.

    — Pretendo garantir a sobrevivência e a soberania da República — corrigiu Carlos, sua voz impassível como a lâmina da adaga roxa. — De qualquer maneira necessária. Areia Branca é a chave. Sem ela, somos um animal enjaulado, dependendo da boa vontade de nossos carcereiros para nos alimentarem. Com ela… somos uma nação.

    O silêncio na sala era tão denso que se podia ouvir o crepitar distante das tochas nos corredores. A luz do crepúsculo tingia tudo de um vermelho-sangue.

    Carlos observou Paula, que estava paralisada, processando a audácia monstruosa e lógica do que ouvira. Ele se inclinou para frente ainda mais, sua voz baixando para um tom quase confessional, mas com uma ponta de aço.

    — Eu te pergunto, não como presidente para papisa, mas como Carlos para Paula… Você é leal a essa Igreja… ou é leal a Deus? A essa máquina de poder, dinheiro e controle… ou ao ato divino da criação, da descoberta, da cura que você pratica todos os dias no seu laboratório?

    — Paula — ele disse, seu nome soando como uma pergunta e uma afirmação ao mesmo tempo. — Você é uma pessoa de ciência. De lógica. Então deixe-me ser absolutamente claro, pois acho que você merece isso, depois de tudo.

    Ele fez uma pausa, seus olhos fixos nos dela, que eram agora dois poços de conflito no rosto pálido.

    — Você não está apenas escolhendo entre dois aliados políticos. Você está escolhendo entre duas visões de futuro. — Ele gesticulou suavemente. — Uma: a Igreja mantém seu monopólio, nós entregamos nossos segredos, e nos tornamos uma oficina controlada, uma curiosidade exótica que será sugada até a medula e depois descartada quando não for mais útil. Nossa morte lenta, em troca da sua sobrevivência temporária dentro de uma gaiola dourada.

    Ele então apontou para a janela, na direção de onde seu povo estava.

    — Dois: nós prosperamos. Nós criamos. Nós descobrimos. E nós compartilhamos — como você viu hoje — o que é bom, não apenas o que é lucrativo. Criamos um mundo onde a ciência que você tanto ama não precisa se esconder atrás de dogmas, mas pode andar de mãos dadas com a fé verdadeira, não a institucional.

    Ele deixou a pergunta pairar, pesada, no ar entre eles. Os olhos de Paula estavam bem abertos, a luta interna visível em seu rosto.

    — Porque no fim — continuou Carlos, sua voz quase um sussurro agora —, você não está escolhendo entre o certo e o errado. Está escolhendo entre a nossa vida… e a nossa morte. E a sua vida, Paula. A vida da sua mente, do seu trabalho. Você acha que homens como Orsini, como Henrique, vão deixar você brincar com seus microscópios e gemas quando tiverem o que querem? Você será a primeira a ser silenciada, porque sua mente é a arma mais perigosa que eles não controlam.

    Ele recostou-se, o som da cadeira rangendo sendo abrupto no silêncio.

    — O aviso não é uma ameaça. É um diagnóstico. Eu vejo o câncer que cresce na sua própria instituição. E estou te dizendo: você pode tentar cortá-lo de dentro, e ser devorada no processo… ou pode ajudar a construir algo novo do lado de fora, onde a doença ainda não chegou.

    Paula não conseguiu falar. Sua mão tremia levemente onde repousava sobre as anotações sobre agrofloresta — o símbolo do “bom” que Carlos prometia. As palavras dele ecoavam em seus piores medos, suas suspeitas mais profundas sobre os rumos que Alba estava tomando.

    — Eu… — ela começou, mas a voz falhou.

    — Não precisa me dar uma resposta, apenas pense nisso, temos tempo afinal.

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