Capítulo 113 - Volta a Casa
A viagem de volta, sob um céu noturno salpicado de estrelas, foi mais silenciosa, mas eletrizada pela conversa que haviam tido. O ar noturno, mais fresco, trazia o cheiro da terra úmida, da vegetação noturna e o canto constante dos insetos. As lanternas das carroças balançavam, projetando sombras dançantes no caminho.
Dentro da carroça, Tassi quebrou o silêncio, sua voz um sussurro no escuro.
— Obrigada, Carlos. De verdade. Por ter confiado em mim para explicar. E por… por ter feito o que fez. Doar o conhecimento. Não esperava por isso.
— Nem eu esperava tomar essa decisão — admitiu ele, observando as silhuetas das árvores contra o céu estrelado. — Mas pensei: de que adianta vencer a batalha contra a fome apenas dentro de nossas fronteiras, se o mundo lá fora continua a morrer por ela? E se um dia nossa república cair… que pelo menos essa ideia sobreviva. — Ele fez uma pausa. — Além disso, não vamos precisar daquele trunfo agrícola para negociar. Precisamos dele para crescer, para sermos fortes por nós mesmos.
Espectro, que até então mantivera seu silêncio habitual, falou, sua voz grave cortando a noite como uma lâmina.
— Presidente, com todo respeito, acho que foi um erro tático aceitar aquele acordo com tanta facilidade. Mesmo como fachada. Dá a eles uma sensação de vitória, de controle. — Ele fez uma pausa, escolhendo as palavras. — E tomar Areia Branca… em semanas ou meses… é uma empreitada de loucos. O caminho é longo, cheio de povoados fortificados, estâncias com capangas. O governador será alertado no primeiro movimento. Será um cerco longo, um banho de sangue, se conseguirmos.
Carlos assentiu, seu rosto sério iluminado intermitentemente pela luz tremula da lanterna.
— Tem razão. É um plano arriscado. De altíssimo risco. Por isso… tenho um Plano B.
— Plano B? — perguntou Tassi, inclinando-se para frente, seu rosto aparecendo e desaparecendo nas sombras.
Carlos não disse nada. Apenas apontou com o queixo, de volta para o leste, para onde um brilho fraco no horizonte marcava a localização da Cidade Sagrada de Santa Maria, suas luzes noturnas como um cintilação tentadora.
— Uma cidade portuária… — murmurou Espectro, a compreensão chegando com um golpe frio que pareceu baixar a temperatura ao seu redor. — Já conectada à Mata da Onça por trilhas que nossos batedores conhecem… e logo por uma estrada de concreto larga o suficiente para marchar um exército.
— Exato — confirmou Carlos, sua voz impassível, seus olhos fixos naquela luz distante. — Defesas conhecidas. Layout estudado através do comércio. Uma governante… compreensiva. Seria rápido. Quase limpo.
Tassi ergueu-se de seu assento, a carroça balançando com o movimento brusco.
— Você vai trair a Papisa?! Nossa maior — nossa única — aliada de verdade lá fora?!
— Vai transformar a Igreja Católica na nossa inimiga mortal! — completou Espectro, sua voz raramente tão emotiva, quase um sibilo. — Eles não são como os portugueses, Carlos! Eles aniquilam heresias. Têm guerreiros divinos que fazem os nossos parecerem crianças brincando. Têm recursos que atravessam continentes. Têm uma autoridade que faz reis tremerem. É um suicídio!
— Não vou trair a Paula — interrompeu Carlos, sua voz cortante e baixa, mas carregada de uma férrea determinação que silenciou os dois. — Avisarei a ela com semanas de antecedência. Aliás, por isso que comentei aquilo com ela, para ela já pensar sobre isso. Também darei tempo para ela e seus leais, seus livros, seus instrumentos, evacuarem para um lugar seguro. Deixarei a cidade intacta para ela. — Ele fez uma pausa, medindo o impacto de suas próximas palavras. — Acho que o que ela mais quer na vida não é um título ou uma cidade, mas um laboratório. Um lugar tranquilo, longe da política asfixiante de Alba, onde possa pesquisar em paz. Eu posso dar isso a ela. Em outro lugar.
Ele voltou-se para encarar a escuridão à frente, como se visse os navios que ainda não existiam.
— Quanto a nos tornarmos inimigos da Igreja… sim, eles têm poder. Guerreiros divinos. Navios. Ouro. Mas esses guerreiros teriam que cruzar o oceano Atlântico. Teriam que desembarcar em uma costa que nós controlaríamos. E acho que navios equipados com canhões de alma — canhões de aço que nós projetamos e fabricamos — devem ser uma dissuasão bastante… convincente. O papa pode ter autoridade divina, mas até um cardeal afunda se seu navio for atingido abaixo da linha d’água.
— Mas… — Tassi e Espectro começaram juntos, o protesto brotando do medo e da lealdade.
— Isso é apenas o Plano B — Carlos finalizou, sua voz adquirindo um tom de resolução inabalável, a voz do homem que atravessou mundos e não temeria queimar pontes neste. — O Plano A ainda é tomar Areia Branca. Concentrar nossas forças, nossa tecnologia, nossa surpresa, em um golpe rápido e decisivo. E não acho isso impossível. Temos armas que eles nem concebem. Temos uma disciplina que milícias coloniais não conhecem.
— Temos um motivo — a sobrevivência — que torna homens comuns em heróis — completou Carlos, fechando o punho sobre o joelho. — E temos algo que nem Orsini, nem o governador, nem o próprio papa podem comprar: a certeza de que não temos para onde recuar.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Não era mais de choque, mas de absorção. O peso brutal da lógica de Carlos assentou-se sobre eles como a própria noite.
Tassi encostou-se no banco de madeira áspera, seus olhos perdidos na escuridão que engolia o caminho atrás deles. “Não temos para onde recuar”, ecoou em sua mente. Era verdade. O quilombo não era mais um esconderijo. Era uma nação declarada. Uma bandeira içada. E bandeiras atraem canhões.
— E a Paula? — perguntou Tassi, sua voz mais contida agora. — Você realmente acha que ela vai ficar do nosso lado, depois de… de tudo que você insinuou? De praticamente dizer que a Igreja dela é um câncer?
Carlos soltou um longo suspiro, que se misturou ao ranger das rodas.
— Não espero que ela fique do nosso lado. Espero que ela fique do lado da sobrevivência do seu trabalho. Do lado da possibilidade de continuar suas pesquisas sem um cardeal respirando em seu pescoço. — Ele olhou para ela. — Hoje, dei a ela uma escolha entre dois futuros. Num, ela é uma ferramenta descartável de Alba. No outro… ela é a fundadora de uma nova ciência. Cientistas, no fundo, são construtores. E eu ofereci a ela a chance de construir algo que sobreviverá a ela, em vez de apenas servir a algo que a consumirá.
Espectro falou novamente, seu tom agora mais analítico, de estrategista processando variáveis.
— Então o aviso que você deu a ela… não foi sobre nossos planos militares. Foi um teste. Para ver se ela prioriza a instituição… ou a obra.
— Exatamente — confirmou Carlos, um leve sorriso de aprovação tocando seus lábios. — Se ela correr para Orsini amanhã, saberemos que, no fundo, ela é apenas mais um peão no tabuleiro da igreja. Mas se ela ficar quieta, se pensar, se começar a questionar… então temos uma aliada verdadeira. Não por lealdade a nós, mas por lealdade à própria busca pelo conhecimento.
A carroça passou por uma vala mais funda, jogando todos para o lado. O movimento brusco pareceu sacudir o raciocínio.
— E se ela falhar no seu teste? — insistiu Tassi, a pragmática. — Se ela denunciar nossos planos para Areia Branca?
— Então aceleramos o cronograma — respondeu Carlos, sem hesitar. — E o Plano B deixa de ser uma contingência. Vira a ordem do dia. Porque se ela nos trair, significa que a Cidade Sagrada se tornou uma base inimiga em nossa retaguarda. E isso… é inaceitável.
A frieza da declaração pairou no ar. Não era crueldade. Era a aritmética despojada da guerra. A carroça continuou seu caminho, cada balanço parecendo levá-los mais para dentro da incerteza, mais para longe da inocência que o quilombo talvez ainda guardasse.
Espectro assentiu lentamente, finalmente parecendo convencido — ou pelo menos, resignado à lógica inexorável do presidente.
— Então monitoramos. Os mensageiros. Os pombos. Os viajantes que saem de Santa Maria. Qualquer sinal de que nosso “acordo” com Orsini foi comunicado a alguém que possa agir contra nós.
— Isso — disse Carlos. — E nos preparamos. Para os dois cenários. Para a batalha em Areia Branca… e para a possibilidade de termos que voltar nossas armas para o leste, para a cidade que hoje nos recebeu com sorrisos cautelosos.
O restante da viagem transcorreu em um silêncio pensativo. As estrelas giravam lentamente acima, testemunhas indiferentes aos planos de homens e mulheres que disputavam um pedaço de um mundo vasto. Carlos olhou para trás uma última vez. O brilho de Santa Maria já havia desaparecido atrás das colinas e da cortina da noite.
Ele não havia mentido para Paula. Oferecera uma escolha. Mas também não dissera toda a verdade. Porque a verdade mais profunda era esta: na luta pela sobrevivência de seu sonho — a República, um lugar onde pessoas como ele, como Tassi, como todos os que haviam sido descartados pudessem respirar livres —, todas as cidades, sagradas ou não, eram peões. E ele, Carlos, o homem de outro mundo, estava aprendendo a jogar o jogo mais perigoso de todos: o jogo dos tronos, dos altares e dos canhões.
A mata os recebeu de volta, seus cheiros familiares de terra úmida, folhas podres e liberdade precária envolvendo o comboio. Eles voltavam para casa. Mas agora carregavam consigo um segredo a mais, um plano sombrio, e a esperança frágil de que uma papisa cientista, em sua torre de conhecimento, escolhesse construir o futuro em vez de preservar o passado.
O destino da República, Carlos percebeu olhando para as primeiras palhoças do mocambo surgindo na escuridão, não seria decidido apenas nos campos de batalha. Seria decidido também nos corredores silenciosos de uma catedral, no coração conflituoso de uma mulher dividida entre fé e razão, entre lealdade e liberdade.
A partida estava apenas começando.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.