Capítulo 114 - Fim da Passividade
O ar frio da madrugada nordestina entrava nos pulmões de Nzambi como lâminas finas. Cada inspiração doía, cada expiração saía como uma nuvem fantasma na penumbra pré-alvorecente. Ele corria, ou melhor, tentava correr — seus pés pareciam de chumbo, arrastando-se na terra batida do pátio de treinamento. O novo quartel do Exército da República, incrustado no coração do Mocambo do Tatu, era um monstro de concreto que mal conhecia a sombra. Os altos muros cinzentos, pareciam observá-lo com indiferença enquanto ele completava mais uma volta interminável.
“Eu não aguento mais”, o pensamento martelava em sincronia com seus passos pesados. “Um mês. Um mês inteiro dando voltas como um cavalo amarrado num moinho. Eu me alistei para lutar, não para virar um atleta de circo.”
Seus músculos das pernas queimavam, uma dor surda e familiar que se instalara como um inquilino indesejado nas últimas semanas. O suor escorria por suas costas, grudando a camisa de algodão áspero do uniforme na pele. O cheiro do próprio esforço — salgado, ácido — misturava-se ao aroma onipresente do cimento fresco e da terra úmida do canteiro de obras que o mocambo havia se tornado.
Mas, mesmo ofegante, uma parte mais racional de sua mente tentava conter a revolta.
“Não posso reclamar”, ele se lembrava, forçando-se a pensar nas mãos da Irmã Luzia — negras como as dele — canalizando a luz suave da Gema da Cura sobre o braço que ele torcera no primeiro dia de treinamento. Nunca, em toda sua vida, vira alguém de sua cor usando uma gema sagrada para curar. Pois ela só eram usadas pela igreja.
Ele passou correndo (ou trotando desesperadamente) por uma fileira de novas construções. A “gosma cinza” — o cimento, como aprenderam a chamar — escorria das betoneiras de madeira, sendo espalhada por operários com roupas tão sujas quanto as deles, mas com um brilho diferente nos olhos. Estruturas esqueléticas de madeira e ferro ganhavam carne de pedra líquida, subindo em um ritmo que beirava o sobrenatural.
“Todo dia é isso”, pensou Nzambi, desviando de um carrinho de mão carregado de areia. “Constrói, derruba, reconstrói maior. Essa cidade não para de crescer.” Seus olhos pousaram em uma fileira de prédios quase prontos, com janelas quadradas e fachadas lisas. “Os ‘apartamentos’… são bonitos, mesmo. Muito mais que meu barraco de taipa lá atrás.” Uma centelha de ambição, pequena e tímida, acendeu-se nele. “Quem sabe… quando eu for promovido a Cabo… consiga alugar um cômodo num desses. Ter uma porta de verdade, um teto que não deixe entrar a chuva…”
Sua rota de corrida o levou para perto da borda leste do mocambo. Lá, uma estrutura colossal dominava a paisagem. A Cisterna. Um cilindro de concreto que já tinha a altura de cinco homens empilhados e ainda crescia, dia após dia. Os andaimes de bambu pareciam teias de aranha gigantescas contra o céu que clareava.
“Dizem que isso vai levar água direto para os apartamentos”, ele ruminou, incrédulo. “Como um rio domesticado, correndo dentro das paredes. Coisa de rei… mas sem magia. Só… engenharia como falam.” A promessa era tentadora. “Só os apartamentos novos vão ter essa água, disseram na praça. Mais um motivo para eu me destacar. Para eu merecer algo melhor.”
Finalmente, depois de voltas que pareciam uma penitência eterna, o apito estridente do Sargento ecoou no pátio. Um suspiro coletivo, mais de alívio do que de exaustão, percorreu a fileira de corredores. Cambaleando, Nzambi seguiu o fluxo de homens de volta para dentro dos altos muros do quartel. O portão de ferro rangia ao se fechar atrás deles, o som final de um ritual diário.
Dentro do pátio interno, o ar era mais abafado, carregado do cheiro de suor seco, couro polido e a sopa de feijão que já fervia nas cozinhas distantes. Nzambi se apoiou contra a parede fria de concreto, sentindo o tremor nas pernas diminuir para um latejar suave.
“Pelo menos hoje não vou desmaiar”, ele pensou, com um resquício de orgulho. “Na primeira semana, eu jurava que ia morrer. Quase desisti umas dez vezes.” Ele olhou para as mãos, calejadas agora, as unhas sujas de terra. Eram mãos diferentes das que tinham chegado — mãos que sabiam segurar uma pá, uma enxada, uma arma. Ainda tremiam, mas de cansaço, não mais de medo puro.
Enquanto os soldados recuperavam o fôlego, bebendo água de cantis de couro e esfregando os músculos doloridos, um homem subiu no pequeno palanque de madeira no centro do pátio. Não era o Sargento habitual. Era o Major Kato, um homem alto, de cicatrizes que contavam histórias silenciosas no rosto e um olhar que parecia furar a alma.
A quietude caiu sobre o pátio como um cobertor pesado. Todos se alinharam rapidamente — uma disciplina que no início fora caótica, mas que agora fluía com a naturalidade assustadora de um instinto de sobrevivência coletivo.
— Atenção! — a voz do Major não era um grito, mas uma serra cortando o silêncio. Todos se endireitaram. — Boas notícias, soldados. Acabou a mamata.
Nzambi sentiu um frio na espinha que não tinha nada a ver com a madrugada.
— A partir de hoje — continuou o Major, caminhando lentamente na frente do palanque, seus olhos percorrendo cada rosto —, vocês param de brincar de soldado. Vocês vão ser soldados. O Corpo de Forças Regulares tem sua primeira missão: auxiliar o Corpo de Forças Especializadas na libertação de um engenho a nordeste daqui.
Um murmúrio percorreu as fileiras. Nzambi viu os olhos ao seu redor — alguns se arregalando de medo, outros estreitando-se com determinação, outros ainda brilhando com a chama da vingança adiada.
— Não caiam no conto do vigário — o Major advertiu, como se lesse seus pensamentos. — Vocês são apoio. Cobertura. Retaguarda. Os Especializados vão entrar primeiro, abrir o caminho. Mas não se acostumem. — Ele fez uma pausa dramática. — Quando as novas armas chegarem das fábricas, nós seremos a ponta da lança. E eles é que vão nos cobrir. Entendido?
— SIM, MAJOR! — o rugido em uníssono ecoou contra os muros.
Nzambi abriu a boca para gritar, mas o som que saiu foi mais um sopro rouco. Seu coração batia forte contra as costelas. “Lutar. De verdade.” A ideia era abstrata, até então. Um fantasma distante. Agora, tinha data e hora.
“Aquela adaga…”, o pensamento intrusivo e sombrio surgiu. “Seria perfeita para uma emboscada noturna. Silenciosa. Letal.” Ele sacudiu a cabeça, como para espantar uma mosca. “Chega! Não quero nem lembrar daquela coisa. Cansei de me cortar, de sangrar por ela.” Suas mãos, por instinto, foram às cicatrizes no antebraço esquerdo — marcas finas e paralelas, feitas por ele mesmo em noites de desespero. “As cicatrizes que eles me deram são piores. E eu fugi. Deixei todo mundo para trás. Sou um covarde.”
O medo, velho conhecido, começou a enrolar suas garras geladas em seu estômago. Suas pernas, que minutos antes apenas tremiam de cansaço, agora ameaçavam ceder por puro pânico.
“Pelo menos…”, ele tentou se agarrar a qualquer fio de esperança, “…pelo menos não somos a primeira linha. E essa arma… essa espingarda… ela atira de longe. Eu não preciso chegar perto. Não preciso olhar nos olhos de ninguém.”
Era um consolo fraco, mas era tudo que ele tinha.
***
A floresta à noite era um ser vivo e hostil. Cada galho quebrado sob suas botas soava como um tiro. Cada farfalhar de folhas parecia o sussurro de um capataz se aproximando. O cheiro era de terra molhada, folhas podres e um medo coletivo e sudorento que impregnava o ar. Nzambi estava deitado de bruços na grama úmida, a umidade do solo penetrando seu uniforme, um frio que ia até os ossos. A escuridão era quase total — apenas lascas de luz de lua filtravam pela copa das árvores, criando sombras que se contorciam como criaturas malignas.
“Merda, não enxergo nada”, ele pensou, seus olhos arregalados tentando furar a escuridão. “Nem minha mão na frente do rosto.” A única orientação era o som baixo da respiração do homem ao seu lado e as instruções sussurradas que vinham de algum lugar à frente. Os Adeptos da Visão, com suas gemas, deviam estar vendo tudo como se fosse dia. Inveja, amarga e inútil, surgiu em sua garganta. “Uma gema útil… qualquer uma seria melhor do que aquele tormento roxo que eu carregava.”
Um movimento súbito à frente. O Tenente Silva, um homem magro com uma gema azul-clara pulsando em seu ouvido — a Gema do Som — ergueu um braço, um vulto mais escuro contra a escuridão.
— Parem! — a ordem veio em um sussurro que, graças à gema, chegou nítido aos ouvidos de cada homem na linha.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que Nzambi pôde ouvir o sangue pulsando em seus próprios ouvidos. Então, depois de um eternidade de segundos:
— Avancem! — o sussurro novamente.
Eles rastejaram para frente, uma centopeia humana lenta e silenciosa. Nzambi sentiu raízes e pedras contra seu corpo, o gosto da terra na boca. Seu fuzil — um tubo pesado de metal e madeira — arrastava-se ao seu lado, sempre uma extensão incômoda de seu braço.
A silhueta baixa do engenho começou a se desenhar à frente, mais uma mancha de escuridão absoluta contra o céu levemente menos negro. O cheiro mudou — agora havia o odor adocicado e pesado da cana fermentada, misturado ao fedor de estrume e ao fumo de lareiras distantes.
— Preparem-se — veio a voz do Tenente, tensa como uma corda de arco. — Ao meu sinal… atirem.
Nzambi engoliu em seco. Seus dedos, frios e trêmulos, executaram o ritual treinado até a exaustão. Pólvora no cano. Esferas de chumbo. Cartucho de papel. A baioneta com a ponta de ferro. Cada movimento era mecânico, cada segundo um século. Ele sabia que, em breve, haveria armas que não precisariam desse ballet lento e perigoso. Mas no momento, aquela era sua dança.
Ele se deitou de bruços novamente, a coronha fria da arma encostada em seu ombro, o cano apontando para o vulto do engenho. A espera era a pior parte. A escuridão, o silêncio, a imaginação correndo solta…
Então, o mundo explodiu.
Não do jeito que ele esperava. Um clarão laranja vivo rasgou a noite do lado oposto do engenho. Uma bola de fogo do tamanho de uma carroça voou em um arco perfeito e silencioso, batendo contra a fachada branca da casa-grande com um WHUMP abafado e uma explosão de madeira estilhaçada e telhas voando. A luz momentânea revelou a cena: a casa imponente, os armazéns, as senzalas baixas.
Nzambi ficou pasmo. “Mas… que ataque é esse? Chamando atenção desse jeito? Era para ser uma surpresa!”
Da casa-grande em chamas, surgiram vultos aos tropeções. Gritos furiosos, indistintos pela distância, rasgaram a noite. O senhor do engenho, de camisola, empunhando o que parecia uma espada, liderava um bando de capatazes armados com foices, facões e algumas mágicas. Eles corriam em direção à origem do ataque de fogo, que agora continuava: mais bolas de fogo, menores, eram lançadas, mas de forma errática, quase teatral, sempre caindo perto o suficiente para irritar, mas longe o suficiente para não causar muitas baixas.
O Adepto do Fogo — um vulto ágil — apareceu brevemente iluminado por sua própria magia, depois se virou e saiu correndo para as sombras da floresta, longe da posição de Nzambi. Os homens do engenho, cegos pela raiva e pela confusão, correram atrás dele como um enxame de vespas enfurecidas.
“Ele está… levando eles para cá”, Nzambi percebeu, o sangue gelando em suas veias. “Diretamente para nós!”
Os capatazes, ofegantes e aos berros, entraram no claro da floresta, não a mais de vinte passos da linha onde Nzambi e seus companheiros estavam escondidos. Ele podia ver os rostos suados, os olhos selvagens, o brilho dos facões à luz das chamas distantes. O cheiro do suor deles, do álcool e da fumaça chegou até ele.
— FOGO! — o grito do Tenente Silva foi um rugido que aniquilou qualquer dúvida.
Nzambi não pensou. Seu dedo, treinado por semanas de repetição, puxou o gatilho.
O mundo reduziu-se a um trovão ensurdecedor que saiu da boca de seu cano, um coice violento no ombro, e um flash cegante que, por uma fração de segundo, iluminou a cena de pesadelo à sua frente. A linha inteira cuspiu fogo e fumaça. O som foi apavorante — um estouro coletivo que abalou a terra.
Na clareira, o efeito foi devastador. Homens caíram como bonecos com os fios cortados. Gritos de dor e surpresa substituíram os de raiva. O senhor do engenho foi atingido no peito e jogado para trás como um trapo. Vários capatazes tombaram, mas alguns, mais rápidos ou mais sortudos, se jogaram no chão ou atrás de árvores.
Nzambi, com os ouvidos zunindo, via através da fumaça acre de pólvora que enevoava a clareira. Um capataz, com o braço sangrando, se levantou com um rosnado, seus olhos encontrando os de Nzambi. Era um homem grande, com um facão que refletia as chamas.
“Merda!”, o pensamento foi um clarão de pânico puro. O instinto gritou para ele se virar e correr. Desertar. Salvar-se. Mas a memória das consequências — a vergonha, a cela, talvez a execução — o prendeu ao chão mais firmemente que qualquer raiz.
Por sorte, antes que o capataz pudesse dar dois passos, o ar à sua frente se encheu de relâmpagos coloridos. Flechas de fogo que sibilavam, jatos de gelo que estalavam, vinhas espinhosas que brotavam do solo para enroscar-se em seus tornozelos. O ataque combinado dos Adeptos do Corpo Especializado foi preciso e arrasador. O capataz gritou, lutando contra as chamas e os espinhos.
Foi a deixa que Nzambi precisou. Seus dedos, agora movidos por um misto de terror e automatismo, começaram o lento e agonizante processo de recarga. Pólvora. Esfera. Cartucho. Esporão. Cada segundo sob o olhar furioso do homem em chamas era uma eternidade.
— DISPAREM! — a ordem veio novamente.
Outra saraivada de tiros partiu da linha. Desta vez, mais coordenada. O capataz e os outros sobreviventes foram varridos. O silêncio que se seguiu ao rugido das armas foi mais assustador que o barulho em si. Quebrado apenas pelos gemidos dos feridos e pelo crepitar distante do fogo na casa-grande.
Está foi a primeira vitória da República.

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