Capítulo 115 - Esperança Parte I
O despertar de Luiza não começava com a luz, mas com o cheiro. Uma sinfonia nauseante que havia se tornado a trilha sonora de sua existência: o odor doce-azedo da cana fermentada, que impregnava até a água turva que bebiam; o mofo úmido da palha podre que servia de cama e travesseiro; o fedor pungente do balde coletivo no canto mais escuro da senzala — um tonel de madeira rachado, sempre transbordando, onde a vergonha de homens, mulheres e crianças se misturava num líquido amarelo e fétido que atraía nuvens de moscas; e por cima de tudo, o cheiro acre do suor velho, do medo suado e da desesperança que parecia emanar das próprias paredes de taipa, tão denso que se podia quase saboreá-lo na língua, um gosto metálico de humilhação permanente.
Ela abria os olhos no escuro absoluto, mas o mundo já se anunciava ao seu nariz e à sua pele. O corpo, antes mesmo da mente, já se encolhia em previsão da dor que viria com o movimento. Ao seu lado, a forma pequena e quente de Jonas. Sete anos? Oito? O tempo no cativeiro era medido em ciclos de colheita e em cicatrizes, não em aniversários. Seus dedos, nas trevas, encontraram primeiro os calos duros e irregulares na palminha da mão dele — calos de criança, formados por segurar o cabo da foice auxiliar e carregar feixes pequenos demais para seus ombros estreitos. Uma foice que ele, com seus olhos grandes e assustados, já manuseava com uma destreza trágica. A dor no peito de Luiza era mais cortante que qualquer lâmina. Depois, seus dedos subiam para tocar o rosto macio, a respiração tranquila roubada ao cansaço. Esse toque, furtivo e roubado no reino do escuro, era seu único tesouro, seu elo frágil com algo que ainda poderia ser chamado de humano.
O sino do capataz soou lá fora, um som metálico que não anunciava, mas ordenava o dia. Rasgou o silêncio e esfaqueou diretamente o centro do medo adormecido. Gemidos surdos, tosses roucas e o som de corpos se arrastando na palha encharcada preencheram a escuridão. O ritual do terror começava.
— Mãe… — o sussurro de Jonas, carregado de um sono que nunca era reparador e de um medo que ele já conhecia como a palma da própria mão calejada.
— Silêncio, coração — ela respondeu, a voz um farfalhar áspero, como de folhas sob um sapato. Falar era um risco calculado. A voz podia navegar na escuridão e encontrar o ouvido do Birico, o feitor, cujo mau humor matinal era uma tempestade previsível, alimentada por cachaça barata e uma crueldade que parecia seu único prazer.
Fora, o Engenho “Paraíso” se revelava sob um céu que começava a desbotar de negro para um azul sujo. A senzala era um caixão comprido de taipa, com um chão de terra tão batido que estava duro como pedra. A promiscuidade era mais uma ferramenta de controle, uma humilhação constante. Homens, mulheres, crianças — todos amontoados, sem privacidade, sem sombra de dignidade. A casa-grande, branca e imponente no alto da colina, parecia um crânio gigante observando com janelas vazias.
Na fila pela ração, Luiza sentia o peso do olhar de Birico como um inseto rastejando em sua nuca. Ele passava, seu chicote de couro trançado com tiras de metal batido balançando como o pêndulo de um relógio que marcava apenas sofrimento. Seus olhos mortiços percorriam os corpos das mulheres, avaliando, possuindo sem tocar. Ela baixava a cabeça, fazendo-se ainda menor, desejando que a terra do chão a engolisse.
A tigela de angu frio, uma pasta cinza e insípida que mais parecia argamassa, e o naco de carne salgada, tão dura que poderiam martelar um prego com ela, eram sua parcela diária de sobrevivência. Jonas engolia o seu com uma voracidade animal que partia o coração de Luiza em mil pedaços afiados. A fome era um parasita que vivia dentro deles, roendo as entranhas dia e noite.
No canavial, o inferno se pintava de um verde opressivo. O sol nascia não como luz, mas como um peso físico. Um calor úmido e oleoso descia, misturando-se ao cheiro doce e podre da cana esmagada na moenda distante. O ar ficava espesso, difícil de puxar para dentro dos pulmões que já desistiam de respirar fundo. O som era o das folhas afiadas como lâminas de barbear cortando braços e rostos desprotegidos, o thump surdo e monótono dos feixes sendo jogados no chão, os gemidos abafados que eram rapidamente engolidos, transformados em mais um nó de dor na garganta.
Luiza trabalhava. Seus músculos, magros e cordeados como cipós secos, moviam-se por memória ancestral do sofrimento. Suas mãos, calejadas, rachadas e pontilhadas de cicatrizes brancas e rosadas de cortes antigos e novos, agarravam a foice com uma firmeza desesperada. Cada movimento era uma guerra privada contra a exaustão total.
Mas sua mente voava. Voava para as histórias sussurradas de sua avó, falando de uma terra com rios tão largos que você não via a outra margem, de noites cheias do pulsar dos tambores, não do grito dos castigados. Voava para o rosto de Ismael, o pai de Jonas, sua expressão de puro terror no último olhar antes de ser puxado pela corrente, dois anos atrás, vendido para cobrir uma dívida de jogo do senhor.
“Queria tanto que meu filho tivesse uma infância…” o pensamento vinha como uma facada, sempre no momento de maior cansaço. “Eu até lembro… lá na roça dos meus pais, a gente ajudava, sim. Mas tinha hora para parar. Hora de brincar na beira do riacho, de ouvir as histórias dos mais velhos… Não era assim. Não até cair no chão e não conseguir mais se levantar.”
Ela olhou para Jonas, curvado sob o peso simbólico de um feixe pequeno, seus olhinhos buscando os dela por um segundo — um olhar que pedia apenas um pouco de alívio, um pouco de esperança que ela já não tinha para dar.
“O maior erro da minha vida foi ter trazido ele para este mundo infernal”, pensou, o remorso um veneno familiar. “Mas foi um acidente… Num noite Ismael como sempre me fazia rir, me fazia esquecer por alguns instantes que éramos propriedade. E então… aconteceu. E agora meu filho paga o preço.”
O dia arrastava-se, um suplício medido em gotas de suor salgado e no latejar crescente nas costas. Até que, no fim da tarde, um gemido mais agudo que o dos talos cortados cortou o ar. Dona Maria, grávida de oito meses, caiu de joelhos na terra batida, as mãos pressionando a barriga enorme e tensa. O suor que escorria de seu rosto agora vinha misturado com lágrimas de dor pura.
O capataz Birico, que farejava fraqueza como um urubu fareja carniça, estava sobre ela em três passadas largas. Seu rosto, já congestionado de raiva e cachaça, contraiu-se num misto de nojo e fúria.
— Vagabunda! — cuspiu as palavras, e o cheiro forte de álcool chegou até Luiza, alguns metros adiante. — Por isso que não dá pra comprar mulher! São preguiçosas, além de ficarem fudendo só pra ficarem grávidas e deixarem de trabalhar!
Antes que qualquer um pudesse reagir, antes que o próprio corpo de Dona Maria pudesse se defender, o chicote de couro trançado com tiras de metal sibilou no ar. O primeiro golpe acertou as costas da mulher, fazendo-a arquear-se com um grito abafado. A camisa de estopa fina se abriu, revelando logo uma linha vermelha e inchada. Birico não parou. O braço levantou-se de novo, o objetivo claro: fazê-la se levantar pelo pavor, ou quebrá-la ali mesmo.
Luiza viu. O sangue pareceu parar de correr em suas veias por um segundo, para logo em seguida ferver com uma violência que a cegou. Um ódio puro, negro e denso, subiu de sua garganta — ódio contra aquele homem, contra sua crueldade sem sentido, contra o sistema que o autorizava, e, de forma mais corrosiva, um ódio voltado para sua própria impotência. Suas mãos, calejadas, apertaram o cabo da foice com uma força que doía. Cada fibra do seu ser gritava para se mover, para se colocar entre o chicote e Dona Maria, para usar aquela lâmina, finalmente, em quem merecia.
Seus músculos tensionaram, os pés descalços se firmaram na terra solta. Ela pensou em gritar. Pensou em correr. Pensou em atacar. Era um impulso primitivo, selvagem, que ameaçou romper todos os anos de submissão forçada. O preço seria a morte, provavelmente de todas as envolvidas. Mas naquele instante, a morte parecia menos aterrorizante que assistir àquilo.
Foi quando o estrondo irrompeu.
Não foi um som que veio do canavial ou do céu. Veio da colina, da direção da casa-grande. Um CRUMP abafado e profundo, que pareceu chacoalhar as próprias entranhas da terra. Foi como se o mundo tivesse dado um solavanco, interrompendo não só o movimento do chicote no ar, mas todos os pensamentos, todo ódio, todo medo, congelando o tempo naquele exato quadro de horror.
Birico parou, o braço ainda erguido, a cabeça virando-se lentamente, com estupor, em direção à fonte do som. A expressão de raiva bestial dissolveu-se em puro espanto. O chicote caiu, frouxo, ao seu lado. Por um segundo, ninguém se lembrou de Dona Maria, da dor, da criança por nascer. Um novo e desconhecido terror, vindo de um lugar que era supostamente seguro e poderoso, havia invadido aquele inferno particular, e todos, opressores e oprimidos, ficaram igualmente paralisados por ele.
Silêncio. Por um longo segundo, apenas o crepitar distante do fogo e o vento carregando o cheiro novo de madeira queimada e aguardente evaporada.
Então, de dentro e ao redor da casa em chamas, surgiram gritos. Gritos de homens brancos. Não eram gritos de ordem ou raiva. Eram gritos de pânico puro, de confusão absoluta. Vultos corriam, apontavam para o nada, tropeçavam nos destroços fumegantes.
Birico, que estava a poucos metros vigiando o canavial, congelou. A máscara habitual de ódio e desdém dissolveu-se, deixando um rosto pálido e bobo de incompreensão. Ele olhou para a casa, olhou para os escravos paralisados, olhou de volta para a casa. Seu cérebro, lento pela cachaça e pela arrogância, tentava processar o impossível. Com um grunhido gutural, ele largou o chicote — que caiu na terra com um baque insignificante — e começou a correr morro acima, rugindo o nome do senhor Ornellas. “Senhor! Senhor Ornellas! Fogo!”
Um a um, os outros capatazes saíram de seus postos e correram atrás dele, formando um bando desorientado que se aglomerou na frente da casa-grande em chamas. Eles se reuniam, apontavam para as janelas despedaçadas, gritavam entre si, tentando entender o que havia acontecido, procurando um inimigo para culpar, um alvo para sua raiva.
— Foi um acidente! O depósito! — gritava um.
— Não foi acidente! Olha o buraco na parede! — berrava outro.
Aglutinaram-se num grupo compacto e barulhento diante da fachada ardente, iluminados pelo fogo dançante, suas sombras se contorcendo no chão como demônios — perfeitos e indefesos.
Foi então que o novo som chegou. Não do fogo, mas da escuridão densa da floresta ao pé do morro. Não era um som único, mas vários. Não era um trovão. Era algo mecânico. Algo mortal. E vinha de múltiplas direções, ecoando na clareira como uma armadilha se fechando.
Então, no grupo de capatazes, o massacre começou.
Um homem, que gesticulava para o telhado, simplesmente teve a cabeça transformada em uma névoa vermelha e osso. Seu corpo caiu como um saco de pedras. Outro, que se virava para olhar a floresta, levou três impactos no peito que o arremessaram contra os degraus de pedra da varanda. Um terceiro gritou quando sua perna desapareceu abaixo do joelho, jorrando sangue escuro que fumegava no chão quente. Não houve heróis, nem duelos. Apenas uma parede invisível de morte que varreu o grupo em menos de dez segundos. A rajada de tiros foi tão rápida e coordenada que parecia ter vindo de uma única besta com cinquenta bocas.
Os poucos sobreviventes, talvez quatro ou cinco, finalmente entenderam a direção do ataque. Com rugidos de fúria e medo que mais pareciam ganidos, eles se viraram para a floresta. Alguns desembainharam facões com mãos trêmulas. Outros, os que tinham gemas, as ergueram, as pedras brilhando com uma luz fraca e desesperada.
— Lá! Na borda! — gritou um, apontando para um vulto entre as árvores.
Um capataz mais corajoso (ou mais bêbado), com uma gema de fogo enfiada num anel grosso, gritou uma praga e lançou uma foice flamejante que silvou em direção às sombras. Outro, com uma gema de força no punho, arrancou uma pedra solta do alicerce carbonizado e a arremessou com força descomunal, que partiu o ar com um som de vento cortado.
Foi o que os atacantes pareciam esperar. No momento em que as magias grosseiras se manifestaram — o clarão alaranjado da foice, o vulto escuro da pedra —, a floresta reagiu. Não com tiros, mas com magia controlada.
Da escuridão, duas flechas de fogo azulado, muito mais precisas e quentes que a foice do capataz, interceptaram a arma flamejante no meio do ar, fazendo-a explodir em uma chuva de centelhas inofensivas. Simultaneamente, uma lança de gelo cristalino brotou do solo e atingiu a pedra em voo, estilhaçando-a em pedaços que caíram como granizo.
Os capatazes, agora completamente desnorteados e divididos entre dois tipos de ataque, hesitaram. Aquele segundo de pânico paralisante foi fatal. Da floresta, o som seco dos tiros retornou. Mais corpos caíram. O último capataz de pé, o da gema de fogo, tentou correr, mas uma raiz grossa como uma cobra brotou do chão e enroscou-se em seu tornozelo, derrubando-o. Um tiro final silenciou seu grito.
Luiza testemunhara tudo em silêncio absoluto, petrificada. Todo o mundo dela — um mundo de dor previsível, de opressão constante — tinha virado de cabeça para baixo em minutos. Ela vira seus opressores serem atraídos, reunidos como cordeiros para o abate, e massacrados com uma frieza e uma eficiência que era ao mesmo tempo terrível e… maravilhosa. Uma parte profunda dela, uma parte que ela pensava ter morrido com Ismael, vibrou com cada capataz que caía.
Ainda perdida, ainda sem entender se aquilo era salvação ou uma nova forma de condenação, ela viu os atacantes emergirem da floresta.
Eles surgiram não como uma horda desordenada, mas como uma linha de sombras organizadas que se materializavam da escuridão. Seus uniformes eram de um verde musgo e verde-escuro que pareciam fundir-se com a folhagem atrás deles, tornando-os fantasmas até o último instante. Moviam-se em silêncio, com uma eficiência assustadora, comunicando-se apenas com gestos curtos das mãos.
Os soldados não comemoraram. Não gritaram vitória. Eles se espalharam com um propósito claro: dois verificavam os corpos dos capatazes com a ponta da botas, garantindo que nenhum representasse mais uma ameaça. Outros três subiram os degraus da casa-grande, desaparecendo na fumaça para garantir que o interior estava vazio. Um deles, perto da base, fez um gesto circular com a mão para a floresta.
E então, e só então, quando a ameaça imediata foi erradicada e o controle do local estabelecido, eles se voltaram para o canavial.
Luiza e os outros escravos haviam testemunhado tudo em um silêncio tão denso que doía nos ouvidos. Agora, os vencedores se aproximavam.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.