Capítulo 116 - Esperança Parte II
Vários soldados desceram a colina em sua direção. Ainda em silêncio. Seus rostos, iluminados pelas chamas distantes, eram sérios, focados, mas não cruéis. Não havia sorrisos de sadismo, apenas a expressão contida de quem completara uma tarefa difícil. Um deles, um homem mais velho com marcas de queimadura cobrindo um lado do rosto como um mapa de dor antiga.
Ele parou a uma distância segura, mas não ameaçadora, seus olhos escaneando o grupo de escravos aterrorizados. Quando finalmente falou, sua voz era calma, firme, projetada para ser ouvida por todos, mas não era um berro. Era a voz de alguém dando uma ordem que era, inexplicavelmente, também um presente.
— Povo do cativeiro — ele começou, e as palavras soaram estranhas, formais, como de outro mundo, mas o significado era direto como uma flecha. — A violência acabou para vocês. O senhor Ornellas está morto. Seus capatazes estão mortos. O engenho “Paraíso”… — ele fez uma pausa, olhando para as chamas que consumiam a casa-grande, “…deixou de existir.”
Ele fez uma pausa mais longa, deixando o peso das mortes e do fim de uma era assentarem na mente daquelas pessoas que nunca haviam conhecido outro mundo.
— Olhem para mim — ele continuou, batendo no próprio peito com o punho fechado, o som abafado pelo uniforme. — Olhem para nós. — Ele fez um gesto abrangente para os soldados atrás dele, homens e mulheres de várias cores, todos igualmente sérios, igualmente presentes. — Somos o Exército da República do Brasil. Não viemos para tomar nada de vocês. Viemos para dar. Viemos para devolver.
Ele respirou fundo, e sua próxima frase foi dita com uma simplicidade tão brutal que a tornou a coisa mais revolucionária que Luiza já ouvira em toda a sua vida:
— A partir de hoje, a partir deste exato momento… vocês são livres. Não são mais escravos de ninguém. São pessoas livres.
A palavra ecoou no canavial silencioso. Livres. Ela pairou no ar carregado de fumaça, misturando-se ao cheiro doce da cana queimada e ao odor metálico e quente do sangue que começava a chegar até eles. Luiza sentiu as pernas de Jonas tremerem violentamente contra a sua, um tremor que vinha do fundo da alma dele. Ela mesma sentiu um vazio no peito, uma vertigem. Livre. Era um conceito grande demais, pesado demais, abstrato demais, depois de uma vida inteira definida por sua ausência absoluta.
O soldado com a faixa vermelha — um sargento, talvez — viu a confusão, o choque, a incredulidade pura nos rostos à sua frente. Viu os olhos arregalados, as bocas entreabertas, as mãos que ainda seguravam foices com uma força de quem teme que soltar seja a própria morte.
— Não precisam entender tudo agora — ele disse, e seu tom suavizou um pouco, tornando-se quase paternal, mas sem condescendência. — Só precisam saber isto: ninguém vai chicotear vocês. Ninguém vai separar mãe de filho. Ninguém vai vender marido ou mulher. A corrente quebrou. — Ele apontou para as foices. — Podem deixar cair isso. Podem parar de trabalhar. Podem… respirar.
Ele então apontou para o sul, para além da floresta escura.
— Temos um lugar seguro, do outro lado da mata. Temos comida quente esperando. Temos médicos — ele olhou especificamente para uma mulher grávida que segurava a barriga —, para curar feridas, doenças, o que for. E temos trabalho, para quem quiser. Trabalho pago, com salário em dinheiro, todo mês. Mas isso… — ele enfatizou, olhando para cada um, “…é escolha de cada um. A primeira escolha de vocês como pessoas livres.”
Ele ergueu a mão novamente, agora num gesto de convite.
— Agora… quem quiser vir conosco para esse lugar seguro, para ter um teto, comida e começar uma vida nova… dê um passo à frente.
Luiza olhou para Jonas. O menino a fitava, seus olhos eram dois poços negros que refletiam as chamas laranja da casa-grande e, no fundo, um lampejo de algo que ela não via nele há anos: uma esperança tão frágil que parecia prestes a se desfazer ao menor sopro. Ela olhou para suas próprias mãos, para a foice que ainda segurava por puro reflexo muscular, por terror ancestral. O cabo de madeira estava tão polido pelo suor e pelo sangue de incontáveis mãos que parecia feito de osso.
Ela não pensou. O pensamento era um luxo para outra vida, para uma pessoa que ela ainda não era. Seu corpo decidiu por ela. Um comando simples, vindo de um lugar além do medo. Seus dedos, calejados e fortes, simplesmente… se abriram.
A foice caiu no chão com um baque surdo e final, perdendo-se entre os talos de cana, um objeto morto num campo de morte.
E então, com uma mão firme no ombro magro de Jonas, sentindo os ossos dele através da camisa de estopa, Luiza deu um passo à frente. Um único, trêmulo, passo que pareceu atravessar um abismo. Um passo em direção aos soldados verdes, em direção ao homem com o rosto queimado, em direção à palavra monstruosa, assustadora e incrivelmente linda que ele dissera: livres.
Por um momento, nada aconteceu. Então, ao seu lado, a velha Joana, cujos olhos eram quase cegos de tanto catar, deixou cair seu podão. O som metálico ecoou. Ela deu um passo.
O rapaz Samuel, que tinha marcas de queimadura nos braços por ter caído no caldo de cana quando criança, soltou sua foice. Outro passo.
Um a um, como dominós caindo em câmera lenta, outros fizeram o mesmo. Não houve gritos de alegria — ainda não. A emoção era grande demais, pesada demais para isso. O som que preencheu o canavial, sob o céu agora manchado de fumaça e iluminado pelas chamas de um passado que ardia até as cinzas, foi o som de ferramentas do cativeiro caindo no chão. O som de suspiros roucos, presos na garganta por décadas, sendo finalmente soltos. O som de passos hesitantes na terra fofa, pisando não em direção a mais uma fileira de cana, mas em direção a uma linha de árvores que, pela primeira vez, não significava perigo, mas promessa.
Era o som do cativeiro sendo deixado para trás, peça por peça, no silêncio ensurdecedor de um mundo que acabara de nascer.
A confusão e o alvoroço daquela liberdade súbita eram quase tão opressores quanto o próprio cativeiro. Enquanto os soldados organizavam a coluna de pessoas — agora cambaleantes, livres e completamente perdidas —, Luiza sentiu um novo tipo de pânico brotar no peito, cortando a onda frágil de alívio. As chamas altas e impiedosas da casa-grande lançavam brasas ao vento, e um pensamento terrível a golpeou: Dona Celita, a mãe de Ismael. Sua sogra. Não uma senhora, mas uma escrava idosa, cheia de dores nas juntas, que trabalhava no serviço pesado da lavanderia da mansão. Ela tinha um cubículo nos fundos, uma despensa úmida onde dormia entre baldes e sabão. Naquela confusão toda, com explosões e tiros… será que ela tinha conseguido sair?
O medo por Jonas foi ofuscado, por um instante, por uma culpa aguda e esmagadora. “Ismael, meu Ismael, me perdoa se eu deixei sua mãe para trás”, pensou, desesperada. Sem pensar, ela soltou o ombro do filho e correu alguns passos na direção do soldado mais próximo, um jovem de semblante sério que organizava um grupo.
— Por favor! — a voz dela saiu áspera, um sussurro urgente que virou um grito rouco. — Minha sogra… Dona Celita! Ela trabalhava lá dentro, na lavanderia! Ela ainda pode estar lá!
O soldado, em vez de se irritar com a interrupção, baixou a arma e se virou para ela. Seu olhar era firme, mas não era desdenhoso. Ele balançou a cabeça com uma certeza que cortou o desespero de Luiza como uma lâmina fria.
— Fique tranquila. Ninguém foi deixado para queimar naquela casa — disse ele, a voz prática, quase técnica. — Os adeptos da Gema da Visão fizeram uma varredura precisa antes do ataque. É o procedimento. Eles mapearam cada sinal de vida lá dentro. Só quem morreu foi o senhor do engenho e sua esposa.
Luiza ficou paralisada, tentando entender as palavras estranhas. “Adeptos da Gema da Visão” ela não entendia muito de gemas mágicas, só conhecia aquelas que os capatazes usam. “Sinal de vida”. Soavam como magia de outro mundo. O soldado viu a confusão e a angústia persistindo no rosto dela e suavizou um pouco o tom.
— Não conheço essa senhora pelo nome — continuou ele, apontando com o queixo para um caminho lateral que descia da colina em direção ao rio. — Mas esperamos que apenas os donos do engenho e seus capatazes estivesse na casa antes de atacar. Tinha uma senhorinha, magra e curvada dentro da casa, mas só atacamos depois que ela saiu. Ela carregava um grande embrulho de roupas sujas, como se fosse lavar no rio.
O ar saiu dos pulmões de Luiza num suspiro longo e trêmulo. As pernas quase falharam, não de fraqueza.
— Que bom…
O soldado observou a mudança no rosto dela e fez um breve aceno de cabeça.
— Ela deve estar por aí. Agora, volte para o seu filho. Vamos caminhar em direção ao rio. É provável que a encontremos, ou que ela encontre o nosso grupo. O importante é que ela não ficou para trás.
Luiza assentiu, sem conseguir falar. Voltou para Jonas, cujos olhos enormes a observavam, cheios de uma nova pergunta. Ela pegou a mão dele de novo, e o aperto dessa vez foi diferente. Já não era só o gesto de quem protege, mas também de quem compartilha um alívio. Havia um fio de esperança, tênue e real, que não terminava só neles dois. Estendia-se através da mata escura, seguindo o curso do rio para longe do engenho chamado “Paraíso”.
E, guiados pelos soldados de uniforme cor de musgo, Luiza, Jonas e os outros começaram a caminhar. Não mais em fila de trabalho, mas num grupo desordenado de almas libertadas, deixando para trás o cheiro de fumaça e sangue, e carregando consigo, no silêncio ainda atordoado, o novo e leve peso da liberdade e a frágil certeza de que seu mundo, reduzido a quase nada, talvez ainda pudesse ser remendado.

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