Índice de Capítulo

    O primeiro estouro fez Sebastião derrubar a tenaz no chão de terra da forja. O barulho não veio da bigorna, nem de um pedaço de metal superaquecido rachando. Veio da casa-grande. Ele saiu para o pátio, a camisa de linho colada ao peito pelo calor da fornalha, os olhos arregalados.

    A visão era de um pesadelo invertido. A casa-grande, o símbolo imóvel de um poder que ele pensava eterno, vomitava chamas e fumaça para o céu noturno. O rugido que se seguiu, vindo da floresta, não era de fogo. Era de algo novo, mecânico e mortal. Sebastião conhecia os sons do engenho: o ranger das rodas d’água da moenda, o mugir dos bois, os gritos no canavial. Este som era diferente. Era o som do mundo rachando ao meio.

    Sebastião, 52 anos, ferreiro livre, não era um homem do campo de batalha. Seu reino era o fogo controlado, o martelo que obedecia, o ferro que se dobrava à sua vontade. Ele consertava grades, forjava ferraduras, afinava foices. Era respeitado, em sua medida. Tinha uma cabana melhor que a senzala, uma pequena horta, era pago (mal, mas era) pelo seu trabalho. Era um homem do sistema. E o sistema estava pegando fogo.

    Ele viu capatazes caindo como moscas. Assim que não havia mais nenhum capataz sobrando. Eles surgiram da névoa de poeira e fumaça. Soldados. Uniformes verdes surpreendentemente bem cortados. Armas que ele nunca vira — canos longos e brilhantes que falavam de uma metalurgia avançada. E seus rostos… Sebastião contou. Negros e mestiços.

    “Eles devem ser quilombolas…” Pensou ele.

    O estômago de Sebastião embrulhou. O que isso significava para ele? Um ferreiro livre, branco, mas pobre. Não era senhor. Não era escravo. Mas dependia do senhor, será que eles o matariam?

    Os sons de batalha diminuíram, substituídos por um silêncio pesado e sinistro. Ele se escondeu na entrada da forja, seu refúgio, e observou.

    Um deles, um cabo pela insígnia, separou-se do grupo. Seus olhos, inteligentes e avaliadores, percorreram o pátio — a forja, as cabanas dos trabalhadores livres, o galpão de ferramentas — e pousaram em Sebastião. O ferreiro sentiu um calafrio. Era sua vez.

    O cabo parou a uma distância segura. Não ergueu a arma. Ergueu a voz, falando claramente para Sebastião e para os outros rostos que agora espreitavam das portas e janelas: o carpinteiro velho João, o oleiro Manuel e sua família, as lavadeiras.

    — Atenção, gente livre do engenho! — a voz do homem era clara, projetada, sem o sotaque arrastado dos senhores, mas com uma autoridade inegável. — Nós somos o Exército da República do Brasil. O senhor Ornellas está morto. Estas terras agora são da República.

    Morte. Posse. Palavras que redesenhavam mapas. Sebastião viu o oleiro Manuel cruzar os braços, seu rosto uma mistura de medo e curiosidade.

    O cabo continuou, seu tom mudando ligeiramente, como se lesse a ansiedade no ar.

    — Sei que muitos de vocês, brancos, pardos, homens de ofício, estão se perguntando: “E agora? Meu ganha-pão? Minha casa?”

    Sebastião engoliu em seco. Era exatamente o que pensava.

    — Então escutem. Isto não é só o fim de um tirano. É uma oportunidade. — O cabo abriu os braços num gesto amplo. — A República está sendo construída. E para construir, precisamos de construtores. Precisamos de mãos hábeis. O Presidente Carlos decreta: todo ferreiro, carpinteiro, oleiro, sapateiro, tecelão… todo homem ou mulher com um ofício, é convidado a se juntar a nós.

    Ele fez uma pausa, deixando a proposta pairar. Seus olhos brilharam com uma luz de convicção.

    — E será diferente. Não será por favor ou esmola. Será por salário. Um salário justo. Milhares de réis, todo mês, pagos em dia. Dinheiro que compra uma casa de verdade, com telhas e janelas. Comida farta, não só angu e carne salgada. Roupas novas. Escola para as crianças. Um futuro digno.

    Milhares de réis. Sebastião olhou para suas mãos, calejadas e queimadas. Elas sempre lhe deram sustento, mas nunca prosperidade. A imagem de uma casa própria, de uma mesa farta, de sua netinha aprendendo a ler… era uma miragem poderosa.

    O cabo apontou diretamente para a forja de Sebastião.

    — Você, ferreiro! Suas mãos conhecem o fogo e o ferro. Na República, você trabalharia com aço. Aço de qualidade, para fazer ferramentas que duram décadas, máquinas que aumentam a produção, pontes que ligam comunidades. Você ajudaria a construir o novo país, em vez de apenas consertar as ferramentas do velho.

    Sebastião sentiu um frio percorrer sua espinha, mas não era de medo. Era de excitação. Aço. Ele sempre sonhara em trabalhar com aço de verdade, não com o ferro impuro e quebradiço do engenho.

    — E ninguém será forçado! — o cabo prosseguiu, virando-se para todos. — Se você é lavrador, roceiro, e quer continuar a trabalhar esta terra que sempre conheceu, pode fazê-lo. A República não toma a terra de quem nela trabalha.

    Ele ergueu um dedo, seu tom ficando confidencial, quase tentador.

    — E teremos ajuda para dar. Temos meios… especiais… para fazer a terra render mais, para proteger as plantações. E temos conexões, um mercado, para vender tudo que for produzido. Açúcar, farinha, feijão… tudo terá valor, e o lucro será seu. Serão agricultores, não arrendatários.

    Era uma visão de prosperidade que Sebastião nunca imaginara possível para um homem simples como ele. Viu o oleiro e o carpinteiro trocarem olhares carregados de possibilidades.

    Então, como um banho de água gelada, o tom do cabo mudou. A convicção amigável solidificou-se em algo frio, duro, absoluto. Seu olhar varreu o pátio, e cada palavra seguinte foi como um prego sendo cravado em madeira.

    — Mas há uma lei. A lei fundamental. E ela não se discute. — Ele fez uma pausa, garantindo que todos ouvissem. — Aos olhos da República, todos os homens são iguais. Negros, brancos, pardos, índios. Livres por nascimento ou libertos hoje. Iguais em direitos. Iguais em deveres.

    Ele inclinou-se ligeiramente para frente, sua voz baixando para um sussurro carregado que todos ouviram perfeitamente.

    — E qualquer homem… qualquer homem… que possuir outro ser humano, que comprar, vender ou manter um escravo, seja ele branco como a neve ou pardo como a terra… será julgado traidor da humanidade. E a punição para a traição… é a morte. Execução. Não há apelação. Não há perdão. É a linha. E quem a cruzar, cai.

    O silêncio foi total. A lei era brutal em sua clareza. Era o fim de uma era. Sebastião não era senhor de escravos. Mas conhecia homens, pequenos comerciantes, lavradores mais abastados, que tinham um ou dois cativos. Esses homens, se ficassem, teriam uma escolha: libertar ou morrer.

    O cabo recuou, seu rosto relaxando um pouco, mas a sombra da lei ainda pairava.

    — Pensem. Conversem. Amanhã, ao nascer do sol, estarei aqui. Para os que quiserem vir conosco, assinar um contrato de trabalho e receber seu primeiro pagamento. Para os que quiserem ficar, registrar suas terras e se tornarem cidadãos livres. A escolha é de cada um. Mas a lei… a lei é para todos.

    Ele deu meia-volta e se retirou com seus homens, deixando o pátio cheio de fumaça, promessas douradas e um aviso gravado a ferro e fogo.

    Sebastião permaneceu imóvel. O calor da forja atrás dele parecia insignificante perto do fogo que consumia a casa-grande e do calor da decisão que precisava tomar. Ele olhou para suas ferramentas, para a bigorna que herdara do pai. Olhou para o céu que clareava no leste, tingindo de rosa a destruição.

    Pela primeira vez em sua vida, um homem livre, ele tinha uma escolha real. Não entre senhores, mas entre mundos. Entre o conhecido, agora transformado para sempre, e o desconhecido, que prometia dignidade, prosperidade e uma guilhotina moral para qualquer resquício do antigo horror.

    O dia nascia sobre um Brasil novo. E Sebastião, o ferreiro, sabia que sua próxima martelada não seria no ferro, mas no destino. A bigorna da história estava quente. Era hora de forjar o futuro.

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