Capítulo 118 - Relatórios e Mapas
Carlos fitava os documentos em sua mesa no escritório da prefeitura, mas sua atenção estava dividida. À sua frente, três figuras marcavam a evolução da jovem República: Espectro, o Comandante do Exército, vestia com certa rigidez o novo uniforme de campo, um traje verde-oliva prático que ele ainda parecia achar incômodo, ajustando o colarinho de vez em quando. Ao seu lado, Fernanda, a Ministra do Trabalho, com seu vestido longo e preto que destacava sua postura austera e profissional. E, completando o trio, Quixotina, a Ministra da Educação, cuja camisa branca impecável e saia vermelha pareciam refletir o fogo contido em seus olhos escarlates. O ar na sala era denso, carregado pelo cheiro de papel timbrado e um leve traço do suor da estrada que ainda impregnava as botas de Espectro.
Foi Espectro quem quebrou o silêncio, sua voz grave e direta ecoando na sala mobiliada de forma simples.
— Presidente, os ataques iniciais aos engenhos da região tiveram sucesso. Libertamos onze propriedades. No total, mais de oitocentas pessoas foram libertadas da escravidão.
Carlos sentiu um sorriso genuíno se formar em seus lábios. Era uma boa notícia, um alívio concreto em meio ao turbilhão de responsabilidades.
— Excelente. Mais cidadãos livres significa mais mãos para a República. Com a nova fábrica de armas de repetição e munições prestes a inaugurar, e as máquinas a vapor chegando para as fábricas de papel, farinha, chocolate, açúcar… o trabalho não vai faltar. Precisamos construir rápido.
Fernanda interveio antes que o otimismo se espalhasse, sua voz era um contraponto meticuloso e necessário.
— Só um lembrete, Presidente. Desses 872 libertos, nossos levantamentos indicam que apenas 27 possuem algum conhecimento específico — um ferreiro, duas parteiras, alguns carpinteiros. E nenhum sabe ler ou escrever. Depois do último acidente na fábrica química, a seleção e o treinamento precisam ser extremamente rígidos. Não podemos colocar pessoas sem instrução em máquinas perigosas.
Carlos suspirou internamente. Será que não posso ter nem um minuto de alegria sem um balde de água fria?
— Eu sei, Fernanda. Já estamos conseguindo alguns dos primeiros aprovados nos exames básicos de aptidão.
— Sendo que metade dos que passaram foram direcionados para o magistério — completou Fernanda, cruzando os braços.
Quixotina se inclinou para frente, seus dedos tamborilando levemente na mesa.
— E fazem falta, Fernanda. Os professores atuais estão sobrecarregados. Dão aula de dia e de noite, para turmas de quarenta alunos ou mais, com giz e lousas que mal temos como repor. Estamos no limite.
Carlos observou a troca. “Nesse aspecto, não estamos tão diferentes do Brasil do meu mundo… Só que aqui, os professores têm salários dignos. E talvez isso tenha feito muitos formandos optarem a trabalhar como professores assim não correm risco de vida nas fábricas. Depois daquele acidente na fábrica, o medo de trabalhar com máquinas é maior que o de ensinar.”
— A questão do material será resolvida em breve — disse ele, direcionando-se a Quixotina. — As máquinas a vapor para fabricação de papel já estão sendo instaladas. Em alguns meses, a escassez de livros e cadernos será história. — Ele voltou-se então para Espectro, seu sorriso retornando. — Então, podemos considerar os ataques um sucesso operacional completo?
— Sim, Presidente — afirmou Espectro, um brilho de satisfação crua em seus olhos. — A nova tática funcionou melhor que o esperado. As granadas de nitrocelulose causam um dano psicológico imenso. E a ajuda do Silvestre foi decisiva.
— Ei, não esqueça da minha parte! — cutucou Quixotina, fazendo uma careta fingida para o Comandante.
Espectro lhe dirigiu um aceno breve. — Claro que não, Ministra. Sua precisão ao lançar granadas também foi vital.
Carlos aproveitou o leve distensionamento para fazer uma transição. Olhou diretamente para Fernanda.
— Fernanda, obrigado pelo relatório detalhado. Por favor, comece a elaborar um plano de integração laboral para esses novos cidadãos, com foco na segurança. Você está dispensada.
O tom, ainda que polido, era final. Todos na sala perceberam a mudança. Fernanda, profissional como sempre, apenas assentiu, recolheu seus papéis com um ruído suave e saiu da sala, o som de seus sapatos no corredor de madeira ecoando até desaparecer.
Quando a porta se fechou, o clima na sala ficou mais pesado. Carlos pegou um dos relatórios de Espectro, folheando até uma página específica. Seu rosto perdeu a expressão leve.
— Comandante, aqui no relatório do ataque ao Engenho Paraíso, vocês mencionam a morte do senhor de engenho e também de sua esposa, que estava na casa-grande.
Espectro manteve-se ereto, seu rosto um modelo de compostura militar.
— Correto, Presidente.
— A escravidão é um crime hediondo, Espectro. Não tenho dúvidas sobre isso. Mas a esposa do criminoso é necessariamente cúmplice? Ela não poderia ter sido trazida para cá? Os relatos dos próprios libertos poderiam tê-la inocentado ou condenado. A justiça, e não a bala, deveria decidir.
Espectro respirou fundo, mantendo a calma. Quando falou, sua voz era firme, mas carregada de uma convicção sombria.
— Ficamos em posição de observação a manhã e tarde inteira, Presidente. A moral dos homens começava a cair com o calor, e cada minuto aumentava o risco de sermos detectados. Houve um… detalhe que omiti do relatório por parecer irrelevante para o resultado tático. — Ele fez uma pausa, e Carlos viu um músculo saltar em sua mandíbula. — No canavial, sob um sol de rachar a terra, uma mulher grávida, de oito meses no mínimo, desmaiou de exaustão e dor. O capataz… não apenas a obrigou a se levantar. Açoitou-a. Na barriga, nas costas. Enquanto ela gritava. E a casa-grande, com suas janelas abertas, permaneceu em silêncio. Ninguém interveio. Nem o senhor, nem a senhora. Qualquer ser humano que permita, que tolere isso sob seu teto, Presidente… perdeu o direito a um julgamento, na minha opinião. Merecia o mesmo destino do algoz.
Carlos fechou os olhos por um momento. A imagem era vívida, dolorosa. “Realmente, alguém assim pode merecer a morte. Mas a vida nunca é preto no branco…”
— Eu entendo sua raiva, Espectro. Eu a compartilho. Mas temos que tomar cuidado com pressupostos. No engenho de onde eu vim, a mulher do senhor também apanhava do marido bêbado. O filho deles apanhava. Ela era uma sombra, assustada. A primeira vez que a vi usar a voz foi para implorar que a Tassi, recebesse comida novamente — e só o fez porque o padre Antônio, que agora está conosco, a pressionou e o senhor do engenho. Ela era dona de escravos? Era. Mas também era uma refém. Uma mulher naquela situação talvez não tivesse voz para parar um açoite, mesmo que quisesse. Talvez a situação no engenho Paraíso fosse semelhante.
Espectro abriu a boca para retrucar, mas Carlos ergueu a mão, um gesto pacificador, mas firme.
— Com todo respeito, Comandante, eu ouvi você. E não estou dizendo que você agiu errado. Nas condições que você descreveu, com uma gravidade dessas ocorrendo à vista da casa, a ação rápida provavelmente foi a correta. O que estou dizendo é que não podemos nos tornar juízes e carrascos universais. Nossa república é feita de leis, mesmo que ainda estejamos as escrevendo. E detalhes como esse — ele bateu o dedo no relatório — não são irrelevantes. São fundamentais. São o porquê do nosso “como”. Isso precisa constatar. Sempre.
Espectro manteve o olhar fixo por um segundo, depois baixou a cabeça em um aceno solene. O uniforme parecia pesar mais sobre seus ombros.
— Entendido, Presidente. Isso não se repetirá. Achei que o êxito da missão bastava… mas compreendo a necessidade do contexto completo.
Apesar de ainda não entender totalmente a necessidade de tanta burocracia e papelada, Espectro estava num ponto em que confiava em Carlos. A prova estava nas armas que o Presidente proporcionava: os mosquetes que tinham revolucionado o combate, e agora essas novas granadas de nitrocelulose, que eram tão mais potentes e confiáveis que as velhas de pólvora negra. Se Carlos exigia relatórios detalhados, havia um motivo.
Carlos percebeu a submissão genuína por trás da formalidade. Espectro estava aprendendo a lidar com mais do que táticas militares.
— Bom. E falando em relatórios e ausências… — A voz de Carlos mudou de tom, tornando-se mais seca, e seu olhar se voltou para Quixotina.
Ela, que observava o debate com interesse, pareceu encolher ligeiramente em sua cadeira, seus dedos brincando com a borda da mesa.
— …no meio do período de provas do ensino fundamental, nossa Ministra da Educação desaparece. Deixa uma carta na mesa e some para se juntar a ataques a engenhos.
Quixotina olhou para baixo, para as próprias mãos, antes de murmurar uma resposta.
— Eu… não sabia que precisava fazer um relatório para cada coisa que faço fora daqui…
— Não sabia? — a pergunta de Carlos veio carregada de uma ironia mansa. — De um liberto que nunca teve acesso a um lápis, eu entenderia. Mas você, Dona Quixotina, era uma nobre. Sabe ler, escrever, entender a máquina de um reino melhor que eu, com certeza. Você é inteligente. Muito inteligente. Você sabia perfeitamente que eu não deixaria você ir, por isso optou pela carta, em vez de me perguntar de frente.
Quixotina ergueu o rosto, seus olhos escarlates encontrando os de Carlos com uma mistura de surpresa e desafio. O elogio embutido na reprimenda a tinha pego desprevenida.
— Eu sou tão previsível assim para você?
Carlos não pôde evitar um pequeno sorriso, quebrando um pouco a severidade.
— Somos amigos, Quixotina. Não te conheço há décadas, mas já aprendi a ler alguns dos seus sinais. Sei que você tem o coração de uma cavaleira, que não quer ficar trancada entre quatro paredes, mesmo amando o que faz. E eu preciso dessa sua energia. Mas preciso dela aqui também. Aguenta mais um pouco. Treine os novos professores, delegue. Quando tivermos uma estrutura mais sólida, você terá mais liberdade. No momento, cada ministro é vital em seu posto. Eu mesmo tive que cobrir algumas de suas ausências, enquanto ainda desenho os esquemas das novas máquinas para as fábricas. Uma máquina a vapor não faz papel sozinha, precisa de adaptações, ajustes… e sou o único que realmente sabe como funcionam nesse nível de detalhe.
Ele então olhou para Espectro, incluindo-o na conclusão.
— E você, Comandante. Na próxima vez que um ministro em exercício sentir o chamado do campo de batalha, você confere comigo antes de fazer de capitão de aventuras. Estão claros?
— Perfeitamente claro, Presidente! — disse Espectro, batendo os calcanhares.
— Sim, Carlos — respondeu Quixotina, sua voz mais suave, genuinamente arrependida.
— Então estão dispensados.
Espectro se virou com precisão militar e deixou a sala. Quixotina, porém, ficou parada, hesitante. Carlos a observou, uma sobrancelha levemente erguida.
— Carlos — ela começou, seus dedos traçando um padrão invisível na madeira da mesa. — Eu realmente sinto muito. Não foi por irresponsabilidade ou só para… me divertir. Eu queria ajudar. E além de lutar, eu ajudei o Silvestre com os mapeamentos aéreos. Acho que posso ser útil também nisso.
Ela se aproximou e colocou sobre a mesa um rolo de pergaminho mais grosso que os relatórios. Carlos desenrolou-o com cuidado. Era um mapa. A precisão dos traços, a clareza das anotações em uma caligrafia elegante, os detalhes do relevo e dos cursos d’água… era uma obra-prima de cartografia.
Nossa, pensou Carlos, impressionado. “Ela realmente desenha bem. Tem algo que essa mulher não saiba fazer?”
— Obrigado, Quixotina. Isso é inestimável. Aos poucos, vamos construindo uma cartografia confiável da região… — Seus olhos se fixaram no mapa, e então uma lembrança o atingiu. — Falando nisso…
Ele se inclinou, abriu uma gaveta pesada de sua mesa e dela retirou vários outros mapas, desdobrando-os sobre a mesa já abarrotada. O cheiro de papel envelhecido e tinta desbotada preencheu o espaço entre eles.
— Comprei esses de mercadores viajantes, nas últimas semanas. Estava tão atolado em projetos que nem tive tempo de estudá-los direito.
Quixotina se aproximou, sua curiosidade visível. Seu olhar percorria os desenhos com a mesma avidez que o de Carlos, analisando costas, rios, fronteiras desenhadas a mão. Carlos, por sua vez, focava em um mapa em particular, um que alegava mostrar a Capitania de Pernambuco e arredores. Seu rosto, antes interessado, contorceu-se em uma expressão de confusão profunda.
— Espere um minuto… — ele murmurou, passando o dedo sobre o contorno costeiro. — Isso… isso não está certo. Isso não se parece em nada com o formato de Pernambuco. Sei que as capitanias eram grandes, mas o litoral… o litoral está totalmente diferente.
Apercebendo-se de sua própria ignorância sobre a geografia exata da época, ele começou a vasculhar os outros mapas, aqueles que mostravam o “Brasil” inteiro, ou o que os cartógrafos chamavam de Brasil. Um após o outro, todos apresentavam o mesmo continente estranho, uma massa de terra que tinha uma vaga semelhança com a que ele conhecia, mas com proporções distorcidas, um “chifre” oriental mais pronunciado, baías em locais errados… e ilhas. Ilhas grandes demais, marcadas próximas à costa.
— Será que todos esses comerciantes nos venderam mapas falsos? — perguntou Carlos, mais para si mesmo, uma ponta de incredulidade em sua voz.
Quixotina balançou a cabeça lentamente, seus olhos também agora cheios de dúvida ao comparar o mapa que fez com os comprados.
— Não… não acho. Meu tio me mostrava mapas do novo mundo, mapas antigos cheios de criaturas míticas e cidades de ouro perdidas. Em todos eles, Presidente, o Brasil tinha… esse formato.
Um frio súbito, intenso, percorreu a espinha de Carlos. Era como se o chão de cimento sólido sob seus pés tivesse se transformado em areia movediça. A peça final de um quebra-cabeça que ele temera montar desde o primeiro dia neste mundo se encaixou com um clique quase audível.
Com movimentos que pareciam mecânicos, ele vasculhou a pilha desordenada. Seus dedos, um pouco trêmulos, encontraram o que procurava: um mapa menor, embrulhado em tecido de proteção, o mais caro e supostamente mais preciso de sua pequena coleção — um mapa da Europa.
Desdobrou-o com uma mistura de temor e necessidade absoluta. O tecido caiu no chão, ignorado. Seus olhos escanearam o papel, buscando pontos de referência, formas familiares. O que viu fez o sangue gelar em suas veias. O ar pareceu sair da sala.
Não era a Europa. Não era a península Ibérica com seu formato reconhecível, nem a característica “bota” da península Itálica, nem as ilhas britânicas em sua posição conhecida. Havia um mar Mediterrâneo, sim, uma massa azul serpenteando entre terras. Mas os continentes ao redor eram disformes, grotescamente irreconhecíveis. A região que deveria ser a península Itálica era uma protuberância amorfa e distorcida, mais parecendo um martelo torto do que uma bota. A “França” parecia derretida. A “Península Ibérica” estava inchada, desproporcional.
Não se tratava de uma terra alternativa onde a história havia tomado um rumo diferente. Não era um “e se”. A geografia física, a própria forma dos continentes, era outra. Era um mundo diferente. Um planeta distinto.
Mas então…, seu pensamento girava em um turbilhão silencioso e aterrorizante. Por que existem Portugal, Brasil, Espanha? Por que falamos português? Por que os nomes, as instituições, até certo ponto a história… parecem tão familiares? O que aconteceu aqui?
— Carlos? — a voz de Quixotina soou como se viesse de muito longe, abafada pelo rugido do desespero em seus ouvidos. Ele mal a registrou. Seu mundo havia reduzido-se àquele pedaço de papel que desmentia tudo. — O que foi? Você ficou pálido.
Carlos não respondeu. Seus olhos, vidrados, saltavam do mapa da “Europa” impossível para o rosto de Quixotina, cheio de preocupação genuína, e de volta para o mapa. Sua mão, agora visivelmente trêmula, ergueu-se e apontou para a mancha de terra que deveria ser a península Itálica.
— Quixotina… — sua voz saiu rouca, um sussurro seco que mal preenchia o espaço entre eles. — Esta região… esta península aqui. Como é chamada? O que os mapas dizem?
Ela olhou para ele, depois para o mapa, confusa com a pergunta, mas vendo a urgência nele. Com um leve franzir de sobrancelha, seu dedo indicador, limpo e delicado, tocou o ponto exato na península deformada. Seus olhos percorreram a legenda próxima antes de responder.
— Aqui. Está escrito… “Itália”. Refere-se à península como um todo. Está bem claro.
“Itália”. O nome era o mesmo. Mas a forma… a forma era um pesadelo geográfico. Carlos seguiu a linha de seu dedo até o papel, depois fixou o olhar novamente em seus olhos, buscando algum sinal de dúvida. Encontrou apenas sinceridade e crescente alarme. A realidade — a nova, vasta e aterradora realidade — assentou-se sobre seus ombros com o peso esmagador de um mundo desconhecido.
Seus lábios se moveram, formando palavras que mal tinham som, carregadas de um desnorteio primordial.
— Mas o que…? — ele sussurrou, o mundo ao seu redor desfocando. O escritório, os mapas, Quixotina… tudo parecia se afastar. A pergunta final, a que sempre evitara fazer plenamente, ecoou em sua mente e quase transbordou para a sala vazia: “Onde… onde ESTOU?”

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