Capítulo 121 - Fábrica de Armas de Repetição
O escritório de Carlos estava mergulhado em um silêncio pesado, quebrado apenas pelo som de páginas sendo viradas. Uma pilha de livros velhos, comprados de mercadores a peso de ouro, tomava parte da mesa. O cheiro era de papel mofado, tinta antiga.
Carlos passava os dedos por páginas do livro “História dos Reis da Bretanha”. Ele fechou o livro com um baque suave, a poeira subindo em um raio de luz.
“A história desse mundo… é um espelho quebrado do meu”, pensou, esfregando os olhos cansados. “Os nomes são os mesmos. Portugal, Brasil, Holandeses… até os eventos maiores parecem se alinhar. Mas o mapa está errado. Como duas linhas do tempo podem ser tão parecidas e o palco, tão diferente? De onde veio essa… cópia imperfeita?”
Ele empurrou os livros para o lado com um suspiro frustrado. Questões cósmicas teriam que esperar. Problemas terrestres, concretos e urgentes, exigiam sua atenção.
“Não adianta filosofar. A realidade é que os minérios pararam de chegar. O embargo começou.” A conta mental, amarga e familiar, surgiu em sua mente. “Perdemos a maior fonte de renda. E temos uma boca gigante para alimentar: cinco mil soldados que precisam de pão, pólvora e pagamento. Cinco mil trabalhadores nas fábricas, com salários que não podem atrasar. Os agricultores da república, que nos vendem comida, esperam seu dinheiro no fim do mês…”
Ele se levantou, andando até a janela. A vista era para os telhados da República.
“Ainda bem que me antecipei”, pensou, forçando um otimismo estratégico. “A indústria têxtil está no máximo, produzindo uniformes, cobertores, estopas. As máquinas a vapor já estão no moinho e na fábrica de papel, na fundição de ferramentas… mas essa última vai definhar sem matéria-prima. Sem ferro, viramos uma aranha sem teia: temos a estrutura, mas não temos como consertá-la ou expandi-la. Pelo menos foi guardado ferro suficiente para fazer mais armas e máquinas a vapor, digo o suficiente para nossa campanha militar…”
Voltando à mesa, ele abriu um dos mapas desenhados por Silvestre. Os traços tinham melhorado muito com ajuda de Quixotina, mostrando os rios, as clareiras e a localização de cada engenho que haviam libertado, marcado com uma pequena bandeira vermelha.
“Ele é um talento nato”, Carlos refletiu, um orgulho leve amenizando a preocupação. “Mapeou nosso território atual. Mas o futuro… está nas entrelinhas.” Seus olhos percorreram as áreas em branco, as vastidões de mata virgem além do controle da República. “Se este mundo é geograficamente diferente… talvez, talvez, isso esconda uma vantagem. No meu mundo, o ferro aqui era escasso. Mas aqui… quem sabe não haja uma jazida maldita, um veio de minério que os portugueses nunca encontraram, bem no nosso quintal?”
A ideia acendeu uma fagulha de esperança. Era um tiro no escuro, mas era melhor que ficar parado.
— Marina! — chamou ele, sua voz ecoando no corredor silencioso.
Poucos instantes depois, a jovem apareceu na porta. Seus cabelos cacheados eram uma coroa desafiante ao redor de um rosto inteligente e atento.
— Presidente?
— Por favor, chame a Ministra da Educação aqui. É urgente.
Quixotina chegou em menos de dez minutos, seu vestido prático de linho murmurando contra o assoalho de madeira. Seus olhos escarlates examinaram Carlos rapidamente, captando a tensão em seus ombros.
— Carlos? O que houve? A situação piorou?
— De certa forma. E de outra, pode ser uma oportunidade. — Ele pegou três pedras de cores e texturas diferentes que estavam em uma bandeja e as colocou cuidadosamente na mesa, entre eles. — Você já explorou muito a Mata da Onça, não é? Mais que qualquer um de nós. Já se deparou com alguma pedra que se parecesse com estas?
Quixotina se aproximou, inclinando-se sobre a mesa. Seus dedos, finos, passaram sobre a superfície das rochas. A primeira era pesada, de um cinza-escuro com um brilho metálico e avermelhado onde a luz batia. A segunda era mais lisa, quase negra e magneticamente atraente. A terceira era marrom-amarelada, terrosa.
— São… interessantes — disse ela, com a honestidade de quem não sabe. — Já vi pedras de cores parecidas, claro. A mata está cheia delas. Mas nunca parei para estudar.
Carlos apontou para cada uma, sua voz assumindo um tom didático que vinha naturalmente quando o assunto era tecnologia.
— Esta é hematita. A mais comum para extrair ferro. Esta, magnetita, é ainda mais rica. E esta é goethita, outra fonte. Se encontrar qualquer uma dessas em quantidade, Quixotina, é como encontrar uma veia de ouro para nós. Melhor que ouro, na verdade. É aço. É ferramenta. É canhão.
Ela balançou a cabeça, um misto de frustração e curiosidade em seu rosto.
— Infelizmente, não posso dizer com certeza. Pedras nunca foram meu forte. Árvores, trilhas, rios… sim. Mas o que está debaixo deles… — ela fez um gesto de impotência.
Carlos suspirou, mas não pareceu surpreso.
— Tudo bem. Era o que eu esperava. Mas você pode me ajudar de uma forma que mais ninguém pode. — Ele fixou os olhos nela, sério. — Quixotina, você estaria disposta a voltar a se aventurar? Desta vez, não para lutar, mas para buscar.
Os olhos dela brilharam instantaneamente, como se alguém tivesse acendido uma lanterna por dentro. A rigidez ministerial desapareceu, substituída pela animação da cavaleira exploradora.
— Voltar para a mata? Com um propósito? Carlos, você nem precisa perguntar! Eu adoraria!
— Excelente — disse ele, um leve sorriso tocando seus lábios. Ele desenrolou o mapa de Silvestre. — Quero que você vá com o Silvestre. A visão aérea dele e o seu conhecimento do solo são a combinação perfeita. Seu objetivo: prospectar. Buscar esses minerais, ou qualquer indício deles — leitos de rio com areia escura e pesada, afloramentos rochosos com essas colorações. E enquanto isso, aperfeiçoem este mapa. Preencham os vazios. Marquem tudo que for diferente: quedas d’água, cavernas, terrenos alagados… e qualquer outro mineral estranho que encontrarem. — Ele ergueu um dedo em advertência. — Mas seu trabalho na Educação ainda é prioridade. Isso é uma missão extra, nos seus momentos livres ou nos fins de semana. Não pode atrapalhar a escola.
— Pode deixar comigo! Vou organizar tudo! — ela disse, quase saltitando. — Posso levar as pedras para estudá-las melhor? Quero memorizar o peso, a textura…
— Claro. São suas amostras de referência.
Quixotina pegou as pedras com cuidado, como se fossem ovos preciosos. Ficou ali por um momento, virando a magnetita na mão, perdida em pensamentos. Algo parecia preocupá-la.
— Carlos… — ela começou, hesitantemente. — Posso levar a Silvana também? A irmã do Silvestre?
Carlos franziu a testa.
— A menina loba? Por quê? Acho arriscado levar uma criança para uma expedição dessas. O Silvestre pelo menos pode voar para se safar ou ter uma visão geral…
— É que… — Quixotina encolheu os ombros, sua expressão era de uma rara vulnerabilidade. — Ela está muito sozinha. Na escola, as outras crianças têm medo. Ela é tímida, se esconde, não se aproxima de ninguém. O Silvestre me contou que, quando ele está trabalhando nos voos de reconhecimento, ela fica no canto do orfanato, só observando, sem interagir com ninguém… É como se ela estivesse presa entre dois mundos e não pertencesse a nenhum.
“Coitadinha”, pensou Carlos, seu coração apertando. Ele conhecia bem a dor do deslocamento.
— Tudo bem — concedeu ele, após um momento. — Você pode levá-la. Mas com condições estritas. Você leva uma das pistolas que conseguimos com a Igreja. E a segurança dela é sua responsabilidade absoluta. Não é uma aventura de criança, é trabalho.
O rosto de Quixotina se iluminou em um sorriso gratificado.
— Obrigada, Carlos! Vai ser bom para ela, eu sei. Nós… nós seremos o ‘Grupo de Exploradores da República’! Preciso pensar em um nome melhor… talvez ‘Os Prospectores’? ‘Os Desbravadores’?
Rindo da súbita explosão de entusiasmo, Carlos a viu sair animada, as pedras seguras contra o peito. No corredor, ela quase esbarrou em Nia, que chegava à porta.
A Ministra da Indústria era a imagem viva da exaustão. Seus olhos, normalmente tão vivos e curiosos, estavam fundos e com olheiras escuras. Seus dedos estavam manchados de graxa e um fio de cabelo escapo do coque teimoso caía sobre seu rosto sujo de fuligem. Ela chegou e se apoiou no batente da porta, como se não tivesse forças para dar mais um passo.
— Está feito — anunciou, a voz rouca e plana, carregada de um cansaço que ia até os ossos.
Carlos se levantou de um salto, a preocupação anterior substituída por uma esperança renovada.
— Você está dizendo que… as fábricas de armas de repetição e munição estão prontas? Operacionais?
— Prontas, testadas e já cuspindo os primeiros produtos — confirmou Nia, com um suspiho que parecia tirar as últimas energias dela. — Venha comigo. Melhor você ver com seus próprios olhos e explicar o funcionamento para os trabalhadores e o pessoal da produção. Sei que é meu trabalho, mas… — ela esfregou o rosto, “…estou esgotada. Passei a noite em claro ajustando o último transportador. Toda hora era um problema: uma correia escapava, uma caldeira perdia pressão, um molde entupia… E não foi só operar, tive que redesenhar metade das máquinas a vapor para se adaptarem à linha de produção específica das peças do rifle. Meu cérebro parece mingau.
— Você é incrível, Nia — disse Carlos, genuinamente impressionado. — Vamos lá. Mostre-me essa maravilha. Você pode ir dormir na sua casa depois.
Ele a seguiu para fora, o peso do problema do ferro momentaneamente aliviado pelo triunfo concreto que os aguardava no outro lado da cidade.
A “Fábrica de Implementos Bélicos da República” ocupava um grande galpão de alvenaria. O som que vinha de dentro não era mais o esporádico martelar de ferreiros, mas um ronco contínuo e ritmado, uma sinfonia industrial nascendo. O ar era quente, pesado e cheirava a óleo quente, vapor, metal quente e madeira queimada.
Nia levou Carlos direto para o coração do barulho. Duas máquinas a vapor enormes, suas rodas de inércia girando com uma força hipnótica, transmitiam movimento através de um emaranhado de correias de couro e eixos para diversas estações de trabalho.
— Olhe ali — disse Nia, precisando quase gritar sobre o ruído. Ela apontou para uma série de bancadas onde os operários, com expressões que iam do assustado ao concentrado, manuseavam peças. — A linha do cano. O eixo principal aciona os tornos de precisão. A barra de ferro é fixada e a ferramenta de corte, movida a vapor, faz o trabalho uniforme. Um cano que um artesão levaria um dia para fazer, aqui sai a cada vinte minutos, e todos idênticos.
Carlos observou, fascinado. Era uma versão rudimentar, mas inegavelmente eficiente, da manufatura que conhecia.
— A tolerância? A espessura é uniforme? — perguntou, seu olho técnico avaliando.
— A mais apertada que conseguimos — respondeu Nia, com orgulho profissional mesmo na exaustão. — Testamos cada décimo lote. Se houver variação, ajustamos a fixação ou a ferramenta. É aqui que as máquinas a vapor fazem a mágica: força constante, movimento repetitivo perfeito.
Eles passaram para a próxima seção, onde uma prensa movida a vapor subia e descia com um baque poderoso e regular.
— A culatra e o ferrolho — ela explicou. — Forjamos os blanks (os blocos brutos de metal) numa forja separada, ainda manual, mas o acabamento, os encaixes, os furos de pino… é tudo feito aqui. A prensa corta e modela, as furadeiras a vapor fazem os orifícios. A precisão é o segredo para o ferrolho não emperrar.
Carlos assentiu, compreendendo perfeitamente. “Eles estão aprendendo a linguagem da padronização. É um conceito tão novo quanto o rifle em si.”
A última parte da linha era mais silenciosa, mas não menos importante: o estoque de madeira. Serras circulares movidas a vapor cortavam as pranchas de madeira dura no formato exato, e depois lixadeiras a vapor (basicamente tambores rotativos com lixa) davam o acabamento.
— A parte de madeira é a mais fácil de adaptar — comentou Nia. — Mas até aqui, é mais rápido e uniforme que fazer à mão.
Ela levou Carlos a uma mesa no fundo, onde dezenas de rifles Modelo 1 da República estavam alinhados, brilhando com óleo fresco, ao lado de caixas de munição metálica.
— A linha de montagem final ainda é manual — admitiu. — Os operários juntam o cano, a culatra, o ferrolho, a mola, o gatilho e o estoque. Mas como todas as peças são intercambiáveis, é só encaixar. Não precisa ajustar nada com lima. Este aqui — ela pegou um rifle e passou para Carlos —, você pode desmontar e montar com as peças de qualquer outro rifle naquela pilha. É esse o princípio.
Carlos examinou a arma. Era pesada, sólida, bem feita. Um produto de seu conhecimento e do suor e genialidade de Nia e sua equipe.
— É magnífico, Nia. Você realizou um milagre. — Ele olhou para ela, vendo que ela mal se mantinha em pé. — Agora, sua missão é descansar. Eu mesmo vou treinar os operários de produção. Você transmitiu o conhecimento. Agora, deixe a máquina, humana e de metal, funcionar.
Nia apenas assentiu, sem forças para discutir. O ronco das máquinas a vapor, que para Carlos soava como música do progresso, para ela era agora uma cantiga de ninar que a levava, finalmente, a um colapso bem-vindo. O futuro da República, pelo menos o futuro de seu poder de fogo, estava agora garantido, rolando sobre correias e girando em eixos, naquele galpão cheio de fumaça e esperança.

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