Índice de Capítulo

    O ronco contínuo e profundo das máquinas a vapor na fábrica havia se tornado o batimento cardíaco da República, um som de fundo constante que anunciava atividade e futuro. Carlos, contudo, sabia que um coração, por mais forte que fosse, precisava de artérias robustas e músculos eficientes para se impor. As novas armas de repetição eram esses músculos – fibras de aço e madeira que dariam força ao corpo ainda jovem da nação. Era hora de mostrá-las não como um segredo industrial, mas como um fato consumado, um alicerce inegável do novo mundo que teimavam em construir.

    A escolha do local foi estratégica. Escolheram uma antiga pedreira abandonada, nos arredores do povoado principal, onde as paredes de rocha nua serviam como barreira de segurança natural e uma acústica impressionante que amplificaria cada estampido. O antigo campo de treinamento, com seus tocos de madeira, agora estava cercado por fábricas e pessoas; não era mais adequado. O ar do final de tarde na pedreira carregava o cheiro seco e poeirento da terra socada, uma prévia do odor metálico da pólvora que logo impregnaria tudo, misturado ao aroma do capim rasteiro queimado pelo sol inclemente.

    Um palanque simples, de tábuas ainda exalando o cheiro fresco da madeira serrada, foi erguido para os convidados. Nele, sentavam-se figuras centrais do esforço de guerra e da construção do Estado.

    Espectro, o Comandante do Exército, mantinha uma imobilidade tal que parecia fundir-se com a própria madeira do assento. Apenas seus olhos, escaneando cada detalhe do campo de demonstração com a frieza de um falcão, denunciavam a mente tática fervilhando por trás daquela máscara. Ao seu lado, Fernanda, a Ministra do Trabalho, segurava uma pasta de couro contra o peito como um escudo. Seu rosto era um estudo em sobriedade calculada, mas um leve tremor em sua mão traía a dúvida. Ela conhecia o custo do trabalho dos operários. Pedira expressamente para ver a demonstração. Precisava entender no que, exatamente, todo aquele suor e investimento se transformava.

    Quixotina, à direita de Fernanda, era um contraste de energia contida. Inquieta, ela se inclinava para a frente, os dedos tamborilando uma marcha acelerada no corrimão áspero. Seus olhos escarlates brilhavam de expectativa. Ela era uma cavaleira, e a promessa de um poder novo e decisivo a animava como poucas coisas. Tinha visto mosquetes de pederneira em ação – lembrava do baque surdo e abafado, da nuvem de fumaça branca e densa que engolfava a linha de tiro por longos minutos, ocultando tudo, e da bala perdida que, tão frequentemente, errava o alvo a meros cinquenta passos.

    Ao lado de Quixotina, Nia tentava, sem sucesso, parecer contida. A engenheira-chefe estava esgotada, com olheiras profundas e as unhas quebradas e sujas de graxa, mas um sorriso orgulhoso teimava em surgir em seus lábios. Ela já fizera dezenas de testes de bancada, medições de precisão, verificações de estresse metalúrgico. Sabia que as armas funcionavam, no papel e no alvo estático. Mas ver seu “filho” em ação, manuseado por vinte homens em sincronia, era outra coisa. Era a culminação. Depois disso, teria de voltar às fábricas e começar a adaptar as máquinas a vapor para as indústrias de papel, de ferramentas agrícolas… mas este momento era só dela, e da sua criação.

    No campo, diante de uma fileira de barricas de madeira velha, esteiras de palha amarrotadas e silhuetas humanas grosseiramente pintadas em tábuas, estava um pelotão de vinte soldados. Um deles, um jovem de feições marcadas e olhos que já tinham visto muito chamado Adão, segurava seu rifle novo com uma mistura de reverência e desconfiança íntima. A arma era mais leve e melhor balanceada que um mosquete pesado. O mecanismo do ferrolho reluzia sob uma fina camada de óleo protetor, cheirando a metal limpo e solvente, não ao cheiro ácido e familiar de carvão, enxofre e suor impregnado nos velhos canos.

    Carlos subiu em um pequeno estrado de madeira colocado à frente do palanque. Uma brisa súbita agitou seus cabelos.

    — Senhoras, Espectro. Soldados — sua voz, projetada, cortou o silêncio expectante que pairava sobre a pedreira, ecoando levemente nas paredes de rocha. — Durante meses, trabalhamos com o suor de nossos braços e o engenho de nossas mentes para construir algo maior que nós. Construímos não apenas a ideia de uma República, mas os meios concretos de defendê-la e fazê-la crescer. A engenheira-chefe Nia e sua equipe realizaram, nas forjas e bancadas, o que muitos chamariam de impossível. Hoje, não vamos discutir planos ou fazer promessas. Hoje, vamos mostrar resultados.

    Ele fez um gesto claro e decisivo para o sargento que comandava o pelotão no campo.

    — Primeira demonstração: Cadência de Tiro e Precisão. Alvos estáticos a cem passos!

    Os soldados se alinharam com um único movimento seco. O comando do sargento ecoou, um latido metálico:

    — Carregar!

    Foi o primeiro momento de estranheza visível. Em vez do ritual lento e coreografado dos mosquetes – despejar pólvora solta da corneta, assentar a bola de chumbo com a vareta, bater no cano para assentar, colocar a espoleta no cão –, os homens executaram uma série de movimentos curtos e mecânicos. A mão direita puxou o ferrolho para trás com um clunck seco, a esquerda inseriu um cartucho metálico e brilhante na câmara exposta, e a direita empurrou o ferrolho para a frente com um clack final e decisivo. Tudo em menos de três segundos. Era rápido, limpo, quase desconcertante em sua eficiência.

    Fernanda franziu a testa, seus olhos de administradora tentando decifrar a economia daqueles movimentos. Quixotina prendeu a respiração.

    — À vontade, fogo!

    O que se seguiu não foi uma salva coordenada. Foi um estouro. Uma sequência rápida e quase contínua de estampidos agudos e secos que explodiram na pedreira como uma série de trovões cerrados, sem a pausa dramática e o “baque” característico dos mosquetes. A fumaça que jorrou dos vinte canos foi uma nuvem fina, cinzenta e translúcida, dissipando-se rapidamente, não a cortina opaca e sufocante que paralisava linhas de batalha inteiras. Em menos de dez segundos, um rugido contínuo, cada homem havia disparado cinco tiros.

    O silêncio que caiu em seguida foi abafado por um zumbido agudo nos ouvidos. Antes que qualquer cérebro no palanque pudesse processar totalmente o que vira, o comando soou novamente:

    — Alvos a duzentos passos! Apontar… fogo!

    Novamente aquele estouro rápido e disciplinado. O som era tão preciso quanto assustador. Homens correram para inspecionar os alvos. As barricas a cem passos estavam reduzidas a cacos e estilhaços. As silhuetas de madeira a duzentos passos exibiam, não alguns buracos esparsos, mas agrupamentos de perfurações limpas e precisamente centradas no torso.

    Fernanda soltou a pasta. O objeto de couro caiu no assoalho do palanque com um baque surdo que ela sequer registrou. Seus olhos, arregalados, fitavam a destruição à distância. “Isso… isso não é uma arma”, seu pensamento correu, gelado e claro. “É uma máquina. Uma máquina de produzir morte com uma eficiência… aterradora. Calculável. É a produtividade industrial aplicada à destruição.” Uma náusea fria subiu de seu estômago, mesclada a um entendimento brutal e novo do poder que agora tinham – e do horror que ele representava.

    Quixotina estava com a boca levemente aberta. “Não é possível…”, ela sussurrou, mais para si mesma. A velocidade, a clareza do campo de visão após a descarga… um único homem com aquela arma poderia enfrentar uma dezena armada com armas mágicas. Todo o mundo tático que ela conhecia e estudara – as cargas de cavalaria reluzente, as linhas coloridas de arqueiros trocando uma única salva antes do corpo a corpo desesperado – desmoronava ali, naquele instante, sob o ruído ecoante dos novos rifles.

    Espectro não proferiu um único som. Suas mãos, cruzadas atrás das costas, apertaram-se com tal força que os nós dos dedos ficaram brancos sobre a pele morena. Seu cérebro militar, treinado em uma centena de escaramuças, já calculava freneticamente: cadência de fogo, alcance efetivo verdadeiro, logística de munição, implicações táticas para a defesa e para o ataque. “Flanqueamento convencional perderia o sentido. Uma linha defensiva sustentada com essas armas… seria um moedor de carne impiedoso. Precisamos repensar tudo. Tudo, desde a formação mais básica.”

    Carlos observou as reações com um olhar clínico. Viu o horror contido, o choque, a admiração pura. Era necessário que vissem. Era necessário que entendessem.

    — Segunda demonstração! — anunciou, sua voz soando firme no silêncio carregado. — Fogo em movimento e recarga sob pressão simulada!

    Desta vez, os soldados avançaram em linha aberta, parando a cada dez passos para ajoelhar, disparar dois tiros rápidíssimos, recarregar em movimento – o clack-clack do ferrolho se tornando um ritmo mecânico e aterrador – e avançar novamente. Adão estava entre eles. Seus movimentos foram um pouco hesitantes no primeiro ciclo, os dedos encontrando o cartucho com uma busca mínima. Mas no segundo, já era fluido. A arma começava a sentir como uma extensão natural de seus braços, respondendo com obediência mortal a cada comando de seus músculos. “É tão… fácil”, pensou ele, espantado com a própria eficiência. “Não há pausa para o medo se instalar entre um tiro e outro. Não há tempo para dúvidas. É apenas ação. Puxar, inserir, engatilhar, disparar. É como respirar… mas mortal.

    O barulho era agora ensurdecedor, um martelar constante e ritmado que fazia vibrar o osso esterno dos espectadores e ecoava nas paredes da pedreira como um trovão preso. A poeira vermelha e fina subia dos calcanhares dos soldados, misturando-se à fumaça cinza-azulada, criando uma névoa fantasmagórica através da qual relances de luz solar capturavam os movimentos rápidos e determinados. Era uma cena de belo e terrível poder industrial aplicado, sem rodeios, à arte da destruição.

    Quando o último clack de ferrolho engatilhado soou e não foi seguido por um estampido, o silêncio que se instalou foi profundo, quase físico, como se o ar tivesse sido sugado do local. O cheiro agora era dominante: o odor metálico, acre e levemente adocicado da pólvora sem fumaça, um aroma novo, invasivo, que marcava a diferença entre o passado e o presente.

    Carlos voltou-se para o palanque. A expressão de Espectro era de concentração feroz, os olhos estreitos, visionando campos de batalha transformados. Fernanda estava pálida, mas seus olhos, antes cheios de dúvida, agora mostravam uma compreensão sombria – e um temor respeitoso pelo poder que haviam desencadeado. Quixotina olhava, fascinada, não para os alvos despedaçados, mas para os soldados que recuavam em formação. Ela via neles uma transformação silenciosa: não eram mais apenas homens com armas; eram operadores de uma força nova, decisiva e impessoal.

    — Isto — disse Carlos, sua voz soando estranhamente calma e clara após o tumulto ensurdecedor —, é o que garantirá a liberdade daqueles que já libertamos e será a chave para abrir os grilhões de milhares que ainda os prendem. Não é uma arma concebida para o terror. É uma ferramenta de imposição. Ela impõe um novo fato, um novo equilíbrio de poder: o fim da era em que um único homem, armado apenas com um chicote e a arrogância do direito, podia comandar uma centena. A partir de agora, a superioridade será nossa – moral, sim, mas também tática, logística e esmagadoramente prática.

    Espectro finalmente falou. Sua voz era um rugido baixo, contido, carregado do peso de novas responsabilidades:

    — Cadência média sustentada?

    — Quinze a vinte tiros por minuto, por homem, mantendo precisão aceitável, Comandante — respondeu Carlos, sem hesitar.

    — Alcance útil real, não o do papel?

    — Trezentos passos com letalidade confiável contra formação. Quinhentos para um atirador experiente e com mira, contra alvos específicos.

    — E a munição? A logística? — a pergunta de Espectro era a de um general que já via os comboios de suprimentos em sua mente.

    — A nova linha na fábrica produz os cartuchos unificados quase tão rápido quanto montamos os rifles. É, agora, nosso novo ponto crítico: cobre para o invólucro, estanho, chumbo, fulminantes. É um problema de matérias-primas, mas é um problema que podemos mensurar, gerenciar e resolver.

    Fernanda encontrou sua voz. Ela soou mais fraca do que o habitual, ainda trêmula pelo susto adrenalítico:

    — O custo… por unidade? Em horas de trabalho, em material bruto?

    — Calculamos em aproximadamente metade do custo de um mosquete de qualidade comparável, Ministra — Carlos voltou-se para ela. — E com uma vida útil operacional estimada em dez vezes maior, com manutenção adequada. — Ele manteve o olhar firme. — É, sem sombra de dúvida, o melhor investimento em segurança e futuro que esta República já fez.

    Quixotina balançou a cabeça lentamente, maravilhada e atordoada pelo novo paradigma.

    — Toda a arte da guerra que eu estudei, tudo o que vi em campo… parece de repente obsoleto. Como dançar uma pavana quando o outro lado começou a tocar uma marcha militar.

    — Não a arte, Ministra — corrigiu Espectro, seus olhos faiscando com visões de emboscadas devastadoras, defesas elásticas e avanços implacáveis. — Apenas seus instrumentos antigos. A arte da guerra é eterna: é sobre enganar, flanquear, suprimir, vencer. Mas quem domina o novo instrumento primeiro, e entende sua música… esse dita os novos passos da dança.

    Carlos desceu do estrado e caminhou em direção ao campo, onde o cheiro de pólvora quente e poeira era mais forte. Os soldados estavam novamente em posição de sentido, suando sob o uniforme, os ouvidos ainda zunindo, mas uma nova confiança, silenciosa e sólida, emanava de sua postura. 

    — O que achou, soldado? — perguntou Carlos, parando diante dele.

    Adão olhou para a arma em suas mãos, depois para o campo de destroços ao longe, onde as silhuetas de madeira pareciam testemunhas mutiladas. Lembrou-se do chiado do chicote cortando o ar, da dor aguda nas costas, do gosto amargo da impotência absoluta. Sentiu, então, o peso sólido e equilibrado do rifle, a potência latente e controlável que agora repousava em suas mãos calosas. Não era um instrumento de opressão, mas de afirmação.

    — É liberdade, senhor Presidente — disse, sua voz firme, clara, carregada de uma convicção profunda. — O som que ela faz… soa como liberdade.

    Adão não dizia isso por retórica ou para agradar. Ele realmente acreditava. “Com uma arma assim nas mãos de quem já foi acorrentado…” O pensamento era uma semente perigosa e poderosa, plantada pelo metal quente do cano. Era a promessa de que o próximo chicote a ser erguido poderia ser o último.

    Carlos assentiu, uma compreensão silenciosa passando entre eles. Era exatamente isso. Eles haviam demonstrado mais do que uma arma superior. Haviam demonstrado uma mudança de era, um ponto de inflexão na física do poder. O estrondo que ainda ecoava nas paredes da pedreira era o som do mundo antigo, lento e cruel, desmoronando. E o clack metálico, seco e decisivo do ferrolho sendo engatilhado, era o som do novo mundo sendo forjado, um tiro preciso de cada vez.

    O caminho à frente – para Ouro Branco, para o imponente Castelo Garcia, para os muros da capital  da capitania distante – ainda seria longo, sinuoso e inevitavelmente banhado em sangue. Mas, naquele instante, sob aquele céu poeirento agora impregnado com o cheiro inconfundível do futuro (pólvora, óleo e suor), ninguém no palanque, da ministra pálida ao general calculista, duvidava de quem, agora, detinha a chave mestra para abrir – ou para trancar com ferrolho definitivo – os portões de qualquer cidade que ousasse se interpor em seu caminho.

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