Capítulo 124 - Jantar Parte I
O lápis de grafite caiu sobre a pilha de papéis com um tilintar surdo, finalizando uma série de cálculos que ocupavam a última página do caderno de Carlos. Ele se recostou na cadeira de madeira, que gemeu sob seu peso, e ergueu os braços em uma espreguiçada longa e profunda, que fez soar cada junta de seus ombros e coluna. O ar no escritório, outrora carregado de tensão, agora parecia mais leve, apenas impregnado do cheiro de papel timbrado e da poeira fina que entrava pela janela entreaberta.
Um suspiro de alívio genuíno escapou de seus lábios.
— Finalmente… — murmurou para os livros silenciosos e as paredes vazias. — Posso respirar. O exército tem um plano, está sendo equipado. Conseguimos mais ferreiros, carpinteiros, gente com ofício dos engenhos libertados… a mão de obra especializada começa a aparecer. Comida? Temos estoques. Dinheiro… bem, ainda temos a sorte (ou a previdência) do que guardei da venda do aço antes do embargo começar a apertar.
Ele passou os dedos pelos olhos, sentindo a fadiga acumulada de meses nas pontas dos dedos.
— E os projetos de adaptação das máquinas a vapor para as novas linhas de produção… todos desenhados, revisados. Agora é com a Nia e sua turma de engenheiros sujos de graxa. — Um sorriso cansado surgiu em seu rosto. — Isso quer dizer que, depois de meses correndo contra o próprio sono, talvez… apenas talvez… eu possa fechar os olhos sem sonhar com gráficos de produção ou linhas de frente.
A paz, no entanto, foi uma visitante fugaz. Antes que ele pudesse sequer contemplar a ideia de uma soneca, um grito agudo e carregado de indignação rasgou o silêncio do corredor.
— Carlos! — a voz era inconfundivelmente feminina, mas ainda assim meio grave.
Os passos que se aproximavam eram rápidos e decididos, os pés descalços encostando no assoalho de concreto com um ritmo de marcha irritada. A porta do escritório, que não estava trancada, foi aberta com um impulso que a fez bater contra a parede com um baque seco.
Lá estava Tassi. Seu vestido listrado, simples e prático, parecia vibrar com a energia de sua frustração. Seus olhos, faiscavam com um fogo que Carlos não via há algum tempo. O ar ao seu redor parecia mais quente, e um leve cheiro de terra — o aroma característico da magia vegetal que ela dominava — entrou com ela na sala.
— Não acredito que você fez os testes das armas novas sem mim! — ela lançou a acusação como um dardo, cruzando os braços sobre o peito.
Carlos deixou escapar um suspiro interno. “Lá se vai minha paz e sossego…”, pensou, resignado. A Tassi tinha o timing de um relógio suíço para aparecer nos momentos de calmaria precária.
— Claro que fiz, Tassi — respondeu ele, mantendo a voz calma. — Você estava fora do povoado, supervisionando os novos adeptos da grama trabalhando nos engenhos novos. Eu não podia parar os testes das novas armas de guerra para esperar pelo retorno da nossa principal especialista em agricultura mágica, por mais importante que você seja.
— Mas eu queria ver! — ela insistiu, avançando até a mesa e apoiando as mãos na beirada de madeira, seus dedos nodosos pressionando a superfície. — Não é só questão de necessidade, Carlos. É… é ver o fruto. Eu ajudei a alimentar as pessoas que construíram essas fábricas. Queria ver com meus próprios olhos o poder que nós, essa comunidade maluca, estamos criando com nossas próprias mãos!
Carlos a observou. Não era apenas curiosidade ou capricho. Havia um brilho de orgulho ferido e de desejo de pertencimento em sua reclamação. Ela, que havia sido guerreira, escrava e agora uma das colunas da República, queria ser parte integrante até dos seus aspectos mais sombrios.
Um sorriso malicioso, quase de pirraça, surgiu no rosto de Carlos.
— Pena, Tassi, que querer não é poder — disse ele, com uma levidade calculada. — E além do mais, você já viu os ‘artefatos do diabo’. Lembra das armas de fogo que compramos da Igreja, aquelas pistolas e escopetas velhos? Pois é. Aquelas são do meu mundo, e são muito mais impressionantes do que as que acabamos de fazer aqui. Você não perdeu muita coisa além de um barulho ensurdecedor e um cheiro de enxofre melhorado.
Ele esperou o efeito. Tassi franziu o cenho, avaliando se ele estava tentando diminuir sua curiosidade ou falando a verdade.
— Esse não é o ponto e você sabe! — ela retrucou, não se deixando enganar. — Eu queria ver uma arma feita por nós. Daqui! Da República! Queria ver o poder que construímos, não o que importamos ou roubamos. É diferente.
Carlos manteve o sorriso por um segundo a mais, depois deixou-o se dissipar em um suspiro mais longo e genuíno. Ele ergueu as mãos, em sinal de rendição.
— Tá bom, tá bom… — disse, a voz suavizando. — Você tem razão. Foi uma conquista coletiva, e você faz parte dessa coletividade. Foi mal por não te avisar, mas a janela de tempo era minúscula. — Ele inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa. — Vou te compensar de alguma forma. Prometo.
Tassi, ainda com os braços cruzados, mas com o fogo nos olhos diminuindo para uma brasa de curiosidade satisfeita, ergueu uma sobrancelha.
— Compensar? Como?
— Ainda não sei — admitiu Carlos, genuinamente pensativo. — Mas algo que valha a pena.
***
Alguns dias depois, Carlos a convidou para jantar em sua casa.
Era uma noite de lua cheia, e o céu estava estrelado, sem uma nuvem. O ar quente e úmido da floresta era cortado pelo frescor suave que descia do riacho próximo. Dentro da casa, a luz morna das gemas brilhava em suas prateleiras de madeira, lançando sombras dançantes nas paredes de taipa. O cheiro de tomate, queijo e ervas emanava da cozinha, onde Carlos dava os últimos retoques ao jantar, cantarolando baixo uma melodia de um tempo que só ele conhecia.
“Ela vai gostar”, pensou, mexendo o molho. “Do jeito que gosta de comida.”
O som de batidas discretas na porta interrompeu sua preparação. Carlos limpou as mãos em um pano e foi atender.
Ao abrir, o ar que escapou de seus pulmões foi mais um suspiro de surpresa do que uma respiração. Tassi não vestia seu habitual vestido listrado de trabalho, mas um traje longo de seda verde-musgo, que caía em dobras suaves até seus pés. O corte lembrava os vestidos europeus que chegavam às capitais, mas o tecido tinha a textura e o brilho dos panos mais finos produzidos na república. Carlos também notou que seu cabelo estava mais longo.
— Nossa, Tassi… você está deslumbrante — disse Carlos, as palavras saindo antes que ele pudesse filtrá-las.
Ele olhou rapidamente para sua própria roupa — uma camisa de algodão simples e calças folgadas, manchadas de farinha — e uma pontada de constrangimento o atingiu. “Que ideia de jerico, chamar ela pra um jantar ‘casual’ em casa. Ela vestida para a corte e eu parecendo um ajudante de cozinha…”
Tassi sorriu, um pouco tímida, os dedos brincando com a borda do vestido.
— Obrigada. É… diferente. Eu vi na vitrine da loja, num dos manequins de madeira que eu fiz, e amei a cor no mesmo momento, mas não sei se combina comigo…
— Combinou perfeitamente — Carlos afastou-se da porta, gesto convidativo. — Mas se fosse um tom mais profundo, um verde-brilhante de esmeralda, acho que seria ainda mais impactante. Combinaria com o brilho dos seus olhos. Aliás você deveria comprar brincos nessa cor.
— Esmeralda? — ela perguntou, entrando e olhando ao redor com curiosidade. O ambiente era acolhedor, cheiroso, tão diferente da simplicidade austera da maioria das moradias do quilombo.
— É uma pedra preciosa. Rara e linda. Como seus olhos. — A frase saiu natural, sem pretensão, mas ao ver a vergonha estampada no rosto de Tassi, Carlos percebeu o peso do elogio. “Falei demais.”
Ela desviou o olhar, tocando levemente a mesa de madeira maciça.
— É estranho, não é? Uma mulher com a minha história… usando uma roupa dessas. Às vezes sinto que estou vestindo uma pele que não é minha.
— A pele que você veste é a que você escolheu — disse Carlos, puxando gentilmente uma cadeira para ela. — E o que importa é se você se sente bem nela. E você parece… você mesma. Só que… radiante. Por favor, sente-se.
Ela aceitou o assento, ainda com um ar levemente deslocado, mas o desconforto inicial deu lugar à curiosidade quando seu olhar pousou na mesa posta. Do centro emanava um aroma irresistível.
— Então, o que você aprontou na cozinha que cheira tão bem? Estou faminta.
Carlos sentou-se à sua frente, um sorriso largo estampado no rosto.
— É uma compensação e uma lembrança. Algo que eu adorava e não fazia há séculos… Lasanha! — Ele levantou a tampa de cerâmica que protegia uma bandeja retangular, revelando camadas douradas de massa intercaladas com molho vermelho-vivo, queijo derretido borbulhante e recheio escuro. O vapor carregado de aroma de manjericão e carne subiu até eles.
Tassi arregalou os olhos. O queijo formava fios dourados e elásticos quando Carlos serviu uma porção generosa em seu prato e depois no dele.
— Lá de onde eu vim, a gente até comia com arroz, às vezes — ele explicou, rindo. — O prato é italiano, mas o tomate… esse veio das Américas. Uma troca cultural saborosa.
Ela mal ouvia a explicação. Com o garfo, cortou uma pequena porção e levou à boca. O sabor foi uma explosão: a acidez do tomate, a riqueza da carne temperada, a cremosidade do queijo e o toque final das ervas. Seus olhos se fecharam por um instante.
— Nossa, Carlos… — ela murmurou, engolindo. — Isso é… divino. Me lembrou um pouco de pizza, só que… mais.
— Os italianos realmente não brincam em serviço — concordou ele, satisfeito.
Ele se levantou de repente, como se tivesse se lembrado de algo crucial.
— E falando neles… costumam acompanhar com isso. — Foi até um armário baixo e voltou com uma garrafa de vidro escuro e duas taças delicadas. Despejou um líquido rubi nas taças e entregou uma a Tassi.
— Vinho. Experimenta.
Ela cheirou, depois deu um gole cauteloso. O sabor era seco, frutado, diferente da potência da cachaça ou do refresco das frutas. Fez uma careta leve.
— É… interessante.
— Combina com a comida — ele incentivou, sentando-se novamente. — Aos poucos, o paladar acostuma.
Enquanto comiam, um silêncio confortável se instalou, pontuado apenas pelo tinir dos talheres. Carlos, porém, parecia ter se afundado em seus pensamentos, seu sorriso dando lugar a uma expressão contemplativa e um pouco sombria.
Tassi percebeu.
— O que foi? — perguntou, baixando o garfo. — O queijo queimou sua língua?
— Não, nada disso — ele respondeu, forçando um sorriso. — É só… tudo isso. O vinho, a casa com água corrente, o conforto… No meu mundo, temos um ditado: “o poder corrompe”. Às vezes me pergunto se o conforto também não está me corrompendo. Enquanto a maioria da República ainda vive com o básico, eu tenho isso.
Para sua surpresa, Tassi deu uma risada baixa e abafada.
— Do que você está rindo? Falo sério!
Ela tomou outro gole de vinho, mais confiante agora, e encarou-o.
— Sombra me contou que, antes de eu invadir seu escritório naquele dia, você estava quase dormindo em cima das plantas baixas. Trabalhou meses sem parar, Carlos. Nem jogava futebol, nem aparecia na pracinha. Você construiu a infraestrutura, planejou as fábricas, treinou a gente. Se alguém aqui merece um vaso sanitário que não seja um buraco no chão, é você. — Ela apontou o garfo para ele, enfática. — Sem contar que essa casa foi seu laboratório. Lembro-me de pelo menos três vezes em que a sua ‘revolução hidráulica’ inundou o chão todo e você teve que correr para limpar a bagunça.
Carlos soltou uma risada genuína, o peso em seus ombros aliviando um pouco.
— Você tem um ponto. Mas a mente voa, sabe? Em tempos de paz, cuidar de números é uma coisa. Mas quando a guerra voltar… cada baixa será um número também. Será que vou conseguir lidar com isso?
— Você lidará como sempre lidou: fazendo o possível para que sejam o menor número — disse Tassi, com uma serenidade que surpreendeu a ambos. — Agora para de amargurar o vinho. Está estragando o jantar.
Carlos ergueu as mãos em sinal de rendição.
— Tudo bem, tudo bem. Aliás quase me esqueci da parte mais importante!
Levantou-se e foi até um estranho móvel de cerâmica encostado na parede — uma “geladeira” alimentada por gemas de frio, que precisavam ser reativadas a cada dois dias, ao contrário das gemas da luz da casa que Quixotina poderia ativar no começo de cada mês, por sorte haviam bem mais adeptos das gemas de gelo do que da luz na república. Abriu a porta, e uma baforada de ar fresco saiu de dentro. De lá, tirou com cuidado uma forma redonda.
— Lembra quando você disse que milho era ruim? — ele disse, colocando a forma sobre a mesa. Era um pudim, de cor amarelo-suave e textura tremelicante. — Eu disse que dava para fazer maravilhas com ele. Esta é a prova. Pudim de creme de milho.
Os olhos de Tassi brilharam. A lasanha estava deliciosa, mas havia sempre um espaço reservado para o doce. Dessa vez, nem esperou ser servida. Pegou a colher e cortou uma generosa porção, colocando-a em seu prato de sobremesa.
Ao levar à boca, a doçura suave e a textura aveludada do creme de milho a conquistaram completamente. Um suspiro de prazer escapou-lhe.
— Isso é… incrivelmente bom. Mas é o doce que é bom, não o milho. Qualquer coisa com esse açúcar todo seria.
Carlos riu.
— Teimosa até no elogio. Mas isso saldou minha dívida pelo teste de armas, certo?
Ela lambeu os lábios, pensativa, os olhos cintilando de travessura.
— Hmmm… Não sei. Acho que um único jantar, por mais bom que seja, é pagamento pequeno por uma humilhação daquelas. Talvez precise de uma série de jantares… quinzenais, no mínimo.
— Ah, é? — Carlos levantou-se novamente, um sorriso malicioso nos lábios. — Talvez eu tenha algo que mude sua opinião.
Foi até o quarto e voltou com uma caixa retangular, embrulhada em papel amarelado (uma preciosidade) e amarrada com uma fita vermelha de algodão. Colocou-a com cerimônia diante de Tassi.

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