Capítulo 126 - Ataque de Albuquerque I
Nzambi bocejou profundamente, o cansaço pesando em suas pálpebras enquanto segurava o mosquete. A noite na fronteira era silenciosa demais, perturbada apenas pelo coaxar distante de sapos e o crepitar ocasional da fogueira de sua própria guarnição. Ele olhou para o horizonte escuro, onde a única resposta era o brilho tênue e dançante de outra fogueira, a da equipe de vigilância no morro adjacente. O cheiro de terra molhada e madeira queimada enchia o ar úmido.
“Que sono”, pensou, ajustando o peso do corpo contra a parede de taipa. “Aqui não tem nada para fazer além de esperar e vigiar esse nada. Ouvi dizer que no Mocambo já estão se equipando com as armas novas, treinando com elas… a gente aqui, congelando de tédio, só serve de isca. Temos que esperar a equipe de reforço chegar com os novos equipamentos para, aí sim, partirmos para o ataque.”
Seus pensamentos foram abruptamente cortados. Por uma fração de segundo, ele viu algo – um movimento brusco de luz no morro ao fundo, onde estava a outra guarnição. Não o padrão lento e ritmado de uma tocha sendo transportada, mas um solavanco rápido, como se alguém a tivesse levantado e abaixado com força, antes de a luz desaparecer por completo, engolida pela escuridão.
O coração de Nzambi deu um salto. “O protocolo… supõe-se que deveriam ou acionar o berrante, ou mover uma tocha em padrões específicos em caso de ataque”, ele relembrou, os dedos apertando o cabo do mosquete. A visão tinha sido fugaz. “Será que vi errado? A fadiga brinca com a mente…”. Ele forçou os olhos a enxergarem na penumbra, mas só havia escuridão sólida onde antes havia o ponto de luz. “Não…”, um frio percorreu sua espinha. “Minha intuição diz que tem algo errado. Muito errado.”
Sem perder mais tempo, Nzambi abandonou seu posto na entrada e se virou para dentro da pequena guarita, um cubículo de terra batida que abrigava seus quatro companheiros. O cabo Ramiro e os outros três soldados dormiam em esteiras no chão de terra, envoltos em mantas, seus corpos formando montes escuros na penumbra iluminada apenas pelas brasas de um pequeno fogareiro. O ar dentro era pesado, cheio do cheiro de suor, sono e do mingau frio do jantar.
Com a urgência da premonição, Nzambi se ajoelhou ao lado de Ramiro e sacudiu seu ombro com força.
— Cabo! Cabo Ramiro, acorde!
Ramiro gemeu, afundando ainda mais no sono. Nzambi o agarrou pelo braço, puxando-o para cima.
— Ramiro, levanta! Tem algo estranho no—
As palavras morreram em sua garganta. No exato momento em que Ramiro, sonolento, abria os olhos e começava a murmurar “O que houve, sold—”, um som sibilante e úmido cortou o ar.
Thwump.
Uma flecha de aspecto sinistro, com uma ponta que parecia feita de cristal, atravessou a parede de terra como se fosse manteiga, com um ruído baixo e grave de terra compacta sendo perfurada. Ela não vacilou nem desviou um milímetro. Atingiu Ramiro logo acima da têmpora direita com um impacto seco e ossudo. O corpo do cabo simplesmente cedeu, os músculos relaxando de uma vez, e ele caiu de lado no chão com um baque mudo, os olhos ainda meio abertos, vidrados, refletindo as brasas.
O silêncio que se seguiu foi mais aterrorizante que o som do impacto. Nzambi ficou paralisado, o grito preso em seu peito, os olhos fixos na flecha que agora tremulava levemente, embebida no crânio de seu superior.
— MERDA! — a voz finalmente explodiu de seus pulmões, áspera e carregada de pânico. Ele se virou para os outros soldados, que começavam a se agitar. — ACORDEM! ATAQUE!
Instinto de sobrevivência falou mais alto. Ele se lançou em direção ao canto oposto da guarita, onde o berrante de chifre estava pendurado em um gancho. Seus dedos, frios e desajeitados, se fecharam sobre o instrumento.
Enquanto isso, o segundo e o terceiro soldados, despertados aos sobressaltos, tentavam se levantar, confusos, procurando suas armas no escuro. A flecha, de dentro da guarita, moveu-se.
Com um zumbido baixo e quase imperceptível, ela saiu do crânio de Ramiro, fez uma curva impossível no ar, tão rápida que era apenas um borrão escuro, e atravessou o peito do segundo soldado. O homem arfou, um som de surpresa rouco, e caiu para frente. A flecha não parou. Continuou seu arco, raspou a parede e entrou pelas costas do terceiro homem, que mal tinha conseguido se ajoelhar, antes de finalmente se espatifar contra a parede de frente e cair no chão, inerte. Tudo aconteceu em menos de três segundos.
Nzambi evitou olhar para os corpos. O cheiro de sangue, metálico e quente, começou a se misturar aos outros odores da guarita. Ele levou o berrante aos lábios e soprou com toda a força de seus pulmões.
O som grave, urgente e angustiado do instrumento ecoou na noite silenciosa, rompendo-a como um grito de agonia.
O quarto e último soldado, um rapaz novo chamado Emerson, finalmente se sentou, seu rosto pálido visível à luz das brasas. Seus olhos, arregalados de terror, percorreram os corpos de seus companheiros, depois se fixaram em Nzambi. Ele tentou falar, mas só saiu um gemido.
Antes que Emerson pudesse se levantar, a flecha, que jazia no chão, agitou-se. Sem que ninguém a tocasse, ela se enterrou na terra batida do piso como uma toupeira fantasma, desaparecendo da vista. Nzambi viu o pequeno montículo de terra se mover em linha reta, direto para a esteira onde Emerson estava.
— Emerson, sai daí! — ele gritou.
Mas era tarde. A flecha irrompeu do chão exatamente sob o jovem soldado, atravessando a esteira, seu corpo e o teto de madeira e palha com um ruído horrível de rasgo e impacto surdo. Emerson foi erguido alguns centímetros do chão por um instante, um espasmo percorrendo seu corpo, antes de cair de lado, a vida extinguida em seus olhos. A flecha havia sumido, deixando para trás apenas um buraco no teto e o silêncio mortal.
Nzambi tremeu, suando frio. O berrante escapou de seus dedos e rolou no chão.
“Meu Deus… tenho que aguardar ajuda… os outros devem ter ouvido o berrante… mas como vou sobreviver a essa flecha de merda? Ela não para, não erra… é como um espectro!”
Seus olhos se voltaram para a cintura, onde sua adaga estava embainhada. A lâmina não era de metal comum, mas forjada a partir de uma gema roxa e profunda, quase negra, que parecia sugar a pouca luz ao seu redor.
“Para ativar o poder da adaga, eu teria que fixar meu olhar no alvo… travar o alvo na minha visão”, ele pensou, desesperado. “Mas essa maldita flecha é rápida demais! É um relâmpago! Não dá tempo de focar!”
Ele sentiu, mais do que ouviu, um sussurro vindo da parede atrás dele. Girou no mesmo instante, a adaga já desembainhada em sua mão. A flecha irrompeu da parede, a ponta de cristal apontada direto para seu peito. Nzambi tentou levantar a adaga, tentou forçar seus olhos a acompanharem o trajeto do projétil, mas sabia, com um frio certeiro no estômago, que não daria tempo. A morte se aproximava em velocidade silenciosa.
Ele tentou se jogar para o lado, mas seus músculos pareciam congelados. A flecha estava a meio metro de seu rosto quando algo escuro e sólido o atingiu pelo lado, derrubando-o no chão com um baque que lhe arrancou o fôlego. A flecha passou zunindo por onde sua cabeça estivera um instante antes e se espatifou contra a parede oposta, caindo.
Nzambi, atordoado, ofegante, olhou para cima. Uma mulher estava agachada ao seu lado. Era negra, e seus longos cabelos pretos, soltos, pareciam uma extensão da própria escuridão, absorvendo a luz em vez de refleti-la. Ela usava roupas justas e escuras, e seus olhos, sérios e alertas, eram parcialmente cobertos por um par de óculos de armação fina, cujas lentes brilhavam com um leve cintilar âmbar. Sussurro.
Ele tentou falar, a voz trêmula.
— Obrigado… você…
— Guarda seu agradecimento para depois — ela cortou, sua voz era um contralto suave, mas firme como aço. — E antes que pense em festejar, eu nem te salvei ainda. Só desviei o primeiro golpe. Essa coisa vai voltar.
Ela não olhou para ele. Seus olhos, por trás dos óculos, varriam a guarita, os cantos, o teto, o chão, com uma intensidade quase palpável. Nzambi engoliu em seco, o gosto do medo, ácido e metálico, enchendo sua boca.
Sussurro franziu a testa por trás dos óculos. “Merda”, pensou, rapidamente. “Como não previ esse ataque? Meus óculos detectam assinaturas mágicas a centenas de metros… essa flecha deveria brilhar como um farol. A menos que…” A possibilidade a gelou por dentro.
A flecha no chão estremeceu novamente. Desta vez, Sussurro não esperou. Com um movimento fluido e impossivelmente rápido, ela agarrou Nzambi pelo braço e pulou em direção à sombra projetada por uma mesa rústica no canto. Não foi um pulo para a sombra; foi como se eles fossem absorvidos por ela. A escuridão sob a mesa pareceu se espessar, engolindo-os. Nzambi sentiu uma sensação estranha de frio e ausência, como se estivesse suspenso em um vácuo silencioso por uma fração de segundo.

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