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    Quando sua visão se ajustou, ele ainda estava sob a mesa, mas o mundo lá fora parecia distorcido, visto através de um véu de fumaça escura. Ele conseguia ver os corpos, as brasas, mas tudo parecia quieto, distante.

    — O que… o que foi isso? — ele sussurrou, atordoado.

    — Minha especialidade — respondeu Sussurro, sua voz soando abafada, como se viesse de todos os lados ao mesmo tempo. — Mas não somos intocáveis aqui. Ouvi dizer que na Europa, armas mágicas feitas com a gema do Assassino… — ela fez uma pausa, escolhendo as palavras. — …conseguem ofuscar até a aura mágica da própria arma e de seu usuário. Se for isso que estamos enfrentando, minha detecção está cega. E essa sombra pode não ser proteção suficiente.

    Nzambi tentou acalmar a respiração, tentou aguçar seus sentidos além da visão. O ar na “sombra” era parado, sem cheiro. Ele fechou os olhos, concentrando-se no que podia ouvir. Por baixo do silêncio ensurdecedor do seu próprio coração, ele captou algo: um ruído de arranhado, ínfimo, vindo de baixo da terra. Skritch-skritch-skritch. Se aproximando rapidamente.

    — Embaixo! — ele gritou, em um sussurro urgente.

    Sussurro agiu antes que ele terminasse de falar. A escuridão ao redor deles se dissolveu e eles foram ejetados para fora da sombra da mesa, aparecendo de volta no canto oposto da guarita, quase esmagados contra a parede de terra. No mesmo instante, a flecha irrompeu do chão exatamente onde a sombra da mesa havia estado, perfurando o ar com violência.

    Mas desta vez, a flecha não seguiu em frente. Parou no meio do ar, como se pairasse por uma vontade própria, e então, com um movimento desconcertantemente fluido, girou no lugar. A ponta de obsidiana, ainda manchada de sangue escuro, agora apontava diretamente para Nzambi e Sussurro, encostados na parede sem saída.

    Nzambi ergueu a adaga, seus olhos tentando desesperadamente focar na flecha que zumbia como um inseto enfurecido. Sussurro se preparou para mergulhar em outra sombra, mas a flecha estava muito perto, muito rápida.

    Um rugido de frio encheu o ar. Não um rugido de som, mas uma sensação física, uma onda de temperatura caindo bruscamente. Diante deles, entre a flecha e seus corpos, o ar úmido da noite condensou, trincou e explodiu em uma parede sólida de gelo translúcido e azulado. A barreira surgiu do nada, com cerca de cinco centímetros de espessura, cobrindo toda a largura do canto.

    CRAC!

    A flecha atingiu o gelo com força, cravar-se-ia em qualquer outra coisa. A ponta perfurou a superfície, mas a densa camada de gelo a freou drasticamente. Em vez de atravessar, a flecha ficou presa, vibrando como um diapasão, metade de seu comprimento cravado na barreira congelada. Por um momento, pareceu lutar, tremendo, tentando se libertar. Então, com um estalo seco, ela se desprendeu, recuou no ar, contornou a barreira de gelo pela lateral com frustrante agilidade e saiu disparada pelo buraco que ela mesma havia feito no teto mais cedo, desaparecendo na noite.

    O silêncio voltou, agora quebrado apenas pelo leve estalo do gelo começando a rachar sob o estresse do impacto e pela respiração ofegante de Nzambi.

    A porta da guarita, que estava entreaberta, se abriu completamente. Pedro estava lá, em pé no vão, um leve brilho azul de energia mágica ainda dissipando-se de suas mãos estendidas. Seu rosto estava tenso, seus olhos escaneando rapidamente o interior do cubículo, pousando nos corpos, depois em Nzambi e Sussurro. O cheiro de ozônio, fresco e elétrico, misturava-se agora ao sangue e à terra.

    — Estão bem? — sua voz era calma, mas a urgência era clara.

    Sussurro, que já estava de pé, respirando fundo para controlar o ritmo cardíaco, respondeu imediatamente, ainda de olho no teto.

    — Estamos. Mas fica alerta. Não subestima essa flecha. Ela é inteligente, persistente e pode voltar a qualquer—

    Uoooooooooom…

    Uoooooooooom…

    UOOOOOOOOOM!

    Os sons de outros berrantes, primeiro um, depois dois, depois uma cacofonia deles vindos de diferentes pontos ao longo da fronteira, cortaram a noite, cada um mais desesperado que o anterior. A resposta que Nzambi esperava, mas que agora soava como uma sentença.

    O rosto de Pedro endureceu. Ele olhou para Sussurro.

    — Estamos sob ataque coordenado — ele afirmou, a declaração soando mais como um juramento sombrio do que uma constatação. — Sussurro, tenta se reunir aos outros postos, avalia a situação e chama reforços do acampamento principal. Eu vou cobrir a retirada das guarnições que ainda puderem se mover. Nos encontramos no ponto de encontro do vale.

    Sussurro assentiu, sem hesitar. Seus óculos cintilaram.

    — Cuidado, Pedro. Essa flecha… tem algo de errado com ela. Não é uma arma comum.

    — Anotado — ele respondeu, seus olhos já buscando a escuridão lá fora.

    Sem outra palavra, Sussurro deu um passo para trás, e as sombras no canto mais profundo da guarita pareceram se esticar e envolver seu corpo como um manto líquido. Em um piscar de olhos, ela se dissolveu, tornando-se uma mancha de escuridão que depois se desfez, deixando para trás apenas o ar frio e a sensação de ausência.

    Nzambi ficou sozinho com Pedro, cercado pelos corpos de seus companheiros, o som dos berrantes de alarme ecoando como sinos fúnebres na noite que, de repente, parecia viva com perigos invisíveis.

    ***

    A cerca de um quilômetro dali, em uma colina que oferecia uma vista ampla do vale fronteiriço, o senhor de engenho Albuquerque observava com um binóculo de latão. Um sorriso satisfeito, fino como o fio de uma faca, brincava em seus lábios. Ele viu as pequenas luzes das fogueiras nas guaritas se apagarem uma a uma, ou se moverem de forma caótica, ouvira os berrantes distantes e abafados.

    Então, um zumbido familiar se aproximou. Sua flecha retornou, pairando no ar diante dele antes de parar suavemente, como um pássaro obediente voltando ao poleiro. A haste de madeira escura estava manchada e pegajosa de sangue fresco que escurecia sob a luz das estrelas. A gema do vento, incrustada na parte traseira da flecha, brilhava com um leve pulso verde. A gema da visão, na ponta, era transparente. E no centro da haste, quase imperceptível contra a madeira escura, estava a gema do Assassino – uma pedra cinza escura que parecia sugar a luz ao seu redor.

    Albuquerque pegou a flecha com a reverência de um pai recebendo seu filho. Com um pano de linho branco e imaculado que tirou do bolso, ele começou a limpá-la metodicamente, removendo cada mancha, cada evidência de seu trabalho. À medida que o sangue era removido, as gemas brilhavam mais intensamente, especialmente a gema do vento, que parecia sussurrar com energia contida.

    Um dos bandeirantes ao seu lado, um homem robusto com o rosto marcado por cicatrizes e usando um chapéu de abas largas, assobiou baixinho, impressionado.

    — Não é à toa que essa é uma relíquia de sua família, senhor Albuquerque. Ela obedece como um cão de caça bem treinado. E silenciosa… nem os cachorros nos engenhos latiram.

    Albuquerque ignorou o comentário, seu foco total na tarefa de limpeza. Só quando a flecha brilhou como nova, ele a guardou com cuidado em uma aljava de couro reforçado que pendia de seu cinto. Então, ele se virou para a multidão que aguardava sua ordem no sopé da colina.

    Centenas de homens. Bandidos, capatazes cruéis de outros engenhos, mercenários com olhos vazios e caçadores de escravos endurecidos pela vida na fronteira. Eles formavam uma massa irregular e ameaçadora, manchando a clareira com seus corpos e armas. O ar cheirava a couro suado, aguardente barata e ganância.

    Albuquerque não precisou gritar. Sua voz, projetada, carregada de uma autoridade fria, cortou a expectativa silenciosa.

    — Está na hora de vocês mostrarem do que são feitos e pelo que estão sendo pagos — ele começou, seu olhar percorrendo as fileiras frontais. — A vanguarda já abriu o caminho, as sentinelas estão cegas e surdas. Desçam até esses mocambos de ratos. Matem. Matem o máximo de pretos fugidos que conseguirem encontrar. Não estou interessado em escravos, entendam? Só quero essas terras limpas. Vazias. O que estiver em cima delas é entulho para ser removido. A terra é o que vale. Mostrem-me que valem o dinheiro que receberam.

    Um rugido primitivo surgiu da massa de homens. Não era um grito de guerra organizado, mas um bramido de promessa de violência e pilhagem. Então, como uma enxurrada suja e desgovernada, eles começaram a correr e descer a colina, armas erguidas, seus gritos e palavrões rompendo a última paz da noite.

    Albuquerque permaneceu na colina, observando a onda humana se espalhar pelo vale abaixo. Ele guardou seu arco composto, uma peça de artesanato fino tão valiosa quanto a flecha. O céu a leste começava a clarear, listras de rosa e laranja desenhando-se sob um azul profundo. O sol logo nasceria.

    Ele observou o nascer do sol, pensando consigo mesmo, a satisfação enchendo seu peito como um vinho pesado. “Esses pequenos engenhos… esses lavradores teimosos. Ofereci um preço justo pelas terras deles. Recusaram-se. Acharam que poderiam desafiar Albuquerque.” Seus olhos, frios como as pedras da gema do Assassino, percorreram o vale que em breve seria dele. “E olhem no que deu. Todos mortos durante a noite, vítimas de um ‘ataque de negros fugitivos revoltosos’. Uma tragédia. Retribuição divina pela sua avareza, sem dúvida.” Ele respirou fundo o ar da manhã que chegava. “No fim, devo até agradecer a essa tal ‘República’ de escravos. Forneceram o bode expiatório perfeito. E eu consigo essas terras férteis, toda a produção de cana que já está plantada… pagando apenas o preço de alguns bandeirantes e mercenários descartáveis.”

    Enquanto o primeiro raio de sol iluminava seu rosto, Albuquerque deixou escapar um sorriso lento e cheio de presunção. O brilho da manhã cintilou em um de seus dentes, revelando um elaborado preenchimento de ouro que reluzia como um sinal de sua riqueza e poder. Era o sorriso de um homem convencido de que havia enganado o destino e traçado o rumo perfeito, sem deixar para trás nada além de sangue e terra pronta para ser possuída.

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